Indisciplina Escolar: compreender para superar.

FRANCISCO MAGNO BRITO PEREIRA

CANINDÉ – CEARÁ

OUTUBRO/ 2013

INDISCIPLINA ESCOLAR: COMPREENDER PARA SUPERAR

Francisco Magno Brito Pereira (IFCE - Canindé)

E-mail: [email protected]

RESUMO

O presente artigo aborda os significados que vêm sendo atribuídos à indisciplina dentro do ambiente escolar. Enfatizando que a indisciplina é um problema presente no processo de ensino/formação do individuo e que tal problema se estende da família à escola e vice-versa; e que se manifesta independentemente da classe social, da cultura e da instituição de ensino que o aluno frequenta. Observa, ainda, que toda a sociedade tem um conjunto de regras que permite a convivência harmônica entre os indivíduos e que a partir do momento que essas regras deixam de ser observadas, dá-se início a uma série de conflitos. E que tais conflitos podem prejudicar o processo de ensino e de formação do individuo. Neste aspecto, traz a importância dos pais em impor limites a ações de seus filhos e da escola em criar normas que não representem apenas obrigações, mas também direitos a seus alunos. Enfatizando que as instituições de ensino ao procurar ações eficazes contra a indisciplina escolar, devem analisar a origem do problema, e anterior a qualquer ação punitiva, observar a importância do diálogo entre as partes envolvidas. Tal artigo traz ainda a importância dos professores e da escola se atualizarem para compreenderem as transformações que vêm ocorrendo na sociedade e que são refletidas dentro do ambiente escolar.

PALAVRAS-CHAVE: Ambiente Escolar; Indisciplina Escolar; Conflitos; Instituições de Ensino.

  1. INTRODUÇÃO

Desde o período em que o homem deixou de ser nômade e passou a conviver em grupos ele passou a obedecer normas de condutas. Isso passou a ser determinante para o bom convívio social. Naquele período as leis não eram escritas, havia, pois, o conhecimento tácito e tal conhecimento regulava o meio social das pessoas. Desse modo, o fato de não haver leis escritas não significava que certas atitudes não seriam condenadas pela sociedade.

Diante da formação de grupos de pessoas, a família surgiu como a primeira instituição educativa, cabendo a esta, desde então, a responsabilidade de educar seus membros para o convívio em grupos (PARRAT-DAYAN, 2012). A escola, consequentemente, como segunda instituição de educação, aparece como o local responsável pela formação e consolidação do ser social.

Neste processo de formação do indivíduo é preciso levar em consideração alguns fatores que serão determinantes para que haja eficiência em tal formação, uma vez que o desenvolvimento dos meios de comunicação tira da família e da escola o monopólio da transmissão de informação e conhecimento. Ou seja, todas as ações devem ser tratadas através de iniciativas criteriosas que, de fato, tenham significado e continuidade no processo de ensino/aprendizagem. Do mesmo modo, o ensino, em relação à escola, também não se resume à didática e à metodologia que o orientador utilizará. É preciso levar em considerações fatores como a estrutura familiar, o meio social em que o indivíduo está inserido, o ambiente escolar, o próprio professor etc.

Partindo dessas ideias, verifica-se que é através de diversos fatores presentes no processo de aprendizagem e ensino que surge a necessidade da disciplina.

A disciplina surge então, como um fator real e necessário dentro do ambiente escolar, funcionando como um dispositivo responsável em garantir a possibilidade de serem realizadas diferentes atividades em um mesmo local de ensino, mantendo-se as regras e o respeito. Colaborando, portanto, para um bom relacionamento das pessoas envolvidas nesse processo.

No entanto, não se deve compreender a disciplina escolar como algo relacionado a autoritarismo, ao contrário, deve-se entender que a disciplina deve ser vista como algo que “permite, autoriza, facilita, possibilita” (PARRAT-DAYAN, 2012, p. 08). E a partir do momento que não se observa esses preceitos, os problemas na relação de convívio e as dificuldades de aprendizagem tornam-se mais evidenciadas através de ações indisciplinadas.

Importante observar, nesse sentido, que a indisciplina está presente na escola e no convívio social das pessoas e em todas as instituições de ensino, independentemente de ser pública ou privada. Independe, ainda, da classe social e cultural do aluno. Vem desafiando, nesse aspecto, as famílias e os órgãos educacionais, alavancando obstáculo no processo ensino-aprendizagem, prejudicando o exercício da atividade docente e o aproveitamento dos conhecimentos ministrados aos alunos.

A indisciplina aparece, portanto, como um problema no desenvolvimento e formação educacional do cidadão. Sendo, portanto, necessário compreendê-la, identificando os reais fatores que ocasionam atitudes que dia a dia vem se tornando cada vez mais frequentes e violentas nas escolas.

Ao se discutir tal tema e na tentativa de compreendê-lo, é preciso que se façam algumas investigações como: o que representa disciplina e indisciplina? O que provoca a indisciplina? Qual o papel da família e da escola na formação da criança? As regras impostas pela escola e professor tem legitimidade? Que medidas são cabíveis para prevenir e superar a indisciplina? E, para tal estudo, será utilizado como base teórica o livro “Como enfrentar a indisciplina na escola” da professora e pesquisadora da Universidade de Genebra Sílvia Parrat-Dayan.

 

  1. O QUE REPRESENTA DISCIPLINA E/OU INDISCIPLINA?

A indisciplina é um dos temas mais abordados da atualidade. E situações indisciplinadas, por parte de alunos, dia a dia vem causando polêmicas na relação família/escola/sociedade. Nesse aspecto, é de grande importância que a família, juntamente com a escola e o professor saibam identificar o que representa atos disciplinados ou indisciplinados. Partindo desta premissa, será possível buscar métodos eficazes contra esse problema que é recorrente no campo docente.

Primeiramente, é importante entender que uma escola que promove a disciplina dos alunos não pode transformar um ambiente caótico em um ambiente disciplinado através do autoritarismo. Do mesmo modo, a obediência à regra pelos alunos, nem sempre representará um aluno disciplinado. Tal comportamento pode representar uma “conformidade cega” (VASCONCELLOS; 1956, p. 48). Fazendo com que este aluno apenas obedeça a regras evitando eventuais punições.

Conceitualmente, a disciplina apresenta-se como:

“[Do lat. Disciplina.] S.f.1. Regime de ordem imposta ou livremente consentida. 2. Ordem que convém ao funcionamento regular duma organização (militar, escolar, etc.). 3. Relação de subordinação do aluno ao mestre ou instrutor” (FERREIRA; 2010, p. 723).

E, didaticamente, Parrat-Dayan (2012, p.18) define disciplina como:

A maneira de ser e de se comportar que permite ao aluno alcançar seu desenvolvimento pleno, tomando consciência da existência do outro, e que ajuda, ao mesmo tempo, respeitar as regras como um requisito útil para a ação. [...] regra de conduta comum a uma coletividade para manter a boa ordem e, por extensão, a obediência à regra.

Neste sentido, a disciplina deve se apresentar como algo inerente à consciência do indivíduo em seus atos. Ou seja, participar das aulas, fazer as atividades escolares, manter o silêncio etc. Não, necessariamente, representa disciplina e sim uma postura tomada apenas para evitar possíveis punições. Portanto, deve-se compreender que o comportamento não dever ser pautado pelo medo ou pelo interesse em recompensas. Deve, todavia, buscar alternativas que façam o aluno identificar que determinadas atitudes são inadequadas e representam uma postura tida como indisciplinar.

Em termos gerais, o conceito de indisciplina é definido em relação ao conceito de disciplina. Partido desta compreensão, a indisciplina representaria a falha dos objetivos da disciplina. Logo, o significado de indisciplina pode ter várias definições, a citar: [de in+ disciplina] s.f procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência; desordem; rebelião (FERREIRA; 2010. p. 1150). E na relação direta com o ensino e a escola:

A indisciplina implica desobedecer às normas estabelecidas e pode expressar-se de vários modos. Por exemplo: recusar-se a aprender, não respeitar as regras, manifestar condutas inadequadas, quebrar objetos, fazer barulho e brincadeiras durante a aula etc.(PARRAT-DAYAN, 2012. p.29).

Então, é perceptível que não há uma delimitação única para a definição de indisciplina. Seu significado, em geral, pode estar diretamente relacionado às normas sociais e culturais dos indivíduos que estão envolvidos.

Parrat-Dayan (2012) afirma que pra observar se há indisciplina, deve ser observado diferente marcos de referência. Ou seja, dependendo do local e da instituição de ensino, as atitudes de seus alunos podem ser identificadas com significados diferentes. E logicamente, a atitude de um aluno poder ser ou não compreendida como um ato indisciplinado. Por exemplo, um professor pode ver os conflitos entre crianças e tê-los como algo inadmissível, sendo ao transgressor aplicado punição. E outro professor, diante da mesma situação pode entender que isso seja normal, e até faz parte da aprendizagem, passando a se envolver no conflito como um mediador interessado em sua solução, fazendo com que os envolvidos conversem, reflitam e cheguem a um bom senso.

Em geral, para se compreender o que define ou não a indisciplina, o educador deve observar as normas estabelecidas na escola e na sala de aula, analisando os objetivos de tais normas, a partir daí será possível discriminar o que representa atitudes indisciplinadas. Ou seja, entradas e saídas da sala de aula sem justificativas, descumprimento das atividades escolares, conversas paralelas durante a explicação de conteúdos, comentários inconvenientes, barulhos diversos, falta de respeito com o professor e com os outros alunos etc. Esses comportamentos poderiam ser classificados como o primeiro nível de indisciplina, os que de certa forma são considerados comuns.

E, paralelos a esse nível, temos situações mais complexas e mais graves como agressões aos colegas e professores, roubos, provocações sexuais, racistas etc. O que pode ser entendido como um segundo nível, que é mais violento e, infelizmente, vem crescendo dia a dia dentro das instituições de ensino. Salienta-se que a solução desses problemas mais agressivos ultrapassam os poderes da escola, cabendo a esta, o auxilio de outros órgãos do governo (conselhos tutelares, juizado especial da criança e do adolescente, polícia, etc.), para encontrar alternativas que sejam eficazes contra essas atitudes. Logicamente, ao se procurar outras entidades construtoras e reguladores das ações dos indivíduos, fica claro que a escola não é detentora de todos os poderes na formação da pessoa, e sim, só mais uma camada das esferas a que o individuo está submetido durante seu desenvolvimento.

  1. O QUE PROVOCA A INDISCIPLINA?

Atualmente existem grandes discussões acerca dos fatores causadores da indisciplina. E tais discussões vêm se estendendo dentro e fora do ambiente escolar, o que é oportuno, levando-se em consideração que o desenvolvimento do indivíduo se dá através da influência de vários fatores presentes no convívio familiar, escolar e social. No entanto, percebe-se que, na maioria dos casos indisciplinares, a preocupação maior é encontrar o culpado e puni-lo, quando se deveria procurar os meios de prevenção a tais causadores da indisciplina. A verdade é que esse descaso tem gerado grandes problemas no processo educativo. E que não se pode atribuir a causa a um único fator, visto que a indisciplina ao se manifestar de múltiplas maneiras, passa a ter várias interpretações.

Se traçarmos o caminho que o aluno percorre em seu processo de ensino, verificamos que, atrelado a esse percurso, existem contribuições diretas e indiretas dos agentes familiar, escolar e social. Neste aspecto, atribuir a responsabilidade a uma única causa, seria cometer um erro grotesco.

Assim, segundo Parrat-Dayan (2012, pag. 19):

O problema de indisciplina pode ser provocado por problemas psicológicos ou familiares, ou da construção escolar, ou das circunstâncias sócio – históricas, ou então, que a indisciplina é causada pelo professor, pela sua personalidade, pelo seu método pedagógico, etc.

Partindo desse contexto, podemos delinear alguns fatores causadores de indisciplina no que se refere à família, à escola-professor e à sociedade em geral.

Tendo a família como base, verifica-se que seu papel maior consistiria na formação do caráter, da personalidade, dos valores e principalmente na existência e imposição de limites à criança. Fazendo com que o aluno ao chegar ao ambiente escolar, perpetue sobre ele a consciência da existência de regras e normas de condutas necessárias para o bom relacionamento entre ele e professor/escola.

Todavia, a realidade é outra. Sendo comum ver a família transmitir à escola a responsabilidade de educar seus filhos, mesmo tendo conhecimento que alguns ensinamentos cabem intrinsecamente aos pais. Ou seja, o sentimento de solidariedade prevalece sobre o do dever (PARRAT-DAYAN, 2012). E ter que impor limites e regras representa, ao mesmo tempo, a instituição do castigo caso sejam descumpridos, e isso para alguns pais significar reduzir a relação de afetividade com seus filhos.

No entanto, não restringir as atitudes da criança dentro de casa, deixando que ela cresça sem normas e cometendo atos indisciplinados é esperar que esta mesma criança, ao chegar à escola, imagine ser possível cometer os mesmos erros sem restrições. Portanto, ao analisar a indisciplina em relação à família, é notório ver que a ausência do acompanhamento escolar dos pais, a falta de regras e de limites afetam diretamente o desenvolvimento psicossocial e da aprendizagem do aluno.

Outro fator que está diretamente relacionado ao surgimento da indisciplina é a relação que o aluno tem com a escola e com o professor. É preciso que a escola compreenda que a “indisciplina escolar não é um fenômeno estático, nem um fenômeno abstrato que mantem as mesmas características” (PARRAT-DAYAN, 2012, p. 22). Ou seja, atitudes que poderiam ser consideradas falta de disciplina no passado, hoje podem ser compreendidas como a manifestação da democracia estudantil, na busca de uma escola popular. E a escola, ao observar tais atitudes dos alunos deve se orientar no sentido de perceber que os tempos são outros e vivemos em uma sociedade em que a manifestação do pensamento é uma forma de aprendizagem. E ao estabelecer normas, deve busca facilitar as relações interpessoais e o processo de aprendizagem e não utilizá-la como uma ferramenta de atribuição exclusiva de controle sobre o aluno. Deve-se verificar também se tais normas tem embasamento legal e funcionará para garantir uma boa relação entre os alunos e professores/escola e se irá contribuir para a aprendizagem.

E em terceiro caso, tem-se a pessoa do professor, elo do discente com o conhecimento, que fica pressionado no meio do fogo cruzado, por um lado alunos cada vez mais hiperativos e do outro lado a família e a escola exigindo resultados. Essa pressão faz com que ele, em algumas situações, tome posições de autoritarismo, confundido o seu estado de autoridade dentro da sala de aula. Entretanto, o professor que toma para si uma aparência rude e autoritária, dificilmente conseguirá “dominar” a sala de aula e alcançar os objetivos para com o ensino, mas sim, formará pessoas que acreditem que a autoridade só pode ser alcançada através de imposições sem diálogo.

Tem-se ainda, a influência da sociedade na educação dos jovens de hoje. Sabe-se, como fora dito antes, que os meios de comunicações e as relações de convivência entre os jovens são fatores determinantes em sua formação. O acesso à informação, através da televisão, revistas, internet etc., tem, dia a dia, influenciado os jovens em todos os aspectos. O jovem se influencia cada vez mais pelo que vê na televisão e na internet, isso pode ter um lado positivo, se for tido como mais uma ferramenta para o desenvolvimento social do adolescente.

No entanto, ter acesso, não necessariamente, pode ser entendido como algo positivo, uma vez que a televisão e a internet trazem para o cotidiano das pessoas cenas cada vez mais violentas, fazendo com que essa violência seja vista como algo comum, sem estranheza. E a insensibilidade, de certo modo, torna a violência como algo comum e habitual na vida das pessoas. Fazendo com que os insultos, palavrões, agressões etc. Sejam tidas como atitudes normais dentro da escola e da sociedade.

Os jovens sofrem também a influência de pessoas de fora da família, e essas pessoas criam regras “internas” de convivência, e para não se tornar excluído e fazer parte do grupo é preciso ser “normal”, e ser normal neste ambiente é ter o mesmo estilo de roupas, ouvir as mesmas músicas, fazer o que os colegas fazem, mesmo que isso represente burlar as normas implícitas e explicitas presente na sociedade.

Finalizando, podemos compreender que não se pode fazer um julgamento precipitado acerca do tema, deve-se ver o meio familiar, o emocional do aluno, a escola, o meio social e  suas experiências de vida. Para só então encontrar a origem e os fatores que são decisivos para a indisciplina.

  1. QUE MEDIDAS SÃO CABÍVEIS PARA PREVENIR E SUPERAR A INDISCIPLINA?

O processo de ensino/aprendizagem sofre com os grandes transtornos que a indisciplina vem causando na formação do indivíduo. Com isso, tornou-se comum discussões que buscam alternativas que façam minimizar ou mesmo solucionar tal problema. O desafio é grande. E a família, a escola e o professor precisam trabalhar em conjunto para se ter um resultado satisfatório.

Quando falamos em trabalhar em conjunto, procuramos aqui, por exemplo, fazer uma alusão à importância da participação do diretor, do professor, da família e da comunidade na preparação do Projeto Político Pedagógico da escola. Esse entrosamento, sem dúvidas, soará resultados positivos dentro do âmbito educacional, uma vez que “o motor do desenvolvimento seria a interação democrática entre iguais”, (PIAGET, 1994 apud PARRAT-DAYAN, 2012, p.73).

Parrat-Dayan (2012. p. 69) é mais direta ainda e afirma que:

Se quisermos combater a indisciplina, é importante que na sala de aula possam ser discutidos, de maneira democrática, não apenas os conteúdos escolares, mas, também, as regras de convivência. Isto implica que as regras podem ser criadas, negociadas e renegociadas. E implica também permitir que os alunos falem, pois isso mostra uma disposição em acreditar que eles são capazes de cooperar e se respeitar uns aos outros, e, ainda, que o professor pode respeitar seus alunos.

Neste aspecto, devemos compreender que o ensino não pode ser obtido com imposição e autoritarismo, mas sim, através da ajuda mutua de seus colaboradores. E ao se buscar esse método, não se exclui aqui a responsabilidade individual que cada órgão deve assumir. Ou seja, existem crianças desobedientes, que gritam, quebram objetos, não tem limite em sua conduta, e quando essa criança chega na escola e, logicamente, ao tomar as mesmas atitudes a família entra em choque e resolvem cobrar e exigir da escolar uma mudança de seu filho. Quando a responsabilidade seria da família que não impôs, de forma gradativa, regras e limites a seus filhos.

Verifica-se que em muitos casos, conforme afirma Viana (2013), a escola e o professor preocupam-se em encontrar o culpado, tratando a indisciplina escolar de formar acusativa, sendo importante encontrar o culpado, julga-lo e puni-lo. Quando, diferente a essa atitude, devia-se “apontar os limites - como normalmente se faz -, mas também as possibilidades - geralmente esquecidas” (VASCONCELLOS, 1998, p.41). Ou seja, é preciso que se tenha, anterior à imposição de normas e punições ao aluno, um trabalho em conjunto de ressocialização, de conscientização, deixando claro não só suas obrigações, como  também suas garantias como aluno.

Vasconcellos (1998, p. 47) afirma ainda que:

A obtenção de disciplina por coação esta baseada no uso da punição como ameaça ou mesmo como prática efetiva. Esta forma de disciplina leva, portanto, à heteronomia (ser governado por outrem) ao invés de propiciar a autonomia (ser governado por si próprio). A prática de obtenção sistemática de disciplina por coação propicia a formação de uma personalidade dependente, imatura, pouco criativa, uma vez que a pessoa acostuma a sempre receber ordens de fora, não desenvolvendo o discernimento para saber o que é certo ou errado, não cultivando os seus valores, já que sempre alguém lhe impõe um comportamento.

Ou seja, a prática familiar e escolar de gerir             o comportamento da criança deve ser consciente, representando, de fato, uma forma sábia de conduzir o desenvolvimento da criança. Evitando, neste sentido, uma revolta por parte da mesma, fazendo com que esta decida não mais obedecer às normas impostas pelos pais, professores e escola, porque se sentem cansadas de satisfazer somente os interesses de outrem.

De modo geral, os limites impostos através de normas explícitas e implícitas são, quando aplicadas de forma adequada e consciente, a maneira mais propícia quando se busca minimizar ou mesmo abolir a indisciplina.

É oportuno ainda enfatizar a importância da família, da escola e do professor em compreender suas reponsabilidades como educadores. Onde tais entidades devem buscar uma boa relação aluno-professor; a participação da família na escola; a capacitação continua dos professores, uma vez que os professores devem estar preparados para receber alunos com características sociais e culturais distintas; valorização do trabalho coletivo, onde o envolvimento e a participação dos alunos nas aulas estreitam a relação aluno e professor, possibilitando um convívio mais agradável e respeitoso entre as partes; a abertura da escola, onde esta não pode significar somente um lugar onde se passam conteúdos escolares; e por último, deve-se trabalhar a conscientização dos atos indisciplinares dos alunos, pois o aluno dever refletir e compreender seus atos e saber o quanto eles podem prejudica-los.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

De todo o exposto, podemos concluir que a indisciplina possui vários significados e interpretações, e deve ser discutida levando-se em considerações fatores como a família, a escola, o professore e a sociedade.

Portanto, podemos concluir que a indisciplina tem ligações diretas com a falta de limite e de acompanhamento à criança dentro do ambiente familiar e escolar, fazendo com que os atos indisciplinados sejam repercutidos diretamente na escola e na sociedade.

A escola, por sua vez, precisa se tornar mais aberta e compreender que medidas disciplinares rigorosas não representam a formula abolicionista da indisciplina e que rigorosidade pode ser motivo para situações indisciplinares cada vez mais frequentes e violentas.

E, por ultimo, os professores devem tratar os alunos com respeito e procurar o diálogo como método de aproximação e reflexão frente a situações presentes dentro da sala de aula, fazendo com que suas aulas sejam atrativas e que os alunos tomem consciência da importância que a educação e o ensino representam em sua vida.

REFERÊNCIAS

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa; coordenação Marina Baird Ferreira, Margarida dos Anjos. –5. ed. – Curitiba: Positivo. 2010 2272 p;

PARRAT-DAYAN, Silvia. Trad. Sílvia Beatriz Adoue e Augusto Juncal – Como enfrentar a indisciplina na escola. 2. Ed., 1ª Reimpressão. - São Paulo: contexto, 2012;

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 1998;

VIANA, T. A. A (In) disciplina no processo de ensino – na perspectiva do aluno e do professor. 2013. 48f. Monografia (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza.