Como a trilha foi aberta

"Um dia, um bezerro precisou atravessar uma floresta virgem para voltar a seu pasto. Sendo animal irracional, abriu uma trilha tortuosa, cheia de curvas, subindo e descendo colinas. No dia seguinte, um cão que passava por ali, usou essa mesma trilha para atravessar a floresta. Depois foi a vez de um carneiro, líder de um rebanho, que vendo o espaço já aberto, fez seus companheiros seguirem por ali.

Mais tarde, os homens começaram a usar esse caminho: entravam e saíam, viravam à direita, à esquerda, abaixavam-se, desviavam-se de obstáculos, reclamando e praguejando – com toda razão. Mas não faziam nada para criar uma nova alternativa. Depois de tanto uso, a trilha acabou virando uma estradinha onde os pobres animais se cansavam sob cargas pesadas, sendo obrigados a percorrer em três horas uma distância que poderia ser vencida em trinta minutos, caso não seguissem o caminho aberto por um bezerro.

Muitos anos se passaram e a estradinha tornou-se a rua principal de um vilarejo, e posteriormente a avenida principal de uma cidade. Todos reclamavam do trânsito, porque o trajeto era o pior possível. Enquanto isso, a velha e sábia floresta ria, ao ver que os homens têm a tendência de seguir como cegos o caminho que já está aberto, sem nunca se perguntarem se aquela é a melhor escolha.

Nossa leitura consiste em se procurar entender, qual o melhor caminho para se recuperar o elo perdido da formatação de valores que urdiram a ordem da disciplina que se mantem, com muitas dificuldades em alguns ambientes. Quando se levanta a questão sobre onde as pessoas estão aprendendo a ser pais, não se está reconhecendo que o caos se instalou ou que ameaça o futuro da espécie. O que se pretende é chamar a atenção para o verdadeiro papel que vem sendo desempenhado pelas famílias, suas dificuldades em enfrentar, desafiar e vencer o que surge a cada dia, em nome de uma modernidade que pouca garantia nos dá quanto aos rumos que precisam dados à educação plena   do homem deste século, a fim de não comprometer m futuro de há muito projetado: filhos realizados, cidadão de bem.

Se por quaisquer questões, a família deixa de seguir um planejamento educacional para a formação dos seus filhos, por imaturidade, conveniência, circunstâncias ou ignorância, os riscos de um fracasso social, são iminentes. Há de que levantar uma defesa do tipo: eu cuido e defendo a minha família, da melhor forma que se possa imaginar: temos condições financeiras, estruturais, intelectuais, técnicas e entendimento o suficiente para criar os meus filhos com disciplina, valores, rigores, regras e respeito. Que ótimo! Mas o mundo em que eles vivem, fala a mesma linguagem deles? Eles vão conviver com pessoas de outras formações, de outras origens, de outras realidades que certamente se chocarão com as deles. Nascerão temores, olhares, discursos e impactos entre o que seus fatos que seus filhos defendem, a maneira como se comportam, a postura com que se colocam diante da realidade da sociedade e o que, de fato, se diz, se fala, se acredita. Haverá enfrentamentos: ou seus filhos, bem criados mudam a forma de ver a vida e seguem o que seus pares acreditam e ditam, abandonando com uma certa frustração o que para eles naquele momento, os pais é que ensinaram errados, ou não aceitará o que o mundo lhe impõe e, volta para cobrar explicações dos seus pais.

Ora, se eles não conseguem interagir com o mundo em que tudo está mudado, valões pelo avesso, o certo para a ser incerto, o honesto passa a ser cafona, o recato passa a ser recalques, o bonito passa a ser feio e o feio passa a ser o da vez, um novo desafio estará sendo criado no universo do nosso filho. Erramos na dose, perdemos o modelo, não fomos competentes, não seremos compreendidos... É preciso sorrir de volta para quem sorri para nosso filho já que não se deve ter pressa para ensiná-lo. Como em um abraço que não deve ser apressado, a educação de um filho não pode ser atividade fim. Deve ser o meio de se alcançar a plenitude, não da perfeição já que essa indica acabado. Mas devemos ser perfectíveis em amealhar, assimilar, aprender o que vai e como vai ensinar o seu filho a ser.

“...Mas não faziam nada para criar uma nova alternativa. Depois de tanto uso, a trilha acabou virando uma estradinha onde os pobres animais se cansavam sob cargas pesadas...”.

No futuro, homens começarão a decidir a partir do que aprenderam, não interessa onde, se em casa, na rua, na escola, na vida. O importante é que precisam agir. Agir rápido e da melhor forma possível a fim de fazer a diferença e se destacar no que faz para permanecer digno de merecer o reconhecimento pelas suas ações que, na verdade, é o somatório de toda uma vida acumulada para melhor instrumentalizar o trabalho, a vida e continuação de um projeto de vida que ultrapassa gerações mas que perpetuam a honra de uma família, o nome de uma sociedade, na produção e preservação de bons sentimentos.

Percebe-se que não caberá cobrar, culpar, justificar possíveis desvios pela forma como se foi ensinado. Quem ensinou o fez acreditando estar fazendo o melhor. Não se poderá culpar ninguém pelo seu insucesso, nem você mesmo. Talvez a sua falha foi não ter aprendido como lhe foi ensinado, talvez por não ter aprendido, quem sabe, pela forma como foi entendido. Não importa: a fatura chega, é cobrada e o preço é o seu conhecimento. É como se de repente, você se apresenta em um país estranho, para desenvolver atividades estranhas, para atender a interesses estranhos. Não vai conseguir. Não vai satisfazer, não vai acontecer...O fracasso é iminente. Fracasso de quem? Seu, de seus professores, de suas escolas, de sua família, de suas escolhas? Não importa, o fracasso existe. Lidar com ele é o desafio. Urge que aconteça um ajuste de contas entre o custo dos acertos e o preço da evolução.

            Uma lenda judaica nos traz que, em um certo dia, a mentira conseguiu um encontro casual com a verdade. De lá para cá, o tempo mudou, as pessoas mudaram, os conceitos de verdade e mentida mudaram, o certo e inverteu e o mundo padece por conta dessas mudanças, nem sempre lidas, compreendidas, interpretadas e utilizadas.

Numa versão atualizada pelo linguajar da “ tshurma”,  a lenda, de judaica, ficou aos pedaços... mas não perdeu sua essência: “Num lero” mais que relaxado, onde a mentira parecia “trolar” da carrancuda verdade,  mentira, de fininho, se aproxima e diz: - desembucha!

-buenos dias, dona Verdade!, toda debochada, pois sabia que a verdade não lhe daria “trela”. A verdade foi “checar” se era possível, a mentira está falando a verdade, se realmente era um bom dia. Ela olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam, o vento sereno, as plantas ainda orvalhadas..., constatou ser um bom dia.

-Bom dia, dona Mentira!

-Está muito calor, hoje, disse a mentira. E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.

A mentira, então, convidou a verdade para se banharem no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse para a verdade:

-Venha, dona verdade, a água está uma delícia. E assim que a verdade, sem duvidar da mentira, tirou as suas vestes e mergulhou. A mentira saiu rapidamente das águas, enquanto a verdade constatava que realmente estava uma delícia, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora. A verdade, por sua vez, recusou-se a vestir as roupas da mentira e, por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar por aí, já que aos olhos das pessoas é mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.”

Quem entende a verdade nua enquanto a mentira está bem trajada, com a melhor roupa de mentira?  Que analogia se faz com os fatos que povoam o nosso imaginário, a nossa literatura, a nossa educação, o nosso trabalho, a nossa religião, os nossos valores, a nossa crença, a nossa fé, os nossos medos, os nossos desafios, o ontem, o hoje, o amanhã, a criança, o adolescente, o jovem, o adulto, o idoso... O que fazer com as mudanças de “roupa” que temos de enfrentar em nome da vida?

Um dos caminhos é aceitar, sem questionar a fim de estar politicamente correto com o que tem se tornado banal. As pessoas do nosso tempo, para ficar bem na cena moderna negam suas raízes, seus princípios, seus valores, suas verdades...  Assim ocorre nas brincadeiras entre crianças: para se tornar aceito no grupo, a criança mais frágil se submete a brincadeiras abusivas. Na escola, o aluno menos dotado de poder de aprendizagem se submete a situações pouco dignas, para que “seus pares” permitam que ele permaneça no grupo. Essa ilustração tem um vasto campo de exemplos: no futebol, na corrida, na dança, na beleza, no namoro...No trabalho, na rua, na família, a sociedade, não é diferente: as mudanças podem mais que a verdade. A modernidade impõe-se com cruéis desafios que nos levam do mundo real à virtualidade do homem moderno. Um moderno que, efetivamente, não sabe aonde vai. E assim, caminha a humanidade.

Se buscar o caminho da resistência, a partir de sua verdade, o mundo vai vir contra, as opiniões prevalecem no sentido de condicionar a possibilidade de sobrevivência de um determinado elemento nesse ou naquele grupo social, a partir da renúncia de princípios, verdades e valores que fundamentaram todo o conhecimento prévio acumulado ao longo da vida. Uma saída, várias nuances, diversos comprometimentos, muitos interesses em jogo, em nome de uma evolução que, se resume a vício que nos leva à sensação de que todas as facilidades nos chegaram, com um rol de vantagens infinitamente maior que quaisquer embaraços. Basta ter acesso ao equipamento: falta energia, entra o gerador; falta água na fonte, compra engarrafada; falta vento, liga o ar condicionado; falta cozinheira, parte-se para fast food; falta a ama de leite, compra-se a babá eletrônica; acaba a lenha, liga o microondas; complica-se o mundo real, acessa-se o virtual; morre a modista, parte-se para confecção em série; somem não se tem companhia, liga-se a tv; some o professor, vem a ead; fecha a escola, vem a rua; somem os amigos, vêm o traficantes; somem as praias vem o lodo; somem  as árvores, vem o deserto; somem os sonhos, restam os pesadelos; perdem-se os amigos, vem desesperança... some o dicionário, vai-se ao google; some a leitura, recorre-se aos memes; desaparecem  os livros, buscam-se e-books cifrados; soe a verdadeira informação, nascem as fake News; omitem-se as opiniões surgem as lake & deslake; excasseia-se a verdade, reforçam-se as mentiras que cada vez mais se travestem para desviar o homem do seu destino.   Que mudanças, que caminhos, que horizontes... que mudanças.

Suprimindo atitudes, eliminando termos, reduzindo expressão sucumbindo sentimentos, o novo homem faz de tudo um “ops!”. Já não se lê um bom livro. Não se assiste mais a um bom espetáculo. Os saraus fazem parte de um passado distante. Concertos, escrito com “c” para muitos jovens é um assassinato à língua portuguesa uma vez que esse termo não faz parte do seu vocabulário, nem do de muitos formadores. Eles também, não têm acesso a esse tipo de entretenimento, que se tornou raro... Feira de livros... um fato raro pois as crianças preferem a robótica cada vez mais sofisticados e softwres, a cada dia mais próximo do perfil humano, por meio de protótipos que mais se assemelham a espectro de figuras do mundo fantasmagórico, onde o homem cria asas e voa, cospe fogo, destroi se trasmuta, “encantando” gerações inteiras que fazem dessas imagens o modelo ideal para o homem corajoso, justo e fiel representante da espécie a quem foi confiado o destino da humanidade. No texto original é preciso vencer a qualquer custo.

O jogador, incauto imberbe em formação de opinião e caráter é treinado para vencer, treinado para destruir, treinado para ludibriar o opositor com o fito de alcançar a vitória virtual que na sua mente passa a ser o destino de todas as lutas, de todos os desafios, de todos os embates, de todas as suas aventuras em qualquer faia etária. Quem se dá bem é que sai na frente, é quem sobe mais rápido na contagem dos pontos acumulados em um jogo de vida ou morte, em nome de uma virtualidade onde a criança reside, pois ali passa a maior parte do seu tempo.

Para os pais, 100% ocupados na conquista de recursos para manutenção deum padrão de vida moderno, terceirizam o olhar, o afeto, o cuidar, o orientar, o formar e, quando a criança age de modo “diferente” do seu rol de valores, a fim de suprir suas efetivas ausências, compram o seu reconhecimento por meio de caros eletrônicos, de sofisticados jogos, de fantásticas viagens e, principalmente de plena liberdade a pensamento e atitudes. O filho e um gênio. “Antes de orientá-lo, antes de pedir prestação de contas de tarefas básicas pertinentes ao dia a dia do filho, e/ou discutir o custo/benefício de suas atitudes, sentem que estão sendo injustos. Preferem não constranger o “brother”, discutem como amigos. Amigos não punem amigos. Amigos não prestam contas à sociedade, pelas falhas de um outro amigo, sumiu o pai, desapareceu a ação da mãe, diluiu-se a família, minimizou o papel da escola, eliminou-se a lição... restou apenas...

A evolução da espécie é a vocação do ser humano. Sem ela, é como se o melhor fosse desistir de quaisquer projetos, de quaisquer estudos, de quaisquer sonhos de conquista do plano físico, psíquico, biológico, cientifico e social. Um dos pontos decisivos para que essa evolução não se torne um risco para a segurança do homem no planeta é que sejam preservados os valores que as sociedades anteriores descobriram, aplicaram, ampliaram e projetaram como prova de conquista. Não se pode pensar em descartar a essência do que funcionou em outros tempos. O caminho que estiver bom, precisa ser mantido, melhorado, aperfeiçoado, adaptado, preservado e tocar adiante a sua força, o seu papel e que faça diferença em um universo que fica à espreita de avanços e conquistas que imprimirão status e classifica o homem, como o que faz a diferença, independente do seu tempo, espaço, ou condições de vida e de aprendizado.

 

  • Sebastião Maciel Costa