A (IN)DISCIPLINA NA SALA DE AULA
 
A (IN)DISCIPLINA NA SALA DE AULA
 


CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os conceitos e aplicações da disciplina escolar caminham junto à própria História da Educação, dos tempos primitivos às tendências contemporâneas que perpassam as realidades das escolas. Das sabatinas realizadas com réguas de ferro às conversas com os psicólogos da escola o caminho foi longo, muitas modificações foram feitas em algumas instituições e em outras esta realidade continua bastante presente.

Apesar da riqueza de informações que podem ser geradas e analisadas através do estudo da Disciplina Escolar, propõem-se um pequeno recorte para estudo de um assunto de imensa importância para alunos, pais e corpo escolar.

Ao conhecer a instituição escolar Lápis de cor [1] durante as pesquisas de campo, inúmeras questões foram levantadas acerca da Disciplina Escolar e a Organização do Trabalho Pedagógico. Através de conversas e observações o foco deste artigo caminhou para organização das salas de aula e as regras disciplinares e penalidades aplicadas pelo professor.

O objetivo deste trabalho é destrinchar alguns conceitos disciplinares aplicados e a sua verdadeira finalidade e eficácia para manutenção da ordem durante as atividades educacionais. Analisando os métodos de aplicação da disciplina padronizados e definidos na escola, construções feitas a partir da cultura da escola e da cultura escolar[2]. Estas culturas refletem na prática diária dos membros da escola, e as ações disciplinares são as vivências da realidade destas culturas.

Nessa perspectiva o artigo mostra um breve estudo sobre as relações de poder entre professores e alunos, que emanam das práticas pedagógicas, o retorno esperado pelo professor, que na maioria das vezes não é satisfatório, a ineficácia da aplicação de certas punições ou reprimendas.

DISCIPLINA MULTIFACETADA: a relação entre Educação e Poder

Ao pensar em disciplina, podem ser citadas diversas atividades que requerem do indivíduo certa obediência. Parte-se então para o ponto onde a disciplina relaciona-se com a idéia de poder que alguém exerce sobre outro alguém. Ao entrar nesse campo de estudo, Foucault apresenta com brilhante maestria sua análise sobre os corpos dóceis, vigiados para que possam ser punidos. A idéia da docilidade do homem: "é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado". (FOUCAULT, 1987).

Inúmeras vezes questionam-se a utilidade da imposição de certas regras, como: realizar a fila antes da entrada na sala de aula, permanecer sentado na carteira, fazer silêncio dentro das dependências da escola. Qual a verdadeira necessidade de certas regras? Seriam elas apenas uma maneira de assegurar o total domínio dos afazes do corpo do indivíduo a ser dominado?

Foucault relaciona os processos disciplinares como uma maneira de manter o corpo manipulável, produtivo a quem de fato interessar o seu uso:

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. (FOUCAULT, 1987)

Ao transpormos essas análises às práticas utilizadas para disciplinar as crianças, abre-se um parêntese para o rumo dado as regras, para sua verdadeira utilidade e finalidade. Uma vez dado um comando disciplinar para crianças, espera-se que ela responda da maneira esperada. O professor ao entrar na sala e pedir silêncio, transmite em sua fala o poder do qual foi investido para o cargo que exerce. O poder do professor não está mais nas suas palmatórias, cintos ou caroços de milho, está simplesmente em sua presença, que assumiu ao longo do tempo um característico poder dominador. " O que está em jogo não é a integridade física de indivíduos e/ou grupos, mas sim a integridade de sua participação cultural."[3]

No entanto, e a autoridade legítima do educador é parte integrante da realidade da Cultura Escolar.

A cultura escolar pode ser definida como "o conjunto de conteúdos cognitivos e simbólicos que selecionados, organizados, "normatizados", rotinizados, sob efeitos de imperativos de didatização, constituem habitualmente o objeto de uma transmissão deliberada no contexto das escolas. (MENDONÇA apud FORQUIN, 1993, p. 167).

" Eu entrei através do concurso público, já passei pelo estágio probatório e fui efetivada. Os meninos podem até não gostar de mim, mas vão ter que me agüentar por muito tempo, na minha sala mando eu." (fala da professora R.[4]). Ela tem consciência que uma vez investida e efetivada em seu cargo seu trabalho na escola é assegurado por lei.

Mas, a representação dominadora do poder do professor é algo construído pela Cultura da Escola. "A escola é também "mundo social, que tem suas características de vidas próprias, seus ritmos e seus ritos, seu imaginários, seus modos próprios de regulação e de transgressão, seu regime próprio de produção e de gestão de símbolos. E esta "cultura da escola" (...) não deve ser confundida tampouco com o que se entende por cultura escola. (MENDONÇA apud FORQUIN, 1993, p.167).

Quando a professora diz: " ... vão ter que me agüentar por muito tempo, na minha sala mando eu." (R.), a palavra "mandar" pode assumir o caráter autoritário, não fazendo mas parte da cultura escolar. O poder sem limites dos professore é uma "estratégia" construída para lidar com os problemas diários da sala de aula, não está legitimado, foi construído e vivificado no imaginário da escola.

Através do convívio contínuo com as mesmas ordens o aluno chegará ao ponto de não precisar mais ouvir a voz do professor, somente a sua presença bastará para entender que o momento é de silêncio, pois a figura do professor transparece o poder que dele emana.

O corpo condicionado ao exercício da tarefa exigida, ensinada continuamente, os atos acabam mecanizados, muitas vezes os alunos nem percebem que se calam ao ver a figura de determinada pessoa da escola, quando não o professor, aparecemos inspetores, coordenadores e diretores. O importante é que as figuras desses profissionais passam a formar o imaginário das relações de poder estabelecidas dentro da escola.

O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma "Anatomia política", que é também igualmente uma "mecânica do poder", está, nascendo; ela define como se pode ter o domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos "dóceis". (FOUCAULT,1978, p. 92)

E para que servem os corpos dóceis? Ao pensar a escolar e o seu fazer pedagógico, nada mais comum do que o estabelecimento de regras que primam pelo controle das atividades realizadas pelos alunos, um exemplo vivo disso é o próprio regimento Escolar, nele constam todos os deveres dos alunos e professores no exercício diário de suas tarefas dentro da escola, uma forma de controlar as ações dos sujeitos, com o intuito de manter a ordem.

O fato de usar a disciplina como forma de legitimação do poder fortalece não só o domínio sobre os corpos dos indivíduos (permanecer sentado na carteira), mas sobre a produtividade que ele pode oferecer através do exercício da disciplina.

A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Em uma palavra ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado a "aptidão", uma "capacidade" que ela procura manter; e inverte por outro lado a energia, a potencia que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. (FOUCALT, 1978)

Acredita-se que o aluno que permanece quieto, sentado e em silêncio, produz mais e melhor, no entanto dificilmente este mesmo aluno será crítico o suficiente para discutir o ensino que recebe. Os alunos disciplinados ao ponto da mecanização acabam espectadores das atividades políticas da escola, como movimentos estudantis, manifestos e discussões, restringem-se as atividades escolares e pouco questionam os métodos, podem até debater os conteúdos de estudo, mas a submissão ao poder da figura do mestre não deixa lacunas par o questionamento da prática.

De acordo com o Dicionário Prático da Língua Portuguesa: Disciplina S.f. 1. Ordem, respeito, obediência às leis.; Disciplinar S.f. 1. Relativo ou pertencente à disciplina V.t. 2. Impor disciplina, ordem. Epor fim, Disciplinado Adj. Que obedece; metódico. (RIOS, S.a.).

A partir da analise destes três conceitos desvelam-se as idéias acerca da prática e vivência da Disciplina nas escolas. Não se trata simplesmente de tomar a Disciplina como heroína ou vilã do bom ou mau andamento do processo pedagógico, mas de tentar entender as diversas faces da Disciplina na atuação de diferentes atores em situações distintas.

A aplicabilidade de novos métodos de Disciplina na escola acontece de forma diferente nos grupos sociais (citando com exemplo as salas de aula em particular), existe uma dependência das ações que mobilizam o capital cultural[5] e o capital social[6] necessários para que as relações de organização e manutenção das regras seja durável.

Não se pode dizer que metodologia e o saber teóricoacumulado por Doutor em Educação, com a prática efetiva de sua licenciatura sejam as mesmas de alguém que nunca entrou em uma sala de aula, nem mesmo para seu próprio estudo. O capital cultural acumulado pelo primeiro: certificados, propriedades inteiramente originais, possibilita a extensão da sua rede de influências e parcerias. A atuação deste profissional certamente será diferenciada na sala de aula, e até mesmo seus projetos de aplicação da disciplina são vistos de forma diferente pelos membros da escola.

Os capitais pertencentes a cada membro responsável pela educação e aplicação da disciplina influenciam diretamente na extensão que ela irá alcançar e na apresentação característica de sua organização dentro dos grupos sociais.

No decorrer dos anos verificam-se mudanças nos papéis destes atores (pais, professores, Estado), responsáveis pelo "disciplinar", as crianças como sujeitos da aprendizagem "disciplinados" também ganharam novas atuações dentro do processo de ensino aprendizagem. Entender de que forma a Educação e a Disciplina conseguem relacionar-se dentro do processo de ensino, aparece como uma difícil, porém necessária tarefa para os educadores interessados em transformar a disciplina em uma prática positiva, para ambas as partes envolvidas.

A Disciplina na Escola Estadual Lápis de cor

Duas realidades foram encontradas na sala de aula, a primeira mostra o distanciamento da idéia de utilizar a Disciplina apenas como um meio de organização e sistematização das atividades, pois as práticas encontradas continuam refletindo a face dominadora e amestradora da disciplina. Aplica-se para esta situação o conceito de Foucault no qual a disciplina

[...] não pode se identificar com uma instituição nem com um aparelho; ela é um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, que comporta todo um conjunto de instrumentos, de técnicas, de procedimentos, de níveis de aplicação, de alvos: ela é uma "física" ou uma "anatomia" do poder, uma tecnologia. (1997: 189).

A pesquisa de campo para a construção da monografia está sendo realizada na Escola Estadual Lápis de cor, localizada na Zona Centro-Oeste de Manaus em um bairro periférico. O estudo para o artigo aconteceu no período de 2 semanas, com visitas diárias a mesma turma. A sala escolhida comportava alunos do 2º ano do 2º ciclo, com 22 alunosregularmente matriculados. Depois de conhecer toda estrutura física da escola e distribuição dos afazeres dos funcionários, a escolha da turma se deu não pelos índices de indisciplina como era de se esperar, mas pelo discurso da professora durante uma das reuniões de professores.

A professora R. e suas 22 "criaturas" como ela nomeia seus alunos, passavam por grandes problemas de acordo com o seu relato, seus alunos eram "acomodados" e não conseguiam interessar-se pelos estudos. Partindo da fala da professora as primeiras indagações surgiram a respeito das relações estabelecidas entre ela e seus alunos. Quando questionada a respeito da organização e comportamento das crianças ela foi enfática:  São uns relapsos! Um dia estão melhores, mas na maioria das vezes gostam mesmo de ficar sem fazer nada.Coisa de criança mesmo.

Em uma de suas entradas triunfais ela indagou sua turma com o seguinte questionamento:

 Isso é uma escola ou é uma feira de peixe, onde todo mundo fala toda hora?

De pronto os alunos se assustaram com os gritos da professora e começaram a ajeitar-se pelas cadeiras, alguns procuravam seus lugares de forma rápida, enquanto a professora pedia silêncio, informando que o tempo estava correndo e que precisa passar o dever. " A disciplina é também o controle do indíviduo no tempo, a qual tem como objetivo atingir com rapidez e eficiência o máximo da produção." ( REBELO, 2002, p. 43).

O intuito da professora era simplesmente vê-los sentados para que pudesse observar mais precisamente aqueles que estavam conversando ou fazendo algum tipo de brincadeira.

Segundo Foucault, o sucesso desse controle disciplinar se deve ao uso de alguns instrumentos como:

§Olhar hierárquico  instrumento de vigilância que e favorecido pela organização, separação e distanciamento do indivíduo no espaço físico, permitindo o acompanhamento perfeito daquele que domina sobre os movimentos corporais e a produtividade do dominado, numa relação de poder;

§Sanção normatizadora  com a função de reduzir os desvios, esse tipo de prática utiliza-se do castigo para ordenação dos indivíduos conforme as normas estabelecidas.

§Exame  é uma ação normalizante, uma vigilância que permite qualificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade por meio da qual eles são diferenciados e sancionados.

Neste contexto e utilizando-se desses instrumentos, a disciplina aparece como uma forma de dominação nas diversas instituições, por meio da distribuição do homem num espaço individualizado e classificatório. Essa distribuição é denominada por Foucault como "princípio de quadriculamento" (1997:131), na qual cada indivíduo, ocupando o seu lugar, facilita a vigilância de um sobre o comportamento de todos.

A professora R. durante a pesquisa refez o seu mapeamento[7] de sala e deixou bem claro que as crianças não poderiam mudar de lugar, nem mesmo na sua ausência. O mapeamento das salas nada mais é do que o "quadriculamento" denominado por Foucault. Mapear alunos significa mapear comportamentos, definir o espaço de atuação e produção de cada corpo.

Desta forma, a disciplina aparece como uma vilã, uma arma ideológica que torna os seres facilmente adestrados. No entanto, dentro da mesma sala de aula outra realidade é encontrada. Em certas ocasiões a professora R. aparecia na escola de ótimo humor, deixava os alunos a vontade para fazerem o que quisessem, era o seu Dia de Descanso como ela intitulava, nesses dias ela lia algum texto e depois pedia que os alunos reescrevessem a história contada.

Os alunos terminavam rapidamente e começam a caminhar pela sala e conversar com os colegas, nem um tipo de atividade era realizada depois disso, enquanto a turma passeava a professora rodava seus trabalhos, corrigia suas provas, de cabeça baixa, pouco se importava com os alunos. O máximo que falava era  Cala boca "fulano"! Ah! Esse menino parece um papagaio. (Professora R.). Logo a turma mergulhava em risos e os comentários eram variados:

Liga não a professora num ta nem aí hoje.[8]

 Bora aproveitar que ela ta corrigino prova e vamo conversar.

 Professora (referindo-se a pesquisadora) vem pra ca conversar com a gente, que a outra professora num vai briga não!

Nesse mesmo viés a falas se alongavam, as crianças experimentavam uma gostosa sensação de liberdade, que na maioria das vezes transformava-se em permissividade, as crianças começam a fazer tanto barulho que alguns alunos chegavam a reclamar.

A professora não se incomodava, alheia a qualquer comentário ou represália. A situação nos remete a orquestra de músicos desordenados[9] imaginada por Vasconcellos. Furlani, (2004, p. 44),assim coloca sua observação acerca da importância de certas normas na escola: "Consideramos que o trabalho escolar não pode se desenvolver à revelia da observância de normas de conduta, de certas ordens, pois objetiva a aprendizagem, não sendo portanto, um processo espontâneo ou apenas lúdico".

Para que haja um processo satisfatório de qualquer aprendizado, certas regras devem ser estabelecidas, uma vez que se professores e alunos resolverem fazer o que desejarem de certo suas vontades caminharão em direções diferentes. "O importante é que à criança seja transmitido o espírito de algumas restrições, aceitas e respeitadas inclusive pelos adultos, para que não surjam a discrepância e a revolta." (MIELNIK, 1982, p. 47).

Ao tomarmos a disciplina como um meio de facilitar o aprendizado, não significa um retrocesso nos métodos de ensino, dando ao professor o papel do general e concedendo ao aluno o papel do soldado de chumbo.

Não se trata de estabelecer uma relação de submissão, mas de estabelecer certas regras que facilitem o convívio entre os dois sujeitos, e os demais alunos dentro da sala de aula e de todo espaço escolar.

Educadores indisciplinados, numa escola indisciplinada, não podem oferecer ao aluno a convicção de que vale a pena o esforço persistente, a concentração, o autodomínio, a autocrítica, o sacrifício de tempo, de lazer, necessários ao saber disciplinado. Ele só pode entusiasma-se pelos objetivos e exigências da escola se tiver oportunidade de repetição do aprendizado, se sentir-se identificado com a escola e com os resultados que o estudo terá para sua vida. (FURLANI, 2004)

A professora R. que não encontra um meio termo para suas práticas acaba ou dominando seus alunos ou deixando-os a mercê de suas próprias vontades. A partir desta análise recorre-se ao relato da professora: Onde apresentava seus alunos como "acomodados" e que não conseguiam interessar-se pelos estudos. A reflexão nos lembra que mesmo que as crianças tenham potencial para realizar determinada tarefa, elas precisam de estímulos e investimentos que vêm não somente da escola, mas de todo histórico social de sua família, dependendo da realidade na qual está inserida. " (...) o rendimento da ação escolar da ação escolar depende do capital cultura previamente investido pela família e que o rendimento econômico e social do certificado escolar depende do capital social  também herdado  que pode ser colocado a seu serviço." (BOURDIEU, 1998).

Eles faziam as tarefas de forma mecanizada, sempre com a preocupação da conclusão, pois a havia a espera contínua de que a professora os deixasse livres para conversar. O mapeamento realizado pela professora acabava não alcançando o objetivo desejado, pois uma vez dispersos os alunos encontravam novos meios de se comunicar, acostumavam-se com o novo local e mesmo debaixo do olhar da professora continuavam a conversar.

Entre a liberdade de comunicar-se, a livre expressão e a construção de um pensamento crítico encontra-se a linha tênue entre o autoritarismo do professor e a total permissividade.

A liberdade é filha da autoridade bem compreendida. Porque ser livre não é fazer o que se queira; é ser-se senhor de si, saber agir pela razão, praticando o dever. Ora, é justamente com o objetivo de dotar a criança desse domínio de si mesma que a autoridade do mestre deve ser empregada. (DURKHEIM, 1978).

É importante que o professor mostre sua autoridade na sala, o domínio do conteúdo, a fim de passar para o aluno à segurança necessária para o bom andamento do processo de ensino. "Na idéia da regra há mais que a noção de regularidade: há autoridade". (DURKHEIM, 1995,p.33). Autoridade não é autoritarismo.

Entre as preocupações acerca da maneira como a disciplina é repassada e representada dentro da sala de aula, encontra-se a linha tênue entre a autoridade do professor e o seu autoritarismo. Essas duas palavras muitas vezes trocam de significado(ou perdem) ao longo do processo de ensino onde a Autoridade: 1. poder ou direito de dar ordens, comandar, fazer-se obedecer ou julgar, jurisdição: um magistrado é um homem de autoridade. 2. Ascendência, influência moral: o pai já não tem autoridade sobre os filhos e etc. ( SACCONI, S.a.), se diferencia do Autoritarismo: Abuso do poder. (SACCONI, S.a.). Lúcia Furlani em seu livro Autoridade do professor: meta, mito ou nada disso? Apresenta três concepções de disciplina:

·A concepção de disciplina com o sentido de controle exterior dos alunos (o professor como controlados);

·A concepção de disciplina associada com alguma forma de organização da aula, com autodomínio de professores e alunos, e a concentração de esforços do professor na gratificação ou "reforçamento positivo" para os alunos ( o professor como facilitador dos desempenhos adequados dos alunos);

·A concepção de disciplina não associada a nenhum valor; o professor passa essa responsabilidade para os alunos (ocorrendo a ausência de disciplinamento).

O professor pode adotar práticas autoritárias (desigualdade ou ocultação no exercício do poder), ou omitir-se no desempenho de uma de suas funções(abandono do exercício do poder), quando não possui condições (pessoais, técnicas ou políticas) para desenvolver a competência profissional e quando não está motivado para aprender com os demais seres humanos com os quais interage em seu trabalho (sejam eles hierarquicamente superiores ou inferiores).

Na sala de aula como deveria portar-se a professora R. diante das situações mais inusitadas protagonizadas pelas crianças? A regra estabelecida com o intuito de manter a harmonia torna-se alvo de debate mais uma vez, sabendo-se que para a criança o negar algo pode ser entendido com um corte em sua liberdade e a abertura para certas atitudes entendida com permissividade para atitudes indisciplinadas. Acerca disso Mielnik propõe:

Se quisermos educar a criança dentro de um sistema de liberdade e disciplina em que estes termos do binômio sejam harmoniosamente equilibrados, devemos estabelecer uma gradação em que o aumento progressivo da liberdade não signifique uma perda gradativa da disciplina. (MIELNIK, 2004, p. 87)

O universo da sala de aula aparece como fonte intrigante para o estudo das relações de disciplina e principalmente de poder vividas dentro das escolas. Nos questionamentos feitos durante a reunião de pais e mestres, os professores expõem seus alunos com críticas e elogios, os pais aproveitam para falar do mau comportamento de seus filhos, e da dificuldade que sentem em ajudar os professores na educação dos alunos. Os pais responsabilizam a escola e os professores pedem ajuda aos pais.

O cerne da questão não está em encontrar culpados para os índices de indisciplina cada vez maiores dentro e fora da escola, mas de conhecer a realidade das dificuldades enfrentadas por alunos e professores na difícil jornada pedagógica da disciplina.

Aos pais fica a competência da primeira educação, não se pode achar que é papel exclusivo da escola ensinar a criança a obedecer a certas regras. A escola é a continuidade, uma outra fase da Educação que a criança começou a conhecer em casa. As maiores reclamações de professores é a solidão, o sentimento de seguirem sozinhos em busca da educação de seus alunos:  Os pais não comparecem as reuniões moça, tem menino aqui que é o irmão, a tia, a avó, qualquer pessoa que vem buscar, mas a gente não nem a cara do pai ou da mãe, quando aparece alguém só pergunta se o menino tá bem. (fala de um professor quando questionado sobre a presença de poucos pais na reunião).

As ordens dos pais que comparecem as reuniões é sempre a mesma:  Se ele bagunçar, se der trabalho pode esculhambar com ele professor, lá em casa agente se entende ou  O meu filho é muito bom menino, num dá nem um trabalho, lá em casa fica quietinho, quietinho. ( Às vezes esses "quietinhos" isolam-se do restante da turma ou extravasam toda energia que não podem gastar em casa).

"A família e a escola mudaram muito. Antes, a família era cúmplice da escola. Hoje deposita suas funções e delega suas responsabilidades a ela, porém a critica. Cada vez mais os alunos vêm para a escola com menos limites trabalhados pela família." (VASCONCELLOS, 1994, p.94).

Não se pode dizer que a família é a grande culpada pela falta de limites apresentadas pelos alunos, hoje conhecida como a famosa Indisciplina Escolar, constante foco das discussões nas reuniões de pais e mestres. A importância está em cada um assumir o papel que lhe é de direito e dever.

Os pais devem ensinar aos filhos o uso da liberdade sem o prejuízo alheio, sem o egoísmo característico da idade infantil. Devem também ensinar a criança a necessidade de respeitar "a liberdade alheia", os direitos das outras crianças, bem como as leis, regulamentos e preceitos do âmbito familiar. (MIELNIK, 1982, p. 47).

Através desses primeiros ensinamentos a criança começa a perceber a existência das regras, que servem para ela e para outras crianças, não necessariamente possuindo um caráter restritivo ou punitivo, mas simplesmente de estabelecimento de regulamentos que primem pelo bom convívio social.

Ensinar a criança a respeitar certas regras não significa podá-la em suas atitudes, pois, "... só através da liberdade e auto-emancipação conseguirá a crianças a confiança e segurança necessária à sua sobrevivência em meio a outras no ambiente social". (MIELNIK, 1982).

Durkheim, ainda enfatiza o sentimento do dever, e de que forma a criança poderá tomar posse desse sentimento? "Mas a criança não pode conhecer o dever senão por seus pais e mestres; não pode saber o que ele seja senão graças ao modo pelo qual seus pais e mestres o revelarem, na conduta e na linguagem"(DURKHEIM, 1978).

A criança deve ser criada com liberdade para ser autêntica, adotar decisões, optar por alternativas, tomar iniciativas. Porém, devemos incutir o espírito de disciplina, a obediência aos regulamentos e leis, de maneira que possa sentir-se entrosada no grupo social, aceita e aceitando os outros componentes do grupo.

A realidade vivenciada na turma não aparece como a algo singular, em muitas instituições os professores assumem posições extremadas, ou são enxergados como carrascos ou como "bonzinhos".

Parece espantoso falar em disciplina dentro da Escola Moderna, onde o aluno deve ser ativo, sujeito reflexivo, produtor de conhecimento, no entanto, a indagação que fica para analise é de que forma constrói-se conhecimento sem certa sistematização das práticas que conduzem ao aprendizado.

Partindo deste pressuposto, estudam-se as faces com quais as disciplina se apresenta e atuações do professor acreditando que o oficio de docente exige o estudo constante de novas práticas pedagógicas e organização dos espaços escolares. O estudo não somente da posição dos alunos em sala de aula, mas uma releitura e nova avaliação dos objetivos e conteúdos preconizados para discussão com turma.

Isso não significa renderem-se as demandas imediatas dos alunos, mesmo porque, muitas vezes, elas não são sequer formuladas. Significa, no entanto tomar o aluno como sujeito construtor de suas próprias regras, fazendo com que ele entenda que existem certos limites e que existem conseqüências para seus atos.

Estas conseqüências não precisam ser vistas como penalidades físicas ou mesmo verbais. No dia da leitura a professora R. pediu a um de seus alunos que levantasse e juntasse os lápis que haviam sido espalhados pelo chão, distraído ele brincava com suas borrachas sentado no chão.  Mas esse menino é mesmo um pateta! Te levanta do chão criatura, mas que coisa, que menino preguiçoso, não presta atenção nas coisas que a gente fala. (fala da professora).

O menino envergonhado juntou os lápis de cabeça baixa e ensaiando um choro encabulado engolia calado e sem jeito a "ofensa" de certo sem entender o motivo da rudeza e do peso daquelas palavras. É certo que os professore falam coisas dentro da sala de aula que parecem absurdas, fazendo do seu trabalho um processo de tortura, seus alunos não têm respeito, têm medo, não os amam com eles gostariam, simplesmente os suportam.

Algo inaceitável e insatisfatório é o castigo sem razão de ser, apenas como arma de quem bate ou pune física ou verbalmente. Até mesmo o "castigo" precisa ter intencionalidade, utilidade, finalidade para quem pune e para quem é punido. As palmatórias, ajoelhar-se no milho são construções históricas dos métodos disciplinares, mesmo que as escolas não punam fisicamente suas crianças, continuam a agredi-la de alguma forma.

Educação e punição sempre estiveram historicamente juntas, embora a forma desta última tenha sido modificada ao longo do tempo, sendo substituída por formas mais sutis, porém não menos humilhantes: criticar, redicularizar, ironizar, agredir verbalmente, acrescentar ou suprimir atividades dos alunos etc. (FURLANI apud SKINNER, 2004, p.46)

A escola ainda possui o Dia do Ajudante, onde o aluno ajuda a professora com as atividades da sala, geralmente ela escolhe aqueles que estão "dando trabalho", assim ficam ocupados,outro método é priva-los de lanchar no refeitório, eles ficam na sala e assim que termina de merendar retomam suas atividades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A sala de aula estudada na escola Lápis de cor é apenas um recorte de nossas escolas públicas, sem falar na realidade das escolas particulares. Realidade esta que passa diante dos olhos de muitos sem ser notada. A escola calou-se para os problemas que enfrenta e os seus membros estão paralisados, fechada não pelas grades que circundam seu prédio ela fechou-se para aquisição de novas práticas e organização de seu trabalho.

Este artigo não procurou culpados para atual situação de Indisciplina ou de Abuso de Autoridade nas Escolas, trás apenas algumas reflexões que deveriam fazer parte da constante reciclagem dos processos de educação.

A escola enquanto estrutura educacional, não pode esquecer que a construção da identidade escolar é realizada através da construção da identidade de seus membros, é das relações estabelecidas entre o grupo que compõe essa escola que nasce o conhecimento empregado na prática diária.

A Disciplina Escolar precisa ser enxergada como uma das formas de organização das salas e do espaço escolar como um todo e não somente como uma arma política ou ideológica.

Parece espantoso falar em disciplina dentro da Escola Moderna, onde o aluno deve ser ativo, sujeito reflexivo, produtor de conhecimento, no entanto, a sugestão que fica para analise é uma busca constante pela construção da aprendizagem de forma organizada ao ponto de o aluno entender a necessidade de participar do processo de maneira segura e satisfatória.

A criança precisa sentir-se parte integrante da escola, encontrar nela a finalidade para o seu aprender, não somente no dever, mas no querer aprender. A Educação pode e dever ser um caminho prazeroso para seus integrantes.

REFERÊNCIAS

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[1] O nome utilizado para escola neste artigo é fictício.

[2] Os conceitos de Cultura da Escola e Cultura Escolar serão explicados ao longo do artigo para melhor compreensão das expressões.

[3] Mendonça apud Y. Michaud, A violência. São Paulo, Ática, 1989, p. 11.

[4] Professora da Escola onde a pesquisa foi realizada.

[5] O Capital Cultural pode ser visto como todo o investimento apara aquisição do conhecimento. Segundo Bourdieu , "O Capital Cultura é um ter que se tornou ser, uma propriedade que se fez corpo integrante da pessoa" (1998, p. 75)

[6] " O capital Cultura é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo (...)." (BOURDIEU, 1998, p. 67)

[7] O mapeamento consiste em dispor os alunos de maneira que eles fiquem longe de possíveis companhias que possam distrair suas atenções. A professora escolhe o lugar de cada aluno, e na maioria das vezes coloca os mais "falantes" nas primeiras cadeiras, assim pode observa-los melhor.

[8] As palavras escritas com ortografia incorreta ou erros de concordância que não correspondem à norma culta foram escritas propositalmente com o intuito de transcrever com fidelidade a fala dos sujeitos.

[9]Segundo Vasconcellos (2004), " O que seria de uma orquestra, se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária. E deve ser analisada como um meio e não um fim." (p. 97).

 
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