Educadores/as Populares formados/as em Pedagogia através de um Movimento social Chamado AEPPA
 
Educadores/as Populares formados/as em Pedagogia através de um Movimento social Chamado AEPPA
 


Palavras chaves: Formação de Educadores/as Populares - Política Educacional ? Movimento Social - Educação Popular ? Identidade - Trabalho

A historicidade de um grupo de educadoras formadas/os em Pedagogia participantes da Associação de Educadores Populares de Porto Alegre ? AEPPA será discutida de forma sintetizada ao lado da historicidade dos cursos de pedagogia no Brasil até o movimento de Educação Popular na busca por sua formação. Assim, a parceria Movimentos Sociais e Universidade está respaldada pela importância da formação inicial e permanente de educadores/as na perspectiva da Educação Popular para qualificar o trabalho educativo realizado nas instituições comunitárias de Porto Alegre. Conforme, Paulo Freire que em muitos de seus escritos trouxe a importância da formação, pois

(...) formação permanente da educação, é indispensável à reflexão crítica sobre os condicionamentos que o contexto cultural tem sobre nós, sobre nossa maneira de agir, sobre nossos valores. A influência que as nossas dificuldades econômicas exercem sobre nós, como podem obstaculizar nossa capacidade de aprender, ainda que careçam de poder para nos "emburrecer". O contexto teórico, formador, não pode jamais, como às vezes se pensa ingenuamente, transformar-se num contexto de puro fazer. Ele é, pelo contrário, contexto de que-fazer de práxis, quer dizer, de prática e de teoria. (1997ª, p.71)


Neste contexto, para Paulo Freire (1997) "uma das tarefas para a Educação Popular progressista, ontem como hoje, é procurar, por meio da compreensão crítica de como se dão os conflitos sociais" (p. 64), desta forma, à formação docente construída pelos/as educadoras/es afim de qualificar a atuação profissional nas instituições comunitárias de Porto Alegre, visa compreender como são trabalhados os conflitos no cotidiano do trabalho em educação não-escolar buscando dialogar esse contexto dos Movimentos sociais junto a Universidade.
O Curso de Pedagogia, no Brasil, foi criado em de 1939 como necessidade de formação de professores/as para atuar no ensino secundário, formava bacharéis intitulados/as como "técnicos em educação, cujos profissionais poderiam além de exercer a função de docente (ensino primário), poderiam, como pedagogo/a, assumir as funções de: administração, planejamento, orientação e inspeção (supervisão). Caso o profissional bacharel desejasse obter o título de licenciado deveria cursar mais um ano, totalizando o curso em quatro anos, o chamado 3 + 1.
Somente após vinte e dois anos, governo de João Goulart, que acontece a primeira reformulação do Curso de Pedagogia, em decorrência de exigências da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, aprovada em dezembro de 1961. Em 1962 foi criado um parecer , em conformidade com o estabelecido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que estabelecia o papel do Conselho Federal de Educação, cujo órgão deveria estabelecer currículo mínimo para os cursos de Pedagogia.
Um ano depois quando o curso de pedagogia foi reorganizado onde surgiu as "habilitações". Já final dos anos 70 e início dos anos 80 ocorreu vários debates promovidos pelo movimento de cunho nacional por formação do/a educador/a que discutiram sobre o contexto educacional brasileiro principalmente no que se referia à ditadura militar. Nos anos 80, a partir do processo político de transição democrática e suas relações entre educação e sociedade iniciou-se muitas discussões e reflexões sobre a necessidade de uma política de formação do profissional da educação. A partir de 1990, a formação para o magistério primário tornou-se uma das habilitações do curso e Pedagogia, cuja década foi marcada pela reforma do Estado brasileiro, cujo período demarca um processo da ideologia neoliberal no país, em que as políticas neoliberais foram amplamente difundidas no Brasil. Em 1993, no Governo Collor, o seu Ministro da Educação elaborou o "Plano Decenal de Educação para Todos", documento que o Estado brasileiro aderiu às diretrizes internacionais para a educação. Três anos depois é promulgada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional ? Lei n. 9394, de dezembro de 1996, e nesse contexto de reconfiguração da Educação, está o nível do superior brasileiro que se coloca em debate a formação docente ( Art.62).
É a partir dessa lei, onde Educadores/as Populares de POA percebem que para além da exigência da formação inicial e permanente o curso de Pedagogia poderia proporcionar um campo teórico investigativo da educação não escolar. Percebendo que o termo abrangente de Educação tem seu sentido amplo, diferente das legislações anteriores que referia-se a "ensino ", logo, referindo-se a educação escolar ou formal como se queira denominar, a LDBN amplia as possibilidades de formação dos/as profissionais da educação, pois reconhece a formação em serviço, o "saber de experiência-feito". A essa valorização trata-se da dimensão do não formal / não-escolar. Assim educadoras/es populares partindo primeiramente em função da exigência da LDBN, depois pelo perfil do curso a ser buscado, passaram a projetar como materializar a práxis social e a identidade do/a educador/a popular como pressuposto de um curso de formação superior. Assim, em 2002 nasce o curso de Pedagogia pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul- UERGS-
Historicamente, os cursos de Pedagogia nascem de um "pacote pronto", diferentemente desta experiência da UERGS que originou-se de um movimento popular de busca, luta e de pesquisa pela definição do perfil do Curso que deveria contemplar a demanda do/a profissional que atuava na Educação Popular.
Os/as estudantes, a partir de uma primeira experiência, o curso normal somado a experiência profissional, refletiam sobre qual curso desejavam e consequentemente discutiam a importância de valorizar e não dicotomizar o teórico da prática, bem como discutiam sobre o perfil e função do/a Pedagogo/a na educação popular. Esse Curso é conhecido como a "turma dos 150" e a elaboração se deu a partir da necessidade de qualificar o trabalho de educadoras/es populares que trabalhavam na educação comunitária de Porto Alegre. Para Conceição Paludo: "a forma como foi pensado o projeto do curso, por áreas do conhecimento" possibilitou aos 150 estudantes, um curso projetado para trabalhadores/as da educação popular que qualificasse:

(.) educadores populares para docência em educação infantil e para anos iniciais em educação de jovens e adultos (.) apresentando ênfase no trabalho, no estudo coletivo e cooperativo, na auto-organização e auto- formação como princípios educativos. Formação integral, relação ensino, pesquisa e desenvolvimento, articulação teoria e prática, flexibilidade curricular e interdisciplinaridade constituíam algumas das principais orientações metodológicas. (PALUDO, 2007)


Para as/os educadoras/es da AEPPA esse curso é o resultado de um sonho coletivo e representa a emancipação das/os trabalhadoras/es da educação popular no que tange a construção do conhecimento,é no entanto, a concretização de um trabalho conjunto: Educadores/as Populares leigos e educadores/as com formação (professores do curso), que juntos/as vivenciaram quatro anos e meio de intensa trocas de saberes.
Foi a partir desse esforço coletivo (governo e sociedade civil) que se possibilitou que uma parcela de educadores/as populares obtivessem "o direito à formação superior, pública e de qualidade". (BENETTI, 2007, p.67) Segundo o relato de uma das educadoras formadas pela UERGS: "o curso significou uma mudança, a realização de um sonho, aprendizados e a possibilidade de ser valorizada como professora".
Diante desse relato percebe-se o quanto é importante para educadoras/es populares essa busca e conquista, pois é sem sombra de dúvida, o inédito- viável na vida dessas trabalhadoras/es e das crianças, adolescentes, jovens e adultos que se beneficiam indiretamente com esse projeto. Esse inédito-viável ele é em si inacabado e hoje, inquieta tanto os/as Educadores/as Populares já formados neste curso, como aqueles/as que estão na busca pela formação. O movimento organizado busca recriar esse sonho de construir e oferecer novamente uma graduação de Pedagogia para educadores/as que estão sem formação. Sendo um projeto inconcluso, educadores/as pesquisados/as falam como poderia ser re-desenhado este curso a partir das experiências no campo da educação popular, sendo numeradas a seguir:Ter mais tempo de aula, mais encontros; Mais registro dessa experiência;Ser mais interdisciplinar, ter mais diálogo entre as áreas;Infra-estrutura mais qualificada;
Quanto as/os educadoras/es formados/as pelo curso de Pedagogia do Centro Universitário Metodista IPA, este não foi escrito especificamente para educadores/as populares, mas ouviu a demanda do grupo, inserindo assim disciplinas da educação popular com profissional com alguma experiência neste campo. Para uma das pedagogas/educadora popular formada pelo IPA o curso "abriu novas possibilidades e deu oportunidade para que outras pessoas conhecessem quem somos nós e como trabalhamos". Para a professora Patrícia Dorneles , educadora popular mestre em Educação e doutoranda, uma das experiências significativas do Curso de pedagogia IPA e Movimentos Sociais foi "a ousadia da instituição em construir esta parceria com a AEPPA, a possibilidade de conhecer o trabalho de colegas e a troca significativa da contribuição das educadoras populares nos conteúdos da disciplina de Educação Popular". Quando entrevistei a professora indaguei a seguinte questão: Qual foi o fato que mais te marcou como professora da turma de Pedagogia do IPA com educadores populares e por quê? A professora respondeu da seguinte forma: A participação das educadoras populares na sala de aula era a experiência viva, do que o Boaventrura fala da Ecologia dos Saberes. "É a experiência e o conhecimento popular no intercâmbio com o conhecimento acadêmico". A mesma professora trouxe um relato que justifica a importância da formação dos/as educadores/as populares, bem como dos registros deste processo:

(xxxxxx), educadora popular, teve papel diferenciado na turma. (...) a mesma foi convidada por mim a fazer seus relatos de experiências em outras turmas da disciplina de Educação Popular. Inclusive foi palestrante do pós graduação em Saúde Coletiva, onde ministrei a disciplina Educação Popular e Saúde. Um destaque é que o relato de (xxxx) a partir de sua experiência facilitava a compreensão dos alunos no que significa a proposta da educação popular e a metodologia de trabalho, dialógica.

A experiência do curso da PUC a construção deste caracteriza-se pelo movimento de educadoras/es populares numa perspectiva de luta em busca da emancipação. Essa busca deu-se por meio da AEPPA cuja metodologia de constituição do curso estabeleceu-se através diálogo entre Movimento social (AEPPA), instituições conveniadas com poder público municipal e Universidade.Esse inédito diálogo resulta de uma singularidade como diz as professoras deste curso (Pedagogia com ênfase em Educação Popular) ele é "à construção e realização de um curso ? primeiro e único no país ? voltado, inteira e exclusivamente, para a formação de educadores populares". È nesse sentido, que escrever sobre está temática torna-se desafiante, porque Educadores/as Populares se descobrem profissionais diferenciadas daqueles/as que concluem cursos de Pedagogia "empacotados" como diz uma sócia da AEPPA e concluinte deste curso. Jussara Loch (PUC), professora e coordenadora deste curso:

Este curso nasceu a partir do Movimento Social com relação ao trabalho- eles já eram educadores de creche, MOVA, SASE. Então eles tinham já uma relação intima com o trabalho. Eles tinham a prática ligada ao Movimento Social. O curso nasce a partir daí (M.S e trabalho) ligado ao Movimento da Associação de Educadores de Porto Alegre. Eles reivindicaram a realização do curso e ele foi projetado para eles. (...) os eixos escolhidos faziam diálogo entre a prática que os educadores já vinham desenvolvendo. Assim a teoria estava sendo constituída. (Entrevista, 2010)

Para uma das educadoras diz que esse curso "viabilizou a sua transformação", pois" deixei de ter uma visão ingênua da educação". Assim, esses cursos possibilitaram, a partir da construção currículos inovadores, a construção de uma outra pedagogia possível: a pedagogia da participação. O direito de "aprender a dizer a palavra" (FIORI, in FREIRE) pressupõe uma "relação direta entre participação, cidadania e democracia" (STRECK, 2005), visto que somos sujeitos que desejamos sempre" ser mais". Logo, a construção coletiva desses cursos com essa vontade ontológica do ser humano de ser mais, materializado na participação requer entender o contexto dessas trabalhadoras/es que trabalham nos bairros populares da cidade e estão engajadas/os com o movimento possuindo um desejo de construir novas possibilidades de fazer diferente, ou seja, recriando coletivamente e solidariamente novas formas de fazer educação, como bem relatou uma das educadoras popular formada pela PUCRS, que diz ter superado a "visão ingênua da educação". Este é um desafio da formação de educadores/as populares, e sabe-se que não é tarefa fácil, mas necessária e possível. Por fim, fica evidenciado que se faz necessário lutar e construir uma Pedagogia da Participação nos espaços que se faz Educação Popular, e que cursos de Pedagogia devem trabalhar a educação popular em seus diferentes contextos, devendo pautar a questão do trabalho docente como forma de promover também formação política de educadores/as, ou seja, precisamos reinventar novas pedagogias. Logo, a formação de educadores/as populares participantes da AEPPA percebem e advogam que cursos de Pedagogia devem pautar a educação em diferentes espaços, portanto dialogar com o saberes de experiência feito de educadores/as em exercício.
Assim, para Freire (2001) "mudar a cara da escola", no intuito de "torná-la popular, alegre e séria" exige participação, e na e com a AEPPA, educadores/as tem se desafiado a criar novas pedagogias, pois acreditam que,

Não devemos chamar o povo à escola para receber instruções, postulados, receitas, ameaças, repreensões e punições, mas para participar coletivamente da construção de um saber, que vai além do saber de pura experiência feito, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história. (FREIRE, 2001c, p.16)



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