BEBÊS NA ESCOLA: O QUE FAZER?
 
BEBÊS NA ESCOLA: O QUE FAZER?
 


BEBÊS NA ESCOLA: O QUE FAZER?


Aparecida Dolores Tomaselli
01/12/07

RESUMO

A crescente industrialização, a urbanização e conseqüente inserção da mulher no mercado de trabalho geraram a necessidade de instituições para o cuidado e educação das crianças. Estas, por sua vez são levadas cada mais cedo aos núcleos de educação infantil, que gradativamente tem assumido um importante papel na sociedade. Diante disso, este trabalho vem com o intuito de provocar uma reflexão acerca da dicotomia existente entre o cuidar e o educar que ainda vigora nas concepções de alguns profissionais que atuam nessa área, bem como aos olhos de grande parte da sociedade. Nesse contexto, qual seria o papel do profissional de educação infantil e de sua ação pedagógica no trabalho com crianças de 0 à 2 anos? Será que há o que trabalhar com bebês dessa faixa etária?De acordo com estudos realizados por vários autores, é nessa idade que se inicia a formação das estruturas mentais dos seres humanos e o tempo com a exploração, o controle e as conquistas dos movimentos corporais é fundamental Nesse processo, a educação infantil poderá auxiliar o desenvolvimento das capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades motoras, cognitivas e afetivas, através de um trabalho de forma planejada e com organização de espaços adequados, na perspectiva de contribuir para a formação integral das crianças desde que este espaço se configure como lugar de interação e socialização de crianças, complementar à ação familiar.

Palavras-chave: Berçário; Professor; Ação Pedagógica.


1 INTRODUÇÃO
Abordagens como a da Comissão Internacional de Educação para a Unesco e a ampliação do debate acerca da Educação Infantil movimentos e fóruns, impulsionaram um movimento de transformações sociais e questionamentos que geraram transformações na maneira de ser e entender a educação infantil. Estas transformações influenciaram também nossa legislação como demonstra a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), que pela primeira vez usa a expressão "Educação Infantil". E passa a defini-la como primeira etapa da Educação Básica.

A educação infantil torna-se então espaço para trabalhar a criança como um ser integral sendo respeitadas suas diferenças e pluralidades e o professor assume neste contexto um papel de destaque na sociedade, o papel de articulador, construindo e conduzindo o fazer pedagógico de forma a atender os anseios da sociedade em relação à tal.
Ao receber bebês de até 2 anos, a escola assume uma responsabilidade muito grande, aumentando também o grau de exigência em relação aos seus educadores. A realidade do Berçário é bem diferente comparada com o restante das turmas da educação infantil, embora os dois setores sejam interligados. Trabalhar com bebês é sempre delicado, pois a criança se encontra em franco desenvolvimento e os cuidados que receber são fundamentais para um saudável desenvolvimento mental e físico.

Neste trabalho será abordado o trabalho com crianças de 0 a 2 anos, denominado de Berçário e como estas se desenvolvem de acordo com os diferentes níveis de desenvolvimento (motor, afetivo e cognitivo), ressaltando que estes não se dão de forma isolada e sim, de forma simultânea e integrada.


2 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO INFANTIL

A própria nomenclatura "Educação Infantil" ainda é nova no Brasil. Antes a educação infantil era dividida entre creche ou pré-escola. Eram separadas por alguns pontos. As creches atendiam crianças de zero a três anos, tinham um caráter médico-assistencial. Cuidavam das crianças sem preocupações pedagógicas, atendiam as famílias desfavorecidas em período integral. Já as pré-escolas atendiam as crianças entre quatro e seis anos. Tinham um caráter pedagógico, visavam educar as crianças ou prepará-las para serem alfabetizadas, atendiam-nas em período parcial e era voltado para famílias de classe média.

A expansão da educação infantil no Brasil e no mundo tem ocorrido de forma crescente na última década, acompanhando a intensificação da urbanização e a participação da mulher no mercado de trabalho e da conscientização da sociedade quanto a importância das experiências na primeira infância o que motiva demandas por uma educação institucional para crianças de zero a seis anos.

Basicamente as instituições infantis vivem a dicotomia entre o educar e o cuidar e outras idéias podem ser observadas em relação à educação infantil. A idéia de que a escola é a extensão do lar e que às crianças devem ser dispensados cuidados de higiene e alimentação, esta é uma visão assistencialista de educação, outra é a idéia de que nas escolas as crianças devem ser preparadas para cursar as séries iniciais, onde exercícios de treinamento e preparação à escola são priorizados.
A partir de debates, reflexões e estudos na sociedade estas visões foram sendo substituídas pela idéia refletida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) em seu artigo 29 (título V, capítulo II, seção II) que afirma que esta é "a primeira etapa da educação básica e tem por finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando assim a ação da família e da comunidade". O texto legal marca ainda a complementaridade entre as instituições de educação infantil e a família.


Dentro da história educacional, o trabalho pedagógico com a faixa etária de zero a três anos é muito recente. Até pouco tempo atrás, essa faixa era atendida, sobretudo, para suprir as necessidades de higiene, alimentação e cuidados em geral. A nova concepção de infância leva a sociedade à re-significar a Educação Infantil. Com a vigência da lei n° 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a Educação Infantil então passa a ser considerada como a primeira etapa da educação básica com o atendimento de O a 3 anos, em creches, e de 4 a 6 anos, em Jardim ou Pré- escolas, que torna simultâneos e indissociáveis o cuidado e a educação, observando-se, ainda, a função social, quando complementa a ação da família e da comunidade, como determina a lei.


3 DESENVOLVIMENTO INFANTIL (DE 0 À 2 ANOS)

O desenvolvimento humano é social e culturalmente mediado. Como nos mostra Bassedas, Huguet e Solé (1999, p.30), uma criança estará mais aberta à determinada aprendizagem dependendo do contexto em que ela está inserida. "... destaquemos a importância do contexto no qual se desenvolvem as crianças. Os meios ricos em afeto e estimulação permitem uma evolução mais rápida no desenvolvimento das capacidades do que em outros contextos menos ricos em estímulos" (1999, p.30) ao contrário do que muitas vezes é esperado na sociedade. A sociedade prioriza o desenvolvimento cognitivo desvalorizando as outras áreas do desenvolvimento e até mesmo se esquecendo delas.

As escolas muitas vezes cobram e valorizam somente as aprendizagens na área cognitiva. Hoje o desenvolvimento do ser humano é entendido como um processo muito mais complexo onde as diferentes áreas são permanentemente utilizadas. Todo processo de desenvolvimento ocorre como em uma teia entrelaçada, mas de maneira organizada. Bassedas, Huguet e Solé classificam três grandes áreas do desenvolvimento infantil. Estas áreas foram divididas somente por motivos didáticos, para que fossem compreendidas suas peculiaridades, pois como seres integrados e indivisíveis, o desenvolvimento se dá também de maneira integrada.

3.1 ÁREA MOTORA

Inclui tudo o que se relaciona com a capacidade de movimento do corpo humano tanto de sua globalidade quanto dos seguimentos.

Podemos evidenciar duas etapas neste período do desenvolvimento: o primeiro ocorrido no primeiro ano que culmina com a capacidade de locomoção independente; em seguida a segunda etapa entre o segundo e o sexto ano de vida onde ocorre um controle e domínio das principais capacidades motoras essenciais (correr, saltar, caminhar), o conhecimento das partes do corpo e suas possibilidades motoras. Quando a criança nasce ela é completamente dependente do adulto, ela nasce com dois reflexos básicos que lhe garantem a sobrevivência: os reflexos de preensão e sucção.

Seu sistema nervoso estará preparado para uma maturação muito importante, que será a base do desenvolvimento posterior, baseado nas leis cefolocaudal - que inicia-se na cabeça e caminha em direção às partes mais distanciadas (pés) e proximodistal - começa nas partes mais próximas da coluna vertebral para as partes mais distantes do eixo (dedos das mãos e pés), através das quais ocorre o processo de mielinização (recobrimento das células e das ramificações nervosas de mielina que facilita a efetivação de conexões nervosas). Então, quanto mais estímulos recebidos, mais conexões, mais sinapses serão feitas pelos neurônios, logo, mais aprendizado.

Outro aspecto importante que se desenvolve é a utilização das mãos, a criança explora o mundo através do uso das mãos. No, início a criança tem apenas o reflexo de preensão, mas através do uso ela vai evoluindo até adquirir o que denominamos movimento de pinça fina, o que permite o uso mais preciso dos movimentos. No primeiro ano, o bebê utiliza as mãos para explorar o mundo à sua volta e o seu corpo, onde estas passam de simples instrumentos para fontes de comunicação e participação do mundo. Ao bater palmas ou representar músicas utilizando as mãos, às crianças participam das relações com os outros que a rodeiam. Segundo Bassedas et al. (1999, p. 32) : "Nessa evolução, intervêm a maturação do sistema nervoso central, todo o crescimento ósseo e muscular e também as experiências afetivas que o bebê vive com as outras pessoas e os objetos a sua volta".

O tônus muscular varia no decorrer do primeiro ano, desde uma hipotonia total (pouca tensão muscular) até uma tensão ajustada à situação. Por volta dos três meses, pode segurar a cabeça quando levantado por alguém e aos cinco meses já ajuda quando estimulado a sentar-se, procura mudar de postura quando está deitado. Aproximadamente aos sete ou oito meses, consegue permanecer sentado sozinho, mudar de postura e inicia a possibilidade de locomover-se (engatinhar, arrastar-se,etc.). lá pelos dez meses, apresenta interesse de agarrar-se aos objetos para conseguir parar e apoiar-se e, até completar o primeiro ano, geralmente o bebê começa a dar o primeiros passos com ou sem ajuda. Por isso: " ...começa a conhecer, além das partes do seu corpo, todo o espaço próximo que lhe oferece uma grande variedade de possíveis experiências". (Bassedas, et al., 1999, p. 33).


3.2 ÁREA COGNITIVA

Aborda as capacidades que permitem compreender o mundo, nas diferentes idades, e de atuar nele, através do uso da linguagem ou mediante o uso de situações problemáticas que se apresentam.

As capacidades cognitivas são definidas como capacidades de raciocínio e de pensamento, que estão estreitamente relacionadas com a capacidade de utilização da linguagem verbal. As crianças nascem com dotação genética para fazer parte da espécie humana. Porém, exigem muita atenção dos adultos para poderem sobreviver e chegar a ser pessoas autônomas. Este processo é bastante longo se comparado a outras espécies.

A capacidade de nos comunicarmos através da linguagem verbal e de possuir um raciocínio lógico é próprio e exclusivo dos seres humanos. A primeira etapa vai do nascimento à conquista da linguagem verbal. Esta conquista permite à criança ter acesso ao sistema de símbolos garantindo que ela se comunique. Esta aquisição é básica para todo o desenvolvimento posterior das capacidades de raciocínio. Segundo Bassedas et al. (1999, p. 36): " O bebê nasce com algumas capacidades perceptivas (visão, audição, tato, gustação e olfato) bastante elaboradas, que são a base para o desenvolvimento posterior de todas as outras capacidades e que lhe permite ter contato com o mundo e com as pessoas que a rodeiam". Daí a importância dos estímulos e desafios oferecidos às crianças, para que possa haver um desenvolvimento mais efetivo.

Através do contato com os objetos e as pessoas, a criança começa a relacionar meios e fins e a estabelecer progressivamente uma conduta intencional, aplicando certas ações sobre os objetos com alguma finalidade determinada. Por exemplo, um bebê de mais ou menos cinco meses, estabelece relação entre um chocalho e o movimento que deve fazer para provocá-lo.

A inteligência trabalha através das percepções (simbólico) e das ações (motor) através dos deslocamentos do próprio corpo. É uma inteligência eminentemente prática, sua linguagem vai da ecolalia (repetição de sílabas) à palavra-frase. Sua conduta social, neste período, é de isolamento e indiferença (o mundo é ela, gira entorno dela). Estas percepções podem ser internas ou externas. Outra fonte de conhecimento nesta etapa é a ação que a criança exerce sobre o meio. Durante o primeiro ano de vida, a criança experimenta várias situações de comunicação entre ela e o adulto, o que se torna momento de importantes aquisições, "trocam informações e estabelecem alguns laços afetivos, primordiais para o crescimento e o desenvolvimento de todas as capacidades" (Bassedas et al.,1999, p.38). Estas relações oferecem à criança subsídios para gradativamente construir seu conceito em relação ao meio e aprender pelo contexto.

Nas situações de cuidado ou de brincadeiras que ocorrem entre um adulto e um bebê, há momentos de comunicação que são de suma importância para que o bebê possa avançar nos processos de representação cada vez mais complexos e permitirá garantir as formas de representação que culminam na aquisição da linguagem verbal, a melhor forma de comunicação entre os seres humanos.

Através do tempo, as situações de comunicação são acompanhadas de muitos momentos em que a criança pequena, aprende pelo contexto, que há um encadeamento de ruídos, palavras ou sinais que representam a chegada de uma situação esperada. Por exemplo: muito antes que a criança saiba que se aproxima a hora de comer, ao ver a mamadeira, ou o adulto pegar um prato, ela sabe que vai comer, ou então, quando vê um alguém mexer pegar um cd e colocar no aparelho de som, já começa a dançar, etc. Como diz Bassedas et al. (1999, p. 38) :

"Todas essas situações, aos poucos, preparam-lhe a capacidade para que se consolide a função simbólica, através da qual a criança é capaz de evocar um objeto ou adivinhar o que não está presente por meio de um sistema de representação. O acesso às palavras significa conseguir iniciar o domínio do sistema de representação mais potente que o ser humano tem e que lhe será útil para ter acesso a um conhecimento maior do mundo das pessoas adultas".

Mesmo sem acesso a todas as palavras, durante os primeiros dezoito meses de vida, desenvolvem-se as capacidades cognitivas das crianças, através do processo de comunicação e do início da representação.

No decorrer dos dois primeiros anos de vida, ocorre a evolução habitual das produções lingüísticas das crianças. Ao se comunicar com um adulto, utiliza vocalizações, graças ao choro, ao sorriso e às gesticulações, fazendo-se ouvir e manifestando seu desejo. A aquisição da linguagem segue mais ou menos as etapas abaixo:

? De 01 a 08 meses: balbucios
? 09 a 12 meses: sons onomatopéicos (repetição de sílabas)
? 12 a 18 meses: palavra-frase
? 18 a 24 meses: melhora substancial com o aparecimento de verbos, pronomes, artigos e preposições, o volume de palavras aumenta substancialmente.

As situações vivenciadas permitem que as crianças ampliem gradativamente seus esquemas de conhecimento. Esta evolução se dá através de situações onde a criança é levada a questionar suas hipóteses construindo novas. A linguagem torna-se instrumento do desenvolvimento além de um instrumento de comunicação.


3.3 ÁREA AFETIVA

Segundo Bassedas et al. (1999, p. 31) esta área engloba os aspectos relacionados com as possibilidades de sentir-se bem consigo mesmo (equilíbrio pessoal), o que permite confrontar-se com situações e pessoas novas (relação interpessoal) e ir estabelecendo relações cada vez mais alheias, distanciadas, bem como atuar no mundo que o rodeia (atuação e inserção social).

Envolve as relações consigo mesmo e com os outros: "o substrato que possibilita um bom desenvolvimento psicomotor, cognitivo e lingüístico é a progressiva construção da identidade pessoal (a personalidade) juntamente com as capacidades de relacionar-se e comunicar-se com outras pessoas" (Bassedas et al. (1999, p. 43). As crianças vão construindo sua maneira de ver o mundo e ver o outro a partir de relações que vivenciam. Este processo se dá ao longo de toda sua evolução, é um processo contínuo e permanente.

Os adultos sentem satisfação em cuidar, alimentar e na relação com os recém nascidos e estes por sua vez, sentem-se atingidos pelo sorriso, pelas palavras que lhe são dirigidas e vão identificando quem os cuida como seus protetores, como as pessoas que os acalmam e aliviam suas angústias. A personalidade estrutura-se a partir da relação com outras pessoas e nessas interações vai sendo interiorizada. Dessa perspectiva é conseqüente atribuir uma grande importância às relações e às interações entre as pessoas. Como fator que possibilita a construção progressiva da identidade da pessoa e do desenvolvimento de todas as suas capacidades. Atitudes de sorriso, choro, que ocorrem neste ambiente constituem um momento de trocas entre as crianças e os adultos. Esta relação é fundamental para que a criança inicie seu processo de socialização e atue como individuo

O ser humano tem várias necessidades ao nascer que são resolvidas nas relações com outras pessoas sendo assim como nos mostra Bassedas, et al. (1999, p. 44):


"Essa relação é que permite desenvolver e amadurecer todo seu potencial biogenético o qual por sua vez irá deixá-lo responder aos poucos e de maneira adaptada,às suas potencialidades e aos estímulos externos. Essa relação tão próspera será o início do estabelecimento de vínculos afetivos que são extremamente necessários durante todo o processo de socialização das pessoas".


Os cuidados dispensados à criança geram um sentimento de segurança o que a torna uma criança segura. Através do estreitamento do vínculo, as crianças vão gradativamente diferenciando as pessoas que as cercam e respondendo a elas de maneira diferenciada. Durante o primeiro ano a criança estabelece contato com um número limitado de pessoas e a segurança gerada nestas relações de cuidado e prazer permitem que as crianças estabeleçam novas relações com pessoas que lhe são estranhas.

No primeiro ano de vida os adultos são responsáveis pela organização da vida das crianças. Já por volta de dois anos a criança inicia um processo de oposição que fortalecerá sua personalidade e a atitude dos adultos que cercam esta criança são fundamentais.

No segundo ano de vida, a criança já possui mais liberdade e autonomia com a conquista da marcha e aquisição da linguagem e isso lhe permite fazer uma exploração dos limites do que pode e do que não pode fazer. Em todo esse processo, o adulto é muito importante para o estabelecimento dos limites do afeto,que será a base para marcar a relação entre o pai, a mãe e a criança ou entre educadora e educando.

Aos dois anos aproximadamente, a criança já conhece muitas coisas de si mesma e também, do processo de relação com as outras pessoas. Neste ponto ela já se reconhece no espelho, em fotografias, sabe o seu nome e conhece o nome das pessoas que a rodeiam e sabe se há coisas que lhe são permitidas fazer e outras que não, também começa a ter uma noção de suas capacidades e limitações. " Começa a delinear-se uma certa maneira de ser e manifestar seu caráter, por um lado, produto de determinadas características genéticas, inatas e, por outro, com matizes adquiridos nas experiências de relação que tem durante os seus dois primeiros anos de vida". (Bassedas, et al. (1999, p. 45).

O processo de conquista da autonomia, meta do processo educativo já teve início. Este caminho não se desenvolve de maneira linear e progressiva, apresenta momentos de dificuldades que podem ser superados por meio das relações de afeto e de confiança que a criança vivencia.


4 A CRIANÇA ENTRE O CUIDAR E O EDUCAR

O trabalho com crianças de zero a dois anos pressupõe o cuidado e a educação como intrínsecos à relação cotidiana. De um lado, as crianças necessitam dos cuidados essenciais ligados às questões de alimentação, vestuário, higiene. De outro, necessitam também da interferência imediata, especialmente do adulto, para a realização destes cuidados e outras tarefas do dia-a-dia. Essa interferência ocorrerá com maior ou menor intensidade à medida que o grau de autonomia (maturação física, emocional, afetiva) for se ampliando. Segundo o RCN ( 1998, p. 23): "Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis".

As atividades ligadas estritamente ao ato do cuidado são de extrema importância e este ato não pode pretender-se desvinculado do processo de desenvolvimento, embora esta desvinculação tenha prevalecido (e ainda prevaleça) na concepção de atendimento às crianças em muitas creches e escolas de educação infantil, principalmente no atendimento aos bebês. Isso deve-se sobretudo ao fato de que, historicamente, a função das creches esteve associada à caridade, ao assistencialismo e essa visão foi por muito tempo reforçada pela Igreja e incentivada pela sociedade.

A partir dos avanços já ocorridos em relação ao atendimento de crianças, advindos de novas formas de concepção do desenvolvimento infantil e também de mudanças estruturais (econômicas, sociais, tecnológicas) ocorridas em nível mundial, e com ênfase na realidade brasileira, remete - se aos adultos uma responsabilidade sem igual na promoção dos direitos das crianças pequenas de forma integral, se tornando inclusive uma responsabilidade social.

Aliada às questões da sobrevivência, surgiu a necessidade intrínseca de a criança interagir, aprender, sentir, perceber, ou seja, quando o adulto realiza ações sobre a criança do ponto de vista do cuidar, ao mesmo tempo estabelece com ela uma vasta gama de relações. Essas ações do adulto (sejam por meio do tato, do segurar, do manusear, da linguagem) contribuem para o aprimorar as aquisições cognitivas e as interações e experiências individuais e coletivas infantis.

Cabe ressaltar, porém, que a instituição educativa não substitui a ação da família. Pelo contrário, se configura como um lugar de interação e socialização das crianças, complementar à ação familiar e que por isso, necessita de uma relação de confiança e de responsabilidade entre ambas.


5 INTERVENÇÃO DO PROFESSOR DE BERÇÁRIO

É imprescindível que o profissional de creche possua uma consistente formação acerca do processo de desenvolvimento da criança, para que possa selecionar e empreender atividades em função deste desenvolvimento. Uma tarefa essencial deste profissional é a de especificar as maneiras e os objetivos de uma programação que leve em conta uma visão integradora do desenvolvimento infantil.

A criança adquire a consciência dos outros e de si mesma por meio de seu corpo, pela maneira como é tocada e entra em contato com os outros corpos, pela maneira como é contida, limpa, cuidada, tranqüilizada, pelo modo como pode expressar-se. O desafio colocado tanto para os professores quanto para os gestores e dirigentes é o de possibilitar uma organização da creche que oportunize ao máximo as experiências motoras, afetivas, cognitivas das crianças, por meio de diretrizes pedagógicas condizentes com essas experiências. Além disso, a utilização de instrumentos teóricos e técnicos se fazem necessários, para auxiliar os profissionais na elaboração de práticas pedagógicas que respeitem as crianças pequenas.

O bebê não é um copo vazio a ser enchido, uma folha em branco, mas sim, um sujeito que se constitui na interação com o meio. Graças às investigações sobre o bebê, ocorridas nas últimas décadas, foi possível afastar antigas concepções que levavam a supor que as crianças menores eram seres passivos, desprovidos de qualquer competência, pode-se constatar também que seu mundo perceptivo/cognitivo é rico, complexo e ordenado. Por isso, compreender que os processos cognitivos iniciam-se desde o nascimento significa inferir que, ao longo da vida, esses processos tenderão a ficar mais aguçados, e para isso contribui, em grande parte, a interação social aliada a adequados cuidados pessoais (como alimentação, higiene, segurança).

A organização do trabalho psicopedagógico para crianças pequenas é um aspecto importantíssimo a ser considerado no cotidiano cuidar/educar das creches, pois é a partir da organização assumida pela instituição que consiste a materialização do atendimento das crianças. O professor é quem prepara e organiza o universo da busca e do interesse das crianças. A postura desse profissional da educação se manifesta na percepção aos interesses das crianças que, em cada idade, diferem em seu pensamento e no modo de sentir o mundo. O papel do professor no processo pedagógico é fundamental, várias características são exigidas dele.

As atividades precisam sempre permitir experiências múltiplas que estimulem a criatividade, a experimentação, a imaginação, estimulando as diversas linguagens expressivas e incentivando a interação social. Entende-se que a organização do Berçário deve partir das necessidades de desenvolvimento e das diferenças individuais apresentadas pelas crianças e não ao contrário, ou seja, a adaptação pura e simples da criança à organização.

O cotidiano do Berçário tem de prever momentos diferenciados dos fornecidos para crianças maiores. Vários tipos de atividades podem envolver a rotina diária dos pequenos, como o horário da chegada, a alimentação, a higiene, o repouso, as brincadeiras, a música, os jogos diversificados (como o de faz-de-conta, os jogos de imitação e motores), a exploração de materiais gráficos e plásticos (os livros de histórias, por exemplo) e outros. Segundo Abramowicz e Wajskop (1999, p. 26) " Cabe às profissionais das creches observar e conceber a rotina como possuidora de movimento e de ritmo. Porém, qual é a melhor rotina para crianças de um determinado grupo?" Abaixo serão citados algumas questões fundamentais a serem consideradas no trabalho com crianças do Berçário.


5.1 CUIDADOS CORPORAIS

Bebês tomam banho, têm a fralda trocada, dormem e comem na escola. Portanto, as educadoras do Berçário precisam ter prática e desenvoltura nessas tarefas, além de demonstrar carinho para com a criança, evitando movimentos bruscos e passando-lhe segurança no contato e no olhar.

Horários fixos para essas tarefas podem ser preestabelecidos, mas com flexibilidade. Cada criança tem seu ritmo próprio, nas horas de sono, por exemplo, quanto menor a criança, mais tempo ela dormirá. Bebês precisam de um ambiente calmo, aconchegante, para que seus momentos de sono não sejam perturbados.

Alimentar o bebê requer muito cuidado e atenção, pois é necessário conhecer como se dá o desenvolvimento dessa criança, o que ela pode e o que não pode comer, até quando oferecer líquidos, quando começar a servir comidas pastosas e sólidas , etc. A alimentação significa para o bebê não somente a ingestão de alimentos,mas também a interação contínua com o adulto, uma oportunidade para comunicação que contribui para todos os aspectos de seu desenvolvimento.

Quando há mais de um bebê para ser alimentado com mamadeira, a educadora terá de enfrentar o problema de harmonizar o melhor possível os ritmos corporais diferentes que os bebês do grupo terão. Ao longo de seu crescimento, seu ritmo de alimentação mudará, da mesma forma que seu padrão de sono. Segundo Goldschmied e Jackson ( 2006, p. 102): "Para garantir que as necessidades individuais do bebê e não a rotina da creche, estabeleçam os horários de alimentação (...) é necessário boa capacidade de observação e flexibilidade".

Há uma ansiedade muito grande dos adultos entorno das manifestações de choro da criança. É interessante que a educadora do Berçário aprenda a escutar melhor este choro, para melhor interpretá-lo. Por que está chorando? Como ela chora? Em que momentos? È um choro de angústia, de fome, de raiva, de dor? Fazendo isto, é possível identificar o motivo do choro e poder intervir de forma a suprir a necessidade que a criança tenha naquele momento.


5.2 ASPECTOS EMOCIONAIS, COGNITIVOS E LÚDICOS

O ser humano desenvolve-se bem quando tem o corpo e a mente estimulados de forma sadia, quando se sente cuidado por pessoas que são confiáveis.. Estas são as que são capazes de olhar a criança, se interessar por ela, valorizá-la e acolhê-la. Além dos cuidados com o físico da criança, a educadora precisa estar ciente da importância de se comunicar e brincar com ela. Pontos a serem levados em conta aqui são:

5.2.1 O Olhar

Olhar de maneira acolhedora e compreensiva faz a criança sentir-se segura e calma. A educadora pode olhar nos olhos do bebê em seu contato com ele, conversar com ele, transmitindo-lhe afeto, confiança e reconhecimento.

5.2.2 A Fala
Embora os bebês ainda não falem ou estejam começando a falar, eles apreciam muito quando se conversa com eles. Além de se perceber que escutam, eles vão assimilando a fala e fazem sons que mostram que eles conversam também. Ao ouvir eles assimilam a fala dos adultos e é assim que desenvolvem a comunicação, por isso, é importante não infantilizar a linguagem, pois as crianças precisam aprender a falar corretamente.

5.3.3 As Brincadeiras

Brinquedos de borracha e de tecido, chocalhos e outros objetos lúdicos específicos para a idade podem ajudar a educadora a interagir com a criança de maneira leve e divertida,incentivando movimentos corporais e sons. Cantar, dançar, rolar, pular, lamber, comer, cheirar, pegar, puxar, tocar, sentir... e todos os outros agitos imagináveis com o corpo são imprescindíveis para interagir com os colegas e aprender a ocupar espaços.
Brincar fornece à criança possibilidade de construir uma identidade autônoma, cooperativa e criativa. Segundo Abramowicz e Wajskop (1999, p. 56): " A criança que brinca adentra o mundo do trabalho, da cultura e dos afetos pela via da representação e da experimentação. A brincadeira é um espaço educativo fundamental da infância". Ninguém nasce sabendo brincar, os bebês aprendem a brincar com seus semelhantes, adultos ou crianças mais velhas.

No Berçário as educadoras e as crianças podem brincar com:
? A linguagem: mudando a entonação das palavras, o timbre da voz, o sentido das frases;
? Os objetos: mudando seu uso convencional;
? Os brinquedos: aceitando a imagem que eles propõem ou mudando seus significados e usos;
? Os personagens, pessoas ou animais: mudando sua identidade através da linguagem ou utilizando-se de fantasias e objetos simbólicos; assumindo outras identidades através da manipulação de bonecos, fantoches, marionetes, ouvindo e recontando uma história.
? Os espaços: modificando-os, pintando-os, cobrindo com panos, lenços.

Enfim, brincar é fantasiar, inventar, criar, entender, construir, modificar, experimentar, destruir, imaginar... A criança retira de sua vida os conteúdos da brincadeira através de impressões e sentimentos que vivencia, dos conhecimentos que aprende, das histórias que escuta. Cabe ao professor organizar espaços de forma intencional para que haja brincadeira e aprendizado ao mesmo tempo.

"As creches, juntamente com a ação planejada de seus profissionais, precisam organizar espaços de forma a acolher e propiciar, para as crianças percepções do ambiente cultural, auxiliando-as a adaptar-se a ele e a modificá-lo. Os adultos podem criar um ambiente cultural de maneira a propiciar ao máximo a escolha de atividades das crianças, dentro de um padrão de segurança, de estímulo à autonomia e à cooperação". ( ABRAMOWICZ E WAJSKOP 1999, p. 30)



6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O debate sobre a educação infantil encontra unanimidade ao considerar os aspectos do cuidar e do educar como dimensões essenciais ao desenvolvimento de crianças pequenas, o que tem gerado uma gama de pesquisas voltadas ao desenvolvimento humano, sobretudo o infantil.

Estudos científicos comprovaram a importância de um ambiente rico em experiências para o desenvolvimento infantil, o que levou a sociedade a reconhecer na escola infantil um ambiente propício a estas experiências. A idéia de que somente as crianças carentes utilizavam-se das creches, foi substituída por uma nova maneira de ver esta realidade.Mas, as crianças pequenas necessitam de toda infra-estrutura possível que possa favorecer o seu desenvolvimento, estejam elas inseridas em contextos de instituições educativas ou não.

O conhecimento do processo de desenvolvimento infantil dá ao professor mais condições para planejar e conduzir o processo pedagógico. O que se espera do professor atualmente é que seja uma pessoa companheira, que tenha liderança, criatividade, capacidade de transformar seu espaço de trabalho em um local de descobertas, enquanto permite e orienta as crianças de forma interativa no processo de aquisição de novos conhecimentos. São essas implicações que os profissionais que atuam em creches precisam considerar, ou seja, que seu trabalho cotidiano ocorra tomando por base os processos de desenvolvimento próprios e dinâmicos das crianças. E particularmente, estes profissionais de educação infantil precisam lançar mão das inúmeras contribuições teóricas para sustentação de sua prática e ao mesmo tempo, precisam deter também a condição de reflexão tanto do ponto de vista teórico quanto do que diz respeito às praticas por eles adotadas.

Por estes motivos, a formação do profissional de creche e especificamente do Berçário, aqui abordado, é sem dúvida alguma, de extrema urgência e importância, uma vez que sua atuação interfere diretamente na formação biopsicossocial dos pequenos com os quais atua.

As unidades de educação infantil precisam ir mais além da função do cuidado, ou seja, realizar um trabalho de forma planejada, organizando espaços adequados no sentido de estimular o processo de desenvolvimento (motor, cognitivo, afetivo) das crianças, onde, conseqüentemente, cuidado e educação caminham sempre juntos.


7 REFERÊNCIAS

ABRAMOWICZ, A; WAJSKOP, G. Educação infantil ? creches: atividades para crianças de zero a seis anos. São Paulo, Moderna,1999.
BASSEDAS, E.; HUGUET, T.; SOLÉ I. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 1999.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Brasília, vol. 1: MEC/SEF, 1998.

GOLDSCHMIED, E; JACKSON, S. Educação de 0 a 3 anos: o atendimento em creche. Porto Alegre: Artmed, 2006.




































 
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Pedagoga com especialização em Séries Iniciais, Educação Infantil e Gestão Escolar. Trabalhando no momento na Educação Infantil e na EJA.
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