O PAPEL DO PSICÓLOGO FRENTE A DEPRESSÃO NO ESPORTE

 

Matheus Henrique Rocha Tavares [1]

Yasmin Livia Queiroz Santos [2]

 

RESUMO: O presente artigo, com o objetivo principal de identificar o real papel do psicólogo diante da depressão no esporte, acaba atendendo à expectativa de não apenas identificar esse papel, analisando diversos aspectos que envolvem o atleta e seu desempenho, e posteriormente como o psicólogo passa a ser incluída na tarefa de trabalhar com a demanda de adoecimento, atuando tanto na prevenção quanto no tratamento da doença. Podemos constatar que todo o organismo multidisciplinar envolvido com o esporte e suas competições, são candidatos a desenvolver doenças por depressão. Isso acontece a partir de um gatilho, que pode ser uma reação emocional, psicológica e física, respondendo a pressões e estresse excessivo intenso, cansaço físico, e também pela insatisfação do treinamento inadequado e da orientação do treinamento, além de um descanso sem manejo. Fica claro, então, que o psicólogo do esporte deve se dedicar ao melhor desempenho dos atletas, proporcionando a gestão para auxiliá-los e treiná-los na recuperação de lesões e na promoção do exercício físico, sempre visando à saúde mental pessoal, destacando que essa atuação deve estar sempre atrelada a outras avaliações realizadas por uma equipe multiprofissional, que na maioria das vezes conta com profissionais das mais diversas áreas da saúde. O trabalho do psicólogo frente à doença deve ser voltado para o fortalecimento do suporte social, visto que é um elemento moderador na relação entre situações estressantes e agravos, após isso, deve promover o contato informal entre todos os integrantes da equipe, além de valorizar a família. / atleta contato e orientadores, desde a direção ao técnico, sobre as condutas que devem desenvolver para dar suporte ao indivíduo, e assim desenvolver um bom relacionamento entre as partes mencionadas, e por fim promover encontros onde se consolide o apoio mútuo atingir objetivos individuais e coletivos. Também retratamos a importância de modificar as variáveis pessoais relevantes na direção mais adequada, para que o atleta possa enfrentar as situações mais perigosas com o mínimo de pressão e perceber que possui recursos suficientes para lidar com isso. Ressaltamos a necessidade de novas pesquisas para uma análise mais precisa dos aspectos mencionados, visto que é uma área emergente da psicologia quando se trata da psicologia do esporte e das doenças que a envolvem.

 

Palavras chave: Psicologia. Depressão. Esporte. Lesão. Reabilitação.

 

1. INTRODUÇÃO 

A depressão é uma doença "do organismo como um todo", que compromete o físico, o humor e, conseqüentemente, o pensamento. A depressão muda a forma como a pessoa vê o mundo e sente a realidade, entende as coisas, expressa emoções, sente a disposição e o prazer com a vida. Afeta a maneira como uma pessoa come e dorme, como ela se sente a respeito de si mesma e como pensa sobre as coisas. A depressão é, portanto, um transtorno afetivo ou de humor, não é simplesmente estar no "buraco" ou em um "baixo-astral" temporário, que se caracterizam quando os sintomas persistem por pelo menos duas semanas. (BARBANTI,2011)

Os transtornos depressivos incluem transtorno de humor perturbador, transtorno depressivo maior (incluindo episódio depressivo maior), transtorno depressivo persistente (distimia), transtorno disfórico pré-menstrual, transtorno depressivo induzido por substâncias / drogas, transtorno depressivo devido a outra condição médica, outro transtorno depressivo especificado e não especificado transtorno (DSM - 5, 2014).

A característica comum desses transtornos é a presença de um humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo. O que difere entre eles são os aspectos de duração, tempo ou etiologia assumidos. (DSM - 5, 2014).

O transtorno depressivo maior representa a condição clássica desse grupo de transtornos. É caracterizada por episódios distintos de pelo menos duas semanas de duração (embora a maioria dos episódios dure consideravelmente mais), envolvendo mudanças claras na afeição, cognição e funções neurovegetativas, e remissões inter episódicas. (DSM - 5, 2014).

Diversos estudos já constataram os efeitos antidepressivos dos exercícios físicos, contudo a depressão pode afetar também os atletas. O atleta está a todo tempo passando por cobranças excessivas, principalmente a estar em alto rendimento e a produzir bons resultados, ao mesmo tempo que tende a estressores acarretando uma forte carga emocional. Seja qual for a modalidade que o mesmo executa, está sempre sujeito a derrotas, lesões, baixo rendimento, fatores que podem ser desencadeadores de um quadro depressivo (BARBANTI, 2011).

O presente estudo tem como objetivo geral identificar o papel do psicólogo no ambiente esportivo e o seu papel junto a atletas que sofrem com quadros depressivos. Os objetivos específicos dessa pesquisa consistem em:

  •  Analisar como a depressão afeta atletas de diversas modalidades;
  •  Identificar o papel do psicólogo do esporte;
  •  Como o psicólogo pode intervir ou trabalhar na prevenção da doença.

O presente trabalho justifica-se socialmente por contribuir com o significativo e valoroso papel que o esporte tem no mundo todo e também no comportamento humano e na compreensão do desenvolvimento da depressão em atletas e no esporte como um todo, e como o psicólogo está inserido nesse contexto.

Justifica-se de forma acadêmica e cientifica, pois, contribui com uma ampla pesquisa identificando como atua o psicólogo frente ao esporte e nas doenças que envolve esse meio, como a depressão, um dos principais foco do presente trabalho. Pessoalmente justifico o mesmo, pelo notável crescimento da área e pela curiosidade de entender como o psicólogo pode trabalhar nesse campo que é tão vasto e por compreender como doenças mentais podem afetar o rendimento de atletas de diversas modalidades.

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica onde é feito uma coleta de dados a partir de artigos, livros e revistas científicas para utilizar como citações.

A pesquisa bibliográfica fundamenta-se em conhecimentos proporcionados pela Biblioteconomia e Documentação, entre outras ciências e técnicas empregadas de forma metódica envolvendo a identificação, localização e obtenção da informação, fichamento e redação do trabalho científico. Esse processo solicita uma busca planejada de informações bibliográficas para elaborar e documentar um trabalho de pesquisa científica (Salomon, 2004, p. 266).

 

               

A pesquisa configura-se de cunho qualitativo que como pontua Deslandes et al. (1994), foca em uma realidade que não se pode quantificar, devido às questões particulares que trabalham com significados, crenças e valores e segundo Minayo (2007) o estudo qualitativo se aplica às interpretações que os humanos fazem, pensam, sentem e da forma como vivem, possibilitando assim, o estudo de processos sociais ainda pouco conhecidos ligados diretamente à grupos específicos. Além disso, este tipo de estudo permite durante a investigação, a construção de novos conceitos e categorias bem como a revisão e criação de abordagens e novas hipóteses. Uma pesquisa realizada pelas plataformas e sites Scielo, google acadêmico, psicologia acessível, entre outros.

 

2. DEPRESSÃO

O perfil fundamental do transtorno disruptivo do humor é a excitabilidade crônica severa. Essa irritabilidade severa gera duas manifestações clínicas grandes, sendo a primeira frequentes explosões de ira. Essas explosões geralmente vão em resposta à frustração e podem ser verbais ou comportamentais (a última na forma de ataque contra a propriedade, você ou outros). Eles necessitam vir com regularidade (ou seja, em média três ou mais oportunidades por semana) (Critério C) por pelo menos um ano em pelo menos dois ambientes (Critérios E e F), quanto em casa e na escola, e necessitam ser inadequados para desenvolvimento (Critério B). A nova manifestação de irritabilidade severa consiste em um humor permanentemente irritável ou irado que está presente entre os disparos de ira. Esse humor irritado ou irado deve ser marca da criança, sendo presente a maior parte do dia, mais ou menos todo o tempo, e sendo visível por outras pessoas no espaço da criança (DSM – 5, 2014).

A característica central do transtorno disruptivo do humor é a irritabilidade crônica severa. Essa irritabilidade severa tem duas manifestações clínicas proeminentes, sendo a primeira freqüentes explosões de raiva. Essas explosões normalmente ocorrem em resposta à frustração e podem ser verbais ou comportamentais (o último na forma de agressão contra a propriedade, você ou outros) (DSM – 5, 2014).

Já como doença, ela é enquadrada de várias formas: transtorno depressivo maior, melancolia, distimia, depressão integrante do transtorno bipolar tipos I e II, depressão como parte de ciclotimia, etc.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua quinta edição (DSM-5), para o diagnóstico de transtorno depressivo maior, é necessária a presença de cinco ou mais dos seguintes sintomas, por um período de pelo menos duas semanas, presentes durante a maior parte do dia e/ou em quase todos os dias, e que representem mudanças no funcionamento prévio do indivíduo, a saber: humor deprimido; perda de interesse ou prazer em atividades habitualmente prazerosas; perda ou ganho significativo de peso ou de apetite na ausência de dieta; insônia ou hipersonia; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimento de inutilidade, culpa excessiva ou inapropriada; dificuldade de pensar ou se concentrar; além de pensamentos recorrentes de morte, ideação, plano ou tentativa de suicídio. Obrigatoriamente, pelo menos um dos dois primeiros critérios citados acima deve estar presente (APA, 2014, p. 82).

 

Critérios diagnósticos segundo: (DSM – 5, 2014).

A - Explosões de furia simples e relevantes manifestadas pela fala (p. ex., violência verbal) e/ ou pela atitude (p. ex., agressão física a pessoas ou propriedade) que são significativamente desproporcionais em intensidade ou persistência à situação ou provocação.

B. As explosões de furia são contraditórias com o nível de acréscimo.

C. As explosões de furia ocorrem de forma mediana, três ou mais vezes por semana.

D. O humor entre as explosões de furia é persistentemente irritável ou mal-humorado na maior parte do dia, quase todos os dias, e é observável por outras pessoas (p. ex., pais, professores e parceiros).

E. Os Critérios A-D estão frequentes em 1 ano ou mais. Durante esse tempo, o indivíduo não teve um período que durou três ou mais meses conseguintes sem todos os sintomas dos Critérios A-D.

F. Os Critérios A e D são frequentes em pelo menos dois de três ambientes (p. ex., em casa, na escola, com os parceiros) e são graves em pelo menos um deles.

G. O diagnóstico necessita ser realizado entre 6 e 18 anos.

H. Por documento ou observação, a idade de início dos Critérios A-E é anterior aos 10 anos de idade.

I. Nunca houve um período distinto com duração superior a um dia durante o qual todos os critérios de sintomas, exceto a duração, para um episódio maníaco ou hipomaníaco foram atendidos.

Uma elevação do humor apropriada para o desenvolvimento, como aquela que ocorre no contexto de um evento altamente positivo ou sua antecipação, não deve ser considerada um sintoma de mania ou hipomania. J. Os comportamentos não ocorrem exclusivamente durante um episódio de transtorno depressivo maior e não são melhor explicados por outro transtorno mental (por exemplo, transtorno do espectro do autismo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade de separação, transtorno depressivo persistente [distimia]) (DSM – 5 – 2014).

Este diagnóstico não pode coexistir com transtorno de oposição desafiador, transtorno explosivo intermitente ou transtorno bipolar, embora possa coexistir com outros, incluindo transtorno depressivo maior, transtorno de déficit de atenção / hiperatividade, transtorno de conduta e transtorno de uso de substâncias. Os indivíduos cujos sintomas atendem aos critérios para transtorno de disrupção do humor disruptivo e transtorno de oposição desafiador só devem ser diagnosticados com transtorno de disrupção do humor perturbador. Se um indivíduo já experimentou um episódio maníaco ou hipomaníaco, o diagnóstico de transtorno do humor perturbador não deve ser atribuído. K. Os sintomas não são consequência dos efeitos psicológicos de uma substância ou outra condição médica ou neurológica (DSM – 5 – 2014).

A depressão assume, mundialmente, destaque como problema de saúde pública por sua gravidade e seus altos índices de prevalência e impacto social. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% de toda a população mundial, em algum momento da vida, experimentará um episódio depressivo (CURY, 2014, p.76).

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, realizada no Brasil em 2013, 7,6% das pessoas com 18 anos ou mais foram diagnosticadas com depressão por um profissional de saúde mental, o que corresponde a aproximadamente 11,2 milhões de pessoas. Entre esses indivíduos, cerca da metade disseram usar medicamentos para depressão; 46,4% receberam assistência médica para depressão nos últimos 12 meses; e 16,4% faziam psicoterapia (CURY, 2014, p.76).

 

2.1 Como a depressão afeta o atleta em diversas modalidades

Nos dias de hoje, quando falamos de alta competição, a maioria dos atletas de topo apresenta habilidades físicas muito semelhantes. Aqui a diferença verifica-se, muitas vezes, ao nível das competências psicológicas. Relativamente ao “stress”, a situação é idêntica, todos os atletas enfrentam no seu dia-a-dia situações estressantes e aqui, os atletas de sucesso serão, certamente, aqueles que melhores capacidades demonstram na gestão e no controle das situações potencialmente estressantes.

Com relação aos casos de ansiedade mencionados na Psicologia do Esporte a ansiedade e performance são os tópicos que mais consideração mereceu por parte dos estudiosos. A quantidade de estudos é proporcional à importância que este fator assume no desempenho dos atletas. Níveis muitos elevados de ansiedade comprovadamente prejudicam a performance (Martens, apud. BARBANTI, 2011), além de contribuírem para o aparecimento de manifestações psicossomáticas adversas, como perturbações do sono, problemas gastrintestinais, etc. Com base no fato da ansiedade tanto somática como cognitiva afetarem a performance desportiva, diversas teorias têm sido propostas para explicar a relação entre a ansiedade e a performance.

Já a depressão é um problema médico caracterizado por continuada alteração no humor e falta de interesse em atividades prazerosas. O estado depressivo se diferencia do comportamento "triste" ou melancólico por ser uma condição duradoura de origem neurológica acompanhada de vários sintomas específicos. É o resultado de uma alteração dos neurotransmissores no Sistema Nervoso Central- SNC. Neurotransmissores são substâncias responsáveis pelas trocas de informações do SNC: Endorfina, Serotonina. Graças aos neurotransmissores temos: emoções, sentimentos, prazer (BARBANTI, 2011).

Até mesmo o próprio atleta com depressão pode recusar-se a entrar em contato com seus sentimentos e negar o problema, pois cada dia de treinamento de um atleta exige uma superação de limites e, quando isso não ocorre, o desempenho geralmente é abaixo do esperado, ou passam a encarar a depressão como uma fraqueza. Portanto o atleta está habituado a enfrentar seus próprios problemas, isto pode dificultar o tratamento da depressão, podendo agravar o quadro depressivo, chegando até mesmo ao suicídio, mesmo em atletas que estejam tratando da depressão (BARBANTI, 2011, “p.3”).

A autoestima está seriamente comprometida em estados afetivos depressivos e, consequentemente o rendimento esportivo de atletas depressivos está seriamente prejudicado. Os treinadores afirmam que atletas de ponta podem sofrer uma crescente sobrecarga emocional. No contexto esportivo a pressão sobre os jogadores aumenta. Atletas podem ser ameaçados durante treinos, agredidos verbalmente com adjetivos racistas ou mesmo boicotados por colegas ou treinadores, o que pode diminuir a autoestima do atleta (BARBANTI, 2011, “p. 4”).

Para atletas de quaisquer categorias, o fracasso também leva a uma situação de autoestima baixa (descontentamento falta de prazer, insatisfação, depressão). O problema surge quando esse sentimento se prolonga. Quando os fatores estressantes como estes ultrapassam a aptidão física do atleta, a depressão pode instalar-se indefinidamente. Isso ocorre quando ao efetivar a mitose as células reproduzem e aumentam os receptores celulares dos sentimentos predominantes. Se os sentimentos predominantes forem depressivos e se os mesmos sentimentos permanecerem por longos períodos, chegará um momento em que ocorre uma overdose destes sentimentos. Os atletas declaram que a depressão é de certa forma, tida como uma fraqueza. Por isso muitos atingidos preferem esconder a doença, temendo que a sociedade não saiba como lidar com seu estado (BARBANTI, 2011, “p.5”).

Lesões físicas também contribuem para o surgimento da depressão “Uma lesão física num atleta pode levar ao aparecimento de ansiedade, depressão e prejuízos na sua autoestima, chegando mesmo a proporções clínicas significativas. "Os atletas com maior autocobrança para voltar a jogar apresentaram maiores índices de depressão, raiva e vigor quando comparados aos atletas que se auto avaliaram com menos cobrança para voltar a jogar (CARVALHO, 2009).

As mudanças de comportamento também são suscetíveis ao surgimento da depressão no atleta. Exemplos de mudanças de comportamento conhecidos na mídia encontram-se casos de atletas que passaram a fazer uso de álcool e drogas. Em muitos destes casos o atleta passa a fazer uso destas substâncias como forma de automedicação de uma depressão não tratada. Transtornos Mentais - a incidência de transtornos mentais é maior antes de partidas decisivas, após os jogos, independente do resultado, e se agrava com as derrotas (CARVALHO, 2009).

MELLO  et.  al.  (2015  p .  205)  mostra  que  “estudos  epidemiológicos  confirmam  que pessoas  moderadamente  ativas  têm  menos  risco  de  serem  acometidas  por  disfunções  mentais do  que  pessoas  sedentárias,  demonstrando  que  a  participação  em  programas  de  exercícios físicos exerce benefícios, também, para funções cognitivas.”.

VIEIRA  et.  al.  (2008  p.2),  explica  que  “a  percepção  não  é influenciada apenas pelo que pensamos, mas também pelo fator afetivo, por aquilo que se espera de  determinada  situação.”  Complementa  ainda  que  “um  atleta  em  um  estado  deprimido  ou desesperançado,  diante  de  uma  situação  frustrante  sentir-se-á  mais  triste  e  apresentará comportamentos  de desistência  ou  fuga  de  tal  situação.”  Muitos  comportamentos   sofrem influência  de   fatores  psicológicos  os  quais  afetam o  desempenho  motor  do  atleta,  e  este  fator afeta completamente  o seu  desempenho no  contexto  competitivo  de alto  rendimento.  

 “O  estado  de  humor  de  um  atleta  altera -se  dependendo  das  experiências passadas,  de  sua  percepção  da  situação  e  da  forma  como  irá  lidar  com  as expectativas e pressões  exercidas pelo ambiente, tais como: o técnico, a torcida e  os  familiares.  Nestas  situações, o   esportista  de  alto  rendimento  está  exposto a  um  estresse  constante,  pois  não  há  um  controle  exato  da  situação.  Devendo saber lidar tanto com as  vitórias (sucesso) quanto com as derrotas (frustrações),  o que leva a um maior contato com suas emoções e, desta fo rma, exigindo um maior  controle  de  seus  afetos  e  estados  de  humor”  (VIEIRA.  et.  al.  2008,  p. 02) 

     

            Atletas e técnicos em geral, são fortíssimos candidatos ao desenvolvimento da depressão. Os gatilhos podem ser reações emocionais, mentais e físicas ao estresse e estresse, exercício físico intenso, esforço físico e insatisfação com o treinamento monótono e / ou falta de descanso. Para VIEIRA (2008) apud. WEINBERG & GOULD (1995), essas reações são acompanhadas por sentimentos de inferioridade, não conseguindo atingir as metas estabelecidas, levando a sentimentos de diminuição da produtividade e do desempenho.

Segundo BRANDÃO et. al (2011, p. 3) uma característica do perfil dos atletas pode ser  “a  negação  da  doença”,  esta  pode  ser  justificada  “pelo  fato  dos  atletas  depressivos  sere vítimas  de exclusão  e  preconceito  por  parte  dos  colegas  no  mundo  do  esporte  competitivo  ou medo da reação da sociedade diante de seu problema.”

“O próprio atleta com depressão pode recusar-se a entrar em contato com seus sentimentos  e  negar  o   problema,  pois  cada  dia  de  treinamento  de  um  atleta exige  uma  superação  de  limites  e,  quando  isso  não  ocorre,  o  desempenho geralmente é  abaixo do esperado , ou  passam a encarar a  depressão  como uma fraqueza.” (BRANDÃO et. al. 201 1, p. 03).

 

               

3.0 A FUNÇÃO DO PSICÓLOGO NO ESPORTE

 

O desenvolvimento da psicologia do desporto como campo de investigação e intervenção suscita muitas questões, desde a formação académica / profissional mínima adequada para o trabalho nesta área, à definição de papéis profissionais à formação de sistemas de conhecimento teórico. E pessoal técnico, como base para a intervenção de atletas e praticantes de exercícios físicos (WEINBERG e GOULD, 2001).

De acordo com Weinberg e Gould (2001), os psicólogos do esporte possuem três campos de atuação profissional: o ensino, a pesquisa e a intervenção, o autor ainda diz que:

“No campo do ensino o objetivo é transmitir conhecimentos e habilidades técnicas esportivas. Para tanto, os profissionais necessitam ter conhecimentos das capacidades psicológicas necessárias para melhor compreender o comportamento humano no âmbito do esporte (papel de professor). No campo da pesquisa, são mais explorados procedimentos diagnósticos para medir características psicológicas das pessoas, avaliações esportivas e medidas de intervenção psicológica para competição e treinamento (papel de pesquisador). No campo da intervenção psicológica (papel de consultor) são realizados psicodiagnósticos, programas psicológicos de treinamento mental, juntamente com medidas de aconselhamento e acompanhamento”.

 

A partir do momento que o psicólogo é inserido a uma equipe esportiva, o mesmo passa a gerar em seus integrantes uma serie de mecanismos psíquicos, como empatia, resistência, controle emocional entre outros (WEINBERG E GOULD, 2001).

Historicamente, Griffith, considerado o precursor da Psicologia aplicada ao Esporte nos Estados Unidos apontava como funções do Psicólogo do Esporte ensinar a técnicos jovens e inexperientes os princípios psicológicos utilizados por técnicos de grande sucesso, adaptar a informação já adquirida em Psicologia para o contexto esportivo e utilizar o método científico e experimental em laboratório para descobrir novos fatos e princípios que ajudariam o atleta na prática (GOULD e PICK, 1995).

Araújo (2002) acredita que o psicólogo do esporte deva se dedicar à melhoria do desempenho dos atletas, fornecendo sugestões que os capacitem na recuperação de lesões e promovendo a prática de exercícios físicos para a melhoria da saúde pessoal. Outro aspecto a ser destacado na atuação do psicólogo do esporte é a comunicação entre a equipe esportiva e o psicólogo. Nesse ponto, a linguagem cotidiana de treinadores e atletas é norteada pelos termos técnicos específicos de cada modalidade, portanto o psicólogo deve buscar esse conhecimento para evitar a resistência extrema dos praticantes de esportes e exercícios físicos.

No  meio  esportivo  e  competitivo,  há  uma  demanda  constante  em  alcançar  metas  e otimizar  performances.  Nesse  caso,  a  preparação  psicológica  é  uma  necessidade,  e  não  um  diferencial.  Ela  é  tão  importante  quanto  a  preparação  física,  técnica  e  tática  dos  atletas (BECKER, 2000).

Segundo  PIRES  (2017),   antes  de  iniciar  qualquer  trabalho,  a  comissão  técnica juntamente com o psicólogo devem definir quais são os objetivos e expectativas em psicologia do esporte. A autora ainda salienta a necessidade de fazer um contrato escrito a fim de esclarecer e firmar o trabalho a ser realizado:

“É  compreensível  por  grande  parte  das  pessoas  que  as  emoções,  características  de  personalidade  e  outros  aspectos  psicológicos  influenciam  enorme  e diretamente no desempenho esportivo. Além disso, um dos focos da psicologia do esporte é na qualidade de vida das pessoas”.

 

SAMULSKI  (2009)  declara  que  o   papel  do  psicólogo  não  tem  efeito  imediato,  e,  que com  o  auxílio  dos  técnicos  é  possível  fazer  com  que  o  sucesso  do  atleta  seja  alcançado, diminuindo o nível de depressão. O autor ainda deixa claro o quão importante é o exercício para as  pessoas  que  sofrem  com  o  transtorno,  fazendo  com  que  elas  liberem  neurotransmissores importantes para a saída da situação em que se  encontram.

O  psicólogo do esporte  que  atua  em  academias,  grupos  esportivos  e  em  instituições, frequentemente  se  depara  com  pessoas  que  sofrem  de  depressão. Nesse  caso  seu  papel pode ser no auxílio da manutenção da adesão e a derência do exercício físico, no desenvolvimento da autoestima e autoimagem, contribuindo com a reabilitação  dessas pessoas  através da atividade física (PIRES, 2017). A autora ainda termina dizendo:

“O trabalho do  psicólogo do esporte se faz importante ao favorecer um maior entendimento  sobre  os  sentimentos,  pensamentos e  emoções  que  podem interferir  na  prática  esportiva.  Também atua  nas  relações  que  permeiam  o ambiente esportivo”.

               

                “Alguns estudos indicam que níveis excessivos de ansiedade tendem a restringir o ‘campo’ da atenção, e o atleta poderá começar a prestar atenção somente a um número limitado de sinais”, pois a interferência dos fatores psicológicos tende afetar o desempenho físico do atleta (CRATTY, 1984, p. 91). A atitude psicológica com relação à competição, em termos de ansiedade, nível do objetivo e motivação podem de maneira significativa afetar o desempenho físico.

“A Psicologia do Esporte tem se constituído um desafio para a Psicologia antes de se tornar uma especialidade. Enquanto área de conhecimento ela se encontrou, por muito tempo, na divisa entre a Psicologia e a Educação Física, entre os limites do rendimento humano e as atividades motoras básicas e lúdicas. O esporte midiático contribuiu em muito para uma associação entre a Psicologia e o rendimento esportivo na medida em que a produção do espetáculo esportivo demanda a utilização de várias especialidades na superação de adversários e recordes, finalidade do esporte competitivo e de pessoas distintamente habilidosas, o atleta de alto rendimento (RUBIO, 2003).

Rúbio (2003) enfatiza que “existem algumas estratégias que podem auxiliar o atleta a lidar com o excesso de ansiedade e tensão, como aprender a reconhecer e mudar pensamentos negativos, utilizar informações positivas, regular a respiração, manter o senso de humor e fazer relaxamento”.

Neste modelo, é importante que os atletas aprendam técnicas para reduzir o nível de estresse emocional e de ansiedade através de técnicas de relaxamento e técnicas cognitivas de controle. Dessa forma, além da disciplina alcançada pelos atletas através dos treinamentos, o fator psicológico se faz presente na preparação dos atletas tendo, nesse caso a família, um papel muito importante qual seja o de dar apoio e, acima de tudo, incentivar (BUCETA, 2003).

Para Buceta (2003), o objetivo da preparação psicológica dos atletas inclue a aplicação rigorosa de estratégias apropriadas, a fim de alcançar um determinado estado psíquico que contribua efetivamente para o rendimento. Tal preparação supõe a manipulação de variáveis psicológicas como a motivação, a autoconfiança, a atenção, entre outros, com o objetivo de conseguir o rendimento esportivo e pessoal mais apropriado para cada momento (treinamentos, competições, períodos de descanso, etc.). Para este mesmo autor, existem três grandes áreas de trabalho psicológico no esporte de competição:

- Área de treinamento: no qual o objetivo principal é contribuir e ensaiar as possibilidades de rendimento dos atletas, ajudando a incrementar e acertar os diversos recursos;

- Área de competição: em que se trata de colaborar para que os atletas coloquem em prática as habilidades que dominam sobre as condições estressantes da competição; •

- Área de apoio ao treinamento e competição: que inclui ações que possam contribuir para otimizar o rendimento, tanto no treinamento como na competição, principalmente, por meio da comunicação interpessoal, o funcionamento do grupo, a prevenção e reabilitação de lesões e o ajuste do equilíbrio psicológico.

Ainda para Buceta (2003), ao contrário do que pensam algumas pessoas, o trabalho psicológico não é algo que serve, unicamente, para os atletas com problemas emocionais ou alterações psicológicas de qualquer tipo, mas, se constitui como um ramo da preparação global do atleta, igual à preparação física, ao treinamento técnico e tático.

 

 

4.0 A RELAÇÃO DO PSICÓLOGO COM A DEPRESSÃO NO ESPORTE

 

As lesões desportivas provocam óbvios efeitos danosos no funcionamento físico do atleta, mas também pode trazer efeitos nefastos em vários aspectos do funcionamento psicológico do atleta, prejudicando seu processo de treino e consequentemente seu desempenho (AZEVEDO, 2002, “p. 3”).

Do ponto de vista emocional, é natural que os atletas experimentem sentimentos de raiva, depressão, confusão, medo e frustação no seguimento de uma lesão (PEPTIVAS e BREWER, 2004).

Num estudo de (CARVALHO, 2009), atletas universitários referiram sentimentos de raiva, depressão, medo, confusão, frustação e preocupação aquando da contração de uma lesão, além disso alguns deles referem que a lesão baixou a sua autoestima.

Um aspecto importante quando se lida com uma lesão desportiva é a prevenção. Segundo Floren (2002), a intervenção preventiva passa pelo treinador e no psicólogo.

Este último em conjunto com o próprio atleta, estabelece objetivos possíveis de conquista, aumentando sua motivação, fortalece sua auto confiança para que possa controlar as variáveis que o afetam a tomar decisões corretas no momento exato, trabalha sobre influencia do stress, ajudando o desportista a reconhecer todas as variáveis que o colocam em uma situação estressante e para que, mediante determinadas técnicas, possam alcançar o seu estado ótimo, além disso o psicólogo pode trabalhar com os atletas suplentes que, devido sua pouca atividade competitiva, estão menos preparados para lhe dar com stress e ansiedade (FLOREN, 2002, p. 1)

 

O psicólogo deve trabalhar no sentido de fortalecer os apoios sociais, visto ser um elemento moderador em relação entre situações estressantes e lesões, além disse, deve fomentar o contato informal entre todos os membros da equipe, deve ainda potencializar o apoio da família e orientar os diretores e os treinadores sobre os comportamentos de apoio que deve ter, deve desenvolver uma boa relação entres as partes citadas e os desportistas e finalmente, promover reuniões onde se consolidam o apoio mutuo para atingir os objetivos individuais e coletivos (PRIETO, 2007).

PRIETO (2007) ainda retrata a importância de modificar as variáveis pessoais relevantes na direção mais apropriada de modo que o atleta encare as situações mais ameaçadoras com menos stress e perceba que ele possui recursos suficientes para enfrentar.

Treinar o controle atencional dos atletas, o biofeedback, a imagem mental e o relaxamento pode reduzir as condições que perturbam a performance desportista e aumentam a vulnerabilidade a uma lesão. Ensinar aos atletas estratégias psicológicas para controlar o stress pode reduzir o risco de contrair uma lesão desportista (PETITPAS e BREWER, 2004, cit por CARVALHO, 2009, p. “12”).

Já sobre o papel do psicólogo pós lesão, Veloso e Pires (2007) diz que o papel do psicólogo é avaliar a situação e o estado psicológico do atleta e para garantir que o acompanhamento psicológico do atleta seja adequado e eficaz, o psicólogo para isso deve fazer pelo menos três avaliações: avaliação da lesão, avaliação do impacto emocional da lesão e avaliação da adesão, rendimento e progresso no tratamento.

Um processo de reabilitação satisfatório começa com um bom estabelecimento na relação entre atleta e psicólogo, em que se mostra presente, conhecedor do processo de reabilitação e otimista. Dar suporte emocional através de comunicação constante e demonstrar preocupação

podem ser aspectos essenciais para reduzir a sensação de isolamento social, esquecimento e afastamento desportivo causados pela lesão (VELOSO e PIRES, 2007).

            No meio esportivo é reconhecido que o atleta precisa ter um excelente preparo físico, envolve diversos recursos corporais para fazer suas tarefas, capacidades motoras como força, resistência, agilidade, flexibilidade são fundamentais no esporte competitivo. Embora a prática esportiva seja caracterizada principalmente pelos aspectos físicos, especialistas das ciências do esporte atribuem o bom desempenho esportivo a um conjunto de fatores nos quais os aspectos psicológicos ganham destaque (BRANDT et. al., 2016; ANDRADE et. al., 2016). Além disso, considerando que o preparo físico e as técnicas são similares entre os atletas, a preparação psicológica pode ser a diferença (TOTTERDELL e LEACH, 2001; BREWER, 2009). 

            Além do esporte profissional, no campo da saúde o exercício físico tem sido usado como estratégia de tratamento para diversas doenças, como depressão, estresse, ansiedade, entre outras, mostra-se eficaz para melhorar a saúde mental dos praticantes (NABKASORNET et. al., 2006; DESLANDES et. al., 2009).

Nesse sentido, o psicologo do esporte busca analisar os aspectos emocionais envolvidos no esporte e a Psicologia do Exercício analisar os possíveis efeitos da prática de exercícios físicos nos aspectos emocionais dos praticantes (GOUVEIA, 2001; WEINBERG e GOLD, 2001).

Verifica-se que o treino físico, técnico e tático prepara os atletas para um determinado nível de rendimento, mas o preparo psicológico para lidarem com o stress, a ansiedade e principalmente para reverter quadros depressivos gerados é de grande valia (ABRANTES, 2007).

Segundo NITSCH (1985) “o objeto e a meta do treinamento psicológico é a modificação dos processos e estados psíquicos (percepção, pensamento, motivação, estado de humor), ou seja as bases psíquicas da regulamentação do movimento. Esta modificação será alcançada com ajuda de procedimentos psicológicos” As seguintes metas principais podem ser alcançadas através de medidas psicológicas de treinamento.

- A melhoria planejada e sistemática das capacidades e habilidades psíquicas individuais do rendimento.

- A estabilização e otimização do comportamento na competição.

A meta do treinamento das capacidades psicológicas é desenvolver, estabilizar e aplicar as capacidades e habilidades psíquicas em diferentes situações em forma variada e flexível. Através do Treinamento de Auto-controle, o desportista deve aprender a se controlar -sem ajuda externa - nas situações extremas e difíceis de treinamento e de competição, a fim de evitar reações psicofísicas exageradas (por exemplo: ansiedade, raiva) e comportamento social inadequado.

Ao falar sobre lesoes, a tendencia e para que se assuma apenas a componente física a elas associada. No entanto, na opiniao de Samulski e Azevedo (2002), ha fatores sociais e psicologicos que se constituem como motivos importantes para a incidencia de lesoes desportivas. Numa primeira fase da investigacao, aproximadamente na decada de 1970, com base nas evidencias, defendia-se que elevados niveis de stress eram a fonte primaria para a incidencia de lesões.

A investigação identificará que atletas que vivenciavam nas suas vidas períodos de stress elevado eram aqueles que mais tendiam a se lesionar. Entre os agentes stressantes foram descritas variáveis como: ocorrências de vida percebida como negativa como, por exemplo, situações de luto, desemprego súbito de um parente próximo; mas, outros aspetos de caracter aparentemente positivo tambem se fizeram representar, nomeadamente a realização acadêmica, início de uma nova relação amorosa, entre outros, mas que resultaram num aumento do risco de lesão.

Para além destes, Florean (2002) argumenta que os fatores que afetam a vulnerabilidade de um atleta a uma lesão desportiva são de indole física, psicológica e social. Refere que o excesso e/ ou deficiência de treino, o cansaço físico e a ocorrência de períodos de aquecimento inadequados apresentam-se como causas fisicas para a incidência de lesões; no que se diz respeito as variáveis psicológicas, este autor sugere que se faça uma distinção clara entre as variaveis pessoais e o stress produzido por determinadas situações sociais.

Os fatores de indole pessoal dizem respeito a história de lesões anteriores e a problemas familiares, enquanto os fatores stressantes podem estar relacionados com as exigências do treino, mudança de cidade ou de país, alternâncias de motivação, exigências das competências a atingir, associado a mudanças de estilo de vida, e todos os fatores de caráter geral que ultrapassam os que são inerentes a vida desportiva. As variáveis sociais são aquelas que estão ligadas a exposição dos atletas a sociedade em geral e as pessoas que constituem o agregado familiar, sendo os pais de particular relevo quando se trata de atletas em iniciação desportiva.

Para Palmi (2001), os grandes fatores de risco a ter em conta na predisposição para uma lesão são quatro, nomeadamente: 1) fatores médico-fisiológicos, 2) fatores psicológicos como a personalidade e a capacidade de coping; 3) fatores desportivos, como o estatuto de jogador suplente; e 4) comportamento agressivo por parte do adversário.

As reações dos atletas as lesões tem sido objeto de teorização por parte de vários autores, de entre os quais se destaca o modelo explicativo de Kubler-Ross denominado de Grief Reaction, inicialmente desenvolvido para explicar luto, mas posteriormente adaptado em múltiplos contextos de entre os quais o da reabilitação atlética. Este modelo sugere a existência de cinco fases pelas quais o atleta passa emocionalmente apos a ocorrência de uma lesão, designadamente; 1) negação, 2) raiva, 3) negociação, 4) depressão e 5) aceitação ( VELOSO e PIRES, 2007).

 

                O atleta, após se consciencializar das consequências reais da lesão, manifesta sentimentos de raiva, por vezes na forma de agressividade, para com aquelas pessoas que normalmente o acompanham de mais perto no seu dia a dia. Ultrapassada esta fase segue-se a de negociação, altura em que o atleta procura encontrar a maneira como podera recuperar o mais rápido possível, para regressar a competição.

Com a ausência dos treinos e da competição tende a instalar-se um estado depressivo. E nesta fase que o atleta reconhece e aceita a lesão e as suas consequências, e quando se consciencializa da impossibilidade de participar nas atividades inerentes a sua condição de desportista, e isto e acompanhado com a instalação de um sentimento de incerteza quanto ao seu estatuto dentro da equipa e quanto a sua carreira.

Tipicamente a maioria dos atletas quando sofre uma lesão passa por estas cinco fases. No entanto, importa ter presente que as transições entre fases ou ate a sequência entre elas variam de indivíduo para indivíduo.

Petitpas e Danish (2005) diz que o ajuste psicológico do atleta a lesão pode ser problemático e, por essa razão, importa prestar atenção aos seguintes dez sinais : 1) sentimento de confusão e raiva; 2) obsessão com a ideia do quando podera regressar ao desporto; 3) negação (e.g. “a lesão não é nada de especial”); 4) regresso desatempado e repetitivo que acaba por provocar lesões reincidentes; 5) reclamações exageradas sobre as tarefas a realizar; 6) queixas repetidas sobre pequenos problemas fisicos; 7) sentimento de culpa por não colaborar com os colegas de equipa nas competições; 8) afastamento de pessoas significantes; 9) subitas alterações de humor; e 10) manifesto medo que, independentemente do que seja feito, nunca recuperara.

Ainda relacionados a estes sinais, Petitpas e Danish (2005) sugerem a ocorrência de quatro reações psicológicas associadas a lesão desportiva: 1 - perda de identidade; 2 - medo e ansiedade; 3 - falta de confiança; e 4 - redução do desempenho.

Quando as equipes técnicas de saúde de um clube se depararem com estes sinais e reações devem, de imediato, referir o atleta para os serviços de psicologia do desporto, não só para se assegurarem de boas recuperações da lesão, como tambem para intervirem de forma preventiva quanto as reincidências graças a inadequação da adesão do atleta ao tratamento.

            A sindrome de esgotamento crônico (burnout) na opinião de Estrada (2007) deve ser considerada um dano psicológico. O burnout, para um atleta de alto rendimento pode representar um problema grave, pois é uma reação psicológica emocional que afeta, não só o seu rendimento, mas outros aspetos essenciais para a adaptação do indivíduo nas dimensões biológicas e sociais, impossibilitando-o de funcionar saudavelmente. Dentro das implicações psicológicas, como as perturbações como falta de energia, insonia, ansiedade, depressão, funcionamento social e a percepção de infelicidade, entre outros, podem ser manifestações de stress e/ ou burnout do atleta. Importa estar atento para o fato que, sempre que um atleta sofre uma lesão, seguem-se alterações ao seu ritmo de vida, o que poderá fazer-se sentir em sintomas diversos e, entre eles podemos destacar a insonia e o sentimento de debilidade fisica e afetiva que resultam, fundamentalmente, das consequências fisiológicas que advem da paragem dos treinos.

Estas sensações, na opinião de Mendelsohn (1999), são desagradáveis, particularmente para quem se habituou a sentir em boa forma fisica e a despender diariamente níveis elevados de energia. Para outros atletas, as reações poderão apresentar-se de forma mais dramática sendo mesmo possível que assumam dimensões de agressividade para com quem possa ser visto como estando relacionado com a ocorrência da lesão.

De forma menos frequente, instalam-se sentimentos depressivos por “invejarem” os seus colegas que se mantém em competição.

Veloso e Pires (2007) relata que, quando um atleta se lesiona com grande regularidade observam-se varias reações emocionais entre as quais se destacam, pela maior ocorrência, a frustração, a depressão a ansiedade, a diminuição na autoestima e a raiva.

Ainda de acordo com Veloso e Pires (2007) deve-se ter em consideração, ao planejar o uso de técnicas psicológicas para intervir, é necessário levar em consideração a história social e psicológica do atleta, o grau da lesão, a motivação do atleta para a intervenção e a capacidade cognitiva para aprender novas tecnologias, principalmente o relaxamento. Existem várias técnicas que podem complementar o processo de reabilitação convencional, incluindo: O relaxamento muscular progressivo e a visualização são particularmente eficazes para relaxar o corpo, permitindo que o ferido enfrente melhor as respostas ao estresse, lesões e dor.

Antes de iniciar qualquer intervenção, o psicólogo deverá ter a preocupação em se familiarizar com a história do atleta, as circunstâncias em que a lesão teve lugar, assim como procurar entender o tipo de apoio social com que o atleta pode contar durante o tratamento. E ainda da maior importância estar atento aos esquemas cognitivos que guiam o pensamento do atleta nos múltiplos aspectos que se relacionam com a lesão contraída e a sua relação com a carreira desportiva. Quando avalia o alcance da lesão, o psicológo deverá ter a preocupação de avaliar a eventual comorbilidade da depressão e da ansiedade (WEINBER e GOLD, 2001).

Um bom apoio social poderá ainda constituir-se como a fonte energética necessária para se proceder a mudanças no estilo de vida e, consequentemente, ter repercussões a nivel neuroendocrino e efeitos sobre o sistema imunitário. Pode ainda apresentar-se como da maior importância para que o indivíduo aceite, viva e adira aos tratamentos necessarios. Sabemos que um dos maiores problemas no que se refere a recuperação de lesões e a adesão ao plano de tratamento, pois uns encurtam esse período enquanto outros o prolongam desnecessariamente.

O suporte social tem sido caracterizado em seis tipos: ouvir, apreciação técnica, desafio técnico, desafio emocional e partilha da realidade social . O apoio social é também uma fonte eficaz de informação sobre a lesão e o consequente processo de reabilitação/educação (SAMULSKI e AZEVEDO, 2002)

 

 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

            O presente artigo que teve como objetivo principal, identificar o real papel do psicólogo frente a depressão no esporte, finaliza-se cumprindo a expectativa de além de realmente identificar esse papel, analisar diversos aspectos que envolve o atleta e seu rendimento, e posteriormente como o psicólogo se incluie na tarefa de trabalhar com a demanda do adoecimento, trabalhando tanto na prevenção quanto no tratamento da doença.

            Podemos observar que todo o corpo multidisciplinar envolvido com o esporte e suas competições, são candidatos a desenvolver o adoecimento por depressão. Isso acontece apartir de um gatilho, que pode ser uma reação emocional, psicológica e física, respondendo as pressões e ao estresse excessivo intenso, a fadiga física, e também pela insatisfações de treinamentos e mentorias de treinamentos inadequados, além de um repouso sem manejo.

            Percebe-se então, que o psicólogo do esporte deve se dedicar a melhor performance dos atletas, fornecendo o manejo que os auxiliem e capacitem na recuperação de lesões e na promoção da pratica do exercício físico, visando sempre a saúde mental pessoal, destacando que essa atuação deve ser sempre atrelada a outras avaliações fornecidas por uma equipe multidisciplinar, que na maioria das vezes conta com profissionais de áreas mais diversas da saúde.

            O trabalho do psicólogo frente ao adoecimento deve ser no sentido do fortalecimento de apoios sociais, já que o mesmo é um elemento moderador na relação entre situações de estresse e lesões, posterior a isso, deve fomentar o contato informal entre todos os indivíduos da equipe, além de potencializar o contato família/atleta e orientar os membros, desde a direção ao treinador, sobre os comportamentos que os mesmos devem desenvolver para que haja apoio ao individuo, e assim desenvolver uma boa relação entre as partes citadas, e finalmente promover reuniões onde se consolidam o apoio mutuo para atingir os objetivos individuais e coletivos.

            Retratamo s também, a importância de modificar as variáveis pessoais relevantes na direção mais adequada, para que o atleta possa enfrentar as situações mais perigosas com o mínimo de pressão e perceber que tem recursos suficientes para lidar com isso.

            Salientamos a necessidade de novas pesquisas para uma análise mais precisa sobre os aspectos citados, uma vez que é uma área emergente da psicologia se tratando da psicologia do esporte e os adoecimentos que os envolve.

 

ABSTRACT: The present article, aiming mainly to identify the real role of the psychologist in the face of depression in sport, ends up fulfilling the expectation of not only identifying this role, analyzing several aspects that involve the athlete and his performance, and later how the psychologist becomes include in the task of working with the demand for illness, working both in the prevention and treatment of the disease. We can see that the entire multidisciplinary body involved with sport and its competitions, are candidates for developing illness due to depression. This happens from a trigger, which can be an emotional, psychological and physical reaction, responding to pressures and intense excessive stress, physical fatigue, and also by the dissatisfaction of inadequate training and training mentoring, in addition to a rest without management. It is clear, then, that the sports psychologist must dedicate himself to the best performance of the athletes, providing the management to assist and train them in the recovery of injuries and in the promotion of physical exercise, always aiming at personal mental health, highlighting that this performance must always be linked to other assessments provided by a multidisciplinary team, which in most cases has professionals from more diverse areas of health. The psychologist's work in the face of illness must be towards strengthening social support, since it is a moderating element in the relationship between stressful situations and injuries, after that, it should foster informal contact between all individuals on the team, in addition to enhancing family / athlete contact and guiding members, from the direction to the coach, on the behaviors they must develop in order to provide support to the individual, and thus develop a good relationship between the parties mentioned, and finally promote meetings where mutual support is consolidated to achieve individual and collective goals. We also portray the importance of modifying the relevant personal variables in the most appropriate direction, so that the athlete can face the most dangerous situations with minimal pressure and realize that he has sufficient resources to deal with this.We emphasize the need for new research for a more precise analysis of the aspects mentioned, since it is an emerging area of psychology when it comes to sport psychology and the illnesses that involve them.

 

Keywords: Psychology. Depression. Sport. Lesion. Rehabilitation.

 

 

 

 

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[1] Acadêmico do Curso de Psicologia do Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara - GO – ILES/ULBRA. E-mail: [email protected]

[2] [2] Psicóloga, professora do Curso de Psicologia do Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara - GO – ILES/ULBRA. E-mail: [email protected]