Língua Escrita e Língua Falada
 
Língua Escrita e Língua Falada
 



Língua Escrita e Língua Falada:
Correlações e interfaces

Camila da Fonsêca Aranha
Márcio Franco Barroso

"O escrito, fato social mesmo na era do audiovisual e da informática, envolve-nos, nos é indispensável, tão indispensável quanto a fala, à qual está estreitamente ligado."

(Laurence Lentin, 1996: p.119)

1 - Considerações Iniciais:

Este trabalho tem como propósito explicitar as relações entre língua escrita e língua falada, ressaltando-se as diferenças e semelhanças que esses dois tipos de uso lingüísticos possuem, bem como discorrer sobre a separação entre eles.
Contudo, convém destacar, desde o início, que língua escrita e língua falada se dão em um continuum, isto é, apesar de cada uma possuir suas especificidades, não existem fronteiras e diferenças bem marcadas entre elas.
Dessa forma, a concepção de que há uma dicotomia entre língua falada e língua escrita é rejeitada por vários lingüistas. Segundo Luiz Antônio Marcuschi (2005), é essa perspectiva dicotômica que divide a língua falada e língua escrita em dois blocos distintos e polares, atribuindo à elas propriedades típicas. Assim, Marcuschi (2005: p.28) adverte:

A perspectiva da dicotomia estrita tem o inconveniente de considerar a fala como o lugar do erro e do caos gramatical, tomando a escrita como o lugar da norma e do bom uso da língua. Seguramente, trata-se de uma visão a ser rejeitada.

2 ? Relação entre Língua Falada e Língua Escrita: Diferenças e Semelhanças

Tanto a língua escrita quanto a língua falada pertencem à um mesmo sistema lingüístico e destinam-se à interação verbal, possuindo um determinado fim comunicativo. Ambas apresentam-se sob variadas formas e gêneros textuais, que irão depender da situação sócio-comunicativa na qual o falante/escritor está inserido e de suas intenções.
Desse modo, fala e escrita encontram-se em um continuum que abrange diversos gêneros de texto. Há uns que se aproximam mais da fala, assim como há outros que mais da escrita, não havendo, portanto, um padrão predeterminado entre elas. As proximidades entre língua escrita e língua falada são tão estreitas que parece existir, em determinados casos, uma mescla entre elas, podendo ocorrer tanto nas estratégias textuais quanto nas situações de sua realização; uma carta pessoal, por exemplo, escrita em um estilo descontraído pode ser comparada à uma narrativa oral espontânea.
Língua escrita e língua falada, por outro lado, apresentam diferenças, uma vez que divergem em suas maneiras de aquisição, produção, transmissão, recepção e uso, bem como os meios nos quais os elementos de sua estrutura se articulam.
A língua falada, segundo Fávero (2005), é o resultado da construção conjunta de pelo menos um falante em contato com um ouvinte e o seu planejamento se realiza localmente e de maneira simultânea ? ou quase simultânea ? à produção, fato que, segundo o autor, não possibilita um tempo maior para a sua elaboração, tornando-a, assim, redundante e fragmentada.
A língua escrita, por sua vez, é uma atividade desenvolvida de modo solitário, o que permite um tempo mais longo para seu planejamento, elaboração e até mesmo a sua revisão, assim como um maior envolvimento do escritor com o texto, com o leitor imaginário e com o tópico discursivo a ser abordado.
Nas relações entre língua escrita e língua falada, faz-se necessário levar em consideração as condições de produção, que são diferentes em cada modalidade da língua. Essa relação pode ser observada no quadro abaixo, de acordo com Fávero (2005: p.74):

FALA ESCRITA
- Interação face a face - Interação a distância (espaço-temporal)
- Planejamento simultâneo ou quase simultâneo à produção. - Planejamento anterior à produção
- Criação coletiva: administrada passo a passo - Criação individual
- Impossibilidade de apagamento - Possibilidade de revisão
- Sem condições de consulta a outros textos - Livre consulta
-Reformulação pode ser promovida tanto pelo falante como pelo interlocutor - A reformulação é promovida apenas pelo escritor
- Acesso imediato às reações do interlocutor - Sem possibilidade de acesso imediato
- O falante pode processar o texto, redirecionando- a partir das reações do interlocutor - O escritor pode processar o texto a partir das possíveis reações do leitor
- O texto mostra todo seu processo de criação. -O texto tende a esconder o seu processo de criação, mostrando apenas o resultado.

Segundo Marcuschi (2005), também faz-se necessário distinguir sobre as duas dimensões de relações no tratamento da língua falada e língua escrita; i.é., de um lado oralidade e letramento, e de outro fala e escrita. A primeira trata-se da diferenciação entre práticas sociais e a segunda seria a distinção entre modalidades de uso da língua.
A oralidade é a prática social de interação - com fins comunicativos - que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fincados na realidade sonora; vai desde uma realização informal à mais formal nos diversos contextos de uso. O letramento envolve as mais variadas práticas da escrita, nas suas diversas formas, e pode ir desde uma mínima apropriação da escrita até uma mais profunda apropriação.
A fala é a forma de produção textual-discursiva na modalidade oral e que não necessita de uma tecnologia além do aparato fisiológico do próprio ser humano e da inserção deste em um determinado grupo lingüístico. A fala caracteriza-se pelo uso da língua em sua forma de sons articulados e significativos, assim como os aspectos prosódicos, de gestualidade, os movimentos corpóreos e a mímica. A escrita, por sua vez, é o modo de produção textual-discursiva com certas especificações materiais e caracteriza-se por sua constituição gráfica. Nesse sentido, Câmara Jr. (1986) afirma que para compreender o funcionamento e a natureza da linguagem humana, é necessário partir da observação e análise da língua falada e somente depois analisar a língua escrita.

3 ? Língua Escrita e Língua Falada: Por que tal separação?

"Ainda na questão da variação, os primeiros gramáticos, comparando a língua escrita dos grandes escritores do passado e a língua falada espontânea, concluíram que a língua falada era caótica, sem regras, ilógica, e que somente a língua escrita literária merecia ser estudada, analisada e servir de base para o modelo do ?bom uso? do idioma. Essa separação rígida entre fala e escrita é rejeitada pelos estudos lingüísticos contemporâneos, mas continua viva na mentalidade da grande maioria das pessoas."

(Marcos Bagno, 2006)

Apesar dos inúmeros conflitos entre gramáticos e lingüistas a respeito de considerações em torno do estudo da linguagem, é importante destacar que a separação entre língua falada e língua escrita é feita, predominantemente, para fins de pesquisa, se tornando, assim, o estudo da linguagem melhor segmentado para, posteriormente, ser analisado. Porém, como bem explicita Bagno (2006), há pessoas que fazem tal separação com o propósito de valorar língua falada e língua escrita, ou seja, estipular nível de importância maior à uma ou à outra. Além da intenção de separar fala e escrita por questões de pesquisa, há também de se considerar fatores pragmáticos de cada uma delas.
A língua falada, por exemplo, é utilizada em certas situcionalidades, como palestras, conversas ? sejam elas formais ou não -, e inúmeras outras ocasiões, todas relacionadas se vistas do ponto de vista de que se concretizam por meio de encontros diretos entre locutor(es) e interlocutor(es).
A língua escrita, em contrapartida, ocorre em situações nas quais não há o encontro direto entre locutor(es) e interlocutor(es); pode se realizar através dos mais variados escritos ? livros, artigos, resenhas, cartas, etc. A escrita, diferentemente da fala, possui a possibilidade de maior tempo para sua elaboração, porém isto não significa que ela tenha um valor maior do que a fala.





4 ? Conclusão:

Fala e escrita são as constituintes da maior e mais importante unidade de um grupo lingüístico, a sua língua. Apenas com a plena integração entre elas é possível que se alcance o sucesso comunicativo entre os falantes/escritores. A relação de dependência existente entre ambas é tão fundamental e sólida que jamais cogitou-se a hipótese de que uma sociedade atual pudesse evoluir moral e cientificamente com a ausência de uma delas.
Apesar da separação e das diferenças existentes entre língua falada e língua escrita, o que prevalece é o elo maior entre locutor e interlocutor, responsável pela eficácia da comunicação.

5 ? Referências:

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: ciência e senso comum na educação em língua materna. Presença Pedagógica, UNB, setembro, 2006.

CAMARA JR, Joaquim M. Manual de expressão oral e escrita. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

CATACH, Nina. Para uma teoria da língua escrita. [trad.] Fulvia Moretto e Guacira Machado. São Paulo: Ática, 1996.

FÁVERO, Leonor L. et alii. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de
língua materna. São Paulo: Cortez, 2005.

MARCUSCHI, Luiz A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2005.

 
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Sobre este autor(a)
Professora de Língua Portuguesa, Tradutora/Intérprete PT/EN/SP-EN/SP/PT e acadêmica do curso de Bacharelado em Direito. Teve projetos de IC aprovados pela Universidade do Estado do Pará e pelo CNPq. Foi monitora de Língua Latina na UEPA. Contatos: camila_aranha@hotmail.com
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