A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA
 
A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA
 


1.1 A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA

Ao considerarmos a literatura um testemunho histórico por apreender a dinâmica social, conseqüentemente somos levados a entender também o escritor como um produto de sua época e de sua sociedade.
Portanto, é esse entrelaçamento entre a literatura, o escritor, a sociedade e a história, que possibilita o surgimento da interdisciplinaridade, entendida aqui como diálogo que serve de reflexão sobre as relações culturais na literatura.
Pegaremos então como ponto de partida, a visão de literatura aqui defendida na primeira parte deste trabalho, ou seja, literatura como produto cultural. Logo é inevitável refletir sobre o que é cultura e qual a relação entre cultura e sociedade, essa reflexão servirá para uma compreensão melhor e de embasamento sobre a função social da literatura e seu entendimento como produto cultural.
Considerando que a noção de cultura é complexa, recorremos nesse início de conversa a uma definição dicionarística, segundo Aurélio (1993):
Cultura sf. 1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2.Fig. O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidas coletivamente, e típicas de uma sociedade. 3.Fig. O conjunto dos conhecimentos adquiridos em determinados em determinado campo. ( p.156 ).
Dessa definição, podemos concluir primeiro que cultura não é algo inato, ou seja, natural no homem, mas algo que deve ser transmitido, portanto, que deve ser cultivado; segundo se é algo a ser adquirido, isso implica então, um processo de formação do indivíduo e terceiro se é um complexo padrão de comportamento que envolve crenças, podemos então entender cultura como diversidade que explica a pluralidade existente nas sociedades humanas.
Ora, se cultura é essa pluralidade e essa diversidade, então não podemos entendê-la como um conjunto harmônico, e sim como cenário de conflitos e disputas que caracterizam por sua vez a sociedade.
Logo, essa reflexão nos conduz a olhar a literatura não como espelho da sociedade, mas como um meio transmissor de informações, cuja função social é facilitar ao homem a compreensão desses conflitos em sua pluralidade e diversidade, e assim emancipar-se dos dogmas que a sociedade lhe impõe.
Para realçar nosso ponto de vista citamos Facini (2004):
A literatura não é espelho do mundo social, mas parte constitutiva desse mundo. Ela expressa visões de mundo que são coletivas de determinados grupos sociais. Essas visões de mundo são informadas pela experiência histórica concreta desses grupos sociais que as formulam, mas são também elas mesmas construtoras dessa experiência. Elas compõem a prática social material desses indivíduos e dos grupos sociais aos quais eles pertencem ou com os quais se relacionam. Nesse caso, analisar visões de mundo e idéias transformados em textos literários supõe investigar as condições de sua produção, situando seus autores histórica e socialmente.(p.25).
Como vemos não podemos desprezar o elemento histórico na leitura da obra literária e de sua análise, dessa forma se faz necessário situarmos autor e obra em seu tempo, pois, enquanto representação da cultura de um povo, portanto, um ato social , a literatura funciona em mão dupla, ou seja, assim como sofre a ação do meio em que é produzida, sobre ele age, atuando como elemento de reflexão crítica dos valores sociais.
È nessa ótica que Cândido (2000) afirma que a literatura desempenha o papel de instituição social, pois utiliza a linguagem como meio específico de comunicação e a linguagem é criação social. Observa ainda, que o conteúdo social das obras em si próprias e a influência que a literatura exerce no receptor fazem dela um instrumento poderoso de mobilização social, diz ele:
A arte é social nos dois sentidos: depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais.[...] Na medida em que a arte é - um sistema simbólico de comunicação inter-humana, ela pressupõe o jogo permanente de relações entre os três, a obra, o autor e o público, que formam uma tríade indissolúvel. O público dá sentido e realidade à obra, e sem ele o autor não se realiza, pois ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador.[...] Mas (a) verdade básica é que o ato completo da linguagem depende da interação das três partes, cada uma das quais, afinal, só é inteligível (...) no contexto normal do conjunto. (p.19, 33-34).
Nessa perspectiva, podemos dizer que sendo a literatura uma construção social, ela está ligada aos valores ideológicos vigentes que o escritor utiliza nos seus temas, considerando esse fato, a obra somente está completa quando reflete algo em alguém, ou seja, quando se dá a interação entre o autor, o texto e o leitor.
Assim, somente com o estabelecimento desse diálogo é que a obra literária participa como elemento constitutivo de uma sociedade, por conseguinte, como elemento social de expressão de identidade cultural. É dessa interação que nos fala Yunes e Ponde(1998): "Um dos papéis da arte na vida social é a formação de um novo homem, uma nova sociedade, uma nova realidade histórica, uma nova visão de mundo." (;p.10).
Nesse sentido é que o estudo das relações culturais na literatura leva em conta a discussão entre o texto e o contexto. Desse modo, o texto, como forma de permanência cultural é, ao mesmo tempo, produtor e produto da cultura e como tal expressa as visões de mundo conflitantes, que se encontram e se chocam nesse amplo diálogo.
Por isso mesmo é que a literatura é uma arte, cujas dimensões culturais são capazes de dar ao homem condições para seu desenvolvimento; como diz Barthes (2004), na literatura encontramos todos os saberes:
O saber que a literatura mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que ela sabe algo das coisas ? que sabe muito sobre os homens. [...] Porque ela encena a linguagem, em vez de, simplesmente, utilizá-la, a literatura engrena o saber no rolamento da reflexividade infinita: através da escritura, o saber reflete incessantemente sobre o saber, segundo um discurso que não é mais epistemológico mas dramático. [...] A Literatura tem a força da representação e ela é categoricamente realista, na medida em que ela sempre tem o real como objeto de desejo. (p.19,23).
Esses saberes a que se refere Barthes é o mundo social que a literatura imprime em suas páginas através da linguagem, que se faz comunicação entre o autor, a obra e o público, indissoluvelmente ligados em seus papéis sociais como já nos disse Antônio Cândido, assim, mais uma vez recorremos a este autor para complementar nosso raciocínio:
A literatura é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vivem na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. [...] A obra de arte só está acabada no momento em que se repercute e atua, por quê sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana. Ora, todo processo de comunicação pressupõe um comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que é o público a que se dirige; graças a isso define-se o quarto elemento do seu processo, isto é, o seu efeito. (CÂNDICO.2000;p.36).
Como se pode ver Antônio Cândido dá ênfase ao poder transformador da literatura, este poder é a representação da ficção como fonte inesgotável de conhecimentos que o leitor mais atento apreende em cada leitura, pois, é nas entrelinhas, é nas teias que são abertos os caminhos para a configuração de novos sentidos, estimulados previamente pelas experiências individuais de cada receptor, uma vez que entrar em contato com o texto literário é entrar em contato com a vida e com a história de toda uma sociedade.

Essa, é pois a função social da literatura, estimular o leitor para uma maior percepção do mundo que o cerca, fazer este leitor perceber o mundo em sua pluralidade e diversidade, assim isso implica dizer que leitor e leitura atuam na construção de um processo social de mão dupla, desenvolvendo um tipo de ação que se dá em espaço bastante amplo, pois os inumeráveis sentidos atribuídos a um texto literário e dele também absorvidos entram em consonância com a história de vida de cada um, e ainda, em consonância com o imaginário pessoal e coletivo do indivíduo.
Então é nesse entrelaçamento de magia e encantamento, portanto nessa afinidade, que a literatura se confirma como um elemento de construção social que desestabiliza o leitor, quando lhe propõe novas indagações e conseqüentemente novos questionamentos, enfim, inquietações e perplexidades.
Seguindo esse raciocínio Carvalho ( 2006) comenta::
O processo de leitura da literatura contribui para a formação do sujeito não só enquanto leitor, mas, sobretudo como indivíduo historicamente situado, uma vez que a interação texto-leitor promove o diálogo entre o conjunto de normas literárias e sociais presentes tanto no texto literário quanto no imaginário do sujeito.[...]Isso significa a ampliação de horizontes, visto que a incompleta identificação obra-leitor, a partir do embate de diferentes normas literárias e sociais, obriga o indivíduo a pensar sua condição sociohstórica, tendo como conseqüência uma possível mudança de postura diante da sociedade. ( p. 127 e 128).
Podemos então dizer que a literatura contribui para incitar o homem, enquanto sujeito social, a uma maior compreensão do mundo e de sua história, pois ao decifrar signos este homem interpreta as imagens que recebe através da ficção que cria e recria a realidade, trazendo em sua história a história que também é do leitor, realidade e história repletas de sabores, pois cada palavra tem seu gosto e seu saber profundo e fecundo, pois como arte tem a literatura essa liberdade, assim fala Gonçalves (2000):
A arte é uma outra realidade dessa realidade primeira que está aí a nos incomodar a todo instante. Ela instaura uma outra paisagem que se sobrepõe à paisagem do nosso quotidiano, mas não se separa dele, porque emerge de seus temas. A leitura "mal feita" dessa paisagem fantástica é que responde por nossas lacunas gerando sombras e fomentando as ideologias que nos alienam do real. ( p.67).
Logo, a literatura ao inquietar o homem tira-o da alienação imposta pela sociedade e ao mesmo tempo ocupa seu espaço como pratica cultural, colocando-se não apenas como objeto de conhecimento, mas de questionamentos.
Daí que na leitura crítica do texto literário o tem-se o texto do mundo, a história de todos nós, pois a criticidade é o caminho para que o homem alcance sua cidadania, daí a responsabilidade de uma sociedade que domine a leitura e a escrita ter por obrigação estender e garantir politicamente o domínio de tais atividades a todos os seus cidadãos, através da educação e da escola, é pela escola e pela educação que formamos leitores críticos,indivíduos com pertencimento, com múltiplos olhares capazes de trilharem pela diversidade.
Permanentemente há um jogo de relação entre os três elementos citados por Cândido, o público que dá sentido e realidade a obra, esta que reflete as imagens criadas pelo autor e nesse movimento está cravada a inscrição da linguagem como arte que cria e recria sentidos, propiciando magia e encantamento dentro da pluralidade e diversidade cultural que nos são transmitidas pela literatura. Dessa forma, a representação da identidade cultural de um povo é visível na obra de arte, é dessa visibilidade que surge a questão do imaginário, ato de consciência como modo de perceber o mundo que nos circula.
Daí a importância da literatura tanto fora como dentro da sala de aula, pois ela traz pela linguagem, ora de forma explícita, ora implícita as cores de cada sociedade, expressando sua cultura, seus conflitos, seus traços, sua história, enfim como disse Rosa o sertão em cada um de nós.
Mas para que tudo isso se torne realidade é necessário o envolvimento como já dissemos da escola e da sociedade. E falando em escola e literatura, tema que será abordado posteriormente, é importante colocar aqui antes de iniciarmos, as quatro premissas básicas apontadas pela UNESCO como eixos estruturais da educação contemporânea: aprender a ser; aprender a fazer; aprender a conhecer e aprender a aprender.
Esses eixos requerem como se vê, comprometimento dos que fazem a educação e dos que detêm o poder, cada um assumindo o fazer como tarefa social e política. Pois para que o ler e o escrever favoreçam a cidadania é necessária a inclusão dentre outros elementos, da literatura como texto que mantendo um diálogo com a história abre caminhos para o homem aprender a se conhecer, aprender a se ver e principalmente ver o outro, portanto aprender a ser
 
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