Do luto a luta: percursos familiares na educação escolar de crianças surdas
 
Do luto a luta: percursos familiares na educação escolar de crianças surdas
 


DO LUTO A LUTA: percursos familiares na educação escolar de crianças Surdas[1]

 

Patrícia Mª Paula S. D’Ávila Pires[2]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB

Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – PPGEduC

Salvador - Bahia

 

RESUMO

 

Este artigo parte da seguinte indagação: “De que forma o processo do luto vivenciado pelas famílias de crianças e jovens Surdos interfere na condução da educação escolar desses alunos? Encarar a diferença surda como modo de vida, possibilita o desenvolvimento de estratégias exitosas para o desenvolvimento escolar desses sujeitos?” No processo investigativo, buscou-se examinar bibliografias específicas baseadas na concepção sócio-antropológica, dentre as quais pode citar: Quadros (2007), Danesi (2001), Skliar (2003), Patto (2008) e outros. O presente trabalho objetiva investigar o processo do luto vivenciado pelas famílias de Surdos, mostrando a sua interferência na condução da educação escolar desses sujeitos. A metodologia aplicada fundamentou-se na Pesquisa-Ação, numa abordagem qualitativa, na qual os dados coletados foram predominantemente descritivos, surgidos dos relatos familiares sobre as suas experiências com o processo educacional do seu parente surdo. Os resultados, apesar de serem inconclusos, apontaram para a ausência de comunicação, a resistência através da utilização da língua de sinais e da perspectiva negativa do futuro do Surdo. Estas são evidências que refletem a não aceitação da surdez pela família, entretanto vislumbraram possibilidades de enfrentamento das mesmas em suas ansiedades, dúvidas e incertezas, ilustrando os seus percursos na condução da educação escolar dessas crianças.

 

 

 

Palavras-chave: Surdez. Família. Inclusão Educacional.

 

 

 

Introdução

 

As políticas públicas de inclusão na educação se compõem com base nas demandas essenciais à participação de grupos minoritários, que historicamente foram estigmatizados e excluídos do processo educacional. Surgiram de uma conjuntura global de políticas focais, que buscam atenuar os processos de exclusão e de desigualdades, motivados especialmente, pela marca da deficiência. Este é um debate necessário para que transformações ocorram no cenário educacional brasileiro. Com este intuito, ações devem ser empreendidas que focalizem não só o espaço escolar, mas as diferentes instâncias que promovem a educação, como por exemplo, a instituição familiar. Desse modo, a temática família-escola, suscita estudos que busquem entender esta relação e traçar caminhos para que estas instituições possam desenvolver ações colaborativas que objetivem a inclusão da pessoa com deficiência.

Nesse sentido, buscou-se desenvolver uma investigação, pautada na Pesquisa-Ação para compreender por que as famílias dos alunos Surdos[3] da Escola Especial Lions Clube Cl Aurélio Pires, no município de Santo Antonio de Jesus, não se envolvem ou envolvem-se superficialmente na educação escolar de seus filhos. Esse fato tem dificultado, provavelmente, o avanço desses alunos no processo educativo e expressa ainda a necessidade da escola possibilitar a criação de um espaço de diálogo em que se registrem as experiências vividas pelas famílias de surdos e as orientem, no que tange à educação escolar. Diante do fato, questiona-se: “De que forma o processo do luto vivenciado pelas famílias de crianças e jovens Surdos interfere na educação escolar desses alunos? Encarar a diferença surda como modo de vida, possibilita o desenvolvimento de estratégias exitosas para o desenvolvimento escolar desses sujeitos?” Supõe-se que seja necessário, antes de tudo, considerar os percursos familiares, tanto do sujeito Surdo quanto o da sua família, porque muitas vezes essa diferença é concebida como desvantagem e determina a autonomia que deve ser construída. Para tanto, propôs-se uma intervenção visando reforçar que a diferença Surda não se dá a partir da incapacidade biológica para ouvir, mas que se constitui da experiência visual, da necessidade de atuar numa comunidade Surda, compartilhar com seus pares e possuir uma língua visuo-espacial, com uma maneira de viver e de organizar o tempo e o espaço diferentes, sendo, portanto, capaz de se colocar dentro do discurso da diferença cultural.

Com o enfoque na pesquisa qualitativa e ênfase na Pesquisa-Ação, que envolveu as famílias de surdos da Escola Lions Clube Cl Aurélio Pires, foi desenvolvida uma interação efetiva com as mesmas. No processo investigativo, buscou-se examinar bibliografias específicas numa perspectiva sócio-antropológica da Surdez, dentre as quais se destacam: Quadros (2007), Danesi (2001), Skliar (2003), Patto (2008) e outros, bem como, empreendeu-se um trabalho de campo no qual se realizou entrevistas semi-estruturadas, questionários e oficinas. Essa temática instigante foi geradora de diversas discussões deveras relevantes, tanto pelos processos a que se submetem as famílias dos Surdos nas relações sociais, educacionais, emocionais e afetivas, como na troca de experiências que de alguma forma proporciona contribuição, apoio, solidariedade, na relação entre pessoas que se deparam ou se depararam com situações similares. Contudo, é valido salientar que esta pesquisa encontra-se em desenvolvimento.

          Inúmeras famílias convivem com a Surdez, eis que é imprescindível discutir acerca do seu papel na educação escolar dos filhos Surdos. Assim, no decorrer deste artigo, será apontado o papel preponderante que a oralização ocupou no processo educacional em detrimento ao da aquisição da língua de sinais para compreender e reviver os percursos familiares na educação escolar de crianças surdas.

 

 

A Família no Contexto da Educação Escolar dos Surdos

 

            Diante das transformações históricas pelas quais a Família e a Escola enfrentam, certamente, a revisão dos seus papéis é uma delas. A parceria entre a Família e a Escola é imprescindível, no sentido de adotar o compromisso de reciprocidade entre ambas, numa relação mais horizontal e igualitária na distribuição de responsabilidades. Nesse sentido, é indispensável que a escola assuma seu papel de formadora e promova a “reflexão a partir da experiência de vida dos homens e mulheres que, mesmo dominados pelas relações estruturais da sociedade em que vivem, são dotados de consciência” (PATTO, 2008, p. 34). Porém, não se pode esquecer que é no âmbito familiar que se inicia o acolhimento que reorganizará e estruturará a vida dos sujeitos. O processo de socialização é também imprescindível à pessoa Surda, pois é com/na família que suas habilidades linguísticas e sociais devem ser desenvolvidas, o que favorecerá a geração conhecimento do mundo e das culturas, tornando-se assim, o primeiro espaço de aprendizagem para estas crianças.

            Para Guarinello (2004) a família é o espaço educativo ideal para começar o acolhimento fundamental para os surdos. A autora enfatiza a família como a primeira escola responsável pelo desenvolvimento das capacidades das crianças. A família que se prepara e se conscientiza de seu papel, incentiva a criança a frequentar a escola, para que consiga vivenciar as oportunidades promovidas em seu âmbito. Portanto, quando a criança surda é estimulada pela família, tem maiores possibilidades de se desenvolver linguística e cognitivamente. O conceito de família perpassa pelas concepções individuais vivenciadas em suas próprias famílias, portanto é subjetiva, envolvida em uma rede complexa de relações e emoções e concebida em suas diversas composições.  Entende-se que a educação familiar dos filhos, especialmente dos Surdos, representa um requisito social decisivo para a formação escolar dos mesmos, uma vez que, a família, juntamente com a escola, exerce um papel fundamental no desenvolvimento pleno da criança. Por se tratar de uma instância mediadora entre o indivíduo e a sociedade, que apresenta uma complexidade em suas relações e interações, a família precisa envolver-se no processo educativo do seu filho.

No entanto, durante muito tempo, a concepção da Surdez foi vista em conotações negativas.  Moura (2000) destaca a visão aristotélica da antiguidade, que não considerava os Surdos como pessoa competente, isso baseado na crença de que o pensamento não se desenvolve sem a linguagem e que esta, por sua vez, não se desenvolve sem a língua oral. Essa ideia de que os surdos não eram educáveis ou treináveis percorreu por vários séculos sem que houvesse questionamentos. As investigações, quanto à aquisição da linguagem oral e de sinais pelas crianças Surdas e, principalmente, quanto à importância da aquisição precoce da Língua de Sinais - LS em seu desenvolvimento cognitivo e lingüístico, posteriormente, indicavam que as etapas para os Surdos são as mesmas que as dos ouvintes, frente à linguagem oral. Isso demonstra que esta aquisição precoce não apenas interfere, mas favorece o desenvolvimento nas dimensões da linguagem e do pensamento.

            A polêmica oral-gestual iniciada no século XVIII continua ainda hoje, com a busca dos métodos mais adequados para a educação dos Surdos. Sem dúvida, esta controvérsia não deve ser entendida como oposição entre os que defendem a utilização da fala, frente aos que defendem a utilização da LS. As famílias que apoiam a ideologia de uma educação oralista fundamentam-se na concepção clínica que visa a “recuperação” da pessoa surda, ou comumente chamada de “deficiente auditivo”. Essa ideologia considera a língua oral em termos terapêuticos.

Quadros (2008) questiona “a possibilidade de o surdo adquirir de forma natural a língua falada, como acontece com a criança que ouve” (QUADROS, 2008, p. 22, grifo do autor). Sabe-se que o processo da aquisição da língua falada pelo Surdo nunca acontecerá da mesma forma que acontece com a criança que ouve, uma vez que, esse processo advém sistemática e formalmente. A autora enfoca o oralismo como uma proposta educacional que contradiz a capacidade natural para a linguagem, pois não consente que a língua de sinais seja utilizada na sala de aula e nem no ambiente familiar, mesmo sendo constituídas por pessoas Surdas que usam a língua de sinais. Os resultados dessa experiência não são satisfatórios para o desenvolvimento da linguagem e da comunidade dos surdos.

Nesse contexto conflituoso, as famílias de Surdos se veem diante da possibilidade do uso da língua de sinais, que visa o desenvolvimento da linguagem na criança surda. Entretanto, a LS ainda era usada como recurso para o ensino da linguagem oral. Esse modelo de ensino foi chamado de Comunicação Total que envolve o uso do bimodalismo, originando assim, o Português Sinalizado[4]. Essa abordagem foi criticada por ser considerada uma pseudolíngua intermediária. Segundo Sacks, “os surdos são obrigados a aprender os sinais, não para as ideias e ações que expressam, mas pelos sons fonéticos em Inglês que não podem ouvir”. (SACS, 1990, apud, QUADROS, 2008, p. 47)

Diante de tantas concepções, as famílias se deparam com mais uma proposta educacional, o Bilínguismo ou Biculturalismo, que propõe tornar acessíveis à criança surda as duas línguas no contexto escolar. Para tanto, precisa-se considerar a língua de sinais como língua natural e o ensino da Língua Portuguesa na modalidade escrita. Essa proposta se aprofunda nas concepções sociais, culturais e antropológicas da Surdez e, apoia-se na questão da Identidade Surda[5] como um elo essencial à construção de um paradigma pedagógico significativo que cria condições linguísticas e educativas adequadas para o desenvolvimento bilíngue e bicultural dos surdos.

Essa concepção visa à promoção do uso da Língua de Sinais (LS) como primeira língua do Surdo, em todos os níveis escolares que define e dá significado ao papel da(s) segunda(s) língua(s) na educação dos Surdos, bem como a difusão da LS, da comunidade e da cultura dos surdos para além das fronteiras da escola. Skliar (2003, p. 2) afirma que “esse direito deve ser analisado, avaliado e planejado juntamente com os surdos e do conceito de uma educação integral, significativa, justa e participativa”. No que diz respeito ao currículo escolar, a família precisa estar atenta aos conteúdos e aos temas culturais estabelecidos pela Escola, pois estes devem garantir o acesso à informação por parte dos Surdos, para que assim, gerem um processo de participação integral enquanto cidadãos e desenvolva ações para o acesso e a inclusão dos surdos à profissionalização, ao mundo - e não apenas ao mercado - de trabalho.

Desse modo, as famílias que defendem a LS consideram que a linguagem constitui o sujeito, tanto na maneira como este concebe e percebe o mundo, quanto a si mesmo. A verdade é que compete às famílias juntamente com os profissionais especializados, indicarem o melhor modo de incluir seu filho na sociedade, contudo é necessário que conheça o processo de ensino do seu filho e o processo de inclusão deste na sociedade. Assim, é imprescindível reconhecer antes de tudo, que a cultura Surda deve ser respeitada e aperfeiçoada. Entretanto, somente será possível, segundo Quadros (2008, p. 28) quando educadores, surdos e a sua família, “trabalharem juntos e respeitarem a pessoa Surda e sua condição sociolinguística”.

 

Do Primeiro Impacto às Novas Possibilidades

             

            “Seu filho é Surdo”! Esse diagnóstico é como “um balde de água fria” e, sujeita a família a confrontar os sonhos e os anseios com aqueles que tanto idealizavam, acerca do nascimento de seu filho. Essa notícia quase sempre é dada por um médico que apresenta uma visão clínica e científica do quadro, e se preocupa apenas em esclarecer as limitações apresentadas na deficiência diagnosticada, inclusive as consequências para o desenvolvimento dessa criança (geralmente, uma visão negativa), terminam por transformar esses sonhos em pesadelos frente às limitações e aos desafios que precisarão superar. 

O que ecoa nos ouvidos dos pais é o sentido dado para a deficiência, vista na abordagem clínica como uma limitação corporal presente no organismo de uma pessoa ou em seu comportamento, diagnosticada através de uma avaliação médica visando à identificação da presença de algum componente patogênico no organismo (SAETA, 1999). Tal abordagem nega à família, nesse momento, a principal informação ao se ter um filho Surdo, a de que seu filho apresentará apenas uma diferença na comunicação, que ele poderá ser o que desejar, podendo questionar, dialogar, pensar, ser feliz, construir cultura e identidade como qualquer outra criança. Contudo, terá de adquirir uma língua cuja modalidade é visuo-espacial e não oral-auditiva como a da sociedade majoritária. Nesse sentido, é por meio do convívio familiar que a criança inicia o desenvolvimento das relações sociais.

O aporte teórico apresentado serviu de fundamento para análise dos dados da pesquisa, que ainda encontra-se em andamento na ELCAP, no município de Santo Antonio de Jesus, no Recôncavo Baiano, na qual envolveu familiares de Surdos dessa comunidade escolar, na tentativa de reviver os percursos familiares dessas crianças e a consequência desses percursos na sua condução da educação escolar. Vale ressaltar, que os sujeitos colaboradores da pesquisa têm a sua privacidade preservada, identificados por nomes fictícios. A técnica que a presente Pesquisa-Ação se valeu foi a da observação, com o registro das experiências relatadas pelas famílias quanto ao desenvolvimento escolar de filhos surdos, através da realização de uma oficina temática Meu filho é Surdo, e daí! A pesquisa foi realizada durante primeiro semestre do ano letivo de 2011. De início, foi solicitada a autorização da direção da escola e a obtenção do consentimento livre e esclarecido dos participantes. Em seguida, definiram-se os procedimentos metodológicos que conduziram a investigação e o conjunto de processos. Buscou-se nessa Pesquisa-Ação, portanto, sensibilizar a família para que se sinta como partícipe do processo educacional, pois seu apoio contribuirá, e muito, no desenvolvimento educacional da criança sem, contudo, substituir a escola.

A Escola contempla 100 alunos matriculados, sendo apenas 13 surdos e funciona nos turnos matutino e vespertino. Ressalta-se que ela é identificada como uma escola especial que, em breve, tornar-se-á Centro de Educação Especial e, atualmente atende pessoas com Deficiência (Cegueira, Deficiência Intelectual, Transtorno Global do Desenvolvimento) e Surdez. Trata-se de uma escola conveniada, de pequeno porte, fundada no ano de 1992, com uma população pertencente, em sua maioria, à classe popular. Sua estrutura física é considerada muito boa, com dois pavimentos, laboratório de informática, contudo há apenas dois computadores, nove salas de aulas iluminadas naturalmente, com boa ventilação e mobiliários conservados, banheiros adaptados para cadeirantes, porém ainda não possui acessibilidade ao pavimento superior, pois não dispõe de rampa ou elevadores. O quadro de profissionais é composto por professores efetivos da rede pública Estadual e Municipal, em processo de qualificação na área de educação especial. O pedagógico se divide em núcleos: de atendimento educacional especializado – AEE; núcleo de convivência; tecnologia e adaptação de material; formação de professores e pesquisa. Os alunos que ainda não estão incluídos na escola regular possuem atendimento pedagógico durante toda a semana, os quais se incluem os Surdos.

Sacks (1998) destaca que 95 % dos Surdos nascem em famílias não-surdas e deparam-se diante de relações conflituosas por conta das expectativas de seus pais que desejam que seus filhos sejam ouvintes. O autor ainda enfatiza que pesquisas apontam para que o processo de socialização da criança Surda com sua família não-surda aconteça satisfatoriamente, contudo é imprescindível que esta reconheça sua especificidade. Para tanto, seus familiares precisam estar cientes para que busquem soluções e recursos para essa adaptação. Nas entrevistas desta pesquisa constatou-se que nenhum dos alunos Surdos realizou a Triagem Auditiva Neonatal[6]. A detecção do déficit auditivo dentro dos três primeiros meses de vida, para atendimento apropriado antes dos seis meses, daria um diagnóstico precoce de surdez. Entretanto, percebe-se que as suspeitas de que a criança não ouvia se iniciaram muito cedo, cerca de 70% dos entrevistados perceberam a Surdez antes dos três anos, conforme Gráfico 1.

GRÁFICO 1 - Percepção da Surdez

                         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Entrevista com famílias de surdos da ELCAP

Geralmente quem percebe a Surdez é a própria mãe ou alguma pessoa da família (tia, avó), o que foi confirmado nas entrevistas. As lembranças quanto às experiências que levaram à possibilidade da Surdez também foram bastante semelhantes, conforme relatos: “Colocava na cama e não chorava, não atendia ao chamado, era muito quieta...” (mãe de Beatriz, 11 anos).  “Ela não falava e não atendia quando a gente chamava, batia nas coisas e ele não percebia nada” (mãe de Daniel, 10 anos). Os relatos indicaram que a percepção esteve sempre relacionada à falha nas respostas das crianças aos estímulos sonoros e a demora na aquisição da linguagem. Ao observar alguns desses indicativos ou sintomas apresentados pela criança, sugerem a diferença no seu comportamento auditivo.

Devido à condição da Surdez, desde o nascimento ou muito precocemente, as crianças Surdas apresentam relevantes atrasos no desenvolvimento da função auditiva e do desenvolvimento linguístico, uma vez que a inclusão no mundo sonoro e experiências auditivas é que consente a audição funcional e o desenvolvimento natural da comunicação oral. Conforme afirma Margalli e Honora (2006, p.124): “A falha auditiva impede que a criança perceba os sons do mundo que a cerca, impossibilitando o estabelecimento das relações entre as experiências vividas, os sons e a fala”.

Trata-se de uma defasagem que advém da baixa qualidade de comunicação que compromete os aspectos familiares, sociais, emocionais e educacionais, o que implica em sua qualidade de vida e inclusão social indispensáveis ao desenvolvimento do sujeito Surdo. Quando nasce uma criança surda a família não se espanta a princípio, pois geralmente, descobre-se a surdez posteriormente, mas o impacto de se ter um filho inaudível ainda é devastador apesar das relações afetivas já terem sido construídas. Esse diagnóstico evidencia um momento desestruturador, que altera o equilíbrio emocional familiar.  Os sentimentos são diversos e constituem-se num impacto inicial, que muitas vezes se estende por um longo período. Esses sentimentos, segundo Portela (2008, p. 6) “estão relacionados à dinâmica interna de cada família e de cada um de seus membros”.  Quando os pais foram questionados sobre os quais sentimentos emergiram, no momento, o diagnóstico da Surdez do seu filho, narraram vários sentimentos desde um choque seguido, normalmente, da rejeição, como forma de negar ou de não aceitar a realidade, e da incredulidade acompanhadas de sentimentos de culpa, frustração, raiva e, até depressão e desânimo, conforme relatos: “Fiquei um pouco abalado, triste, me faltou chão. A gente nunca quer admitir que tem um filho diferente da gente” (pai de Renato, 18 anos) e “Fiquei revoltada, pensei logo sobre o trabalho que essa criança ia dar. (pausa) Não tem jeito, tenho que carregar essa cruz. Se eu soubesse disso antes tinha abortado” (mãe de Adriano, 07 anos).

Esse estágio é perfeitamente aceitável, afinal, ninguém se prepara para receber “um filho diferente da gente”, como afirmou o pai de Renato. É considerado um período de luto, um momento de assimilação da situação e, é intensamente influenciado por uma avalanche de informações clínicas contidas no diagnóstico da perda da audição. Na medida em que atitudes negativas, face ao nascimento de uma criança Surda, começam a se reduzir, as famílias conseguem organizar-se emocionalmente, promovendo o ajustamento e a possível aceitação. A nova trajetória que começa a ser trilhada será gerenciadora de conceitos em busca de soluções para “a deficiência” do filho Surdo, fazendo com que, a família busque alternativas na tentativa de “curar” seu filho “da deficiência”, pois acredita que a tecnologia e estudos científicos, médicos e especialistas promoverão a comunicação oral de seus filhos, e permitirão recursos comunicativos mais eficazes.

Lembrando que os profissionais da área de saúde, geralmente concebem a diferença Surda como uma doença a ser curada ou, ao menos, atenuada. Argumento evidenciado na maioria das atitudes das famílias entrevistadas após o diagnóstico: “Fiz o que pude, busquei tratamento com os médicos, consegui até que tivesse um aparelho, mas não adiantou nada”... (pai de Antonio, 16 anos). A corrida pelo tratamento, pela “cura”, é comum entre essas famílias que buscaram os aparelhos auditivos, acreditando que seus filhos pudessem ser curados, limitando assim, a possibilidade de desenvolvimento linguístico precoce, ao escolherem a via auditiva como caminho, adiando a aquisição da sua língua natural, a Língua de Sinais. Como a abordagem clínica impera entre a maioria dos profissionais de saúde, notou-se que as respostas quanto à orientação dada por eles, em relação ao processo escolar, em termos gerais, não deixa claro as possibilidades de aprendizagem e de ter uma vida normal como das outras crianças: “Nunca falou sobre isso comigo, não explicou nada”.  (mãe de Beatriz, 11 anos)

Diante do exposto, fica a família como responsável pela escolha da educação escolar do filho Surdo, pois é nela que se constrói a base da personalidade do indivíduo e, segundo Danesi (2001, p.120) “a aceitação pela família pela condição de ‘ser surdo’ proporciona àquela criança condições melhores de desenvolvimento”. A partir daí, inicia-se o processo de luta pela inclusão do seu filho Surdo na família, na comunidade e na escola. Apenas uma mãe afirmou: “Disse (o médico) que eu colocasse na escola especial para aprender a língua de sinais” (mãe de Maria, 16 anos). Com os relatos, se identifica os tipos de encaminhamentos educacionais tomados pelas famílias dos Surdos e a sua relação com o seu desenvolvimento escolar.

A primeira vez que procurei escola para ela, ‘tava com uns 5 anos, só que a escola não quis receber , esperei ela fazer 7 anos para ela estudar[...] Não saio com ela pra lugar nenhum, nem festa, nem passeio [...] Não levo na casa de ninguém [...] Só vive presa [...] Você não sabe o que essa menina apronta [...]  (mãe de Beatriz, 11 anos).  

Comportamento como dessa mãe, que esconde seus filhos em casa por vergonha, desespero ou desconhecer o direito de incluí-los nas instituições, especializadas ou não, públicas e particulares, que podem atender a crianças Surdas, só dificulta o processo de desenvolvimento e aprendizagem das que já se deparam com o atraso linguístico, além de produzir uma baixa auto-estima nestes sujeitos, interfere significativamente na sua relação com o saber e com a escola. O ideal é que os serviços educacionais sejam iniciados a partir da Educação Infantil, com a educação essencial ou a estimulação precoce, de preferência nas escolas especiais, onde a criança terá a possibilidade de conviver com pessoas da comunidade surda. Nas escolas de ensino regular, sugere-se que depois da criança Surda adquirir a sua língua natural, seja incluída junto às crianças da comunidade ouvinte, onde poderá partilhar de experiências e se socializar. Portanto, é relevante que em ambos os casos a família seja o alicerce na estrutura, no acompanhamento de sua escolaridade e sociabilidade, envolvendo-se na escola como um todo para garantir o sucesso do trabalho educativo.

A família assume a função de possibilitar à criança Surda a segurança necessária para que ela adquira autoconfiança, vida independente, aceite a orientação dos pais, perceba que os familiares são importantes e podem ajudá-la na realização de seus projetos de vida. Ao serem questionados quanto à ajuda ao filho no desenvolvimento escolar, todos consideraram importante. “Os pais têm que incentivar a frequentar a escola e, principalmente, precisa aprender Libras” (pai de Renato, 18anos), “aprender a língua dele é a melhor forma de ajudar” (mãe de Maria, 16 anos). São argumentos irrefutáveis, pois evidenciam a relevância da família no desenvolvimento escolar de crianças/adolescentes surdas. Nas atividades educacionais, as experiências familiares estão sempre presentes e podem ajudar ou atrapalhar o processo dos alunos. Lima, Maia e Distler (1999) consideram que a individualidade se forma nas relações familiares e estarão refletidas no decorrer de sua vida.

A LDB nº 9.394/96, nos Art.12 e 13, determina a incumbência das instituições de ensino e de seus docentes de colaborarem com as atividades de articulação da escola com as famílias, auxiliando no fortalecimento dos vínculos familiares. Desse modo, a escola e a família necessitam instituir uma relação de reciprocidade, e que esta se envolva mais diretamente no processo educacional de seus filhos para ajudá-los a “aprender a aprender” e que a escola compartilhe com a família o seu conhecimento sobre a criança, além de respeitar-lhe o desejo ajudando-a a se informar e a se desenvolver simultaneamente.

Embora recentemente as políticas educacionais tenham voltado atenção à educação especial, percebe-se que a participação da família nesse processo e o trabalho sistemático da escola com a mesma, são muito embrionários, principalmente no que se refere às famílias de alunos Surdos das redes públicas de ensino. Quando se trata de uma educação voltada para alunos Surdos, numa abordagem sócio-antropológica, é ainda mais difícil, pois exige uma re-significação do currículo na busca de um enfoque bilíngue e multicultural, com uma estrutura educacional que contemple a contratação de instrutor Surdo e intérprete para ensinar a Língua Brasileira de Sinais (Libras)[7], além de tratar, pedagogicamente, a Língua Portuguesa como segunda língua para os educandos surdos.

Durante a realização da oficina “Meu filho é Surdo, e daí”! , objetivou-se promover um espaço de escuta, sensibilização e socialização de experiências que incentivasse o envolvimento das famílias no processo educacional dos filhos Surdos. Registrou-se, então os relatos das famílias sobre as experiências de se ter um filho Surdo, a educação escolar e outros temas da mesma relevância. Foi organizado um material (slides) visando informar, tirar dúvidas e fortalecer os elos dos filhos surdos com seus pais. Como fonte motivadora para iniciar as discussões, leu-se o texto “Bem vindo à Holanda”... , de autoria de Emily Perl Knisley (1987), que traz uma mensagem sobre a beleza e o valor de vivenciar a experiência de se ter um filho Surdo para descobrir as possibilidades ao se aprender uma nova língua, uma forma de ver o mundo totalmente determinada pela visão. Enfim, uma experiência que exige de cada um a máxima sensibilidade visual, sob pena de perder algum detalhe importantíssimo dessa viagem.

No material apresentado, foram utilizadas algumas falas das mães entrevistadas, sem identificação. Esse momento foi deveras sensibilizador, pois as mães puderam se identificar e refletir sobre o que foi dito nas entrevistas, se questionar, se emocionar com outros depoimentos e repensar suas atitudes perante seus filhos. Outro ponto discutido nesse encontro foi sobre a construção da identidade Surda e da sua comunidade. Os presentes relataram desconhecer que os Surdos também podem representar sua arte, sua cultura, suas conversas cotidianas, suas crenças, e as aprendizagens que compartilham entre si. Assim, foram exibidas imagens de Surdos famosos no Brasil e no mundo, como apresentações de teatro tendo surdos como protagonistas. Ficou esclarecido que a cultura surda se constrói através da Língua de Sinais. Infelizmente, em função do tempo não foi possível verificar uma mudança de comportamento nas famílias, mas ao menos deve tê-las feito refletir sobre sua postura com seus filhos.

Os relatos dos participantes da intervenção sobre suas experiências levaram a perceber que os dispositivos sociais que são oferecidos ao atendimento aos Surdos ainda engajam-se, muitas vezes, em uma prática que foca o desenvolvimento na oralidade. O interessante é que todos salientaram ter buscado a prótese auditiva com treino intensivo de fala como primeira possibilidade. É relevante explicitar que esta pesquisa não pretende desvalorizar a prática da reabilitação tradicional realizada pelos fonoaudiólogos, mas deve considerar que poucos conseguem resultados satisfatórios. Entre os Surdos da ELCAP nenhum foi oralizado com êxito, alguns conseguem ler os lábios muito precariamente.

Buscamos ajudar, comprei um livro que ensinava a língua de sinais, mesmo com a pouca instrução que temos, eu e a mãe, fizemos com que os irmãos aprendessem a língua dele [...]. Ele começou a freqüentar a escola regular junto com os irmãos, desde os cinco anos de idade, mas não tinha interprete. Depois fiquei sabendo que tinha uma escola especializada e aí, matriculei ele. A Igreja nos ajudou muito, porque tinha instrutor de Libras lá,... Hoje fico feliz quando vejo ‘ele’ fazendo discursos bíblicos em Libras.  (pai de Renato, 18 anos).

Este relato representa a busca de caminhos, até então considerados alternativos na Educação de Surdos, já que a ênfase era na oralização do sujeito. Demonstra assim, o movimento familiar na busca de caminhos que está intrínseco o reconhecimento da diferença Surda e nega a afirmação de que a Surdez seja causadora de limitações cognitivas e afetivas. Neste enfoque, o apoio da família em sua educação e a preocupação no ensinamento de valores pela via da língua de sinais, mostra que a verdadeira limitação está nas condições em que se deparam esse sujeito Surdo. A verdade é que a atual sociedade não está preparada para receber esse sujeito, não lhe oferece condições para o desenvolvimento e consolidação da sua linguagem. Há dificuldade da família em conseguir uma escola que ofereça uma educação de qualidade para o seu filho.

Uma das mães relatou que seu filho “[...] é muito agressivo, quando briga quebra tudo dentro de casa”. (mãe de Fábio, 18 anos) Que relações são estabelecidas dentro dessa família? Como essa família encara a diferença surda? Segundo Góes (1999) caracterizações estereotipadas, como pensamento concreto, elaboração conceitual rudimentar, baixa sociabilidade, rigidez, imaturidade emocional, agressividade têm se associado ao Surdo. Uma das maiores dificuldades narrada pelas famílias quanto a educação e convívio com a criança Surda diz respeito à comunicação. Isso traz outros problemas adicionais, como dificuldade de entender as necessidades da criança e acarreta ainda, problemas de socialização no lar e na escola e aparecimento de comportamentos agressivos por parte do Surdo. A família, independente do modelo como se apresenta, deve favorecer a afetividade e segurança, apesar dos medos, das incertezas, das rejeições, dos preconceitos e até da violência, que são obstáculos a serem transpostos na educação dos filhos, independente de ser Surdo ou não.

Durante as discussões, foram indicados outros caminhos, mais viáveis, que possibilitassem às famílias condições de oferecer ao Surdo um melhor desenvolvimento linguístico, social, emocional, afetivo, educacional e cultural. Umas delas é a aquisição da língua de sinais pela família, quando se sugeriu a realização da oficina de Libras para os familiares que tivessem interesse. Na maioria das famílias das crianças Surdas da ELCAP, a comunicação se dá por meio da leitura labial e gestos (09 casos), Língua de sinais e oral (03 casos), apenas oral (01 caso). Ressalta-se que apenas uma mãe comunica-se através da Língua de sinais e os outros são irmãos que fazem a mediação na comunicação. Na família em que a criança entrou recentemente à escola, a comunicação é basicamente oral. Em outras, apesar da criança frequentar a escola há mais de quatro anos, a família opta pela oralidade, seguida de gestos.

A aquisição de uma língua auxilia a criança na construção de sua subjetividade, inserindo-a no processo dialógico de sua comunidade, trocando idéias, sentimentos, de modo que compreenda seu meio e adquira, assim, novas percepções do mundo. Entretanto, no que tange às crianças Surdas, filhas de pais não-surdos, esse processo não ocorre naturalmente, segundo Quadros (2009), pois as modalidades linguísticas empregadas nas interações mãe e filho dificilmente são adquiridas por essas crianças. Contudo, algumas famílias começam a perceber as mudanças ocorridas no cenário educacional e a ter voz ativa na exigência de uma educação de qualidade para seus filhos surdos. “Hoje, eu só quero que meu filho seja feliz, e tenha os mesmo direitos dos outros na escola [...] Eu aprendi um pouco da Língua de sinais para ajudá-lo nas atividades escolares” (mãe de Daniel, 10 anos).

A Professora Desirrée De Vit Begrow (2011) afirmou durante uma aula[8] “Quando um filho nasce surdo quem emudece é a mãe”. Durante muito tempo, muitas mães se viram emudecidas na expectativa de que os outros tomassem a decisão acerca do futuro educacional de seus filhos, confiando que a próxima proposta seria bem melhor e tolerando os embates e estigmas aí originados. Quanto à experiência na oficina “Meu filho é surdo, e daí”! , o que surpreendeu foi o comentário do pai de Renato que afirmou: “É um momento de aprendizagem para nós, pais de Surdos, não só pela convivência com eles, mas pela possibilidade de compartilhar com outros pais que vivenciam situações semelhantes”. Outros, ainda complementaram que “é importante compartilhar conhecimentos e sofrimentos” (mãe de Maria, 16 anos). Compreende-se, portanto, que o conhecimento está no sentido de oportunizar a troca de informações e experiências, as quais o aprendizado entre os pais seja determinante nas situações da vida cotidiana.

Desta forma, para estas famílias foi reconfortante encontrar e compartilhar experiências com outros sujeitos, envolvidos em conflitos semelhantes, socializando os seus sentimentos de angústia, dor, superação e esperança. Estes depoimentos demonstraram que as pessoas, ao perceberem que seus semelhantes passam por dificuldades e busca soluções no enfrentamento e que deste enfrentamento se reinventam como sujeitos, reinventando também as suas relações com o seu filho, compreendem que não estão sozinhas e que juntas podem construir uma realidade mais justa para si e para os seus iguais.

Nos relatos quanto à educação escolar, as famílias optam pela escola especial, por acreditar ser mais adequada para o Surdo ou porque a maioria das escolas regulares ainda não tem intérprete. Sendo assim, a escola comum precisa tornar-se o espaço de aprendizado que transcenda a alfabetização. Para muitas famílias de Surdos, a escola também é concebida como a possibilidade de aprendizado e de inclusão social. As perspectivas que as famílias têm no que diz respeito à educação escolar estão associadas à forma com esta encara a diferença Surda. Observou-se que nos discursos de alguns estavam embutidos valores que negam a possibilidade de aprendizado e desenvolvimento dessas crianças, “Ela nunca aprende mesmo, ela vem para escola para não ficar em casa” (mãe de Beatriz, 11 anos) isso provavelmente pode prejudicar o seu desenvolvimento. Nota-se, também que algumas famílias deixam claro que a responsabilidade da aquisição da língua de sinais é responsabilidade da escola. Essa posição, quanto à educação de seus filhos, constroi um obstáculo entre ambos, limitando o trabalho do desenvolvimento das habilidades da criança. Para um resultado satisfatório, a escola e a família devem firmar uma parceria, no sentido de se conhecer, para diagnosticarem juntas as dificuldades, os medos, os anseios, as características e as prováveis implicações que apontam o caminho para as famílias.

A relação família e escola é algo que deve ser usado a favor da construção coletiva da relação dialógica, de interação, de construção de saberes, para a compreensão e aceitação do outro. Uma das maiores expectativas das famílias é que a escola ofereça conhecimentos, informações, apoio e orientação sobre como se relacionar, especificamente com a convivência com uma pessoa não-ouvinte. A escola precisa estar atenta para estas questões, pois a ausência de uma intervenção junto às famílias poderá produzir representações negativas sobre a surdez, interferindo negativamente a relação entre a pessoa surda e os familiares e na condução do processo educacional destes educandos. Este desenho familiar tem um impacto direto na escola e no processo de aprendizagem destes sujeitos.

 

 

Considerações Finais

 

É na família que se constroi os valores, as relações, cultura e sentimentos que farão com que as pessoas possam ver o mundo e a si mesmo com parte dele, além de contribuir também na estrutura psíquica, onde o conhecimento se diferencia, por padrões emocionais e afetivos com seus membros, amparando a criança no desenvolvimento de estímulos que os ajude a enfrentar os obstáculos que a vida os impõe. Conviver com crianças surdas é para essas famílias a possibilidade de flexibilizar sua estrutura interna, já que vivenciam mudanças em toda sua dinâmica. Com a parceria Escola e Família, a família encontrará o apoio necessário em direção à promoção da educação de qualidade para criança, em especial a criança surda, e a construção de uma relação saudável com a família. A experiência de aproximar a família da escola, fez com que se percebesse a dificuldade das famílias em sua convivência com as crianças Surdas, bem como serviu de oportunidade para discutir acerca da questão da Surdez sob o ponto de vista sócio-antropológico e possibilitar o rompimento com a discriminação e a opressão sobre os sujeitos diferentes, pautadas nas ideologias da normalidade que orientam as práticas educativas.

A baixa qualidade de comunicação, a resistência através da utilização da língua de sinais, o ambiente familiar muitas vezes desestruturado foram evidências que refletem a não aceitação da Surdez pela família. Além disso, ainda evidenciou-se que baixa qualidade de comunicação, ocorre justamente por que a maioria dos familiares não conhece a Libras o que prejudica o desenvolvimento cognitivo, gerando isolamento social, agressividade, distanciamento da família e, consequentemente prejudica a educação escolar. Muito embora esse cenário esteja se modificado, percebe-se pouca conscientização sobre os direitos do exercício da cidadania, evidenciando a necessidade do apoio da escola no auxílio a esses familiares. Como participes na implementação dos processos ensino-aprendizagem as famílias favorecem a inclusão escolar de seus filhos, de sua participação ativa na sociedade, reconhecendo a aquisição da língua de sinais como pré-requisito à consolidação da cultura e da identidade Surda.

Enfim, para que a criança tenha um desenvolvimento linguístico, cognitivo, afetivo, emocional, social e educacional é indispensável um envolvimento de todos os membros da família no processo ensino-aprendizagem e, que as suas contribuições subsidiem as orientações no processo educativo que considerem adequados, evidenciando as possibilidades comunicativas da criança Surda. O ideal é que as oportunidades de comunicação aconteçam em um contexto significativo para elas.

Considera-se relevante a continuidade dessa proposta de intervenção, incluindo oficinas que orientem os pais de crianças Surdas, visando romper com o estigma social que envolve a Surdez e o uso da Libras com primeira língua - L1, reconhecendo-a “como único meio natural de comunicação e socialização de seus filhos Surdos”. (QUADROS, 2009, p. 273, grifo do autor), além de incentivar estudos e projetos de pesquisa no âmbito escolar que auxiliem a elucidar as complexidades do processo de ensino/aprendizagem de uma Língua de Sinais para pais ouvintes, num esforço de superação das barreiras de comunicação. A intenção desta pesquisa foi a de contribuir para a temática surdez-família-escola, um campo ainda pouco explorado na academia brasileira, além de criar, na instituição investigada, um espaço de reflexão, onde as famílias pudessem se expressar, ouvir, trocar experiências e opiniões sobre a Educação Escolar de seus filhos surdos. Este espaço ainda precisa ser inaugurado ou fortalecido em muitas escolas brasileiras, mas o percurso da Pesquisa-Ação empreendida neste estudo provou que este encontro, família-escola, é possível e necessário para que uma educação de qualidade para a pessoa Surda seja edificada.

 

 

Referências Bibliográficas  

 

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[1] Artigo apresentado como requisito à conclusão do curso de Especialização em Educação Especial - Deficiência Auditiva pela Universidade do Estado da Bahia, sob a orientação da Professora Ms Simone Andrade.

O título foi inspirado no documentário “Do luto à luta” de Evaldo Mocarzel que faz uma análise das deficiências e potencialidades da Síndrome de Down.

 

[2] Pedagoga, especialista em Planejamento Educacional, Psicopedagogia e Coordenadora Pedagógica da Escola Lions Clube Cl A. Pires

E-mail: [email protected]

 

[3] Considera-se o vocábulo Surdo e não surdo em função da concepção sócio-antropológica reconhecer o Surdo como sujeito diferente e não deficiente. Silva (2002) justifica que a palavra deficiência denota a necessidade de um conserto, enquanto que a terminologia diferente conota melhor a condição do surdo que tem uma língua, uma cultura e uma identidade própria.

 

 

[4] O Português Sinalizado é um exemplo do uso de duas modalidades da língua, o bimoldalismo, que neste caso a fala e a sinalização são praticadas ao mesmo tempo.  Para Santana (2007) o Português Sinalizado, é uma língua artificial que utiliza o léxico da língua de sinais com a estrutura sintática do português e alguns sinais  inventados para  representar estruturas  gramaticais  que  não  existem  na  língua  de  sinais.

 

[5] A noção de identidade relaciona-se ao conceito de representações por estarem ambos numa relação de interdependência no sentido de que a construção de identidade se deve, em grande medida, a determinadas representações construídas e, de outro lado, as representações construídas estão relacionadas às identidades “sustentadas” pelo sujeito (Hall, 2000, apud. SILVA, 2005, p.69).

 

[6] Os programas de triagem neonatal devem incluir ações de saúde pública para atingir toda a população. Recentemente, no Brasil, o Ministério da Saúde determinou a implantação de redes de saúde auditiva por meio das Portarias Ministeriais 2.073, 587 e 589. A Portaria 2.073/GM, de setembro de 2004, institui a Política Nacional de Saúde Auditiva, determinando as ações públicas para a saúde auditiva nos níveis de atenção básica, de média e alta complexidade. (FAZITO, 2008)

 

[7] A Lei 10.436/02 reconhece como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Ressalta no Art. 1°, parágrafo único que se entende como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002)

 

[8] Disciplina Abordagens sobre a Educação de Surdos do Curso de Especialização em Educação Especial – Deficiência Auditiva pela Uneb, em 2011, ao tratar da temática a História da Educação dos Surdos e da importância da mãe manter-se linguisticamente com seu filho surdo para que seu desenvolvimento aconteça normalmente no universo linguístico.

 
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