Artigo: Quem foi o alagoano Teotonio Brandão Vilela?
 
Artigo: Quem foi o alagoano Teotonio Brandão Vilela?
 


Artigo: Quem foi o alagoano Teotonio Brandão Vilela?

Roberto Ramalho é Jornalista, Advogado, Relações Públicas e estudioso de assuntos políticos e jurídicos

Teotonio Brandão Vilela pai do atual governador de Alagoas Teotonio Brandão Vilela Filho foi um jornalista, cronista, ensaísta, empresário, político, boêmio e poeta, além de ter sido o Senador da Anistia, o Senador das Diretas Já (a idéia de criar um movimento a favor de eleições diretas foi lançada, em 1983, pelo então senador Teotônio Vilela no programa Canal Livre da TV Bandeirantes, o Guerreiro da Paz, o Peregrino da Democracia, o Menestrel das Alagoas, o Senhor Dignidade, e, sobretudo o Filósofo e Humanista que soube olhar com amor e coragem o seu País e reformular conceitos e idéias, quando se fazia e se fez necessário. Para Teotônio Vilela, a liberdade no Brasil deveria ser capaz, sobretudo, de garantir cidadania a todos os brasileiros. Quem poderia discordar disto? Acredito que só aqueles que foram contra a liberdade de informação, de expressão e contra a democracia.

Breve Biografia

Teotônio Brandão Vilela nasceu na cidade de Viçosa, em 28 de maio de 1917 e morreu em Maceió, em 27 de novembro de 1983 vitima de um câncer. Ele foi acima de tudo um político brasileiro. Um de seus nove irmãos, Avelar Brandão Vilela, seguiu a carreira eclesiástica e, a partir de 1971, se tomou Cardeal-arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. Seu primo, Otávio Brandão, foi líder comunista desde os primórdios da organização do movimento no Brasil, em 1922. Deixou também um sucessor o atual governador de Alagoas e ex-Senador pelo PSDB Teotonio Vilela Filho que nunca perdeu uma eleição em sua vida.

Segundo dados do Portal www.senado.gov.br freqüentou as faculdades de Engenharia e de Direito, respectivamente em Recife e Rio de Janeiro. Chegou também a prestar exames na Escola Militar do Realengo, mas jamais concluiu nenhum curso universitário. Foi um dos organizadores da UDN em seu Estado. Elegeu-se deputado estadual em 1954. Em 1960 foi eleito vice-governador de Alagoas, na chapa do General Luís Cavalcanti (1961-1966).

De acordo ainda com o Portal do Senado acima descrito Teotônio Vilela apoiou o movimento de 31 de março de 1964 e, quando se formaram os dois novos partidos, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional, partido situacionista. Vitorioso no pleito de 15 de novembro de 1966 para o Senado tomou posse em fevereiro de 1967. Em seu primeiro discurso criticou o novo regime, já então no período governamental do General Artur da Costa e Silva. Em 1974, com a posse do Presidente Ernesto Geisel, que trazia para o Governo o projeto liberalizante de uma distensão "lenta, gradual e segura", o Senador Teotônio inicia campanha pública pela redemocratização do País.

Segundo o Portal do Senado em maio de 1978, aderiu à Frente Nacional pela Redemocratização, movimento que agrupava, além do MDB, setores militares descontentes e políticos dissidentes da Arena em torno da candidatura do General Euler Bentes Monteiro e Paulo Brossard, respectivamente para Presidente e Vice-Presidente da República do Brasil. Com a posse do Presidente João Figueiredo, iniciada a chamada "abertura política", a 25 de abril de 1979, Teotônio Vilela, anunciando que "estava chegando onde sempre esteve", deixou a Arena e ingressou no MDB. Devido à grave doença contraída em meados de 1982, Teotônio desligou-se da vida parlamentar. Assumiu a vice-presidência do PMDB, continuando sua pregação em defesa da democracia. Permaneceu ativo até as vésperas de falecer, em Maceió, em 27 de novembro de 1983. Foi casado com Helena Quintela Brandão Vilela, com quem teve sete filhos.

Histórico Político

Em 1948, filiou-se à União Democrática Nacional (UDN), exercendo o mandato entre fevereiro do ano seguinte e janeiro de 1959.

Em 1960, foi eleito vice-governador de Alagoas, na chapa do general udenista Luís Cavalcante, para o período compreendido de 1961-1966. Em 1966, candidatou-se a senador pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido da base situacionista, assumindo a cadeira em fevereiro do ano seguinte.

Foi reeleito no pleito de novembro de 1974, um dos poucos arenistas que conseguiram ser eleito para o Senado quando o até então Movimento Democrático Brasileiro (MDB) conseguiu eleger dezesseis senadores e a ARENA apenas seis, uma vitória esmagadora da oposição levando naquela época o governo militar a criar a figura do senador biônico.
No dia 25 de abril de 1979, deixou a ARENA e ingressou no Partido oposicionista MDB e, posteriormente, se filiou ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

Ao receber, em setembro de 1979, o título de Cidadão Paulistano concedido pela Câmara Municipal de São Paulo, explica a sua devoção pela liberdade:

"Cidadão de Viçosa de Alagoas, dos arredores da Serra dos Dois Irmãos, um dos últimos redutos da Guerra dos Palmares, vivo contemplando a imagem do Zumbi, sinto-lhe o rumos dos sonhos e o calor do sangue libertário."

Em 1980, com o fim do bipartidarismo e o surgimento de diversos partidos de oposição no Brasil, Teotônio preferiu filiar-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB, considerado o continuador do extinto MDB, tornando-se um dos mais importantes nomes da legenda. Encerrou sua carreira parlamentar, em novembro de 1982, em decorrência de um câncer. No seu discurso de despedida (30.11.1982) fez questão de deixar clara a sua disposição em continuar atuando politicamente:

"Estou saindo desta Casa esta semana, isto não é despedida, mesmo porque não é do meu hábito despedir de nada. A vida política continua comigo, continuarei lutando lá fora, só não terei o privilégio de usar esta ou aquela tribuna. Quanto ao mais, prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, cantando acolá, as minhas pequeninas toadas políticas." (Diário do Congresso Nacional, Brasília, DF, 2.12.1982).

Poucos meses antes de morrer, Teotônio declarou em entrevista à imprensa que mantinha com a morte um relacionamento sem asperezas.
Morreu em 27 de novembro de 1983, de câncer generalizado, deixando-nos até hoje o legado da sua própria vida como exemplo de civismo e cordialidade, um exemplo para todos os políticos atuais, inclusive o seu filho e herdeiro político Teotonio Brandão Vilela Filho.

Por ocasião de sua morte, o jornal Folha de São Paulo de 14 de novembro de 1983, lhe rendeu uma homenagem fazendo publicar um editorial em que analisava o legado deixado pelo Senador das Alagoas para o País e a política.

De acordo com a publicação, "com disposição e ubiqüidade, Teotônio lutou contra o arbítrio, contra a prepotência e contra a injustiça. A ausência de Teotônio Vilela põe termo a uma biografia política que as circunstâncias transformaram em saga. É nesta condição mitológica que sua vida pública, agora encerrada, continuará repercutindo no panorama brasileiro. Elevado à condição de unanimidade nacional, embalado pelo carinho da opinião pública e pelo aplauso de incontáveis admiradores, é provável que sua luta aberta contra o câncer tenha sido percebida como metáfora evidente ? reunindo o pessoal e o coletivo ? do combate idêntico que procurou travar, com disposição e ubiqüidade espantosas, contra o arbítrio, a prepotência e a injustiça. Ao fazê-lo, Teotônio Vilela expandiu seu mandato legislativo até a radicalidade republicana do cidadão-senador, que no final já dispensava qualquer mandato. Sua ação deslocou-se paulatinamente da realidade das classes, dos partidos e dos interesses datados, para atingir outro terreno, o dos sentimentos perenes. A política precisa de Teotônios como os povos precisam de artistas. Parece-nos ser esta a pior das perdas que sua ausência nos inflige", afirma o texto escrito em 14 de novembro de 1983.

Teotônio foi casado com Helena Quintela Brandão Vilela, com quem teve sete filhos. Um de seus filhos, Teotônio Vilela Filho, ingressou na vida política em 1986. Em 19 de setembro de 1995, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) fundou o Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos e de formação política do Partido, fazendo uma homenagem a sua memória.

Reflexões e Pensamentos Filosóficos, Políticos e Sociais de Teotonio Brandão Vilela

"Há coisas que enchem a vida de alegria: lavar um cavalo na água fria do rio, sacudir um boi pelo rabo na carreira de uma vaquejada e falar com os jovens sentindo a esperança".

"Os Governos temem errar, e erram; muito mais porque não ousam acertar".

"O Sonho é próprio de todos nós. Não há nenhuma realidade sem que antes se tenha sonhado com ela".

"Depois de andar pelos quatros cantos deste País, descobri que existe no Brasil uma Pátria. Estou saindo desta casa esta semana. Isto não é uma despedida, mesmo porque não é do meu hábito despedir-me de nada. A vida política continua comigo; continuarei lutando lá fora, só não terei o privilégio de usar esta ou aquela tribuna. Quanto ao mais, prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, cantando acolá, as minhas pequeninas toadas políticas".

"O Brasil é um País potencialmente senhor do futuro, porque o próprio futuro se encontra dentro dele".

"Sou um Patriota. Isso eu digo com arrogância. Seja em qualquer terreno. Por isto, eu luto".

"Existem duas coisas que são importantes na vida: Sensibilidade e ilusão. Por isto, é preciso acreditar no amanhã".

"A Democracia não é coisa feita. Ela é sempre uma coisa que se está fazendo. Daí porque ela é um processo em ascensão. É a experiência de cada dia que dita o melhor caminho para ela ir atendendo às necessidades coletivas. O que há de belo nela é isto. É que ela tem condições de crescer, segundo a boa prática que fizermos dela".

"Este País só será grande quando cada brasileiro se sentir responsável e influente pela força do seu pensamento na formação do todo nacional".

"Lutar pela liberdade já não é rara façanha do civismo pela honra da nacionalidade; é, também e imperiosamente, a condição do homem na conquista da própria identidade".

"A maior tragédia do Brasil não é a dívida externa, nem a dívida interna: é a dívida social".

"Ninguém erra por ser contemporâneo da ansiedade social".

"A água do São Francisco não é só para uso doméstico, é também para produzir riquezas".

"... Sofremos de carência generalizada: vai do feijão à Constituição".

"O meu princípio é o princípio da defesa contra qualquer tipo de mal".

"Cada um de nós faz parte da Natureza; nós temos que preservar a Natureza".

"A minha palavra de fé e de confiança nesta Nação continua".

"Não temos uma outra saída senão uma representação política capaz de reorientar a vida neste País. É quase que algo milagroso".

"Se alguém ainda hoje vai para uma urna votar, vai, sobretudo, tocado por um sentimento messiânico".

"Com tantos casuísmos, com tanta corrupção, com tanta fraude, pois ainda assim vamos sobreviver. Esta é a minha esperança!".

"Não pense ninguém que com velhos esquadros e com velhas réguas ou velhos princípios, ainda que clássicos, nós vamos poder atravessar as coisas. E tampouco vamos atravessar com violência. Temos que imaginar, temos que conceber primeiro a mudança em nossa imaginação, para depois aplicá-la".

"Vamos redescobrir esta Nação!"

"Este Brasil que, a esta altura, já deveria ser uma Nação de calças compridas, continua, hoje, uma criança de calças curtas".

"A Nação somos nós, não são eles... Nós não podemos entregar este País aos grupos internacionais que estão dominando o mundo... Nós não podemos entregar esta Nação à miséria..."

"Todos nós, se quisermos ajudar esta Nação, temos que nos compenetrar de que é preciso, antes de tudo, ser sério".

"Se não enfrentarmos as quatro dívidas ? a dívida externa, a dívida interna, a dívida social e a dívida institucional ? o Brasil acabará entregue aos estrangeiros ou à rebelião das ruas".

"Se faz política com as ruas, ou se faz política nas ruas".

"Abrir uma clareira nesse nevoeiro e nela se situar independentemente das poderosas influências locais, eis a luta do homem contra o meio dominante, em busca do legítimo conceito de honra".

"O comportamento popular não é um mistério, é uma indicação social".

"A educação religiosa já recebera de minha mãe. Meu pai era um agnóstico. Era um homem revoltado por causa de muitas injustiças e não compreendia certas coisas, porque ele achava que Deus, se tinha todos os poderes, poderia criar um mundo melhor".

"Quando Avelar, hoje Cardeal, comunicou ao meu pai que queria ser padre, foi um deus-nos-acuda. O velho rebelou-se violentamente. Não se conformava. E repetia: ? 'Eu não entendo que função tem padre. ' Meu pai tinha horror ? mas horror profundo ? a padre e militar... Ele não acreditava em nada. Acreditava no trabalho, na honestidade e na terra".

"O sentimento de Pátria deve ser restaurado".
"Uma das prerrogativas ainda válidas do parlamentar é interligar o Estado com a Nação".

"Temos todos nós, por ação ou omissão, estímulo ou incompreensão, responsabilidade dos fatos da história".

"O problema do menor abandonado é o maior abandonado, e o problema do maior abandonado é o desemprego, é a falta de cidadania".
Seu último desejo: "Quero morrer em minha terra".

Como um cavaleiro andante da Democracia, Teotônio Vilela tirou dinheiro do próprio bolso para visitar um por um os presos políticos que cumpriam pena. Em uma delegacia, esbarrou na arrogância de um policial que exigia mandado judicial. Agigantando-se, disse ele: ? Dê licença, falo em nome da República!".

Diante das vítimas de tortura, Teotônio Vilela rogou ajoelhado: ? "Perdão por não ter visto antes essa barbárie".

Sobre as punições sofridas pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira: "Juscelino teria sido ainda maior no ostracismo, ao provar com sua obstinada crença no Brasil que a liberdade durante o seu Governo não fora um ato de tolerância demagógica e nem um perigo para as instituições, mas um ato de amor à Democracia".

Ainda sobre Juscelino afirmou: "O que Juscelino mais conseguiu foi canalizar, burilar e comandar amor e alegria, argúcia e pertinácia, parcelas vivas dos anseios nacionais, dentro de um estilo de Governo que podia ser discutível, mas respaldado por uma maioria popular indiscutível".

Ao deixar a Arena, partido de sustentação da ditadura militar e ingressar no MDB: "Estou chegando onde sempre estive".
A Ulysses Guimarães sobre sua andança pelo Brasil em favor das Diretas Já: "Sou um louco que perdeu o caminho do hospício".

Ao sair do presídio do Barro Branco, em São Paulo, Teotônio Vilela foi abordado por uma jornalista da Rede Globo, que perguntou sobre os terroristas. Teotônio foi direto: ? "Não encontrei nenhum terrorista. Encontrei jovens idealistas que entregaram a vida pela liberdade no Brasil. Convidaria todos para se hospedar em minha casa, convite que não faço a muitos ministros do atual Governo".

No lançamento do Projeto Emergência que mais tarde viria a ser o conteúdo programático das Diretas Já: "O Projeto é a minha derradeira contribuição à Nação".

Boêmio inveterado, certa vez fez o seguinte comentário: "Gostava de acompanhar a cantoria tocando em caixinha de fósforo".

Comentário para Fafá de Belém depois de ouvir a música Menestrel das Alagoas, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant em sua homenagem: ? "As nossas gargalhadas juntas podem fazer o chão deste País tremer. Se não vier alegria, a gente não consegue a Democracia".

Encontro pessoal com o menestrel de Alagoas

Não sei precisar o ano em que aconteceu, pois não me recordo do ano nem tampouco da data, mas, acredito que tenha sido em 1979.

O acontecimento e o fato se deram no Museu Téo Brandão, na Avenida Duque de Caxias, antiga Avenida da Paz, em Maceió, capital de Alagoas. Lembro-me muito bem que num determinado instante no lançamento do livro Anistia aproveitei o exato momento junto com meu irmão Jornalista e Advogado Rosalvo Acioli para poder conversar com ele.

Para nossa surpresa ? e tudo foi filmado ? conversamos com o Senador Teotonio Vilela durante mais de uma hora, no qual considero um dos momentos mais importantes e maravilhosos de minha vida, momentos de muita sabedoria e de prazer inigualável.

Teotonio Vilela foi um dos homens e políticos mais extraordinários que conheci em toda a minha vida. Graças a Deus que guardo para sempre esse privilégio que jamais esqueci e esquecerei.

Bibliografia Consultada:

1. Enciclopédia Wikipédia, acessado em 02 de janeiro de 2011 através do Portal Google;
2. Diário do Congresso Nacional, Brasília, DF, 02.12.1982;
3. Jornal Folha de São Paulo de 14 de novembro de 1983;
4. Portal do Senado ? www.senado.gov.br;
5. Site http://www.contextolivre.blogspot.com.

 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
Formado em Direito em 1983, Relações Públicas em 1997, Jornalismo em 2008, pela Universidade Federal de Alagoas, exerci o cargo de Oficial de Controle Externo do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas entre 1986 a 1996, exerci o cargo comissionado de Assistente administrativo lotado na Vigilân...
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