VENDER SONHOS OU COMO ERA DURA A POBREZA
 
VENDER SONHOS OU COMO ERA DURA A POBREZA
 


VENDER SONHOS... OU COMO É DURO SER POBRE.

Imaginava como era duro ser pobre, como eram difíceis os dias de quem era pobre, olhava-se no espelho, cabelos bem tratados, pela suave, dentes sadios, roupas bem cortadas e atuais.
Todos os dias da semana se repetiam o mesmo ritual. Mas o que a deixava um tanto incomodada, se referia ao fato de ir à escola. Não distava muito da sua casa, não mais de uns mil metros. Mas como só tinha um par de sapatos, percorria boa parte do caminho com um par de chinelos de sola de peneu e quando se aproximava da escola, trocava o par de chinelos por um par de sapatos. Apertados por sinal. O par de sapatos era número 36 e ela calçava 37. Era uma tortura. Não tinha outro. A roupa era comum, mas muito bem passada. Escola pobre. Alunos e alunas pobres. Não havia livros novos. A escola adotara um esquema de livro fiscalizado. O aluno que iria receber o livro no próximo ano fiscalizava que o estivesse usando, para que não houvesse danos. Cadernos estes sim. Cada aluno recebia o número suficiente, assim como jogo de canetas de tinta preta, azul e vermelho. Dois lápis, uma borracha e uma régua. Guardava-os como um tesouro, levava-os em uma sacola de pano, quando chovia em uma de plástico. Os sapatos eram uma tortura. Quando chovia, para não estragar os sapatos e nem os chinelos, ia descalça para casa.
Estudava no período da tarde. Quando chegava em casa, não encontrava sua mãe, que havia saído para vender sonhos. Sonhos recheados de chocolate, goiabada e creme de baunilha. Aproveitava para estudar um pouco, preparar o jantar, que sempre consistia em uma sopa de verduras, originárias da pequena horta.
O quarto, único da modesta casa, agora contava com uma cama de solteiro que havia ganho de uma vizinha que se mudara. Uma cama, colchão de espuma, travesseiros, cobertas, tudo usado, mas que parecia novo.
Após o jantar a mãe iniciava outra jornada. Passar roupa de seus clientes. Em especial calças e camisas de um senhor. As camisas em geral engomadas.

Imaginava como era duro ser pobre. O dia começava com o preparo da massa para os sonhos. Peneirar a farinha de trigo, o fermento, os recheios, frita-los, separar os sonhos para colocar o recheio e depois peneirar o açúcar. Embalados em tabuleiros, estavam prontos para serem vendidos. Almoço. Merenda.
A mãe pedalava uma bicicleta com um suporte, tipo grade, na frente onde eram colocados os tabuleiros, na parte de trás as pilhas de roupas passadas. Despediam-se. Vendia por dia entre 60 a 70 sonhos. Lucrava? Sim. Algo como R$ 0,30 por sonho, ou seja, entre R$ 18,00 a R$ 21,00 por dia. A receita semanal aumentava nos sábados. Vendia praticamente 100 sonhos. A receita com sonhos beirava aos R$ 450,00 acrescida de R$ 120,00 das atividades de lavar e passar roupas. Algo como R$ 600,00 em média. Viviam no limiar mínimo de dignidade. Compravam os ingredientes para os sonhos e da horta tiravam parte do sustento. As galinhas contribuíam com os ovos. Quando uma galinha ficava choca havia uma diminuição insignificante, mas que iria corresponder em mais galinhas para botar ovos. Aos domingos se davam ao luxo de comer um frango, que praticamente durava até a metade da semana. Roupas novas? Nem pensar. Ganhava das freguesas. Ajustava-as de acordo com o crescimento da filha e para ela mesma. Sapatos? Ah! Como eram bem-vindos.



Imaginava como era duro ser pobre. Não muito distante da sua modesta casa, morava em um barraco uma mulher que catava lixo reciclável. Ela e a filha com a idade de uns 12 a 13 anos. Um dia ela morreu. O marido bêbado e viciado arrombou o barraco procurando dinheiro e bateu tanto na mulher que ela morreu. O coração de mãe falou mais alto. Mais uma boca para alimentar, para encaminhar na vida. A pequena órfã, Maria das Dores. Nunca um nome fora tão apropriado. Estudava na mesma escola. Agora tinha companhia da Das Dores. Na hora do recreio (não gostava deste momento e nem do nome). Aproveitavam para comer o que traziam de casa. Sonhos, mandioca frita, pão com goiabada. Algumas crianças compravam doces, refrigerantes e sucos. Elas não. Nos dias de chuva, caminhavam descalças. Quando chegavam à escola, lavavam os pés e calcavam os sapatos. Agora os sapatos usados, passavam para Das Dores, assim como algumas roupas. Mudaram o sistema de dormir. A mãe dormia na cama de solteiro e as duas meninas na cama de casal. Viúva há 10 anos. Criara a filha com luta e garra. Dignidade acima de tudo, recheada de muito amor e carinho.

Imaginava como era duro ser pobre. Uma tarde de sexta-feira sentiu algo diferente. A sorte que a mãe havia retornado mais cedo. Ficara menstruada e assustada. Paciente e delicada a mãe explicou o que estava ocorrendo. Explicação tão singela e linda que só uma abnegada mãe sabia fazer. As férias chegaram. Agora Das Dores cuidava da horta e das galinhas. Separara os três galos para não brigarem e nem incomodar as galinhas. Dois ficavam presos e um solto. Cada dia um ficava solto. E deu certo. Aumentou a produção de ovos. Quando nascia uma ninhada, era uma alegria enorme. Pintinhos amarelos e de vez em quando uns pretinhos. Da horta saiam as alfaces, repolho, couve, mandioca, abóbora e tantas outras verduras. Frutas? Algumas em especial goiabas. Tinha como uns dez pés de goiaba. Cuidavam para não apodrecer e nem ficar com aqueles bichinhos brancos. Aprendera que se colocasse um saquinho de papel e os amarrasse em volta de cada fruta, não ficariam podres. Deu certo. Apanhavam, lavavam, faziam conserva de goiaba. Recheavam os sonhos.

Imaginava como era duro ser pobre. Notara que passava com muito esmero e cuidado as calças e camisas do único cliente homem. De vez em quando cantava musicas românticas quando estava passando calças e camisas engomadas. Um dia a chamou para uma conversa. As férias haviam começado. Era final de ano. Terminara os estudos básicos e no próximo ano os estudos seriam mais aprofundados e mais exigentes. Mas não era isso que pretendia conversar. Sabe aquele homem, para qual o passo roupa? Pois é. A gente tem conversado muito. Ele é viúvo, mora sozinho naquele casarão. Não tem empregada e uma vez que outra, quando vou entregar as roupas, ele pede para que eu arrume a casa e com isso ganho um dinheiro extra. Sim. E daí? Pois é. Ele pediu que a gente fosse morar com ele. Melhor explicando. A gente está namorando. E ele me pediu em casamento. Mas ele quer falar com você e nos convidou para neste próximo domingo irmos almoçar na casa dele. O que você acha? Eu? Surpresa. Depois de tantos anos, a senhora enfim achou, assim espero um homem que possa lhe dar amor, afeto, carinho e respeito. Estou feliz. O senhor veio buscá-las. Uma casa enorme. Um jardim lindo e um quintal muito grande. Casaram. Não tinha parentes. A felicidade até existia.
Agora era uma família que a vida permitiu uma guinada de 360º. Como era uma cidade pequena, sem problemas maiores, Das Graças foi adotada pelo célebre "jeitinho brasileiro". O que trouxeram da antiga casa? As galinhas, os galos, os pintinhos e um certo ar melancólico.


Imaginava como era duro ser pobre. Os anos passaram rápido. A mãe e o novo marido foram viver em uma das fazendas. Por sinal ainda moram por lá. A irmã "torta" como Das Graças era carinhosamente tratada, graduou-se em Pedagogia.
Uma sociedade nasceu. Um estabelecimento de ensino onde as crianças pobres, recebem uniformes, roupas, sapatos, cesta básica, material escolar e, sobretudo amor.
Imaginava como era duro ser pobre....




 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
Médico Veterinário, atuando na área de projetos agropecuarios, em especial planejamento de propriedades rurais, reformulação e redirecionamento de atividades.
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