A IMPORTÂNCIA DO ENSINO RELIGIOSO PARA A FORMAÇÃO MORAL, ÉTICA E ESPIRITUAL DOS UNIVERSITÁRIOS
 
A IMPORTÂNCIA DO ENSINO RELIGIOSO PARA A FORMAÇÃO MORAL, ÉTICA E ESPIRITUAL DOS UNIVERSITÁRIOS
 


A IMPORTÂNCIA DO ENSINO RELIGIOSO
PARA A FORMAÇÃO MORAL, ÉTICA E ESPIRITUAL DOS ALUNOS DAS FACULDADES ADVENTISTAS DO BRASIL


Arilton Cordeiro de Oliveira
Teólogo da Faculdade Adventista de Minas Gerais (FADMinas).
Docência Universitária pelo UNASP ? Campus de Engenheiro Coelho.
arilton7@gmail.com

Resumo: Este trabalho apresenta um estudo sobre a importância do ensino religioso na formação moral, ética e espiritual dos alunos das faculdades adventistas do Brasil. Se esboçará a importância da religiosidade na visão de modernos educadores e um quadro histórico do ensino religioso no Brasil desde sua descoberta. O que está legalizado sobre o tema e suas implicações para as instituições de ensino superior. Também se apresentará uma análise crítica da filosofia adventista de educação e do currículo das matérias religiosas adotadas pelas faculdades adventistas do Brasil. Finalmente, como estes valores podem influenciar na construção de uma sociedade mais justa e humana.

Palavras-chave: universitários, ensino religioso, formação ética, moral e espiritual.

Abstract: This paper presents a study about importance of the religious teaching in the moral, ethics and spiritual formation of the students at Adventist Universities of Brazil. The importance of the religiosity will be sketched in the modern educators' vision and a historical picture of the religious teaching in Brazil since your discovery. What is legalized about the theme and your implications for the higher education institutions. It?s will also come a critical analysis of the philosophy education Adventist and of the curriculum of the religious matters adopted by the universities Adventist from Brazil. Finally, as these values they can influence in the construction of a fairer and human society.

Key-words: academicals, religious teaching, ethical, moral and spiritual formation.

Introdução

Todos os anos milhares de jovens se formam nas faculdades e universidades de nosso país e iniciam suas atividades nas respectivas áreas de atuação. Na passagem pela faculdade, cujo período de tempo varia de curso para curso, o discente recebe a formação acadêmica necessária para o exercício de uma profissão. Uma vez integrado à sociedade, já como profissional, sua atitude de ser ético ou não, de agir com honestidade ou desonestidade, dependerá, em grande medida, de sua formação moral, ética e espiritual. Estes valores são adquiridos no relacionamento familiar, na freqüência a alguma igreja, no círculo de amizades e principalmente no ambiente acadêmico onde esteve por vários anos.
Não há dúvidas de que estes jovens profissionais encontrarão uma sociedade destituída de valores; ou pelo menos, onde estejam em baixa. A mídia televisiva e impressa não se cansam de publicar e exibir cenas de desrespeito à vida e à dignidade. Um caso mais recente pode ser visto na experiência da estudante que foi insultada pelos colegas por usar uma minissaia durante uma aula na UniBan. Os insultos ocorreram no dia 22 de outubro de 2009, no campus de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Geise contou que, além dos alunos, ela foi recriminada por professores e funcionários da universidade.
Outro exemplo lastimável da falta de valores éticos e morais podem ser vistos nos meandros do poder por indivíduos que teriam a responsabilidade de governar e defender os valores morais legitimados pela constituição brasileira. Dinheiro em cuecas, meias, pagamento de propinas e mensalões, são episódios lastimáveis do dia-a-dia. O país sofre pela falta de moral e princípios em todos os segmentos.
Partindo do princípio de que a formação humana e retidão moral estão arraigadas na educação, como expressaram Lopes e Buemo (2007, p. 59):

[...] de tal modo que permite ao homem ser transformado em um novo ser, consciente, ético e, sobretudo verdadeiramente humano, a verdadeira educação torna imprescindível a ética [...] só é possível educação quando houver uma formação legitimamente voltada aos valores éticos.

Desse modo, a educação, se levada a sério, poderá ser uma poderosa ferramenta para ajudar na solução de problemas morais e éticos ora vistos em nossa sociedade.

Ensino Religioso no Currículo Escolar

Desde o processo constituinte de 1988, educadores/as de várias tradições religiosas constituíram o ensino religioso como sendo uma disciplina. Já em 1997, foram publicados os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso, elaborados pelo Fórum Nacional Permanente do ensino religioso. Segundo Corazza (2001, p. 54),
[...] a razão de ser do ensino religioso, como disciplina escolar, fundamenta-se na própria função da escola, qual seja, o conhecimento e o diálogo. Como espaço de construção e socialização dos conhecimentos produzidos, a escola também deve disponibilizar o conhecimento religioso a todos e todas que a ele queiram ter acesso, embora não seja sua função propor a adesão e a vivência de tal conhecimento, enquanto princípio de conduta religiosa e confessional, já que esse princípio continua sendo atribuição de cada religião.

Visto dessa forma, o ensino religioso deve colaborar no aprofundamento da vida coletiva dos alunos para a vivência autêntica da cidadania. Segundo os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), os blocos de conteúdo do ensino religioso são: Culturas e tradições religiosas, Escrituras Sagradas e/ou tradições orais, Teologias, Ritos e Ethos. Todos estes estabelecidos a partir da filosofia, história, sociologia, psicologia e tradições religiosas. O conhecimento ainda pode vir através de tópicos como revelações, narrativas sagradas, a exegese, as verdades de fé, os rituais, os símbolos, as espiritualidades, a alteridade, os valores, os limites éticos, etc.
Como podemos perceber, trata-se de um leque ainda complexo, contudo percebemos um caminhar em direção a uma nova compreensão da importância do conhecimento religioso para a formação do discente.
A pergunta que se pretende responder nesta pesquisa é: Quão fundamental é a formação religiosa na vida de um jovem para o exercício de sua profissão com honestidade e moralidade?
Compreender a influencia do Ensino Religioso para a formação do jovem profissional, bem como as consequências que este poderá trazer, torna-se matéria de suma importância na busca de uma sociedade mais justa e humana.

A religiosidade humana na visão dos modernos educadores

Segundo Paul E. Johnson (1964, p. 47) "a religião é resposta a um sustentáculo de valores". Assim, uma religião equilibrada, que se baseia na revelação bíblica, pode ser forte elemento na propagação da moralidade e bem estar social.
Sendo o "Ensino Religioso [...] elemento integrante do conjunto das disciplinas que estão a serviço do desenvolvimento harmônico de todas as dimensões do ser humano" (FIGUEIREDO, 1995, p. 41), e uma vez que existe no país uma forte estrutura educacional, trazer o ensino religioso para as escolas e usá-lo como uma ferramenta na transmissão de valores, pode contribuir para uma sociedade mais moral e justa.
Ellen G. White (2003, p. 13), descreve de maneira clara aquilo que o sistema educacional adventista tem considerado como sendo o conceito e objetivo fundamental da educação cristã. Ela afirma que:
A verdadeira educação significa mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. É o desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais. Prepara o estudante para o gozo do serviço neste mundo, e para a aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro.
Mas quais seriam os objetivos e as justificativas para as aulas de ensino religioso? Segundo Suárez (2005, p. 83), seria o desenvolvimento do pensamento crítico. Uma vez que o aluno "precisa ter a competência de refletir em suas decisões e escolhas, assim como emitir julgamento crítico sobre tudo aquilo que vê ao seu redor ? na pesquisa e no dia-a-dia ? sempre fundamentado em argumentos sólidos e com espírito de aprendizado".

White (1994, p. 140), endossa a idéia acima ao afirmar que:

Os professores devem induzir os alunos a pensar, e a entender claramente a verdade por si mesmos. Não basta ao mestre explicar, ou ao aluno crer; cumpre suscitar o espírito de investigação, e o aluno ser atraído a enunciar a verdade em sua própria linguagem, tornando assim evidente que lhe vê a força e faz a aplicação. Por trabalhosos esforços, as verdades vitais devem assim ser gravadas no espírito. Talvez isto seja um processo lento; é, porém, mais valioso do que passar correndo sobre assuntos importantes, sem a devida consideração.

Uma vez compreendida a religiosidade humana, como, ao longo da história educacional de nosso país, foi tratado o tema do ensino religioso?

Histórico do Ensino Religioso no Brasil

Percebendo a secularização da cultura, laicidade do Estado, a realidade sócio-antropológica dos múltiplos credos, uma questão trona-se relevante: É competência da escola se empenhar na formação religiosa do aluno? A resposta é encontrada positivamente na história educacional brasileira, quando vemos pontuado o tema do Ensino Religioso desde os tempos do Império.
Se no passado o Ensino Religioso foi considerado um elemento eclesial na escola, pelo tipo de tratamento que lhe foi dado, esforços têm sido envidados no sentido de assegurá-lo como elemento normal do sistema escolar. Para isso não deve ser entendido Ensino Religioso como o ensino de uma religião na escola, mas sim uma disciplina centrada na antropologia religiosa.
Apenas para ressaltar a importância do tema, a questão do Ensino Religioso, além de polêmica, é uma constante na história jurídica brasileira. "Praticamente todas as constituições, à exceção da constituição de 1891, fizeram referência a esse instituto, o que demonstra a importância de um estudo a seu respeito". (ALMEIDA, 2009, p. 10).
Uma visão panorâmica deste ensino desde a descoberta do país, 500 anos, contribuirá para uma melhor compreensão da questão. De acordo com FONAPER (Fórum nacional permanente do Ensino Religioso), Anísia de Paulo Figueiredo, entre outros, o Ensino Religioso no país passou por várias fases. Vamos a elas:

Primeira Fase ? Horizonte do Colonialismo (1500 a 1800)

Afirma-se que neste período a ênfase era a integração entre escola, igreja e sociedade política e econômica. E o objetivo era ativar os alunos para que se integrassem nos valores da sociedade. Buscava-se a cristianização dos discentes através da igreja dominante. Desta forma, o que se desenvolve como Ensino Religioso é o ensino da religião oficial, através da catequese dos negros e evangelização dos gentios, conforme acordos estabelecidos entre o Sumo Pontífice, o Papa, e o monarca de Portugal.

Segunda Fase ? Horizonte do Regalismo (1800 a 1964)

Nesta segunda fase o objetivo é a escola pública, gratuita, laica para todos. Assim o Ensino Religioso passa a se submeter ao estado. A burguesia toma lugar da hierarquia religiosa e a educação mantém-se vinculada ao projeto da sociedade. Tanto a escola quanto o professor continuam sujeitos a um projeto amplo agora sob a direção do estado.
Anísia de Paulo Figueiredo (1995, p. 9) declara que neste momento "o ensino religioso foi atrelado ao sistema de protecionismo da metrópole, concretizado a partir do juramento do Imperador, em manter oficialmente a religião católica, forma do artigo 103 da Constituição Pública do Império do Brasil".

Terceira Fase ? Monarquia Constitucional (1823 a 1889)

A carta magna de 1824 mantém a "Religião Católica Apostólica Romana, a religião oficial do Império", em seu artigo 5º. Assim com o fortalecimento da religião, a política passa a depender da igreja e o que se ensina na escola é a Religião Católica Apostólica Romana.

Quarta Fase ? Implantação do Regime Republicano (1890 a 1930)

O Ensino Religioso foi considerado nesta época o principal empecilho para a implantação do novo regime de governo, que buscava agora a separação entre igreja e estado. A expressão "será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos oficiais de ensino", é o único dispositivo da Primeira constituição da República a orientar a educação brasileira. Terá início, com essa declaração, um dos mais acirrados debates em torno do Ensino Religioso no país. Entretanto, devido ao zelo e fidelidade dos líderes dos principais sistemas de ensino ainda sob a orientação da igreja católica, o Ensino da religião católica se manteve presente.

Quinta Fase ? Período de transição (1930 a 1937)

Nesta fase o Ensino Religioso passa a ser admitido em caráter facultativo, através do decreto de 30 de abril de 1931, por conta da reforma Francisco Campos. Na constituição de 1934 é assegurado nos termos do artigo 153:

O Ensino Religioso será de matrícula facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão religiosa do aluno, manifestada pelos pais e responsáveis, e constituirá matéria dos horários nas escolas públicas primárias, secundárias, profissionais e normais.

No estado novo ? Horizonte do nacionalismo (1937 a 1945)

Neste período é efetivada a reforma de Francisco Campos e o ensino religioso perde seu caráter de obrigatoriedade e passa então a ser admitido como facultativo. Neste momento, a educação é norteada pela ideologia nazi-facista, onde são valorizadas: a formação profissional, a formação militar e, em especial, a acentuada atenção à formação de "individualidades condutoras". (Anísia, 1995, p. 11).

Período Republicano ou Horizonte do Liberalismo (1946 a 1964)

Neste período o Ensino Religioso é contemplado como dever do Estado para com a liberdade religiosa do cidadão que freqüenta a escola. O artigo 141, 7º parágrafo afirma: "É inviolável a liberdade de consciência e crença, e assegurado o livre exercício dos cultos religiosos, salvo o dos que contrariam a ordem pública e os dos bons costumes".
Assim outro debate será desencadeado. De um lado os defensores dos princípios da laicidade e, de outro, os defensores do princípio de que o Ensino Religioso é um direito do cidadão, como ser religioso que freqüenta a escola pública.
Nesta época a escola deixa de ser o espaço unitário e coerente de um grupo privilegiado.

Após a fase de hegemonia da igreja (Séculos XVI a XVIII), e do Estado (Séculos XVIII a XX), sobre a escola e a educação, assiste-se ao fim do monopólio de ambas. Elas não são mais as únicas referências, pois as diversas forças sociais e profissionais se articulam para assumir sua responsabilidade, erigindo novas modalidades de funcionamento da ação escolar. (FONAPER, 28).

Horizonte do Autoritarismo (1964 a 1984)

Foi um período difícil para o país. Os avanços democráticos foram interrompidos. O conceito de liberdade passa pela ótica da segurança nacional. Neste contexto o Ensino Religioso é obrigatório para a escola, e se concede ao aluno o direito de optar pela freqüência ou não no ato da matricula.

Horizonte do Reconstrutivismo (1986 a 1996)

Do início do processo constituinte, em 1985, à tramitação do projeto da nova Lei de Diretrizes e Bases no Congresso Nacional, o Ensino Religioso volta a ser objeto de discussão e polêmicas. De um lado, recuperam-se discursos das fases anteriores, principalmente dos setores contrários à sua permanência ou incluso no sistema escola. De outro lado, o desejo de que ele permanece no currículo como disciplina, permitindo ao educando ter, na Escola, a oportunidade de compreender sua dimensão religiosa e encontrar respostas a seus questionamentos.
A Constituição Federal em vigor, promulgada em 1988, garante, através do artigo 210, parágrafo 1º do capítulo III da Ordem Social, o Ensino Religioso nos seguintes termos: "O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental".
Finalmente, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi promulgada a lei Nº 9.475, de 22 de julho de 1997 onde reza que:

O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.

O Estatuto da Criança e do Adolescente no Art. 3 assegura que a criança e o adolescente tenham "[...] todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade."
A oportunidade de receber informações de conteúdo Ético e Moral dentro da comunidade escolar ficou restrita ao ensino fundamental sob a tutela do Ensino Religioso.
Mesmo sofrendo o impacto das tendências de cada época, o Ensino Religioso foi tendo seu espaço devidamente assegurado, seu perfil corretamente traçado, que acabou figurando em um projeto pedagógico definido e assumido pela sociedade e instituições de ensino.

Filosofia Adventista de Educação

A educação cristã é vista historicamente pela Igreja Adventista do Sétimo Dia como ingrediente fundamental para o cumprimento de sua missão. Aliado a isso, a igreja entende a importância do ensino religioso para a formação moral, ética e espiritual de seus jovens.
No documento preparado pela Confederação das Uniões Brasileiras da Igreja Adventista do Sétimo Dia, intitulado Pedagogia Adventista, ressalta que "A educação adventista considera a Bíblia como a fonte de auto-revelação de Deus e aceita como fundamentos básicos para a educação cristã os seguintes aspectos: a existência de um Deus Criador; a criação do universo e do mundo perfeitos; a criação do ser humano a imagem de Deus, com livre arbítrio; o surgimento do pecado a partir da rebelião de Lúcifer; a queda do ser humano em pecado; a iniciativa de Deus para a restauração do ser humano, através do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus; a ação do Espírito Santo no plano da redenção; o retorno de Cristo para por fim a história terrestre em sua fase de pecado; a restauração do mundo e dos seres humanos à sua condição original". (2004, p. 36).
Até aqui se abordou o tema do Ensino Religioso nas escolas de ensino fundamental. Não há referências na legislação Brasileira quanto ao Ensino Religioso nas instituições de Ensino Superior. Entretanto, a necessidade de se incluir esta matéria em nossas universidades, já foi notada há tempo.
Na obra Opening the American Mind (1991, p. 09), o editor W. David Beck ressalta quão fundamental é esta visão religiosa para a formação do discente. Ressalta que nossas universidades estão em perigo por causa do secularismo que persiste alienando cada vez mais as pessoas de Deus. O ponto alto desta obra é a ênfase da integração das verdades bíblicas ao currículo de nossas universidades.
Para se manter esta visão de mundo e das realidades espirituais, como partes do currículo das faculdades adventistas, são inseridas matérias religiosas que visam ampliar os horizontes dos alunos e conceder a possibilidade de uma visão crítica concernente a temas religiosos.
A necessidade destes temas transversais nos currículos das faculdades adventistas no Brasil se evidencia pela centralidade dos temas religiosos na mídia impressa. A Revista Veja, de 23 de dezembro de 2009, com reportagem de Isabela Boscov, ressaltou que a leitura da Bíblia é essencial para entender o mundo do qual viemos e em que vivemos hoje. Já a Revista Istoé de 30 de dezembro de 2009, com reportagem de João Loes, trata do personagem Jesus que mudou a história da humanidade. No mesmo ano, 2009, a revista Época de 21 de dezembro de 2009, tratou do tema sociedade e religião. Como não deixar de notar a importância desta temática para os dias atuais.
Por outro lado, observa-se que o Brasil hoje vive um momento de ceticismo quanto à religião, muitas vezes graças a movimentos religiosos que fazem da religião uma forma de enriquecimento. Como podemos posicionar os jovens de hoje com uma visão clara, objetiva e, ao mesmo tempo, crítica dos fenômenos atuais?
A proposta do currículo das faculdades adventistas busca alcançar estes temas. Vamos a uma breve análise.

Análise do currículo religioso das faculdades adventistas do Brasil

Nas Faculdades Adventistas do Brasil, existe uma temática para as matérias religiosas que são ministradas nos cursos de graduação. São oito matérias, uma para cada semestre dos cursos.
No primeiro semestre, o aluno assiste aulas sobre Cosmovisão Cristã. A intenção de começar com esta disciplina é possibilitar o diálogo religioso a partir de um tema comum ao cristianismo e às demais religiões: a existência de Deus ou do Transcendente, assim como a necessidade ou carência ontológica de Deus.
Uma vez desfeitos os preconceitos com a religião e familiarizado o aluno com o tema Deus, a próxima disciplina a ser cursada será Antropologia Cristã. Nesta classe pretende discutir o significado e valor do ser humano, e enfatizar as variadas conseqüências da ruptura do relacionamento das pessoas com Deus, e como isso influencia nos aspectos religioso, social e ambiental. Com isto procura-se levar o aluno a compreender que seus valores são serão maiores do que a idéia que tem de si mesmo, e que isso influirá diretamente em sua vida profissional.
No terceiro semestre, o aluno cursará a disciplina Fundamentos do Cristianismo. Esta matéria dará ao estudante a oportunidade de conhecer o surgimento histórico do cristianismo, revisando primeiramente sua origem judaica e posteriormente tendo uma visão panorâmica de como está o cristianismo em nossos dias, especialmente na questão da diversidade de denominações cristãs. Dessa maneira, o estudante pode até mesmo conhecer as origens de sua própria denominação, assim como refletir nos principais temas que fazem do cristianismo uma religião importante no contexto do mundo ocidental.
Havendo estudado as origens e bases do cristianismo, a disciplina Interpretação Bíblica da História tem como objetivo colocar o aluno a par de como a tradição bíblico-cristã entende os eventos passados, presentes e futuros. Mais do que mero conhecimento histórico e até profético, a intenção é refletir a respeito da importância de nutrir confiança em Deus e em Seu cuidado pelo ser humano.
Enquanto que as quatro disciplinas anteriores são mais de cunho filosófico, a disciplina Princípios de Vida Saudável tem implicação bastante prática. Nela pretende-se estudar os princípios de vida saudável numa perspectiva cristã a fim de desenvolver pessoalmente uma boa qualidade de vida. Faz parte desta disciplina a discussão da saúde em suas diversas dimensões: física, mental, emocional, social e espiritual. Adotando este discurso, estamos em sintonia com uma discussão bem atual: de que é importante cuidar da saúde, a fim de ter qualidade na profissão e na vida.
Igualmente à anterior, a Ética Cristã diz respeito à prática da vida: discussão dos padrões éticos cristãos e suas implicações nas normas de conduta humana. Esta temática responde e contra-argumenta a idéia de que o relativismos é uma resposta apropriada para tudo o que diz respeito à conduta ética e moral
A disciplina de Ciência e Religião permite a discussão das relações entre as formas de conhecimento da ciência e da religião preparando o estudante cristão para desenvolver sua fé no mundo moderno, pois se entende que todo ser humano não pode dissociar seus princípios religiosos do mundo em que vive; em outras palavras, deve desenvolver uma fé inteligente, evitando que seu cristianismo seja classificado como anti-intelectualismo. Afinal, "pensar bem é parte integral do agir corretamente" (SIRE, 2005, p. 11). Por outro lado, a disciplina pode alcançar os de mentalidade secular, que muitas vezes pensam não haver amparo científico para um conceito cristão das origens.
Finalmente, com a disciplina Religiosidade e Competência Profissional pretende-se discutir como a formação religiosa pode tornar-se um diferencial positivo na vida pessoal e profissional.
Assim, com este currículo, vemos uma grande oportunidade para transmissão de valores morais e espirituais para o desenvolvimento de um caráter sadio nos jovens estudantes.

A Influência do ensino religioso na formação de valores morais, éticos e espirituais em alunos universitários

Segundo Bahia (2000) os valores cristãos significa amor, alegria amabilidade e a confiança em Deus. Esperança consciência de moralidade graça generosidade serviço, retidão pureza missão honestidade temperança respeito próprio mordomia, integridade, humildade, compaixão, empatia, cooperação, cortesia paz interna e externa, reverencia, justiça e tolerância.
Os Valores religiosos dizem respeito ao relacionamento com Deus e o cristão acreditando e aceitando pela fé na existência de Deus e que de várias maneiras se revela ao homem especialmente pela Bíblia. "Buscar conhecer a Deus e compreender sua vontade bem poderia ser o primeiro princípio da educação cristã." (WHITE, 2003, p. 293).
Ao refletirmos sobre a convivência em sociedade, deve se buscar a coerência e consistência de valores que norteiam as ações de caráter moral. A ética é a reflexão crítica sobre a moralidade; ela não tem a pretensão de definir normas, mas busca fundamentação para que tenha significado critico nas relações sociais.
Estes valores estão calçados na lei áurea com origem no criador e no amor princípio (ágape) amor-respeito, permitindo estabelecer assim as premissas básicas da ética cristã. A adoção de valores éticos leva a desenvolver códigos de ética pessoal e profissional que modelam o comportamento humano, o grande objetivo da ética (RITTER, 2000).
Com respeito ao domínio próprio governando a si mesmo, gradativamente o caráter vai se formando oriundos de fundamentos onde estão calcados no grande padrão moral instituído por Deus como coordenador moral do universo.
Valores morais permitem estabelecer princípios de disciplina e comportamento e forma reservas morais pessoais ou institucionais importantes nos dias atuais tornando a convivência em sociedade mais digna onde se torna evidente a realização do bem comum.
É comovente o apelo de Júnior (2001, p. 57): "Precisamos acabar com os analfabetos em letras, em cidadania, em solidariedade, em justiça social para evitar a manutenção de corruptores eleitorais, de governos irresponsáveis e desta miséria humana social que vemos pelas ruas e pelo interior do país. A educação religiosa pode contribuir para isso".

Doutrinação no processo educacional

A importância de uma formação religiosa mais pujante pode ser vista na fala de Junior. Ele declara que "esta é a novidade no novo milênio: articular as diferentes falas sobre o humano sem excluir o religioso ou dogmatizá-lo. Assumir a religião como valioso campo de conhecimento e lugar de revelação das potencialidades culturais de um povo". (2001, p. 56).
Contudo, ao comentar a metodologia que deve ser usada na prática dessa disciplina, Junior preocupa-se que o proselitismo e a doutrinação sejam evitados. Durante os últimos trinta anos, a doutrinação tem sido considerada uma das questões mais controversas na área da Filosofia da Educação. Diferentes idéias têm surgido sobre o tema.
Segundo Stencel (2009, p. 67) o termo doutrinação:

[...] pertence a uma família de conceitos que inclui "ensino", "instrução", e "aprendizagem". Poderíamos dizer que a doutrinação é qualquer um dos vários métodos de ensino possíveis tal como instrução sem questionamento, a recitação e a aprendizagem rotineira. Nesse contexto, ensinar é fazer qualquer coisa com a intenção de induzir pessoas a sustentarem pontos de vista de maneira pré-determinada e inquestionável.

Ele mesmo mostra que esse processo pode ser mais visto nos domínios afetivos, como "moral", "religião" e "política". A doutrinação pode assumir caráter diferente se levado em conta seu conteúdo, método e intenção. Desta forma assumindo uma conotação negativa.
Com relação ao conteúdo, Stencel argumenta se ele for apresentado de maneira que anule o processo investigador ou provoque supressão sobre a avaliação crítica, se torna danoso ao processo educacional. Qualquer abordagem pedagógica na apresentação de um conteúdo específico, que irá afetar o desenvolvimento intelectual e emocional de seus alunos, pode ser reconhecida como doutrinação.
Com relação ao método, vários filósofos e educadores afirmam que doutrinação pode ser trabalhada através da lavagem cerebral, ensino autoritário, a inculcação, a propaganda, a censura e o controle da mente. Logo, o método pode assumir uma conotação negativa se força alguém a pensar ou agir de forma diferente daquela que desejava.
Finalmente, quando professores intencionalmente aplicam a doutrinação aos alunos, estão "violando a personalidade dos alunos". (STENCEL, 2009, p. 69).
Com base nestes argumentos, deve haver uma séria preocupação que, ao serem ministradas as matérias de ensino religioso nas faculdades adventistas, não se firam os princípios de liberdade e igualdade, não seja cerceado os direitos dos alunos, nem imitada sua reflexão e desenvolvimento.

Considerações Finais

Como apresentado neste trabalho, o ensino religioso faz parte da história cultural de nosso país, passando por diversas reformulações ao longo dos anos. O fato de estar presente hoje como disciplina e os variados debates que tem surgido no meio acadêmico, aponta sua importância e significado para os alunos de nossas escolas.
Também foi considerado o fato de a legislação brasileira não prever no currículo de nossas instituições de ensino superior a disciplina de ensino religioso, o que não impede nenhuma instituição educacional de inserir, uma vez comprovada sua relevância e necessidade.
A filosofia adventista de educação foi analisada e como as matérias de cunho religioso foram inseridas na grade curricular para atender a objetivos específicos. Estes objetivos não podem ser confundidos com processos de doutrinação, conforme sinaliza Stencel, mas como uma busca da construção da ética e moralidade nos universitários das faculdades adventistas do Brasil.
Ressaltar a importância dessa matéria para a construção de uma sociedade mais justa e humana foi nosso objetivo. Concordando assim com diversos educadores modernos que têm escrito sobre a importância do pensamento crítico religioso, e dos estudos dos fenômenos religiosos, para uma cidadania mais justa e humana.
Foi ressaltada ainda a publicidade que a mídia, quer seja digital ou impressa, tem dado aos temas religiosos em nosso país; e que o desenvolvimento de um pensamento crítico pode ser um forte aliado para que os universitários não caiam nas "armadilhas" dos assim autodenominados líderes religiosos que, lançando mão da boa fé do povo, ensinam um "evangelho" que visa apenas interesses pessoais.
Numa sociedade marcada por tantas desigualdades e imoralidade, o senso do sagrado pode ajudar na formação discente de forma que no amanhã, se tenha profissionais dignos e competentes, que exaltem e defendam os valores éticos, morais e espirituais, tão necessários a grandeza de uma nação.




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