Profissão Docente: Levantamento De Necessidades A Partir Da Análise De Entrevistas
 
Profissão Docente: Levantamento De Necessidades A Partir Da Análise De Entrevistas
 


Profissão Docente: levantamento de necessidades a partir da análise de entrevistas.

Elaine Cristina Rinaldi*

Resumo: Este artigo analisa entrevistas realizadas com professores para uma pesquisa de iniciação cientifica sobre necessidades formativas. Os dados levantados foram agrupados em cinco categorias de análise extraídas dos relatos dos sujeitos entrevistados. As categorias referem-se às dificuldades enfrentadas pelos professores, ao nível de satisfação na profissão, às necessidades detectadas pelos docentes ao longo da profissão e às deficiências na formação inicial e ainda às necessidades com relação a programas de formação continuada.

Palavras-chave: Profissão Docente. Levantamento de Necessidades. Formação Continuada.

1 Introdução

O presente artigo analisará as entrevistas realizadas numa pesquisa de iniciação cientifica que teve como temática asnecessidades formativas em professores das séries iniciais do ensino fundamental com o propósito de verificar a criação de possíveis programas de formação continuada tendo em vista as necessidades levantadas.

A pesquisa teve como objetivo analisar como pode se processar a formação do indivíduo numa sociedade em que própria formação acaba sendo ultrapassada em função das mudanças sociais ocorrentes. A questão-problema que permeou o trabalho foi "Como formar indivíduos para a sociedade quando a própria formação dada está ultrapassada pelas mudanças sociais?".

A realização desse trabalho ocorreu no ano de 2005 e foi feito por mim e por outra pesquisadora que faz parte do projeto. As atividades se constituíram de busca do referencial teórico, elaboração de questionários, realização de entrevistas, transcrição das entrevistas, análise dos dados coletados e redação do relatório da pesquisa realizada.

Os referenciais teóricos nos quais nos baseamos, apontam que as mudanças sociais afetam substantivamente todas as instituições responsáveis pela socialização e manutenção da sociedade, uma vez que elas modificam seus perfis, suas funções, seus valores e seus objetivosfazendo com que os profissionais que nelas atuam necessitem de uma renovação na profissão ou outra formação para atender às novas demandas colocadas.

Especificamente dentro do contexto educacional, o professor é o alvo mais atingido pelas mudanças, principalmente pela responsabilização que a ele é imputada pelas conseqüências geradas das mudanças, como indisciplina, mau comportamento e outros. Dessa forma, o professor passa a sentir-se desajustado com relação à sua profissão e pode vir a sofrer o mal estar docente que leva o profissional a uma crise de identidade, isto é, o profissional sente-se incompetente para realizar seu trabalho em função da imagem ruim que ele e a própria sociedade passam a ter do que é ser professor. Os professores sofrem as mudanças e manifestam suas necessidades para uma formação em serviço que consiga dar respostas mínimas para essas mudanças, tendo em vista recuperar o valor e a importância e, sobretudo, a eficácia da educação.

Deste modo, procedeu-se o trabalho de campo dessa pesquisa tendo em vista o levantamento de necessidades formativas nos docentes. Para tal, foram utilizados dois conceitos fundamentais que permearam o trabalho e outros que complementaram a análise.O primeiro conceito utilizado interpreta as necessidades como discrepâncias ou lacunas, ou seja, necessidades são vistas como uma discrepância entre um resultado atual obtido e um resultado que deveria se obter (Kauffman, apud Rodrigues e Esteves, 1993).O outro conceito mostra que as necessidades que os profissionais têm não são fixas, elas mudam em função do contexto em que os profissionais estão inseridos na instituição e que, também, depende do sujeito para se modificar. Elas podem ser inconscientes ou se confundirem com outras necessidades que são perceptíveis.

A partir do levantamento e da análise das necessidades expostas pelos docentes pode-se pensar em atenuá-las através de programas de formação continuada que tenham como base conteúdos que atendam às necessidades levantadas e possam contribuir positivamente para o trabalho do professor em sala de aula, bem como amenizar o mal estar docente causado pelas mudanças sociais.

 

2 Análise das Entrevistas

As entrevistas foram realizadas em duas escolas municipais da cidade de Araraquara e o convite para que elas ocorressem aconteceu em um curso de Formação Continuada de Professores ministrado pela Secretaria Municipal da Educação de Araraquara.

Os sujeitos entrevistados foram sete professoras que atuam na Rede Municipal de ensino. Todas elas estavam lecionando em salas do 1º ano do ciclo I.

Sujeito Entrevistado

Idade

Formação

Tempo de exercício da profissão

Sujeito 1

27 anos

Pedagogia

7 anos

Sujeito 2

32 anos

Pedagogia e Especialização e n Gestão Educacional

9 anos

Sujeito3

42 anos

Pedagogia e Pós-graduação em Educação Infantil

8 anos

Sujeito 4

31 anos

Pedagogia e Pós-graduação em Educação Infantil

14 anos

Sujeito 5

29 anos

Pedagogia

4 anos

Sujeito 6

43 anos

Pedagogia e Especialização em Gestão Educacional

6 anos

Sujeito 7

27 anos

Direito e Magistério

7 anos

Essas professoras foram entrevistadas individualmente em salas isoladas como laboratório de informática, sala de aula vazia e biblioteca. As entrevistas foram gravadas mediante autorização de cada sujeito e teve duração, em média, de 15 a 30 minutos.

A entrevista foi estruturada em quinze perguntas que teve como objetivo levantar dados a respeito da formação inicial, da formação continuada e, também, das dificuldades e satisfações encontradas no início da profissão.

Questões da Entrevista

Objetivos

Perguntas 1 e 2

Questionam a respeito da profissão docente, o porquê da escolha da profissão e as dificuldades ocorridas.

Perguntas 3 e 4

Relacionam-se com as atividades que trazem satisfação ou insatisfação ao professor

Perguntas 5 e 6

Buscam levantar as necessidades que os professores sentem no exercício da profissão.

Perguntas 7 e 8

Buscam informações sobre a Formação Inicial dos docentes.

Perguntas 9, 10, 11 e 14

Buscam dados a respeito da Formação Continuada

Perguntas 12 e 13

Questionam a atuação do professor dentro da escola (na sala de aula e nos afazeres obrigatórios)

Pergunta 15

Busca saber o que o docente pensa a respeito do papel do professor dentro de uma sociedade tecnológica.

Os dados obtidos pelas entrevistas permitiram que fossem agrupadas as respostas em categorias de análise que expressassem o conjunto de indicadores apontados com freqüência considerável pelos professores. Medianteisso, as categorias extraídas foram:

1. Nível de satisfação da profissão escolhida;

2. Dificuldades de relações interpessoais;

3. Necessidades detectadas no exercício da profissão;

4. Necessidades explícitas de formação inicial;

5. Necessidades de Formação Continuada.

Na seqüência será analisada cada categoria extraída.

2.1 Nível de satisfação da profissão escolhida

Nesta categoria estão agrupadas as respostas que mostram a diversidade de fatores que causam satisfação e insatisfação no trabalho docente.

Os professores apontaram que o maior nível de satisfação dentro da profissão se dá quando eles ministram a atividade de alfabetização, sobretudo quando constatam que a criança já está lendo, escrevendo e progredindo nas várias fases que constitui o ato de alfabetizar. Algumas atividades mais específicas como sondagem, intervenções, diagnósticos de avanço dos alunos, trabalhos realizados com a matemática também são satisfatórias para os profissionais.

"Eu acho que é quando você vê a criança lendo e escrevendo [...] é a maior satisfação." (Sujeito 4)

"Ah, a atividade que eu gosto de dar é aquele diagnóstico que eu faço de mês em mês para ver qual foi o avanço dos alunos". (Sujeito 2)

Outro fator observado que traz satisfação aos professores não está relacionado diretamente com atividades, mas sim com o retorno que o aluno dá ao professor ao ter aprendido o que foi ensinado. Pode-se perceber que quando a aprendizagem ocorre de fato há um contentamento muito forte por parte do profissional que está na sala de aula ensinando.O resultado positivo do trabalho é algo bastante satisfatório para o profissional docente.

"... o que me satisfaz na profissão é isso, é a questão do... é, de ver que a criança está aprendendo, de ver que o seu trabalho tem resultado e o reconhecimento que você tem, apesar de ser muito pouco, mas quando tem é gratificante". (Sujeito 1)

A insatisfação influencia a atividade docente e aparece como um fator que desequilibra o trabalho do professor.De acordo com as informações coletadas a insatisfação decorre de atividades planejadas que acabam não ocorrendo por algum motivo, ou seja, programa-se uma atividade e esta não acontece de fato. O desinteresse por parte dos alunos durante a explicação de um conteúdo teórico como História, Geografia também gera insatisfação e frustração nos profissionais.

Ela também pode ser momentânea e não permanece por um tempo prolongado. Nesse caso ela ocorre quando as relações entre professor/aluno ou professor/professor são abaladas por alguma discussão ou desentendimento dentro da instituição, mas é um fato que logo passa e não gera mal-estar a nenhuma das partes envolvidas.

"Às vezes a convivência com os professores, eu acho que em alguns momentos mais complicado, mas também procuro ficar na minha, viver, eu falo assim, sempre que a gente realiza um bom trabalho, as pessoas podem demorar um pouquinho para enxergar, mas elas acabam vendo. Então, eu não bato, eu faço a opção de não bater de frente né, com ninguém e deixo o tempo mostrar." (Sujeito 3)

As exigências formais são outro fator de insatisfação pelos professores e, uma delas é a que diz respeito à avaliação bimestral. Os professores são instruídos a fazerem avaliação continua e, desse modo, não vêem a necessidade de se mobilizar para avaliar os alunos de uma maneira mais formal a cada dois meses.Foi percebida que a questão da insatisfação não está diretamente relacionada às atividades que ocorrem dentro da sala de aula que tem a ver com os conteúdos de ensino, mas sim com afazeres próprios de dentro da instituição.

"Isso... eu acho que é a burocracia o que mata na educação, peca bastante pelo exagero [...] acho que quando tem muita burocracia, no nosso caso a questão da avaliação pega por isso."(Sujeito 1)

A constatação de que alguns profissionais não sofrem com o problema da insatisfação é um fato positivo e mostra que os docentes estão conseguindo enfrentar as diversas situações que ocorrem dentro da instituição.

Para alguns profissionais não existem atividades que tragam insatisfação, mesmo que estas não alcancem o resultado esperado.

"... não tem essa coisa de insatisfação, de não gostar de dar eu acho que, pelo menos eu falo por mim, tudo o que eu faço, a gente pensa que vai surtir um bom resultado, na atividade mesmo eu acho que não tem nenhuma atividade que não seja legal." (Sujeito 2)

2.2 Dificuldades de relações

Nesta categoria foram agrupadas as respostas que indicam as dificuldades enfrentadas pelos docentes nas relações interpessoais estabelecidas dentro da instituição.

As entrevistas mostraram que a indisciplina é um dos principais fatores que trazem dificuldade para o professor dentro da sala de aula. De acordo com os relatos, ela é algo que não está somente dentro da escola; ela extrapola os muros escolares porque é conseqüência de um modo se socialização um pouco caótico, que não atenta para as práticas da boa educação, do respeito ao outro, de noções de regras de comportamento, enfim de um modo de socialização parco em estabelecer limites na educação da criança.

Relacionada à questão da indisciplina aparece outro fator que causa dificuldade de atuação no professor: a desestrutura familiar que vem ocorrendo na sociedade. Segundo os relatos, essa questão reflete muito na escola, em especial na sala de aula, sendo que os docentes são na maioria das vezes inábeis para lidar com a indisciplina decorrente dessa desestrutura.

Em decorrência da desestrutura familiar, alguns sujeitos relataram que os alunos enfrentam problemas de aprendizagem. Esses problemas são oriundos do meio familiar em que a criança vive que afetam o aluno psicologicamente e, no momento da aprendizagem na sala de aula os objetivos não são alcançados e o aluno não aprende em função dos problemas que encara no cotidiano familiar.

"Então as dificuldades maiores que a gente enfrenta aqui ... é com relação à família, né, que as crianças têm problemas sérios com a família. E os problemas psicológicos...demora muito para ter um retorno."(Sujeito 4)

O desinteresse dos alunos na aula é outra variável que causa dificuldade de relação entre alunos e professores. Nas entrevistas os sujeitos relataram que, hoje, os alunos interessados em aprender realmente trata-se de uma minoria. A maioria não tem interesse nas atividades, bem como na escola como um todo.

"Agora inverteu, a gente tem a maioria dos alunos desinteressados, desestimulados, desacompanhados e uma meia dúzia de aluno bom que fica ali sendo discriminado." (Sujeito 5)

Outros fatores como a desvalorização do profissional e a desvalorização do estudo incide diretamente na geração de dificuldades de relações em sala de aula e na escola como um todo.

"Não existe a valorização do profissional, não existe a valorização nem de cima, nem do próprio governo, quanto mais dos pais, e aí a criança acaba se achando no direito de não valorizar muito. Não existe a valorização mais do estudo [...] existem diversos problemas emocionais, sociais, tudo eclode na sala de aula e a gente acaba não sabendo como lidar." (Sujeito 1)

Outra dificuldade expressa pelos professores foi como se relacionar com a criança e como tratá-la de forma adequada. Essa dificuldade de relacionamento, de acordo com os relatos, ocorre em função da falta de experiência do professor, assim como pela falta de preparo no magistério em lidar com o aluno embora essa dificuldade seja amenizada com o tempo. Observa-se neste caso uma falha em relação à formação inicial.

"Como se relacionar com a criança, como tratar a criança. A parte pedagógica não tinha dificuldades, mas isso...". (Sujeito 7)

2.3 Necessidades detectadas no exercício da profissão

 

Esta categoria explicita quais as necessidades que o docente foi sentindo ao longo de sua carreira.

Nos relatos analisados, a dificuldade geral e primeira manifestada pelos docentes refere-se ao enfrentamento da prática. Suas constatações da diversidade dos problemas que surgem durante a prática levam-nos a questionar a teoria que tratam a prática de maneira asséptica, linear e idealizada. Esse choque causado entre a teoria e a prática ocorre, em especial, nos primeiros anos da carreira docente e o profissional acaba não sabendo lidar com vários fatores dentro da instituição em função da falta de experiência. Dentro dessa questão os estágios realizados na universidade foram citados como algo que não prepara o profissional para a prática, pois eles se dão de maneira muito negligenciada. No momento do profissional atuar, ele acaba se confrontando com o despreparo para lidar com a realidade escolar.

"Quando chega na hora da prática, você se depara com a realidade crua e não sabe o que fazer. É o aluno que não aprende, mau comportamento, então eu acho que essas coisas que não são trabalhadas no dia-a-dia da escola, na sala de aula [...] enquanto a gente faz estágios é uma coisa, agora quando você se vê sozinha... Aí você tem que se virar". (Sujeito 2, 5).

No início da carreira, o profissional docente tem a necessidade de um tempo para se adaptar com os diversos fatores que atuam sobre o professor dentro da escola, assim como para corrigir algumas falhas relacionadas com as relações humanas dentro da sala de aula. Outro fator constatado a respeito da adaptação é a questão da imaturidade, pois o profissional termina sua graduação com pouca experiência na área e, no momento de atuar necessita de um tempo para conhecer a realidade e se adaptar dentro dela, ou seja, adquirir maturidade dentro da profissão ao longo do tempo.

"Nos primeiros anos da profissão?... Na época foi se adaptar, eu era muito nova, não sabia na verdade... hora que você começa a lecionar, não sabia se era isso mesmo que eu queria." (Sujeito 4)

"... Dificuldades... ah, eu acho que foi mais me adaptar mesmo, aprender [...] na teoria é muito fácil a gente ver as coisas, mas aí a gente vai se adaptando com o tempo." (Sujeito 1)

2.4 Necessidades explícitas de formação

 

Nesta categoria agora estão explicitas quais são as necessidades não satisfeitas pela formação inicial do docente.

Pelo relato dos docentes elas estão relacionadas, principalmente, com o conteúdo que deve ser ensinado em sala de aula, com o posicionamento diante do que é ser professor e com a prática proporcionada pela formação inicial.

Com relação aos conteúdos ensinados em sala de aula foi observado que a formação inicial não dá base sólida e sim superficial para o profissional atuar e que, para suprir as necessidades no momento de explicar um conteúdo, o professor busca estudar por outros meios (internet, revistas de educação, etc) o tema a ser trabalhado e, ainda também, aprender mais com os colegas de trabalho através de conversas coletivas nas reuniões. A matemática e a alfabetização foram citados como conteúdos que deveriam ser mais trabalhados na formação inicial.

"Matemática... matemática eu precisei procurar mais, primeiro porque eu não gostava, eu descobri que eu não gostava porque eu não entendia. Então eu tive um pouco de dificuldade no começo, fui atrás, até fiz um curso mesmo, através da Secretaria Municipal, no qual aprendi bastante coisa, e aprendi a gostar de matemática".

Dentro do ensino de conteúdos foi mencionada a necessidade de estratégias para ensinar os alunos. A formação inicial é deficiente neste aspecto e traz dificuldades para o professor transmitir o conhecimento ao aluno.

O posicionamento a respeito do que é ser professor é outra necessidade que a formação inicial não embasa. Enquanto os alunos realizam os estágios ainda não são professores, eles não entendem o que é ser professor e este é o problema, pois quando chegam às escolas para lecionarem não sabem qual é o seu papel e o seu lugar na instituição e é somente com o dia-a-dia que eles passam a entender isso e toda a realidade que o cerca. Segundo os relatos, a formação inicial deveria proporcionar a prática de forma mais intensiva para que o aluno sentisse realmente qual o papel do professor.

A prática também surge como uma necessidade na formação inicial na medida em que é ela que vai fazer com que o aluno de graduação aprenda a utilizar os conhecimentos aprendidos ao longo do curso, ou seja, a teoria, pois antes de atuar ele não sabe como irá utilizar toda a carga teórica estudada. A reflexão que a prática proporcionará é que fará o aluno entender em que situações os conhecimentos devem ser mobilizados como fundamento das ações.

 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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