O SABER DE SÓCRATES
 
O SABER DE SÓCRATES
 


1 Introdução

Sendo considerado um dos principais momentos da filosofia, o artigo a seguir faz uma pequena análise dos pontos mais importantes do Julgamento de Sócrates: desde o momento inicial acerca do que vem ser especificamente este tema, até o momento considerado mais marcante na história filosófica: idéia do conhecimento obtido pelas coisas do mundo.
Sócrates é de fundamental importância para o desenvolvimento do conhecimento. Com estudos complexos do desenvolvimento desta tese, ele dá inicio a uma série de pesquisas que auxiliaram no desenvolvimento de uma ciência estruturada e baseada no estudo deste conhecimento. Assim, através de conceitos é que se procura encontrar a verdade dos fatos.
No contexto geral da Filosofia e claro, do Direito, o julgamento de Sócrates, aparece como um dos temas de maior importância na difusão e estruturação dessa ciência. Sabendo que a idéia de conhecimento propagada pela Filosofia, não tem tanto espaço no dinamismo jurídico enfrentado por nós atualmente, mas através das idéias de Sócrates ? o maior difusor dessa corrente - entenderemos de que forma, essa filosofia será encaixada na cultura moderna.
Desta forma, o presente trabalho não tem um caráter finalístico, nem pretende esgotar o seu objeto de estudo, caso em que procura analisar o saber socrático no contexto da vida social moderna.

2 O julgamento
Como já dito anteriormente este é um dos principais momentos da filosofia e da cultura ocidental. Sendo encontrado diariamente na chamada Ágora Ateniense ? ponto de encontro das pessoas na antiga Atenas. Neste local, Sócrates conversava com as pessoas falando sobre vários os assuntos: conhecimentos de vida, política, ciência ou religião.
Foram as inúmeras sessões de filosofia e liberdade, na qual Sócrates falava do todas as coisas, que terminaram por atrair a ira da elite local ? que não queria que seu povo fosse ?esclarecido?. Os gregos acreditavam piamente na idéia de que as pessoas deveriam ter um estoque limitado de idéias em suas cabeças e que indivíduos como Sócrates já tinham pensando tudo o que se pudesse pensar (2004: 02).
Foi nesse contexto aonde Atenas vinha passando por um período difícil, que Sócrates intensificou o debate de constantes reclamações e críticas aos governantes - que já estavam irritadiços com o ideal democrático. Foi um jovem chamado Meletus que liderou a perseguição contra este filósofo afirmando que este ?corrompia a juventude ateniense e insultava as tradições religiosas da cidade? (SOUSA, 2010: 01). Mas certamente outras questões podem ser destacadas na motivação de seu julgamento:

A primeira das hipóteses que podemos levantar sobre o incidente gira em torno da origem mítica do conhecimento de Sócrates. Segundo relatos, o Oráculo de Delfos, meio pelo qual os homens se comunicavam com os deuses, teria falado da superioridade intelectual de Sócrates mediante os demais cidadãos. Talvez, por isso, o pensador grego acreditava que seria capaz de "fazer a verdade vir à tona" na medida em que empreendia um debate com seus interlocutores.
Mesmo tendo grande fama devido sua grande capacidade argumentativa, Sócrates não era um orador de todas as horas. A grande maioria dos debates políticos engendrados na Assembléia não contava com sua participação. Dessa forma, ao questionar ou empreender debate com um indivíduo, Sócrates acabava criando uma situação bastante contraditória. Ao mesmo tempo em que desdenhava das importantes questões políticas de sua cidade, era capaz de ridicularizar alguém por meio de seu sarcasmo intelectual (Ibidem, p.02).
Ainda com imponência e superioridade, mesmo estando prestes a ser condenado, o filósofo grego, ao invés de usar sua oratória eloqüente para tentar defender-se das acusações preferiu questioná-las ? e talvez tenha sido esta a causa de sua morte. Após a condenação, foi através da democracia que os mais de 500 jurados decidiram qual pena deveria ser aplicada; sendo mais tarde a morte, definida como tal.
Utilizando um veneno chamado cicuta - que deveria ser ingerido ? o carrasco sugeriu que Sócrates ficasse em silêncio para que o veneno agisse rápido e não lhe causasse dor (2004: 03). Irônico, o filósofo respondeu que este deveria trazer-lhe uma enorme quantidade então, pois ele morreria do jeito que sempre viveu: "tendo muito a dizer" (PLATÃO, 2002: 32).

3 A busca pela perfeição

Existem religiões em que os deuses se revelam: surgem diante dos humanos em beleza, esplendor, perfeição e poder e os induzem a ver uma outra realidade, camuflada sob a realidade cotidiana, onde o espaço, o tempo, as formas dos seres, os sons e as cores, os elementos estão organizados e dispostos de uma outra maneira, secreta e verdadeira. A divindade, levando um humano ao seu mundo, desvenda-lhe a verdade e o ilumina com sua luz (CHAUI, 2005: 256).
Dessa forma, o pensamento socrático marca uma reviravolta na história humana, pois até então a filosofia procurava explicar o mundo baseando-se apenas nas forças da natureza. Foi apenas com Sócrates que o homem voltou-se para si mesmo, uma vez que sua preocupação era levar as pessoas, através do autoconhecimento à sabedoria e prática do bem (FERRARI, 2008: 01).

Sócrates concebia o homem como um composto de dois princípios, alma (ou espírito) e corpo. De seu pensamento surgiram duas vertentes da filosofia que, em linhas gerais, podem ser consideradas como as grandes tendências do pensamento ocidental. Uma é a idealista, que partiu de Platão (427-347 a.C.), seguidor de Sócrates. Ao distinguir o mundo concreto do mundo das idéias, deu a estas status de realidade; e a outra é a realista, partindo de Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão que submeteu as idéias, às quais se chega pelo espírito, ao mundo real (Idem, p.02).
A busca pela perfeição pode ser traduzida como a busca do ideal perfeito. Não a beleza exterior, mas a beleza da alma ? o saber da alma. Aqui entende-se o porquê de Sócrates não ter se defendido em seu julgamento: acreditava que a morte era o renascimento da alma, da consciência. A mente voltava a ser tabula rasa.
"Só sei, que nada sei". A mais celebre frase de Sócrates demonstra que cabe a sabedoria nortear a busca pela perfeição. Se tivermos idéias e conceitos claros e profundos, ou seja, convicções pode-se transformá-las em atitudes. Convincere significa "deixar-se vencer por". Adotar uma convicção é adquirir tamanho apreço por uma idéia que, necessariamente, vai-se lutar por colocá-la em prática. Por esse entendimento, Sócrates é acusado de passar, indevidamente, de uma ordem lógica para uma ordem ontológica - da idéia para a realidade. Mas seu pensamento está correto, pois que ao entrarmos em crise quando nossas razões são fracas, incapazes de superar as causas motivadoras da queda em conflito (SCHEID, 2010: 02).
Sendo discípulo de Sócrates, Platão adotou a mesma linha de raciocínio e criou o chamado "mundo das idéias" que supostamente seria habitado pelas almas, antes delas adentrarem no mundo material.
No mundo das idéias é que se encontra a essência da perfeição, manifestada sob diversos conceitos. Essas idéias são como réplicas imperfeitas no mundo material. Cada ser tem por modelo uma idéia, dessa maneira a busca do melhor seria o retorno a única realidade verdadeira, inatingível em um mundo de defeitos e medos. Todo indivíduo possui o sentimento nostálgico do que já foi, mesmo tendo características de potencialidades, capacidades, virtualidades; que nem sempre são desenvolvidas (Idem, p. 03). Cabe, então a nós, seguindo os conselhos de Sócrates na procura da perfeição operar, fazer aflorar e maturar essas potencialidades, em atos e realizações.

4 O conhecimento através de todas as coisas

Inserido nas idéias de busca da perfeição, o conhecimento através das coisas deve ser entendido primeiramente, como um conhecimento interior próprio do indivíduo. Conhecer é treinar o espírito no domínio das paixões, exercitação para liberá-lo de todos os condicionamentos sensíveis e materiais que embotam o núcleo de nossas faculdades mais nobres, e nos impedem de "contemplar em nossa alma pura a pura realidade das coisas" (PLATÃO, 2002: 167). Presa ao cárcere do corpo, a alma peregrina por este mundo de sombras em busca do Bem que perdeu. É certo que as coisas sensíveis lhe sirvam de ajuda, pois a fazem recordar as formas ideais. Mas, é também um obstáculo, pois é uma tentação para os sentidos. O corpo é um peso e um empecilho. Ao ceder aos apelos do corpo, a alma racional perde distância do mundo da verdade, tornando mais difícil e mais escuro sua ascese ao mundo do primitivo ao esplendor (DUARTE, 2007: 36).
O ilustre doutor continua:
Para que a alma possa purificar-se, impõe-se-lhe a disciplina das paixões corpóreas e a concentração na dialética. Entidade espiritual, forasteira neste mundo que não é o seu, seu dever é aspirar à vida do espírito, quer dizer, à vida intelectual. O mundo está dividido entre aqueles que valorizam do umbigo pra cima, e aqueles que valorizam do umbigo pra baixo (2007: 37).

Deste modo, partindo do mundo das idéias o conhecimento se processa por um caminho ascendente, por uma escada cujo primeiro degrau é a sensação. Esta ?subida? culmina no conhecimento filosófico ou na busca das essências em si mesmas. Todo conhecimento é verdadeiro na medida em que é uma verdade, que se torna real. Conhecimento é reconhecimento, pois o homem apesar de nascer tabula rasa, ao longo da vida vai somando experiências que mais tarde serão reconhecidas para o entendimento daquilo que o rodeia.
Ao mesmo tempo em que o homem almeja o conhecimento do todo, de tudo; até mesmo porque a ciência moderna está mais preocupada com a acumulação e produção do conhecimento - e isto pode até ser traduzido na questão daquele que quanto mais tempo de estudo, maior será o valor do subsídio ? entende-se que o início de uma corrida sem fim, uma vez que este conhecimento tem o único propósito de colaborar para a centralização de poder e dinheiro nas mãos de alguns poucos.

4.1 O Oráculo de Delfos
Considerado o umbigo do mundo, apresenta intensa ligação com a questão do conhecimento (reconhecimento), pois de acordo com as tradições antigas, era através deste portal que o Deus Zeus se comunicava com os mortais.
Sócrates dizia que foi através do oráculo que Zeus lhe enviou a mensagem do "conhece-te a ti mesmo". Assim, apenas reconhecendo sua ignorância que o homem, poderá galgar o caminho ascendente do saber.
Usando o método da maiêutica em conversas com os outros indivíduos, Sócrates forçava o interlocutor a desenvolver sua própria linha de raciocínio sobre uma questão que ele pensa conhecer. Este tipo de estudo é comparado pelo próprio filósofo com a profissão de sua mãe ? uma parteira. Só que ao contrário dela, esse método trazia à luz as idéias que já existiam em seus rebentos (2010: 03).
Com a única certeza de que nada sabia, Sócrates demonstrava que por mais que investigasse as coisas ou mesmo conversasse com pessoas esclarecidas, ele não tornava-se um sábio por isso e justamente por reconhecer a sua ignorância foi que o Oráculo de Delfos o adotou como homem mais sábio dentre todos os outros. Voltando-se apenas para seu interior é que se conhecerão todos os mistérios do mundo, já que as respostas estão contidas na nossa essência.

5 Conclusão
O presente artigo se propôs a fazer uma análise dos conceitos de Sócrates. Seu direcionamento procurou discorrer sobre a importância do pensamento deste filósofo, construtor de discursos e idéias concisas e racionais.
No percurso explicativo deparamos com a busca pela perfeição, entendida e explicada como a procura do saber. O conhecimento preconizado através do caminho ascendente e a questão do reconhecimento, onde temos que lembrar é recordar.
Na trajetória histórica delineada, percebemos como o conhecimento é traçado pela experiência externa, servindo de ocasião para fazer o intelecto recordar a verdade que está na alma, anterior a qualquer sensação.
Sem a reflexão exigente, os homens se distanciam das suas concepções e passam a aceitar as idéias impostas, deixando de lado o prazer da construção de suas próprias idéias. Conclui-se então que se não se pode mudar o mundo, pode-se mudar a postura no mundo. Assim, o conhecimento e a argumentação devem se constituir em um mecanismo, acima de tudo, coerente e consciente.

Referências
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

DUARTE, Sebastião Moreira. Platão: ética e política. Biblioteca Pessoal: roteiro de estudo, 2007.

FERRARI, Márcio. Sócrates: para o pensador grego, só voltando-se para seu interior o homem chega a sabedoria e se realiza como pessoa. Disponível em: . Acesso em: 28.abr.2010.

O julgamento de Sócrates e a Ágora Ateniense. Disponível em: . Acesso em: 01.maio.2010.

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Martin Claret, 2002.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2002.

SCHEID, Eusébio Oscar. A busca da perfeição. Disponível em: . Acesso em: 02.maio.2010.

SÓCRATES: Biografia e Pensamentos. Disponível em: . Acesso em: 02.maio.2010.

SOUSA, Rainer. Julgamento de Sócrates. Disponível em: . Acesso em: 30.abr.2010
 
Avalie este artigo:
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Giuliana Maria Nogueira Pereira
Talvez você goste destes artigos também