ÉTICA E CONHECIMENTO: CONSUMISMO E CONSUMO SUSTENTÁVEL

ETHICS AND KNOWLEDGE AND SUSTAINABLE CONSUMPTION CONSUMERISM

MORAES, F.1; OLIVEIRA, N. R.1; SALVUCCI, M.2;

  1 Graduandos da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas

  2 Professora titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Resumo: O presente artigo tem por objetivo, a partir da temática da Ética e do Conhecimento, contrapor conceitos de Consumismo e Consumo Sustentável, compreender o seu real significado e reconhecer a urgente necessidade de um novo conceito em Consumo Sustentável.

Palavras-chave: Consumo Sustentável, Consumismo, Ética, Conhecimento.

Abstract: This article aims, from the theme of Ethics and Knowledge, opposing concepts of consumerism and sustainable consumption, to understand its real meaning and recognize the urgent need for a new concept in sustainable consumption.

Keywords: Sustainable Consumption, Consumerism, Ethics, Knowledge.

 INTRODUÇÃO

Você é um consumidor consciente ou consumista? O presente artigo faz um suscitar de questões referentes à relação entre consumismo e consumo sustentável e, para tal se faz necessário diferenciar um do outro.

“Consumismo: estado associado a exagero, a supérfluo, ao perdulário, que muitas vezes não é o essencial, porém é o que tem curiosidade de experimentar devido às propagandas na TV e ao apelo dos produtos de marca.” (HOUAISS, 2009, p.185).

“Consumo: termo final da cadeia econômica: os bens nela produzidos são utilizados para satisfazer as necessidades dos indivíduos, necessário para sobrevivermos”. (DUROZI; Roussel, 1999, p.105)

A definição de necessidade supérflua é algo relativo, já que um produto considerado desnecessário para alguns, poderá ser essencial para outros. A partir dessas citações, é correto afirmar que existem dois tipos de necessidades quando se fala em consumir: O primeiro tipo é a necessidade real ou concreta, ou seja, o sujeito sem um determinado produto sofrerá algum tipo de dano se não conseguir tê-lo. E o segundo é a necessidade subjetiva, que é o sujeito consumir sem a necessidade de ter o produto, mas ao comprá-lo, sentirá um prazer ainda que somente instantâneo.

“O ato de compra não surge do nada. Seu ponto de partida é a motivação, que vai conduzir a uma necessidade, a qual, por sua vez despertará um desejo. Com base em tal desejo, surgem as preferências por determinadas formas específicas de atender a motivação inicial e essas preferências estarão diretamente relacionadas ao autoconceito: o consumidor tenderá a escolher um produto que corresponda ao conceito que ele tem ou que gostaria de ter de si mesmo.” (KARSAKLIAN, 2000, p.19).

Pensando no autoconceito, no qual, o individuo adquiri um determinado produto, idealizado em uma imagem que gostaria de ter de si mesmo, esta atitude permite correlação com o desejo de alcançar uma nova posição social.

O Almejo por uma nova posição social não é um pensamento ou um desejo errôneo, pois, tal busca pode ser na verdade uma ambição saudável. Assim, não se pode recriminar a busca de uma melhor condição de vida, mas antes é preciso ver o caminho ou as formas que tal individuo praticou para obter a ascensão social.

“(...) o consumo é um elemento central da dinâmica social, mas não pode ser isolado de outras dimensões. A sociedade de consumo não resolveu o problema das desigualdades sociais no processo de produção e distribuição, e esses desequilíbrios sociais continuam a ocupar um lugar fundamental na sociedade.” (SORJ, 2001, p.47).

Tendo como referência a citação de Sorj, verifica-se que o consumismo é uma forma de ter, sendo esse, o verbo norteador da atual sociedade. Consumir apresenta qualidades ambíguas: alivia a ansiedade, porque o que se tem não pode ser tirado; mas exige que se consuma cada vez mais, porque o consumo anterior logo perde a sua característica de satisfazer, colocando o individuo na condição de dependente desse ciclo vicioso.

1.1 A GRANDE PROMESSA

A grande promessa de desenvolvimento e crescimento deixou uma grande marca universal nas bases da cultura de consumo. Tal marca surge no momento em que os indivíduos assumem seu domínio sobre a natureza, gerando necessidade prática e em massa do consumismo particular e universal.

Com o advento da industrialização essa predominância de consumo teve um alto nível de crescimento, dando assim cada vez mais liberdade e autonomia a todos para fazer de suas vidas um universo de consumo.

“Os homens e, cada vez mais as mulheres, viveram um novo sentido de liberdade; tornaram-se senhores de suas próprias vidas: as amarras feudais foram rompidas e podia-se fazer o que se quisesse, livre de qualquer entrave.” (FROM, p.21).

Mas somente as classes superiores e médias é que podiam viver esse sentido de liberdade e autonomia de consumo, pois eram os que dominavam esse período da industrialização, e os homens de classe baixa eram submetidos ao serviço dos detentores do poder industrial. Esse momento também foi marcado pela “Grande Promessa” de que todos os homens seriam detentores de suas liberdades e domínio.

O modelo de desenvolvimento está baseado na ideia de que quanto mais consumo, mais produção e, consequentemente, mais lucro. Os valores sociais estão esquecidos, de modo a se fazer afirmar que o sucesso do ser humano é medido por aquilo que ele consome. Como fica os demais valores sociais, como a ética, a moral, o bem-estar coletivo, o meio ambiente equilibrado?

A resposta não é fácil, já que o mercado é quem dita conceitos, e a grande regra é consumir sempre e seu excesso leva a intensa produção e consequente aumento da extração de matérias-primas e consumo de energia, muitas vezes, de fontes não renováveis.

1.2 O CONSUMISMO

O consumismo emergiu na Europa Ocidental no século XVIII, e vem se espalhando rapidamente para distintas regiões do planeta, assumindo formas diversas, ele não nos dá boas perspectivas sociais e ambientais. Hoje o mundo presencia os altos níveis de obesidade, dívidas pessoais e a infelicidade crescente, o menor tempo livre para o lazer, o meio ambiente maltratado e por fim, o aumento da violência para sustentar o consumismo de quem não tem um bom nível de renda ou então de pessoas gananciosas que sempre querem mais.

A abundância dos bens de consumo continuamente produzidos pelo sistema industrial é considerada, frequentemente, um símbolo da performance bem-sucedida das economias capitalistas modernas. No entanto, esta abundância passou a receber uma conotação negativa sendo objeto de críticas que consideram o consumismo um dos principais problemas das sociedades industriais modernas. A partir da construção da percepção de que os atuais padrões de consumo estão nas raízes da crise mundial, a crítica ao consumismo passou a ser vista como uma contribuição para a construção de uma sociedade sustentável. (PORTILHO, Fatima. 2005, p.67.)

Há uma grande dificuldade em se ajustar os atuais padrões de consumo para um estilo mais consciente e responsável, justamente porque o estilo de vida americanizado é não só apreciado, mas muito desejado pela maioria da população do planeta. Afinal, povos inteiros estão sincronizados à sua lógica, que acaba sendo difícil pensar numa outra forma de vida social que não seja organizada a partir do consumo de mercadorias produzidas em massa, as quais são desnecessárias em sua maioria.

Existe uma grande dificuldade de se adotar uma atitude preventiva no sentido de estabilizar o nível de consumo, pois isso pressupõe numa mudança de atitude contraria a lógica do processo de acumulação onde a ideia de realização está no “ter é poder”. Muitas vezes, uma pessoa compra pela influência de outras, que por sua vez, são influenciadas pelas propagandas, filmes, revistas, internet e etc. Ou seja, a sociedade cria um padrão, que tende a ser seguido. Algumas mulheres, por exemplo, escolhem um corte de cabelo, roupas, sapatos e acessórios da moda com base em alguma atriz famosa ou nas novelas da TV, criando um ciclo tratado como vicioso.

1.3 O CONSUMO SUSTENTÁVEL

Consumo sustentável representa o consumo de bens e serviços com respeito aos recursos ambientais, de forma que garanta o atendimento das necessidades das presentes gerações sem comprometer o atendimento das gerações futuras (HEAP, KENT, 2000).

A ideia de consumo sustentável é a de promover a reflexão dos hábitos de consumo da população, despertando a consciência ecológica. Nesse sentido, o consumidor deve adquirir somente o que for necessário para suprir suas necessidades básicas de sobrevivência, evitando, portanto, a aquisição de produtos supérfluos e o desperdício, contribuindo dessa forma para a preservação ambiental.

Um dos principais elementos para se atingir o desenvolvimento sustentável é proporcionando recursos naturais em quantidade e qualidade às futuras gerações. Portanto, é essencial que seja evitado o desperdício, havendo o controle no consumo de água e energia elétrica, colocando em prática a Política dos três R’s (Reduzir, Reutilizar e Reciclar). Esses elementos tem como base a ideia de que o planeta não pode suportar os velhos padrões utilizados nas últimas décadas para a extração, produção, comercialização e descarte de bens.

Quando se fala em consumo sustentável, é preciso ficar claro que as pessoas não vão parar de consumir, mas precisarão fazer isso de forma mais consciente contribuindo para a redução de consumo, levando em consideração impactos ambientais, sociais e econômicos de empresas e seus produtos.

Este consumo precisa ser sustentável em todos os sentidos: desde a compra, uso, até o descarte. É importante questionar-se sobre o consumo pessoal, e como ele pode ser reduzido e melhorado em qualidade.

Segundo a FNUAP (Fundo de População das Nações Unidas), a terra já possui em 2012, 7 bilhões de habitantes - o dobro desde a década de 1960 e quatro vezes o que havia há apenas um século. A população humana continua se expandindo em 200.000 pessoas por dia, o que demonstra aumento significativo de novos consumidores. Com países como Brasil e Índia aumentando a demanda por bens de consumo, a expectativa é que apenas uma mudança significativa em hábitos aliada às novas formas de produção poderá, de alguma forma, provocar reais benefícios.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não há dúvidas de que a atual sociedade de consumo necessita se reeducar, pois o que se vê no cenário mundial além do abuso que se faz dos recursos naturais é a produção excessiva de materiais de consumo em massa. Tal reeducação terá que apresentar ao individuo a opção pelo “melhor” consumo, ou seja, aquele que cause o menor impacto no mundo. Para isso, expressões como “consumo sustentável”, “consumo consciente”, “consumo responsável”, “consumo solidário”, dentre outros compatíveis, devem ser difundidos e não podem ser apenas tratados na teoria, devem ser aprimorados no sentido de informação, educação, conhecimento. E sua aplicação no cotidiano das pessoas tem o poder de transformar comportamentos e atitudes, pois uma sociedade esclarecida e conhecedora dos reais impactos que o consumismo tem fará o discernimento para escolher um produto que seja no mínimo ecologicamente correto proveniente de uma empresa que seja social e ambientalmente responsável.

Atitudes simples, como perguntarmos a nós mesmos, na hora de consumir, se determinado produto é realmente algo de que precisamos, pode ser o início de um processo de mudança maior. A proposta de um novo estilo de vida exige a libertação do consumidor das necessidades impostas pela sociedade e será necessário desenvolver novos valores culturais e éticos, transformar estruturas econômicas e reorientar novos estilos de vida.

Ações individuais conscientes, bem informadas e preocupadas com questões ambientais aparecem como uma nova estratégia de mudanças em direção ao consumo sustentável. Por isso, é importante falar em corresponsabilidade, abrangendo os diversos atores: tanto coletivos quanto individuais. Considerando o exposto até agora, é possível afirmar que o debate sobre consumismo e consumo sustentável precisa ser ampliado para incluir o processo de formulação e implementação de políticas públicas, atingindo a sociedade em sua totalidade.

O tratamento que se dá ao consumo sustentável tem um sentido preventivo, ou seja, é preciso que o consumo seja garantido, mas que seus padrões se modifiquem a fim de minimizar os impactos ambientais do descarte e do uso exagerado dos recursos naturais. Por meio de programas educacionais direcionados, o consumo pode voltar a cumprir sua função de satisfazer nossas necessidades, sem se transformar no consumismo exagerado com o qual estamos habituados hoje.

A mudança nos hábitos de consumo não é uma meta fácil a ser alcançada a curto e médio prazo; o processo é gradual e os seus resultados serão sentidos ao longo do tempo e é um grande desafio que se impõe a todos: consumir de forma sustentável implica poupar recursos naturais, conter o desperdício, diminuir a geração de resíduos, reutilizar e reciclar a maior quantidade possível de produtos e embalagens.

Concluindo a ótica de contraposição entre esses elementos e recebendo o convite a mudança de padrão de consumo vale lembrar que a “transformação se faz no andar” (BAUMAN, 2001, p.83). E isto só a história poderá contar...

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001

 BREZET, H. Eco-Design, Paris, United Nations Programme, 1997.

 DUROZOI, Gerard e Roussel, André. Dicionário de Filosofia. 3ª ed., Campinas, Papirus, 1999.

 FROMM, Erick. Ter ou Ser? Trad. Nathanael C. Caixeiro, Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1977.

 FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇOES UNIDAS. Disponível em <http://www.unfpa.org.br>. Acesso em: 24 maio 2012.

 FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇOES UNIDAS. Disponível em <http://www.unfpa.org.br/populationcounter.htm>.  Acesso em: 24 maio 2012.

 GORZ, A. O imaterial. São Paulo: Annablume, 2005.

 HEAP, B. KENT, J.  Towards sustainable consumption: an European perspective. London, The Royal Society, 2000.

 HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Míni Houaiss: Dicionário da Língua Portuguesa. 4 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

KARSAKLIAN, Eliane. Comportamento do Consumidor. São Paulo, Atlas, 2000.

 PORTILHO, Fátima. Sustentabilidade Ambiental, Consumo e Cidadania. SãoPaulo: Cortez, 2005.

SORJ, Bernardo. A nova Sociedade Brasileira. 2ª ed., Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

 

 

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