O Pré-Modernismo e o Modernismo
 
O Pré-Modernismo e o Modernismo
 


Revolução artística: A chegada do Brasil ao século XX


A proclamação da República, em 1889, não apresentou mudanças significativas no cenário social brasileiro. Nos centros urbanos, escravos libertos vagavam sem emprego, pois a elite preferia importar imigrantes europeus. O Nordeste enfrentava uma série de terríveis secas, onde muitos, oprimidos por suas carências, seguiram o líder Antônio Conselheiro, esperando conquistar condições de vida mais humanas. No Sul do país, os "monges" João Maria e José Maria lideravam os revoltosos de Contestado.
Aqueles que não sentiam o chamado da religião atendiam ao apelo do cangaço, pois no sertão nordestino ocorreriam batalhas entre a polícia e grupos de cangaceiros, que exigiam dos principais coronéis o pagamento de taxas de proteção para suas fazendas. O mais famoso cangaceiro foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
A Amazônia vivia a fase gloriosa da extração da borracha. São Paulo passava por uma expansão econômica graças à cultura do café, o que representava uma opção para muitos brasileiros, na esperança de conseguirem um trabalho estável e mais bem remunerado.
Com o início do século XX, vários escritores do Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo ainda estavam vivos, escreviam e publicavam e ao mesmo tempo, surgiam autores dispostos a olhar de frente para o Brasil e a fazer de suas obras um espaço de exploração das muitas facetas sociais, até então ignorados pela Literatura. Houve uma inovação dos temas, ficando difícil reunir os autores sob uma mesma perspectiva estética, sendo possível identificar traços de algumas escolas do final do século XIX. Ao mesmo tempo, começaram a chegar ao país às primeiras influências dos movimentos artísticos europeus, as chamadas vanguardas europeias, que iriam impulsionar o Modernismo brasileiro. Esses aspectos marcados pelo sincretismo de tendências artísticas fazem deste momento, uma transição entre a produção literária do final do século XIX e o movimento modernista, sem, no entanto, constituir uma escola literária. Por isso, o período que se iniciou em 1902, com a publicação de Os sertões de Euclides da Cunha e concluiu-se em 1922, com a realização da semana de Arte Moderna, passou a ser designado como Pré-Modernismo.
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Pré-Modernismo: Características Literárias

A primeira característica é a intenção de construir um Brasil "literário" que corresponda à realidade do país, abandonando as visões particularizadas da elite e dos grandes centros urbanos.
Os textos pré-modernistas inovam quanto à aproximação entre o momento histórico vivido e a trama desenvolvida nos romances. Um exemplo disto é o livro Os sertões, que foi publicado cinco anos após o conflito da Guerra dos Canudos.
Diante a aproximação entre Literatura e realidade, a linguagem utilizada torna-se mais direta, objetiva para uns, simples e coloquial para outros autores. Do conjunto de romances publicados na época pelos primeiros modernistas, surgem as tendências que dentro de duas décadas, agitavam como bandeiras: a perda do caráter sagrado do texto literário, a utilização de um português mais "brasileiro", a crítica à realidade social e econômica contemporânea, retratando verdadeiramente o Brasil.


Euclides da Cunha: o grande intérprete do sertão, a defesa de Canudos.

Euclides da Cunha nasceu no Rio de Janeiro (1866- 1906), estudou na Escola Militar e fez curso de Engenharia. De formação positivista e republicano convicto, mostrou interesse por ciências naturais e filosofia. Viveu algum tempo em São Paulo e, em 1897, foi enviado pelo Jornal O Estado de São Paulo ao sertão da Bahia para cobrir a Guerra de Canudos.
A Guerra de Canudos ocorreu entre 1898 e 1897, provocando a morte de 15 mil pessoas, entre sertanejos e militares, foi um dos conflitos mais violentos da história brasileira. Em uma fazenda abandonada, instalou-se Antônio Maciel, conhecido como "Conselheiro" e em pouco tempo, em torno do líder religioso, formou-se uma cidade de pessoas miseráveis e abandonadas. Isolados e contra pagamento de impostos e a oficialização da Cidade, logo passaram a ter problemas com o Estado e com a igreja. Além disso, Antônio Conselheiro falava em seus sermões, não apenas da salvação de almas, mas também de problemas concretos como a miséria e a opressão política. Sem ter completa clareza do que dizia, fazia críticas à
República nascente, acusando-a de responsável pelas precárias condições de vida do povo nordestino.
Sua obra "Os Sertões" consiste em uma tentativa de rever a versão oficial da guerra de Canudos. Euclides não apenas contava o que presenciara no sertão, mas pretendia compreender e explicar o fenômeno cientificamente, colocando-se a favor do sertanejo, ele situa o fenômeno de Canudos como um problema social decorrente do isolamento político e econômico do Nordeste em relação ao resto do país, assim ele desfez o mito da versão oficial do Exército, segundo a qual o movimento tinha a finalidade de destruir a República. Esta obra constitui uma experiência única na Literatura brasileira: possui estilo literário, fundo histórico e rigor científico. Euclides da Cunha também deixou outros escritos, todos relacionados ao país, às características regionais, geográficas e culturais.
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Lima Barreto: O pintor dos subúrbios e dos tipos desventurados

Nasceu no Rio de Janeiro (1881?1922), filhos de pais humildes e mulatos. Com a proteção do Visconde de Ouro Preto conseguiu fazer o curso secundário no Colégio Pedro II e ingressar no curso da Engenharia, embora, em razão da doença mental do pai, abandonou o curso para sustentar a família.
Lima Barreto sofria o preconceito racial, levava uma vida economicamente difícil e sofria crises de depressão e alcoolismo. Talvez, por isso, foi um dos poucos autores que combatia o preconceito e discriminação social. Esta abordagem está presente nos romances Clara dos Anjos, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá e no quase autobiográfico, Recordações do escrivão Isaías Caminha; também escreveu um curioso romance, inacabado, resultado de suas duas internações em um hospício por alcoolismo, Cemitério dos vivos.
Lima Barreto foi um escritor do seu tempo e de sua terra. Anotou e registrou, de forma áspera, todos os acontecimentos da República. Pessoalmente, era um conservador em relação às novidades trazidas pela modernidade, como o cinema, prédios e futebol. Sua obra critica, por exemplo, a campanha contra febre amarela, a política de valorização do café, a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial etc. Era apaixonado por sua cidade, o Rio de Janeiro, seus subúrbios, a população pobre e os dramas humildes; o que está presente nas suas obras, juntamente com a crítica à figura da classe média, que lutava pelo crescimento social e político, sarcasticamente retratados, pelo vazio intelectual, ganância e mania de ostentação.

? Triste fim de Policarpo Quaresma: Escrito no final do século XIX, foi o principal romance de Lima Barreto, narra os ideais e a frustação do funcionário público Policarpo Quaresma, homem metódico e nacionalista fanático. Sonhador e ingênuo dedica a vida a estudar as riquezas do país. Sua primeira decepção foi a sugestão da substituição da língua oficial, português para tupi. Aposentado, dedica-se à agricultura no sítio Sossego, contudo, depara-se com a esterilidade do solo e a falta de apoio ao pequeno agricultor. Com a Revolta Armada, Policarpo apoia o então presidente, marechal Floriano Peixoto e participa do conflito como voluntário. No cargo de carcereiro, critica as injustiças praticadas contra os prisioneiros e em razão disto, é preso e condenado ao fuzilamento pelo próprio Floriano. A obra traça um rico painel social e humano dos subúrbios cariocas, além da descrição política do país no início da República.
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Monteiro Lobato: o moderno antimodernista?

Monteiro Lobato (1882 ? 1948), paulista de Taubaté, foi um dos escritores de maior prestígio, em consequência de sua atuação como intelectual polêmico e autor de histórias infantis.
Moralista e doutrinador desejava o progresso material e mental do povo brasileiro. Com o personagem Jeca Tatu, criticava um Brasil agrário, atrasado e ignorante, sendo um extraordinário contador de histórias.
De fazendeiro, passou ao ramo editorial, sendo um dos fundadores em nosso país, criou Monteiro Lobato & Cia, a primeira editora nacional e mais tarde a Companhia Editora Nacional e a Editora Brasiliense.
Monteiro Lobato situa-se entre os autores regionalistas do Pré-Modernismo e destaca-se no gênero conto. O universo retratado por ele geralmente são os vilarejos decadentes e as populações do Vale do Paranaíba na época da crise do café.
Mostrou-se conservador quando começaram a surgir às primeiras manifestações modernistas em São Paulo. Ficou famoso por seu polêmico artigo "Paranoia ou mistificação", publicado no Jornal O Estado de São Paulo em 19717, o qual criticava violentamente a exposição de pinturas expressionistas de Anita Malfatti (pintora paulista, recém-chegada da Europa), considerando seu trabalho uma deformação mental. Apesar disso, em 1920, como integrante da direção da Revista do Brasil, Lobato acabou sendo um dos colaboradores ao movimento de divulgação das ideias modernistas.

? A literatura infantil: Lobato foi um dos primeiros autores da Literatura infantil em nosso país e em toda a América Latina. Criou personagens como Narizinho, Pedrinho, boneca Emília, Dona Benta, Visconde de Sabugosa e o porco Rabicó, que na década de 70 foram adaptadas para a televisão com o programa Sítio do Pica-pau Amarelo, reapresentado nos anos 90. Nessas obras, Lobato aproveita para transmitir às crianças valores morais, conhecimentos sobre nosso país, tradições e língua.

Leitura: Jeca Tatu

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo...
Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher.
Nada mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço ? e nisto vai longe.
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Mobília, nenhuma.
Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas - para os hóspedes. Três pernas permitem o equilíbrio; inútil, portanto meter a quarta, o que obrigaria nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo ? colher, garfo e faca a um tempo?
Seus remotos avos não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão quarta perna ao banco? Para quê? Vive-se bem sem isso.

LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, s.d.
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Augusto dos Anjos: Poeta pessimista e enigmático

Augusto dos Anjos (1884 ? 1914) nasceu na Paraíba e estudou Direito. Viveu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Depois de exercer a profissão de advogado foi promotor e professor de Literatura.
O autor é representante de uma experiência única: a união do simbolismo com o cientificismo naturalista. Seus poemas chocam pela agressividade do vocabulário e pela visão angustiante da matéria, da vida e do cosmos (universo em seu conjunto). Compõem sua literatura termos como escarro, verme, germe etc., até então considerados antipoéticos. Há também, na poesia do autor, a dor dos simbolistas, marcada por anseios e angústias existenciais, não há Deus, nem esperança, há apenas a supremacia da ciência.
Em síntese, a poesia de Augusto dos Anjos é caracterizada pela união de duas concepções de mundo distintas: a objetividade do átomo e a dor cósmica, que busca descobrir o sentido da existência humana.

Leitura do Soneto: Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua ultima quimera.
Somente a Ingratidão ? esta pantera
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra essa boca que te beija!

(ANJOS, Augusto dos. Eu e outros poemas. 30. ed. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1965. p. 146.)

Com a poesia antilírica, Augusto dos Anjos deu início à discussão sobre o conceito de "boa poesia", preparando para a grande renovação modernista, iniciada na segunda década do século XX. Mais tarde, essa tradição do antilirismo, retorna com João Cabral de Melo Neto, pondo fim à poesia dita "profunda". Na MPB, além dos Titãs, João Bosco e Aldir Blanc também exploram aspectos grotescos da realidade.
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O primeiro momento Modernista

Nas primeiras décadas do século XX, o mundo ocidental apresentava-se marcado por mudanças profundas: movimentos operários, guerras, revolução e crise econômica, bem como o surto de industrialização e invenções como o automóvel, o avião e o cinema, representando para a literatura um espírito de irreverência e ruptura em relação ao passado.
O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13,15 e 17 de fevereiro de 1922. Idealizada por um grupo de artistas, a Semana pretendia colocar a cultura brasileira junto das correntes de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo tempo em que pregava a tomada da consciência da realidade brasileira, devendo ser vista não só como movimento artístico, mas também como um movimento político e social.
Realizada a Semana da Arte Moderna e ainda sob os ecos das vaias e gritarias, teve início à primeira fase modernista, que se estende de 1922 a 1930, caracterizada pela tentativa de marcar posições. Esse período foi o mais radical do movimento modernista, devido ao rompimento com as estruturas do passado.
Ao mesmo tempo em que se busca o moderno, o original e o polêmico, o nacionalismo se manifesta em múltiplas facetas: volta às origens, pesquisa de fontes quinhentistas, procura de uma língua brasileira (a falada nas ruas) e a valorização do índio verdadeiramente brasileiro. É o tempo do Manifesto da Poesia Pau-Brasil e do Manifesto do Antropófago, comandados por Oswald de Andrade.
O final da década de 20 percebeu-se uma postura naturalista de duas vertentes: um nacionalismo crítico, consciente na denúncia da realidade brasileira esquerdista e outra, um nacionalismo ufanista, utópico, exagerado, identificado com as correntes políticas da direita.

? A belle époque: luxo, prazeres e lutas sociais: Com o avanço industrial e tecnológico houve maior dinamismo a vida moderna, proporcionando às classes dominantes um clima de euforia e confiança. As burguesias industrial e financeira e a classe média gozavam de prazeres materiais que a vida moderna puderam lhe oferecer. Tinha-se a sensação de conforto e segurança, como se nada pudesse abalar a "doçura de viver", culturalmente, vivia a chamada belle époque, período caracterizado por intensa atividade artística, principalmente em Paris e Viena (modismo, vida noturna, bares e cabarés e novidades introduzidas por correntes de vanguarda).
Contudo, a classe operária continuava à margem do progresso material, lutando por condições melhores de vida e de trabalho, defendiam as ideias socialistas e anarquistas, fundaram associações e sindicatos e faziam greves.
Esta ilusão vivida pela burguesia teve fim com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914 e com a Revolução Russa, em 1917, que mostraram a realidade das contradições nesse período.

? O tenentismo e a Revolução de 30: Com a eleição de Artur Bernardes, candidato que representa a cultura café-com-leite, em 1922, eclode a Revolta do Forte de Copacabana/RJ, como resultado das frustações acumuladas pelas patentes mais baixas, desdobrando durante toca a década de 20 o movimento tenentista.
Em 1929 com a estagnação econômica do capitalismo internacional, o Brasil vê abalado o seu principal produto de exportação: o café.
Ao lado da crise econômica, tem-se o problema da sucessão presidencial, Washington Luís indica como sucessor o candidato Júlio Prestes, paulista e não um candidato mineiro, conforme o acorde vigente na época. Assim, Minas aliada ao Rio Grande do Sul, lança como candidato Getúlio Vargas, que levantava a bandeira das reformas políticas: instituição do voto secreto, anistia política, criação de leis trabalhistas etc. A candidatura ganha apoio dos tenentes.
O candidato Júlio Prestes vence as eleições, provocando forte descontentamento nos meios civis e militares. No Rio Grande do Sul, em 3 de outubro de 1930 teve início a vitoriosa Revolução de 30. Inicia-se um novo período na vida nacional, a era Vargas (1930 ? 1945), que representa uma mudança de orientação na vida política e econômica do país.
A arte e a literatura modernas, antes postas à margem e consideradas capricho de alguns iconoclastas irresponsáveis (pessoas que se opõem ao culto de imagens, não respeitam tradições), são reconhecidas como expressões legítimas de sensibilidade e mentalidade.
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As vanguardas europeias.

O século XX começava com a Europa em intensa turbulência. Problemas políticos, conflitos entre países vizinhos e confrontos de interesses resultaram, em 1914, na Primeira Guerra Mundial e o período compreendido entre esta e a Segunda Guerra Mundial resultaram em vários movimentos artísticos intitulados de vanguardas.
Embora diferentes entre si, esses movimentos apresentavam em comum o questionamento da herança cultural deixada pelo século XIX (padrões acadêmicos e envelhecidos de uma arte conservadora). Na necessidade de construir novos padrões estéticos nascem os vários movimentos da vanguarda: Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo e Surrealismo [manifestos (textos) idealizadores de novas formas de manifestação artística que divulgavam propostas dos autores e definiam estratégias formais para alcança-las].
? Cubismo: Este movimento teve início em 1907 e término em 1918, designava um modo de expressão que recria, através de planos geométricos, elementos da realidade. O espírito da geometria e dos volumes sugere a visão simultânea dos diferentes ângulos do objeto representado. A pintura passa a ser dissociada de uma postura descritiva da realidade, apresentando relações e formas não acabadas, de modo a enfatizar diferentes pontos de vista a partir de um objeto determinado. A literatura manifesta-se principalmente na produção poética e caracteriza-se por associar o ilogismo, a simultaneidade, o instantaneísmo e humor, buscando manter as coisas em permanente estado de relação. As principais expressões na pintura foram: Pablo Picasso, Léger, Braque, Gris e Delaunay e na literatura: Apollinaire e Blaise Cendrars.
Entre os modernistas brasileiros podem ser notadas influencias cubistas.
Leia o poema de Oswald de Andrade, o qual apresenta elementos como a fragmentação da realidade, a predominância de substantivos e flashes cinematográficos.

Hípica


Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas

E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails


? Futurismo: É o mais personalista de todos os movimentos estéticos do período e sua história não pode ser dissociada da de seu idealizador, Filippo Tommaso Marinetti, artista dinâmico e profundamente influenciado pelas transformações tecnológicas que marcaram o início do século XX. Este autor publicou mais de 30 manifestos em todo o mundo, com a mesma proposta violenta de destruição total do passado; o mesmo fascínio pela guerra, exercida por homens, que promove o fim de museus e bibliotecas, símbolo das amarras culturais; a mesma exaltação pelas formas do mundo moderno: automóveis, aviões, em um eterno culto à velocidade.

? Expressionismo: Em 1910, na Alemanha, esta vanguarda apresentou-se como reação à estética impressionista de valorização sensorial. Foi profundamente influenciado pela guerra e seus quadros ressaltam, não raro, um lado obscuro da humanidade, retratando faces marcadas pela angústia e pelo medo. O único manifesto desta vanguarda surgiu em 1918, pelo autor Kasimir Edschmid (norueguês) que procurou estabelecer os rumos a serem tomados pela literatura sob essa nova visão.
Os poetas expressionistas abordaram a derrocada do mundo burguês e capitalista, denunciando um universo em crise e a sensação de impotência do ser humano que se vê preso em um mundo "sem alma".

? Dadaísmo: O movimento dadaísta surgiu na Alemanha, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial como revolta contra esta guerra e os valores morais, sociais e estéticos estabelecidos. O dadaísmo vem abolir de vez a lógica, a organização, a postura racional, trazendo para a arte um caráter de espontaneidade e gratuidade total. O principal problema de todas as manifestações artísticas estava em desejar algo impossível: explicar o ser humano. No último manifesto que divulgou, Tzara disse que o grande segredo da poesia é o "pensamento que se faz na boca". Por ser essa afirmação praticamente incompreensível, ele procurou melhor orientar seus seguidores dando uma receita de como fazer um poema. No dadaísmo também se utilizava o método de colagem na produção de suas obras.

"Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que forma esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscientemente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, que ainda incompreendido do público."

TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro.

? Surrealismo: Nas primeiras décadas do século XX, a psicanálise aparece como ciência do inconsciente psíquico a partir dos trabalhos de Sigmund Freud. O Surrealismo foi a última manifestação das vanguardas europeias, apoiou-se nas teorias de Psicanálise, acreditando que, pelo subconsciente, pode-se atingir a libertação total da imaginação. Este movimento teve início na França, em 1924. Foram duas linhas de atuação do Surrealismo no seu início: as experiências criadoras automáticas e o imaginário extraído do sonho (ilogismo, devaneio, sonho, loucura, livre expressão dos impulsos sexuais, hipnose, humor negro etc.). Destacavam-se a importância do mundo interior do ser humano, as zonas desconhecidas ou pouco conhecidas da mente, encarando o inconsciente, subconsciente e a intuição como fontes inesgotáveis e superiores de conhecimento do homem, colocando em segundo plano, o pensamento sensível, racional e consciente.
O automatismo artístico consiste em extravasar sem nenhum controle da razão ou do pensamento, os impulsos criadores do subconsciente, agindo assim, o artista põe seus desejos interiores profundos sem se preocupar com coerência, significados ou adequações, este procedimento levou o nome de escrita automática. A rejeição do Surrealismo ao mundo burguês, racional, mercantil e moralista levaria alguns membros do grupo a ter relações com o Comunismo, provocando uma separação interna que se agravou com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), colaborando para o desaparecimento do movimento, embora, até os dias de hoje, percebe-se vestígios na tentativa de recuperar a linguagem artística. Algumas características surrealistas podem ser observadas, por exemplo, neste poema de Murilo Mendes:

Pré-história

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou,
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

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A vanguarda brasileira

O Modernismo brasileiro iniciou-se oficialmente em 1922 com a realização da Semana da Arte Moderna, porém desde a década de 1910 já vinham ocorrendo manifestações artísticas que formava a vanguarda modernista brasileira, entre os autores estavam: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira, Juó Bananére (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado) e dos pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Leia alguns poemas abaixo:

Pronominais: Oswald de Andrade


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Mário de Andrade: Inspiração

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno mormo...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!


Manuel Bandeira: O último poema

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
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A Semana de Arte Moderna

Não se sabe de quem partiu a ideia de realizar uma mostra de artes modernas em São Paulo. Nesta semana o saguão do teatro esteve aberto ao público. Havia uma exposição de artes plásticas com obras de Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, Di Cavalcanti, Harberg, Brecheret, Ferrignac e Antonio Moya e nas noites realizava-se saraus com apresentação de conferências, leitura de poemas, dança e música. A primeira noite foi aberta com uma conferência de Graça Aranha, com o título "A emoção estética na arte moderna", na qual, o escritor pré-modernista, manifestou seu apoio à arte moderna com linguagem tradicional e acadêmica. A conferência seguiu com declamações de poemas, por Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho e execuções de músicas de Ernâni Braga e Villa-Lobos.
A segunda noite foi a mais importante e tumultuada, contrastando o comportamento da plateia, que ora vaiava, ora latia, ora gritava e ora aplaudia. Foi aberta por Menotti del Picchia, com uma conferência em que negava a filiação do grupo modernista ao futurismo de Marinetti, mas defendia a integração da poesia com os tempos modernos, a liberdade de criação e ao mesmo tempo, a criação de uma arte verdadeiramente brasileira, logo após houve leituras de poemas e fragmentos de prosa, seguido de dança e um concerto de Guiomar Novaes, que acalmaram os ânimos da plateia.
No intervalo entre uma parte e outra do programa, na escadaria do hall do teatro, Mário de Andrade fez, em meio a caçoadas e ofensas, uma pequena palestra sobre as artes plásticas ali expostas. Vinte anos depois, Mário assim se referiu a esse episódio: "Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?...".
A Semana não teve muita atenção dos jornais da época que lhe dedicaram apenas algumas poucas colunas. Apesar disto, a Semana foi ganhando uma enorme importância histórica. Primeiramente, porque representou a junção das várias tendências de inovação, que, empenhadas em combater a arte tradicional, vinham ocorrendo na cultura brasileira antes de 1922 e, em segundo lugar, porque conseguiu chamar a atenção dos meios artísticos de todo o país, aproximando artistas que até então se encontravam dispersos. Isso proporcionou a formação de grupos de artistas que fundaram revistas de arte e literatura, publicando manifestos que levariam adiante e aprofundaria o debate acerca da arte moderna, permitindo, também um intercâmbio de ideias técnicas, o que ampliaria os diversos ramos artísticos e os atualizaria em relação ao que se fazia na Europa.

Leitura: Poema "Os sapos", de Manuel Bandeira, o qual foi declamado por Ronald de Carvalho no segundo sarau da Semana, sob vaias e gritarias, o público gritava em uníssono (várias vozes em que se ouvem o mesmo som): "Foi, não foi!".

Os sapos


Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos,
A luz os deslumbra

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" ? "Foi!" ? Não foi!".

O sapo-tanoeiro
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" ? "Foi!"
- Não foi!" ? "Foi!" ? Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal sem si cabe).
Falam pelas tripas:
- "Sei!" ? "Não sabe!" ? "Sabe!".

Longe desta grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...


Modernismo português

O Modernismo português surge em 1915, com a publicação da revista Orpheu, influenciado pelas correntes de vanguarda. A repercussão da queda da monarquia e a proclamação da República é enorme junto ao povo e à cultura portuguesa. São retomadas discussões sobre a grandiosidade da nação portuguesa, o espírito nacionalista e saudosista do povo é reaceso. Vários artistas e intelectuais se lançam num projeto de reconstrução da cultura portuguesa.
O orfeísmo (primeira geração do Modernismo português) contou com dois números publicados da revista trimestral, sendo resultado da convivência de jovens artistas que se reuniam nos cafés de Lisboa e buscavam trocar informações e experiências. As tendências artísticas presentes em Orpheu eram diversificadas, ao mesmo tempo em que se viam velhos valores simbolistas e decadentistas do final do século XX, via-se também a reformulação desses mesmos valores orientados pelas propostas do Futurismo e Cubismo. O principal autor da língua portuguesa foi Fernando Pessoa, ao lado de Camões. Também encontram-se grandes obras com os autores Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Mário de Sá-Carneiro, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, José Régio, entre outros.

? Fernando Pessoa: Colaborou em várias revistas literárias, cultivou tanto a poesia quanto a prosa, além de escrever alguns textos de estrutura dramática, contudo, é na poesia que Pessoa mais chama atenção, devido à sua singularidade e criatividade incomparáveis. Estes atributos se devem à questão heteronímia (Fernando Pessoa não criava apenas obras literárias, mas também criava escritores, ao todo foram 70 heterônimos desenvolvidos, semidesenvolvidos ou apenas esboçados). Leia os versos de Álvaro de Campos, respondem às questões:

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
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O segundo momento Modernista

Recebendo como herança todas as conquistas da geração de 1922, a segunda fase do Modernismo brasileiro se estende de 1930 a 1945. Período extremamente rico na produção de poesia e prosa, refletindo um conturbado momento histórico: no plano internacional, vivia-se a depressão econômica, o avanço de nazi-fascismo (doutrina totalitária) e a Segunda Guerra Mundial; e no plano interno, Getúlio Vargas ascende ao poder e se consolida como ditador, no Estado Novo. Assim, junto das pesquisas estéticas, o universo temático se amplia, incorporando preocupações relativas ao destino dos homens e ao "estar-no-mundo".
Em 1945, ano do fim da guerra, das explosões atômicas, da criação da ONU e, no plano nacional, da derrubada de Getúlio Vargas, abre-se um novo período na história literária do Brasil: onde ocorreram as maiores transformações do século XX. A década de 30 começa com a queda na Bolsa de Valores de Nova York, seguida pelo colapso do sistema financeiro internacional: é a Grande Depressão, caracterizada por paralisações de fábricas, rupturas nas relações comerciais, falências bancárias, altíssimo índice de desemprego, fome e miséria generalizadas. Cada país procurou solucionar internamente essa crise, mediante a intervenção do Estado na organização econômica. A depressão leva ao agravamento das questões sociais e ao avanço dos partidos socialistas e comunistas, provocando choques ideológicos, principalmente com as burguesias nacionais, que passam a defender um Estado autoritário, pautado por um nacionalismo conservador, por um militarismo crescente e por uma postura anticomunista e antiparlamentar (Estado fascista). É o que ocorre na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar.
O desenvolvimento do nazi-fascismo e sua vocação expansionista, o crescente militarismo e armamentismo, somados às frustações geradas pelas derrotas na 1ª Guerra Mundial, o que levou o mundo à 2ª Guerra Mundial e ao horror atômico de Hiroxima e Nagasáqui (agosto de 1945).
No Brasil, 1930 marca o fim da República velha, do domínio das oligarquias cafeeiras e o início do período de Vargas com a Revolução de 30, onde Vargas assumiu um governo provisório, contando com o apoio da burguesia industrial e dos setores médios da sociedade; desenvolvendo uma politica de incentivo à industrialização e a entrada de capital norte-americano em substituição ao capital inglês.
Com as disputas de direita e esquerda na década de 30, Vargas busca pretextos para endurecer o regime, apoiado pelos nacionalistas de extrema direita, inicia sua ditadura em 10 de novembro de 1937. O chamado Estado Novo foi um longo período antidemocrático, anticomunista, baseado em um nacionalismo conservador e idolatria do chefe único. Essa situação se prolonga até 29 de outubro de 1945, quando Vargas renuncia.
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Características da poesia no segundo momento modernista

A poesia da segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um aprofundamento das conquistas de 1922: é possível perceber a influência de Mario e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua produção poética após a Semana de Arte, os quais continuaram cultivando o verso livre e a poesia sintética.
Foi nos temas que se percebeu uma nova postura, passa-se a questionar a realidade com mais vigor e, o artista passa a se questionar como indivíduo e na sua tentativa de explorar e interpretar o estar-no-mundo. O resultado é uma literatura mais construtiva e mais politizada, que não se afasta das transformações ocorridas.
Tempo de definições, compromissos e aprofundamento nas relações entre o "eu" e o mundo, com consciência e fragilidade do "eu".
Autores de maior influência e notoriedade: Murilo Mendes, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo entre outros.


Referências:
ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: Língua, literatura e produção de texto. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2005. 1 v.

CEREJA, Willian Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: Linguagens. 5. ed. São Paulo: Atual, 2005. 1 v.

NICOLA, José de. Português: ensino médio. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2005. 1 v.

TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: De olho no mundo do trabalho. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2004

 
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Sobre este autor(a)
SIMONE LUIZA GUIMARÃES REIS: Graduada em Direito pela Universidade José do Rosário Vellano - UNIFENAS (2009), especialista em Direito Processual Civil pela Universidade Gama Filho/RJ. Professora na Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais. Consultora jurídica em Direito Privado.
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