PIMENTEL, Ana e SILVA, Fátima. Marcadores Conversacionais em Português Língua Estrangeira – da Teoria à Prática. Redis: Revista de Estudos do Discurso, N 2, Ano 2013, PP. 185 – 208

Lina Honorata David

(up201410051@letras.up.pt)

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

O tema central deste artigo é o tratamento dos marcadores conversacionais no âmbito do ensino – aprendizagem do português como língua estrangeira, com incidência na implementação de um plano de intervenção pedagógico – didáctica numa turma de PLE do nível C1. O objectivo em alusão está subordinado ao tema geral "Marcadores conversacionais em Português Língua Estrangeira – da Teoria à Prática". Este artigo oferece uma leitura aprofundada sobre propostas de uma abordagem pedagógica – didáticas dos marcadores conversacionais no ensino e aprendizagem de PLE.

Trata – se de um artigo que faz menção ao enquadramento e delimitação dos marcadores conversacionais , no que respeita as suas propriedades e funções na modalidade discursiva conversacional e respetiva classificação taxonómica, bem como, descreve o plano de intervenção pedagógico-didatica, no que tange a apresentação de propostas de atividades testadas, e por fim a avaliação do projeto desenvolvido, através da apresentação e discussão dos resultados.

O artigo em análise apresenta-se bem estruturado, reservando um espaço equilibrado para cada subtítulo obedecendo uma estrutura lógica e coesa. É composto por um resumo, seguido de uma (1) introdução ao tema; (2) o conceito de marcadores conversacionais, a sua funcionalidade, a taxonomia dos mesmos; (3) marcadores discursivos e ensino - aprendizagem do PLE; (4) a intervenção pedagógico - didática; (5) considerações finais. No momento introdutório, os autores começam por apresentar duas questões relacionadas com a finalidade do ensino do discurso conversacional e como abordar os MCs no ensino-aprendizagem do PLE. As autoras consideram que a promoção da competência oral nas aulas de PLE é importante porque torna a linguagem autêntica, viva, falada no mundo real.

As autoras trazem o conceito de MC de Urbano (2003:93) que carateriza os MC como elementos de variada natureza, estrutura, dimensão, complexidade semântico-sintática, este autor define-os ainda como elementos típicos da fala. A par disso, Marcushi e Chagas afirmam que os MC podem ser representados por elementos lexicalizados ou não lexicalizados, por sinais não-verbais e sinais de natureza prosódica. Estes conceitos são retomados a medida que o tema se desenvolve, de forma a estabelecer um diálogo lógico conforme as abordagens e as perspetivas que as autoras se propõem a discutir o tema.

Quanto a funcionalidade os MC possuem tipicamente independência sintática, pelo que a ausência destes elementos não altera o conteúdo da mensagem nem impede a compreensão do tópico entre interlocutores. A sua autonomia sintática faz com que os MC assumam diferentes funções de acordo com a intenção comunicativa. Esta polifuncionalidade é relevante na conversação, dado que o marcador acompanhado por elementos prosódicos pode apresentar diferentes funções comunicativas, podendo acionar a tomada, manutenção, reclamação, acordo, desacordo, cessação ou cedência de vez.

A proposta taxonómica dos MC utilizados neste estudo obedeceu a três critérios (i) ocorrência e recorrência dos MCs no material analisado; (ii) preponderância dos MCs de natureza interacional; (iii) riqueza polifuncional distintiva desses MCs. As autoras propuseram um quadro de classificação dos marcadores coversacionais fazendo a categorização das funções interacionais e as formas do falante e do ouvinte.

No que concerne ao ensino-aprendizagem dos MCs as autoras apresentam um enquadramento teórico da investigação, em que se reflete sobre os princípios teóricos e metrológicos no âmbito do ensino-aprendizagem de língua estrangeira. No panorama didático atual é conferida à língua um papel fulcral no tratamento e sistematização da conversação e dos MCs. Com efeito, as interacções linguísticas só poderão ser interpretadas e compreendidas em contexto em que elas são produzidas, podendo-se numa situação de conversação produzir enunciados linguisticamente corretos e inaceitáveis do ponto de vista pragmático.

A sessão intitulada a intervenção pedagógico-didatica vai apresentar o plano de implementação pedagógico-didática dos MCs tendo como meta o desenvolvimento da competência oral, no sentido de fornecer atividades, tarefas e materiais autênticos, que permitam aos aprendentes interagir adequadamente nas diversas situações interacionais do dia-a-dia. Este projeto desenrola-se em três momentos fulcrais, correspondentes a três fases nomeadamente, diagnóstico, implementação e discussão dos resultados obtidos/avaliação.

 O inquérito e a tarefa de diagnóstico foram aplicados a um grupo constituído por 5 estudantes, idades compreendidas entre os 24 e os 53 anos, com as línguas maternas, italiano, ucraniano, espanhol, galego, japonês e neerlandês, com domínio das línguas inglesa, francesa e grego moderno. Os resultados mostram que os alunos assinalaram dificuldades na compreensão de discursos orais informais e no domínio da interação oral, nas conversas com falantes nativos. No que refere à produção realizada, o uso de MCs revelou-se muito escasso com consequências na fluência e naturalidade do discurso produzido.

Na sessão seguinte, as autoras fazem o tratamento do corpus no contexto de sala de aula mediado por atividades de receção e produção orais, devendo o aprendente ser capaz de compreender e produzir enunciados adequados à situação conversacional. Quanto aos resultados obtidos permitiu verificar o desenvolvimento progressivo da competência dos estudantes. No âmbito da produção, a análise das transcrições orais realizadas evidenciou um uso mais abundante e adequado dos MCs na fase final do processo de ensino em comparação com os resultados da fase de diagnose.

Constatou-se que os marcadores mais recorrentes são os de concordância total, concordância parcial e cedência de vez, com funções de gestão dos tópicos conversacionais, cedência de tempo discursivo a outro falante e manifestação de apoio ou desacordo parcial face à opinião de outro interlocutor, destacando-se em termos de recursividade e polifuncionalidade.

O artigo termina com a apresentação de considerações finais concluindo em síntese que para o tratamento dos MCs em sala de aula oferece como benefícios uma amostra autêntica das convenções socioculturais gravadas na língua, bem como uma sensibilização ou consciencialização para a adequação sociolinguística e domínio e uso adequado dos mecanismos reguladores do discurso conversacional. No que tange a segunda a sua resposta permite salientar três vetores nomeadamente, a necessidade de uma pedagogia para abordagem de MCs; desenvolver a competência oral dos aprendentes em material autêntico e a pertinência de adaptar continuamente os procedimentos pedagógico-didaticos às necessidades dos estudantes.

O tema trazido neste artigo é de extrema importância no panorama de ensino-aprendizagem de uma LE, uma vez que fica evidente que o ensino dos MCs pode ser ensinados a estudantes de PLE com objetivo de trabalhar a competência oral nos estudantes. Neste sentido, trata-se de um artigo útil a professores de PLE/PL2 para desenvolver atividades centradas no uso dos MCs noutros contextos de utilização.

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