RISCOS E RABISCOS: TRAÇOS E TRILHAS DO DESENHO NA EDUCAÇÃO INFANTIL
 
RISCOS E RABISCOS: TRAÇOS E TRILHAS DO DESENHO NA EDUCAÇÃO INFANTIL
 


RISCOS E RABISCOS: TRAÇOS E TRILHAS DO
DESENHO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

1 Introdução

O presente trabalho vem colocar em pauta um assunto de suma importância para os profissionais da educação, e principalmente para os educadores da Educação Infantil. Trata-se dos "Riscos e rabiscos no desenho da Educação Infantil". Vem ressaltar, o quanto o desenho libera e exercita a imaginação das crianças.
Ao desenhar a criança "materializa" sua imaginação, criando outras realidades. Baseando nesta consideração, o presente trabalho, busca ressaltar o grafismo, não como um conjunto de rabiscos ou desenhos desprovidos de significações e, sim, como uma representação simbólica que a criança manifesta de sua visão de mundo, inserida num contexto sociocultural.
Discutiremos as possíveis, reais e necessárias formas de intervenção pedagógica manifestadas pelas ações do professor. Interventor esse, no processo educativo, no sentido de ampliar o olhar da criança, provocando a fantasia e a criação, apropriar-se do desenho como linguagem, como produção cultural, de oportunizar a criação de contextos significativos de aprendizagem que considerem o desenho como espaço de jogo, como espaço problematizador, provocativo e desafiador, que possibilitará transformar a imobilidade do olhar na plasticidade do ver.
O trabalho escrito entende que a linguagem pictórica (desenhos), proporciona uma aprendizagem rica em desafios, respeitando a espontaneidade e a criatividade da criança, favorecendo informações sobre o mundo que a cerca, satisfazendo suas necessidades emocionais, sociais e físicas.
Comumente vinculado à livre forma de expressão, o ato de desenhar é fartamente explorado no contexto escolar, embora o percurso de seu ensino muitas vezes não utilize como prerrogativa seu aspecto de linguagem, que requer um ensino baseado na construção dessa linguagem, especialmente no cenário da Educação Infantil.
Podemos entender o desenho como linguagem, um sistema dinâmico de signos que se relacionam diretamente com o desenvolvimento cultural da criança e que ganham sentido nesse contexto.
Como questões norteadoras deste estudo abordamos as seguintes reflexões:
Como podemos fazer para o professor se instrumentalizar em relação à linguagem pictórica, a fim de se tornar sensível ao mundo gráfico da criança?
Como o desenho pode se vincular à construção de conhecimentos, à aprendizagem?
Objetivamos desse modo, oferecer aos educadores uma visão da importância dos desenhos da criança, para que os mesmos possam se instrumentalizar em relação á linguagem pictórica, a fim de se tornar sensível ao mundo gráfico do educando e especificamente:
? Esclarecer aos educadores como trabalhar com desenhos, ajudando seus alunos a se expressarem através deste.
? Contribuir de forma significativa para o entendimento do ato de desenhar como atividade sensível e inteligente.
? Despertar na criança, o gosto e o prazer pelo desenho, e ao mesmo tempo, trabalhar a coordenação motora, linguagem e criatividade.
A proposta metodológica vincula-se ao desenvolvimento de um trabalho voltado para os educadores da Educação Infantil, pois vem tratar de um assunto onde alguns educadores, deixam passar despercebido. Enquanto procedimento metodológico utilizamos a pesquisa bibliográfica, de caráter explorativo.
Dividimos nossa equipe, a qual foi atribuída tarefas para cada componente visando á integração do grupo e melhor andamento do projeto.

2 Aportes Teóricos Fundamentais

2.1 Jean Piaget e suas concepções de desenvolvimento

O suíço Jean Piaget (1896-1980) é uma importante referência para entendermos o desenvolvimento e a aprendizagem humana.
Para Piaget os seres humanos passam por uma série de mudanças ordenadas e previsíveis que são: o interacionismo, a idéia de construtivismo seqüencial e os fatores que interferem no desenvolvimento.
Segundo Piaget, a criança é concebida como um ser dinâmico, que a todo o momento interage com a realidade, operando ativamente com objetos e pessoas. Essa interação com o ambiente faz com que construa estruturas mentais e adquira maneiras e fazê-las funcionar. O eixo central, portanto é a interação organismo-meio e essa interação acontece através de dois processos simultâneos: a organização interna e a adaptação ao meio, funções exercidas pelo organismo ao longo da vida.
A adaptação definida por Piaget, como o próprio desenvolvimento da inteligência, ocorre através da assimilação e acomodação. Os esquemas de assimilação vão se modificando, configurando os estágios de desenvolvimento.
Considera, ainda, que o processo de desenvolvimento é influenciado por fatores como: maturação, exercitação, aprendizagem social e equilibração. E é com base nesses pressupostos que a educação deve possibilitar à criança um desenvolvimento amplo e dinâmico desde o período sensório-motor até o operatório abstrato.

2.2 Dois autores interacionistas:

2.2.1 Vygotsky

Dois pesquisadores na área da psicologia que trouxeram grandes contribuições para o desenvolvimento infantil: o russo Lev Vygotsky (1896-1934) e o francês Henri Wallon (1879-1962). Ambos consideram a constituição social do sujeito dentro de uma cultura concreta.
Para Vygotsky, as origens da vida consciente e do pensamento abstrato, deveriam ser procuradas na interação do organismo com as condições de vida social, e nas formas histórico-sociais de vida da espécie humana e não, como muitos acreditavam, no mundo espiritual e sensorial do homem. Deste modo, deve-se procurar analisar o reflexo do mundo interior dos indivíduos, a partir da interação destes sujeitos com a realidade. A origem das mudanças que ocorrem no homem, ao longo do seu desenvolvimento está, segundo seus princípios, na Sociedade, na Cultura e na sua História.
As interações adulto-criança em tarefas culturalmente estruturadas, com seus complexos significativos criam sistemas "partilhados de consciência" culturalmente elaborados e em uma contínua transformação.
Vygotsky afirma que toda função psicológica superior manifesta-se, primeiro, em uma situação interpessoal e depois em uma situação intrapessoal. È na troca com outros sujeitos e consigo próprio que se vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a constituição de conhecimentos e da própria consciência.
Para entender a relação entre desenvolvimento e aprendizagem, Vygotsky criou o conceito de zona de desenvolvimento proximal. Segundo ele a criança transforma as informações que recebe de acordo com as estratégias e conhecimentos por ela já adquiridos em situações vividas com outros parceiros mais experientes. Através de experiências de aprendizagens compartilhadas, atua-se nesta zona de desenvolvimento proximal, de modo que funções ainda não consolidadas venham a amadurecer.
Desta forma, verificamos o quanto a aprendizagem interativa permite que o desenvolvimento avance. Ressaltando a importância das trocas intrapessoais, na constituição do conhecimento, Vygotsky mostra através do conceito zona de desenvolvimento proximal, o quanto a aprendizagem influencia o desenvolvimento.

2.2.2 Wallon e a Psicologia Infantil

Wallon, tal como Vygotsky, considerava o desenvolvimento humano como resultante de uma dupla história que envolve as condições de sujeito e suas sucessivas situações nas quais ele se envolve e às quais responde. Wallon realiza um estudo que é centrado na criança contextualizada, onde o ritmo no qual se sucedem as etapas do desenvolvimento descontínuo, marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas, provocando em cada etapa profundas mudanças anteriores.
Segundo Wallon toda pessoa constitui um sistema especifico de trocas com o meio. Tal sistema integra suas ações num processo de equilíbrio funcional que envolve motricidade, afeto e cognição, mas no qual, em cada estágio de desenvolvimento, uma forma particular de ação predomina sobre outras.
Wallon enfatiza o papel no desenvolvimento humano, pois, todo o contato que a criança estabelece com as pessoas que cuidam dela desde o nascimento, é feito de emoções e não apenas cognições, ele baseou suas idéias nos seguintes elementos: afetividade, emoções, movimento e formação do eu.
Para ele a afetividade possui um papel fundamental no desenvolvimento da pessoa, pois é por meio delas que o ser humano demonstra seus desejos e vontades. As transformações fisiológicas da criança revelam importantes traços de caráter e personalidade.
As Emoções é altamente orgânica, ajuda o ser humano a se conhecer. A raiva, o medo, a tristeza, a alegria e os sentimentos mais profundos possuem uma função de grande relevância no relacionamento da criança com o meio.
Os Movimentos- as emoções da organização dos espaços para se movimentarem. Deste modo, a motricidade tem um caráter pedagógico tanto pela qualidade do gesto e do movimento, quanto pela maneira com que ele é representado. A escola ao insistir em manter a criança imobilizada acaba por limitar o fluir de fatores necessários e importantes para o desenvolvimento completo da pessoa.
A Formação de Eu- a construção do eu depende essencialmente do outro. Com maior destaque de quando a criança começa a vivenciar a "crise de oposição", na qual a negação do outro funciona como uma espécie de instrumento de descoberta de si própria.
Wallon mostra uma nova concepção de motricidade, da emotividade, da inteligência humana e uma maneira original de pensar a Psicologia infantil.

3 O desenho e a individualidade da criança

Desenho como parte da história coletiva e individual do sujeito, remete especialmente a um tempo de descobrimento, á infância. Companheiro de brincadeira da criança dentro e fora da sala de aula, esse componente lúdico de experiências de vida é observado especialmente na fase que acontece o ingresso da criança na escola.
Sabemos que atualmente, graças a teóricos como Piaget, Vigotsky e Wallon, que a criança aprende a partir das múltiplas interações que estabelece com o meio sócio cultural, que a aprendizagem se dá por meio da relação com o outro, que nessa caminhada para o desenvolvimento há sempre um espaço para o imprevisível, o inesperado, a perplexidade e que não existe uma linearidade no desenvolvimento do ser humano. E é participando, ativamente, de uma comunidade educativa, que as crianças possuem a oportunidade de estabelecerem inúmeras trocas com outras crianças, com adultos e com instrumentos culturais como livros, obras de arte, brinquedos e brincadeiras, objetos, a observação do mundo real, etc. Portanto, é a partir de suas relações com o que a criança vai se apropriando das significações socialmente construídas, permitindo que compreenda as formas culturais de se perceber de estruturar a realidade.
Aprende-se por meio de uma multiplicidade de linguagens. Brincando, falando, escrevendo, lendo, construindo coisas, explorando o mundo, desenhando, se expressando, sensibilizando, imaginando, criando e recriando.
Para os profissionais que trabalham com a Educação Infantil, é importante compreender de que maneira a criança desenvolve cada uma dessas linguagens. E é por meio desse conhecimento que poderemos organizar um trabalho que considere as diferentes maneiras de construir o percurso sócio cultural de cada ser humano.
Como traduzir essas concepções num trabalho cotidiano, dentro de uma sala de aula, de um espaço educacional?
O professor precisa conceber o processo criativo da criança como elemento de cultura, como atividade construída socialmente que oferece a possibilidade de criar e recriar a cada nova produção a realidade que a cerca, devendo colocar as crianças em contato com materiais diversos da cultura contemporânea, com o belo, com a capacidade de apreciar o que se tem para ver o mundo.
Nessa fase, as crianças estão desenvolvendo funções mentais bastante elaboradas, estão ampliando sua visão de mundo, bem como a percepção do cotidiano. Os desenhos carregam uma relação estreita com as emoções mais sinceras, as crianças desenham seus desejos, seus sonhos, seus medos. Fazem de espaço criativo um construir e reconstruir da imaginação e da memória afetiva.
A linguagem plástica vincula-se com a possibilidade de aprender de forma significativa e com acesso á cultura e, portanto com o objetivo maior da Educação Infantil, que é fazer com que a criança possa conhecer o mundo em que vive conhecer a si mesmo e ao outro de maneira ativa, construtiva e baseada nas interações que estabelece com seus pares, com os adultos e com os objetos.
As formas construídas e determinadas individualmente pelas crianças ajudam a estruturar uma identidade bastante peculiar de como cada uma constrói seu grafismo. Ao mesmo tempo em que precisa de referências e orientações, precisa ainda mais de liberdade de ação e reflexão.
Por, isso um ambiente que proporcione desafios a essas mentes criativas é de imenso valor e pode auxiliar a criança nesse percurso, no qual ela se utiliza dos recursos simbólico do meio artístico para construir representações significativas especificas que só a arte é capaz de proporcionar.
A arte trabalhada com crianças visa favorecer o desenvolvimento das capacidades criativas das crianças, trabalhando de forma integrada seu pensamento, sensibilidade, imaginação, percepção, intuição e cognição.
O desenho infantil invade vários campos do conhecimento: mostra conhecimentos matemáticos (simetria, tamanho, quantidade), históricos (arquitetura, noções de tempo, etc.).
Sendo assim, a arte constitui um processo no qual a criança reúne diversos elementos de sua experiência visando formar um novo significado para tudo que vê, sente e observa. A criança aprende, representa e utiliza conhecimento de muitas formas e maneiras.
O professor pode abrir uma serie de diferentes janelas para a criança. Ensinar lembrando sempre que o conhecimento é algo construído e reconstruído no contato com as experiências, com outros espaços, outras pessoas, focalizando seu olhar para o desenho, como uma situação privilegiada de aprendizagem infantil, em que o desenvolvimento pode alcançar níveis cada vez mais complexos de interpretação, decodificação e atuação em seu meio, de apropriação de conhecimento e da construção de seu próprio conhecimento.
Podemos destacar, do ponto de vista do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças, inúmeras conquistas e vantagens sociais, cognitivas e afetivas advindas por meio do desenho:
? Desenvolvimento intelectual, afetivo e social;
? Estimulo à exploração do universo imaginário;
? Mobilização para o interesse pelo outro e pela cultura;
? Permissão à criança trabalhar suas percepções sentimentos e pensamentos;
? Possibilidade de comunicação, tanto interpessoal como intrapessoal;
? Capacidade de perceber e significar o mundo que a rodeia;
? Acervo de imagens na memória vai fornecer mais material bruto para a criação;
? Resolução de problemas por meio da imaginação criadora.
Diante de tudo isso que foi exposto até aqui, fica clara a intensa relação que existe entre o desenho e a possibilidade de aprender. A possibilidade de transformar ludicamente, a aprendizagem proporciona às crianças um canal competente e exclusivo para abordar significados importantes e complexos, uma vez que nessa faixa etária a expressão pictórica explica melhor o contexto de cada criança do que a própria linguagem verbal. Daí a importância de oportunizar á criança muitos momentos de expressão nas diferentes linguagens.

3.1 A criança e o lúdico na linguagem pictórica

Pensar o desenho da criança de zero a seis anos constitui num desafio quando percebemos que muito se tem falado sobre o desenho, mas quase nada com um corte específico em torno do processo da produção das crianças.
Para o desenho ser considerado e percebido de forma séria e particular, é necessário sublinhar que essas crianças, como sujeitos singulares que são contextualizados, possuidores e criadores de histórias e de cultura, com especificidades em relação aos adultos, são, sim hoje, crianças: cidadãos de pouca idade.
Uma nova atitude surge nesse momento dentro do contexto escolar. O professor, atuando como um mediador para o acesso da criança à cultura do grupo ao mesmo tempo em que se constitui num interventor para a interação direta entre a criança e os objetos à sua volta, possibilita um vínculo positivo das crianças com o processo de exploração do mundo, a constituição de sujeitos ativos, formuladores de hipóteses, criativos, transformadores.
Diante desse olhar e uma atitude em relação à criança, considera-se que aprender é também interagir com uma multiplicidade de linguagens. Palavras, ações, gestos, expressões de afeto por meio do corpo, do desenho, do olhar, tudo isso compõe o dia-a-dia da criança dentro do espaço escolar e também funcionam como referência de constância e continuidade, tornando o espaço educativo compreensível para ela e abrindo caminhos para as descobertas e surpresas e para a manifestação da criança infantil.
Toda criança em algum momento pede papel e lápis para desenhar. Toda criança desenha. Mesmo que não esteja dotada dos meios necessários para tal, a criança busca outros instrumentos, para deixar, nas superfícies, o registro de suas idéias, suas vontades, suas fantasias e seus gestos: se não tiver papel, pode ser na terra, na parede, nos muros, nos móveis, se não tiver lápis pode serve um giz, uma pedra, cacos de tijolos, carvão, tinta.
O lúdico na linguagem pictórica envolve o expressivo, o sensível, o estético e introduz a criança na esfera do artístico. O resultado dessa atividade expressiva pode variar de rabiscos, bolinhas e manchas disformes, até a identificação de uma casinha, mas dificilmente será uma transposição fiel da realidade, ou seja, o desenho não é uma cópia do real, mas sim uma representação do real.
O desenho infantil traduz o grau de maturidade da criança, seu equilíbrio emocional e afetivo, seu desenvolvimento motor e cognitivo. Poucos adultos conseguem perceber o quanto o desenho infantil pode ser revelador.
Desenhar só se aprende desenhando. Se por um lado o ato de desenhar é espontâneo e uma necessidade motora, por outro lado são gestos, construídos e imitados de cultura, reelaborados, inventados.
O grafismo é o meio pela qual a criança manifesta sua expressão e visão do mundo, o exercício de uma atividade imaginária, que se relaciona a um processo dinâmico, em que a criança procura representar o que conhece e compreende. Pode ser o desenho infantil um meio de compreensão da realidade, é um valioso instrumento para a construção de conhecimentos, pois mostra um produto resultante da imaginação e atividade criadora da criança.
A escola poderia ser um espaço propício ao afloramento de linguagens: um espaço privilegiado de criação?
Para que se construa um espaço de criação dentro da escola, o professor necessita vivenciar suas próprias descobertas, aventurar-se a aprender sempre, para saber valorizar as criações espontâneas das crianças e ajudá-las a desenvolver conhecimentos que a façam avançar no seu processo de criação. O educador precisa reconhecer a arte, mais especificamente o desenho infantil, como atividade integradora da personalidade da criança, estreitando a relação dela com o seu próprio corpo, suas emoções, conceitos, sua intuição e percepção, pois o ato criador surge essencialmente num processo simbólico e estabelece novas relações com a realidade cognitiva e emocional.
Este é o grande desafio do professor: a clareza da contribuição da arte no processo educativo e criativo, cuja aprendizagem no âmbito prático e reflexivo se dá por meio da articulação dos seguintes aspectos: o fazer artístico, a apreciação e a reflexão. O desenvolvimento da capacidade artística e criativa deve estar apoiado na prática reflexiva das crianças ao aprender, articulada à ação, percepção, sensibilidade, cognição e imaginação.
Quando desenha, a criança se utiliza de imagens que nascem da observação, da memória e da imaginação. Poderíamos relacionar a observação com o presente, a memória com o passado e a imaginação com o futuro.
A criança não esquece nada do que é significativo, assimila tudo o que vê e o que vivência. A vontade de conhecer e aprender impulsiona a assimilação e a retenção das informações. A memória também proporciona o ato criativo, esta resgata lá do "fundo do baú" os pensamentos, que se tornam novos repertórios para novas associações. A memória é aliada a imaginação.
Wallon concebe a imaginação e a sensibilidade como articuladores do conhecimento, por meio dos quais a criança se apropria de experiências e imagens. Segundo o autor, "a fantasia é constituída sempre com material retirado do mundo real, ou seja, a imaginação se encontra em relação direta com a riqueza e a variedade da experiência acumulada diretamente pelo homem. Quanto maior for a experiência do mesmo, maior será as suas possibilidades para imaginar". (1971, p. 18).
No ato de desenhar está subentendido uma conversa entre o pensamento e a ação, entre o que está interno e o que está externo, onde a percepção e a sensibilidade representam as janelas para o mundo. A visão também é uma janela aberta, que permite a transposição entre os fios que articulam o processo criativo: a observação, a memória e a imaginação.

3.2 O desenho e o desenvolvimento da infância

Compreender o percurso expressivo da criança é um trabalho estimulante. As oportunidades oferecidas, as ações educativas intencionais, os valores culturais, a visão processual e orgânica dão um colorido de forma singular nas produções e concepções artísticas das crianças. Todavia, os estudiosos desse desenvolvimento têm percebido que mesmo em cenários e épocas diferentes certas semelhanças mostram aspectos fundamentais que são comuns.
O importante nesse processo é o educador ampliar o olhar para além dos padrões e procurar ver as crianças pelo que elas têm não pelo que lhes falta. Desenhar não é uma tarefa das mais fáceis para as crianças, porque não é um fazer sem conseqüências ou aleatório; mesmo que seja pelo simples prazer do gesto como podemos observar nas primeiras marcas que as crianças deixam no papel.
O trabalho com a linguagem do desenho requer profunda atenção no que se refere ao respeito à individualidade e esquemas de conhecimento próprios a cada criança. O pensamento, a sensibilidade, a imaginação, a percepção e a intuição da criança devem ser trabalhadas de forma integrada, visando favorecer o desenvolvimento das capacidades criativas das crianças.
Por meio dos desenhos a criança não só demonstra seu mundo interior, seus conflitos, seus receios, suas descobertas, suas alegrias, suas tristezas, suas emoções, como os trabalha. No ato de desenhar, pensamento e sentimento estão juntos. O desenho como possibilidade de brincar e de comunicar marca o desenvolvimento da infância.
Percebendo a diversidade de ênfases de várias teorias, tentaremos compor um pano de fundo para nutrir a construção da leitura sobre o ser expressivo da criança, estabelecendo paralelos entre as teorias, sem o pressuposto de enfatizar um ou outro aspecto, sem enfatizar o desenvolvimento do desenho infantil.
O desenho pode ser entendido como um traço, um risco, um rabisco sobre uma superfície. Coisa de lápis e papel. No processo da leitura, com domínio da mão e do olhar, o desenho é expressão e projeto, ou melhor, uma tensão entre os dois termos - risco pensado pela mão tateado pelo pensamento. Começa assim o movimento da ação, pesquisa do exercício.
Quando a criança pega no lápis e descobre seus registros, começa a rabiscar obsessivamente até desgastar toda a ponta do lápis. Sua criação focaliza a própria ação, o exercício, a repetição. A expressividade apresenta num primeiro momento a ação, voltada à pesquisa e ao exercício do ato. Esse período inicial do desenho pode ser definido como uma atividade motora, um jogo de exercício, em que a criança vai expressar gestos motores amplos.
DERDYK (2004, p. 56) destaca que "permanência da linha no papel se investe de magia e esta estimula sensorialmente a vontade de prolongar este prazer, o que significa uma intensa atividade interna, incalculável por nós adultos".
Com isso, a repetição de gestos ocasiona a produção de diferentes resultados descomprometidos de figuração; no entanto, à medida que a criança faz a associação de gestos e traços, desenvolve sua atividade mental.
Durante o ato de desenhar, as crianças visualizam as formas em meio ao seu rabisco, mostrando a sua própria experiência individual. Desse modo, inserção da mão, olho e cérebro, evidencia a capacidade de imaginar e suas projeções concretizam a maravilhosa experiência de existir.
A criança, vê, sente, escuta, cheira, movimenta-se, pensa, age, expressa-se e desenha com o corpo, sorri e canta com o corpo todo. O corpo é ação, é pensamento.
No momento que se desenha, a criança imprime suas marcas no papel de uma forma espontânea e em diversas direções, isso ocorre porque ele ainda não tem o domínio de proporção sobre o papel. A criança explora livremente o espaço do papel, não por motivos estáticos, mas por prazer cinético (ato de movimentar). Ela descobre que os riscos são feitos por ela própria e começa a se concentrar na atividade com interesse renovado, passando a controlar seus rabiscos.
A criança não é uma produtora de signos, de forma consciente. Entretanto, como faz parte de um mundo inserido de cultura, convive, sente, reconhece e repete os símbolos do seu entorno, já é leitora e imitadora de símbolos. A imitação é uma forma de importante de aprendizagem.
Assim como imita tudo que vê, e considera interessante, a criança imita a ação adulta de riscar no papel. Seu interesse está no gesto que imita com muito prazer, e não na intenção daquilo que o adulto está fazendo. Imita ação, o agir, o escrever, o desenhar. O importante á a própria ação que imita.
A repetida exploração e experimentação do movimento ampliam o conhecimento de si própria, do mundo e das ações gráficas. Muito antes de saber representar graficamente o mundo visual, a criança já o reconhece e identifica nele qualidades e funções. É a famosa fase dos rabiscos. Quando bem pequena as crianças desenham e pintam com todo o corpo. Elas vão inteiras, totais, sentindo o material e maravilhando-se com sua produção. Pura magia!
O desenvolvimento progressivo do desenho implica mudanças significativas que, no inicio, dizem respeito à passagem dos rabiscos iniciais para construções cada vez mais ordenadas, fazendo surgir os primeiros símbolos. A função simbólica é o centro do processo de ensino e aprendizagem, seja ela formal ou informal. A criança constrói seus símbolos.
O desenho vai da ação até a representação na medida em que evolui da sua forma de exercício sensório-motor para a sua forma segunda de jogo simbólico. O desenho entra na categoria de jogo simbólico ou imaginário quando permite à criança exprimir um pensamento individual.
O ponto de partida para o desenvolvimento do desenho, da expressividade, do seu fazer artístico, é o ato simbólico que permite reconhecer que os objetos persistem independentes de sua presença física e imediata. Operar no mundo dos símbolos é permanecer e interpretar elementos que se referem a alguma coisa que está fora dos próprios objetos. Os símbolos representam o mundo a partir das relações que a criança estabelece consigo mesma, com as outras pessoas, com a imaginação e com a cultura.
No decorrer da simbolização, a criança incorpora progressivamente regularidades ou códigos de representação das imagens do entorno, passando a considerar a hipótese de que o desenho serve para imprimir o que se vê. Começa, assim, um movimento: ação-pesquisa-exercicio-intenção-simbolo. Surge a intenção de simbolizar no desenho o que deseja. Nesse movimento, a criança preserva a intenção inicial do desenho, após a finalização do desenho. É assim que, por meio do desenho, a criança cria e recria individualmente formas expressivas, integrando percepção, imaginação, reflexão e sensibilidade.
Esse período se caracteriza pelo desenvolvimento da capacidade pelo desenvolvimento da capacidade de representação, em suas diferentes manifestações: a imitação, o brinquedo, a imagem mental, o desenho e a linguagem verbal. São representações sobre representações. Por meio dessas ações e das diferentes formas de linguagem, representa objetos e as ações sobre eles, representando também seus conceitos.
No modo simbólico, a representação centra-se no manejar e constituir o símbolo em si. Não há preocupação com a organização das cenas no papel, seus desenhos parecem soltos no espaço. As cenas se expressam por meio da fala, da historia que a criança conta de seu desenho. Muitas vezes parecem existir dois desenhos, o que está traçado no papel e o que a criança verbaliza. Muitas vezes, a criança chega a movimentar a folha para contar sobre o desenho que realiza. Quanto às cores, também não existe um vinculo com a realidade, elas são utilizadas mais pela aparência visual, não simbólica. A dimensão é afetiva não visual.
Para Vygotsky, a criança é um ser social que interage na complexidade de relações constituidoras de suas funções psicológicas. As crianças estão mais preocupadas com a realidade; são mais simbolistas que realistas e, assim, desenham de memória, mesmo com o objeto a sua frente. A criança desenha pensando e, por isso, suas experiências anteriores têm tanta importância; relacionas as construções imaginativas à quantidade de experiências acumuladas pelo sujeito-criador.
Dessa forma, a imaginação e a realidade cotidiana, mediadas pela linguagem, fundem-se na composição o desenho daquilo que a criança conhece. Os desenhos são, então, signos constituídos pelas interações sociais.
A representação da figura humana cria vínculos de identidade profundos. A necessidade de buscar a si mesmo, definindo a sua imagem e sua figura no mundo, expressa-se na insistência natural que a criança tem de desenhar figuras humanas.
A criança começa a diversificar as formas por meio da diferenciação de tamanho daquilo que entra na composição de seus desenhos, de orientação e de cor, bem como pela inclusão de detalhes, de combinações novas e de ações entre as formas. No modo simbólico de estar no mundo, proporcionamos às crianças a possibilidade de inventar, de construir novas relações, de criar a partir de suas idéias. Há uma ótica pessoal de ver, pensar e sentir o mundo.
Na continuidade da ciranda de construção da linguagem expressiva da criança, os movimentos aprimoram-se para a ação, pesquisa, exercício, interação, símbolo, incluindo nesse momento a organização e a regra. Agora a criança tem a intenção de buscar o que parece verdadeiro, vai ocorrendo cada vez mais a aproximação do real e a preocupação com a semelhança do objeto no seu processo criativo, procurando convenções e regras com certa exigência.
Depois da descoberta e das invenções de seus próprios símbolos, a criança e a expressividade são dominadas pelo desejo de registrar tudo. As respostas gráficas que a criança encontra, a criação de novas relações, são algumas peripécias criativas que a criança vai produzindo para registrar o que vê, intui, imagina e sabe.
A criança passa a explorar expressividade no desenho, começa a criar cenas com os objetos, cria uma ligação entre as formas desenhadas e sua disposição no papel.
É nesse movimento notacional que a criança estrutura o sistema de representação do desenho, diferenciando e coordenando as representações de forma, espaço e cor. Na execução da linguagem pictórica, começa a aparecer o interesse por representar as proporções e as distâncias entre os objetos, a organização das formas criadas em uma cena, ampliando as relações minuciosas para todo o espaço gráfico.
O momento expressivo agora apresenta mais autocrítica na comparação entre o real, a imaginação e a produção. A escolha da cor também obedece à regra e à organização. As imagens devem ter a cor da realidade, e as convenções ditam as regras. Verifica-se também, nesse momento, a incorporação de um intrigante procedimento por parte das crianças: o uso da linha base, ou seja, a criança traça uma linha definindo a base sobre a qual serão apoiados os objetos e figuras do desenho. Ampliam-se as possibilidades de expressão da criança, para interpretar, improvisar e compor sua produção.
O desenho constitui um processo no qual a criança reúne diversos elementos de sua experiência visando formar um novo significado para tudo que vê, sente e observa o que demonstra que a habilidade em desenhar um determinado objeto, dependerá do tempo e da prática que a criança possui em desenhá-lo; logo sua habilidade gráfica geral será ampliada.


Considerações Finais

Pudemos perceber através desta pesquisa a importância do desenho na Educação Infantil.
Através do desenho a criança cria outras realidades e os riscos e rabiscos que muitas vezes passam despercebidos representam a visão do mundo para os pequeninos.
Como educadoras passamos a entender melhor a individualidade de cada criança, respeitando os seus momentos.
















Referências Bibliográficas

DERDICK, Edith. Formas de pensar o desenho. Paulo: Scipione, 2004.
GREIC, Philippe. A criança e seu desenho: O nascimento da arte e da escrita. Porto Alegre: Artmed, 2004.
PILLAR, Analice Dutra. Desenho e construção de conhecimento na criança. Porto Alegre: Artmed, 1996.
MACHADO, Maria Lucia de A. Encontros e desencontros em Educação Infantil. São Paulo: Cortez, 2005.
MERÉDIEU, Florende de. O desenho infantil. São Paulo: Cultrix, 1974.
MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyila, 1993.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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