Resenha crítica do livro 'Nationalism and the politics of culture in Quebec', de Rich...
 
Resenha crítica do livro 'Nationalism and the politics of culture in Quebec', de Richard Handler
 


O livro de Richard Handler tem como ponto de partida o dia 15 de novembro de 1976, quando o partido Québécois saiu vitorioso das eleições da província de Quebec. Na euforia pela vitória, a população comemora com entusiasmo, revivendo suas danças folclóricas tradicionais. Para os líderes do partido, o feito conquistado representava ao mesmo tempo uma renovação e o renascimento da coletividade franco-canadense.

Diante da efervescência coletiva que tomou conta das ruas de Quebec, o autor mostra que parece tentador estabelecer um paralelo com a clássica teoria de Durkheim, que entende os períodos rituais como uma forma dos indivíduos comungarem sentimentos comuns, reforçando periodicamente os laços de solidariedade e pertencimento a uma coletividade. Todavia, como pensar neste sentimento coletivo se, mesmo entre a população francófona de Quebec, não há uma homogeneidade? No tocante a relação política dos franco-canadense com o governo central de Ottawa, por exemplo, havia muitas divergências em relação a possível independência ou mesmo quanto ao ideal defendido pelo partido Québécois.

Alheios a essa heterogeneidade, os Québécois acreditavam que estavam diante de uma oportunidade única para o renascimento de seu grupo social. Na ideologia dos franco-canadenses, o presente é visto pelo prisma da desintegração, e as luta travadas hoje seriam uma forma de sobrevivência dos aspectos tradicionais, como a língua francesa falada, em Quebec. Neste processo, apesar da visão negativa do presente, a luta pela perpetuação dos valores comuns trataria unidade e maturidade para esta coletividade.O passado é visto como uma época de ouro, marcada pelo surgimento de uma "Nova França Católica" que originou a população atual da província.

Analisando as particularidades do nacionalismo Québécois, Handler chama atenção para o fato do nacionalismo ser uma ideologia baseada em fronteiras, continuidade no tempo e uma homogeneidade abarcando a diversidade, mas os membros que integram uma nação podem ser diferentes e, ainda assim, compartilharem atributos essenciais que constituem sua identidade nacional.Ao analisarmos o nacionalismo francófono em Quebec, é inevitável nos indagarmos se, de fato, esse grupo social pode ser considerado uma nação, mesmo sem estarem vivendo em um Estado autônomo e soberano. Na concepção de Handler, essa questão não seria relevante, pois nação e Estado seriam conceitos diferentes. A nação seria uma união de sentimentos coletivos, imaginada através de representações comuns. Já o Estado seria um poder organizado, racional e instrumental. Ao contrário do que o senso comum imaginaria, seria possível a existência de nações sem Estado, da mesma forma os habitantes de um Estado podem ou não constituir uma nação.

Confusão semelhante, para Handler, ocorre também nos discursos formulados pelos cientistas sociais, especialmente nos conceitos de "cultura" e "sociedade", que também não podem ser analisados pelo prisma da integração. A vida social, de uma forma geral, não seria integrada. As fronteiras entre nações, estados e sociedades seriam permeáveis e frágeis. Nos estudos sobre nacionalismo e etnicidade, o problema sobre a fragilidade das fronteiras é colocada na distinção entre aspectos subjetivos e objetivos dos grupos.

Ancorado pelo longo debate que se estabelece sobre este tema, e pelos dados empíricos obtidos em suas experiências de campo, Handler defende a tese de que o nacionalismo incorpora aspectos objetivos para serem reconhecidos como constitutivos da identidade do grupo, através da posse comum de atributos e características. Sua proposta é compreender as metáforas de fronteiras, continuidade e homogeneidade que as ideologias nacionalistas, assim como os discursos formulados pelas ciências sociais, pressupõem em seus conhecimentos sobre a noção de identidade. É fazer uma comparação entre esses dois discursos que se complementam.

Com esse objetivo determinado o autor tenta descobrir em que contextos os Québécois expressam suas idéias sobre identidade nacional e cultural.Na esfera esportiva, alguns francófonos afirmam que foram discriminados na Liga Norte-Americana de Hockey sobre o gelo, mas, em geral, este é um local em que a integração de Quebec ao Canadá é raramente questionada. Na esfera política, já citamos que nem todos os francófonos se identificavam com o partido Québécois. Raramente os políticos locais falavam abertamente sobre o nacionalismo, mas, nas entrevistas privadas, se mostravam favoráveis à soberania de Quebec. O caminho mais proveitoso que o autor poderia percorrer, por mais surpreendente que fosse, seria analisar as velhas danças e espetáculos folclóricos.

Os nacionalistas Québécois e a comunidade acadêmica, especialmente os demais antropólogos, se surpreenderam com um estudo sobre nacionalismo fundamentado com base no renascimento do folclore e de políticas culturais. O interesse de Handler não era meramente o nacionalismo, mas a relação entre a ideologia nacionalista e o discurso das ciências sociais. O foco na dança folclórica é importante porque, segundo o autor, faz parte da antropologia nacional "nativa", uma representação de "autoconsciência" ou "objetivação" da autêntica cultura nacional.Em outras palavras, a encenação da dança folclórica é um exemplo do que o autor chama de "cultura transformada em coisa".

Na sociologia, é clássica a noção marxista sobre o fetichismo da mercadoria, em que as relações pessoais, nas sociedades capitalistas, estavam sendo superadas pelas relações entre mercadorias, impessoais. A relação entre homens, assim, tornavam-se relações entre" coisas". Em Weber, este processo de racionalização é vista a partir da transformação de uma sociedade holística, medieval, para o moderno individualismo. Sob a roupagem de vários autores, esta noção weberiana é central para a teoria ocidental. Na antropologia, a "objetivação" tornou-se pauta obrigatória nos debates sobre a construção do objeto. Alguns estudos sobre etnicidade problematizaram não apenas a fragilidade das fronteiras e as múltiplas e manipuláveis identidades coletivas, mas como as tradições podem ser criadas para possibilitar esta manipulação. Outros autores, denominados pós-modernos, teceram críticas ao essencialismo presente nos estudos antropológicos tradicionais, cujas etnografias criaram a impressão de que seria possível a existência de uma cultura com fronteiras definidas.

Handler se utiliza destas contribuições teóricas, mas sua intenção é somente demonstrar que a "objetivação" da cultura é uma contribuição das ciências sociais para a visão de mundo do moderno ocidente.A nação ou grupo étnico apresenta fronteira, continuidade e precisa distinguir-se de entidades análogas. A cultura torna-se um instrumento para distinguir estas fronteiras entre as coletividades, uma característica comum entre os indivíduos que formam a nação. Neste contexto, as danças folclóricas, que remetem a um passado comum, à época de ouro da "Nova França Católica", são tomadas como a "autêntica cultura nacional".

Entretanto, a própria história também pode ser "objetivada". Handler mostra que os atores sempre são instrumentalizados como símbolos nacionais, e o principal ator da história de uma nação é, naturalmente, a própria nação. É neste contexto que emerge o passado idealizado de Quebec, a época de ouro. O que se acredita ser a sobrevivências dos tempos imemoriais, como as danças folclóricas, são os elementos que mais bem representam as características comuns a todos os indivíduos.

Em 20 de Maio de 1980, a alegria de novembro de 1976 não se repetiu, e o oui (sim), defendido pelo partido Québécois no referendo que poderia consolidar a soberania de Quebec, obteve apenas 40 % dos votos. Este resultado demonstrou que 60% dos eleitores de Quebec, incluindo muitos francófonos nacionalistas, possuíam visões diferentes do que os discursos dos Québécois propagavam. Isso nos faz perceber a ideologia nacionalista sob um novo ângulo, pois mostra que, ao invés de um discurso homogêneo, é fragmentado e apropriado de forma diferenciada pelas classes sociais. Há, de uma forma mais abrangente, divergência entre a visão dos líderes e das massas sobre o nacionalismo.

Os Québécoisse declaram membros de uma nação a partir da ligação com o local de nascimento e a existência de um código de conduta. O primeiro caso está acima das escolhas pessoais, pois ninguém é capaz de escolher sua terra natal, embora, quando adulto, seja possível, dentro das limitações econômicas, optar pelo lugar emque se quer viver.O orgulho pela origem comum torna-se um sentimento que une os indivíduos como membros de uma coletividade.

No segundo caso, aspectos individuais tornam-se coletivos pelo compartilhamento de uma cultura comum, a cultura Québécois, com seus valores e tradições. Embora este seja um argumento essencialista, não há um consenso quanto a sua formação. A religião católica, herdada dos antepassados da Nova França, outrora elemento fundamental, perde em importância para outros aspectos, tornando-se apenas parte da história. A língua francesa, aspecto destacado por muitos Québécois, também não é consensual, pois a formação do atual idioma francês falado em Quebec está associada não a simples sobrevivência das heranças da pátria européia de origem, mas às transformações que ocorreram ao longo da história, assim como a própria cultura Québécois. Neste processo, os aspectos culturais são descritos como o produto final das transformações de uma cultura original, européia, que entrou em contato com uma nova realidade no continente americano. Transformação que começou, é importante ressaltar, com a escolha pessoal dos antepassados, que deixaram a França para buscar uma nova vida na América do Norte.Dos antepassados franceses, os Québécois herdaram também o temperamento e o sangue latino, que une a essência física e espiritual do povo e naturaliza o conceito de cultura, justificando frases como "nós somos assim", que fornecem os contornos de uma individualidade coletiva.

Segundo os passos de Dumont, Handler mostra que uma nação pode representar um indivíduo coletivo ou uma coleção deles. Na primeira, é traçada uma analogia entre o desenvolvimento da nação e de um ser humano, um processo evolucionista marcada por etapas como infância, adolescência e fase adulta, de acordo com o desenvolvimento da coletividade. Nesta "metáfora individualista", é como se a nação tivesse uma vida individual, em que lhe são imputados vários atributos e ações. Ela pode também ser discutida a partir da liberdade e da oportunidade de escolha do próprio destino, de forma que a soberania de uma nação é vista de forma análoga à liberdade de um adulto. Este argumento é usado pelo partido Québécois para justificar sua oposição quanto a participação na Confederação Canadense, pois seria um direito de um povo adulto construir uma sociedade responsável e autônoma.

Na segunda visão, a metáfora associa a nação a uma "espécie biológica", e as fronteiras traçadas a partir das qualidades comuns aos membros. Em Quebec, os indivíduos compartilhariam a personalidade coletiva do grupo franco-canadense, compondo uma personalidade essencial e que pode ser caracterizada por aspectos específicos. As individualidades são diluídas dentro de um tipo genérico, e a "espécie coletiva" é vista como uma unidade natural, um tipo nacional que se distingue de outros tipos nacionais, com fronteiras evidentes.

Handler chamou de "visão negativa" a forma como o nacionalismo de Quebec entende a influência de aspectos culturais externos. Esta outra visão é complementar, e define as fronteiras políticas, culturais e históricas da nação. Sob a influência cultural estrangeira, explicadas muitas vezes pela noção de "poluição" ou "contaminação", há sempre o risco de desintegração da "autêntica cultura de Quebec", ou seja, a cultura do passado. Baseado neste princípio, os defensores da independência acreditam que continuar participando da Confederação Canadense promoverá o contínuo aniquilamento cultural e a assimilação lingüística. Neste ponto de vista, um indivíduo, humano ou coletivo, não pode ser duas coisas ao mesmo tempo. Integrar a Confederação Canadense, assim, obstruiria o exercício de escolha e a autonomia da nação. Em outras palavras, o patriotismo Québécois e canadense seriam mutuamente exclusivos.

Se a política é um campo de disputas, as características comuns que unem os indivíduos estão nos aspectos culturais tradicionais.Handler percebe que algumas destas práticas traicionais são instrumentalizadas e transformados no "verdadeiro folclore". Algumas famílias encontram nas danças folclóricas importante fonte de renda, através de apresentações para turísticas ávidos para conhecerem a verdadeira cultura tradicional de Quebec. Este processo apresenta uma transição entre a cultura inconsciente e a instrumentalização da tradição, que é acompanhada por uma mudança no significado das danças e celebrações apresentadas.

Ao longo dos anos, a vida familiar em Quebec vem passando por constantes mudanças, marcadas por um processo de urbanização e industrialização que influenciou o próprio folclore. A espontaneidade dos primeiros anos cedeu lugar para a racionalidade dos dias atuais. Juntamente às vantagens, como o favorecimento econômico de várias famílias, um sentimento de perda acompanha este processo de mudança, em que as danças espontâneas têm se tornado um grande negócio. Incorporado pela indústria turística, a instrumentalização ajuda na sobrevivência dos ditos aspectos tradicionais. Este processo colabora com o aparente paradoxo que é preservar uma cultura em inevitável estado de mudança.

Em relação às políticas culturais, Handler apresenta três discursos adotados pelo "Ministério dos Assuntos Culturais", que expressaram diferentes filosofias sobre a cultura nacional, especialmente em relação ao poder central canadense, representada pela oposição Quebec / Ottawa, e ao desenvolvimento do nacionalismo, com destaque para a religião católica e a língua francesa.

O primeiro seria o ponto de vista da "Tremblay Commission", que entendia que Ottawanão poderia ser considerada capital da França-Canadense. Quebec seria mais representativa para exercer esta função, tendo em vista que o Canadá apresentaria a particularidade de agregar o que seriam duas nações diferentes, com duas culturas próprias, e Quebec representaria apenas uma destas nações. O federalismo canadense não é rejeitado, mas está subordinado à preservação das duas nações que o compõem.

O segundo discurso, de Pierre Elliot Trudeau, considera o nacionalismo absurdo e irracional, uma força emotiva que se opõe à razão contida na organização federativa. Ele afirma que a arrogância anglo-canadense teve como resultado um nacionalismo defensivo dos franco-canadense, liderados por Quebec.Trudeau mostra que os valores do nacionalismo Québécois, que teria como elementos privilegiados a língua francesa, o catolicismo, o autoritarismo, o idealismo, a vida rural e um retorno a terra, é construído justamente em oposição ao anglo-canadense, que tria como elementos afirmativos a língua inglesa, protestantismo, democracia, materialismo, e incentivo ao comércio e depois a indústria.

Georges-Emile Lapalme, expoente da terceira visão, dedicou suas atividades políticas ao desenvolvimento nacional franco-canadense. Ao contrário de Trudeau, era um nacionalista e, consequentemente, tinha um compromisso com a tradicional cultura de Quebec. Sua visão sobre a cultura Québécois é essencialmente secular, destacando a tríade cultura, educação e língua francesa e excluindo a religião católica. Se aproximando da "Tremblay commission", Lapalme defendia o desenvolvimento da cultura franco-canadense dentro de uma federação culturalmente heterogênea. Québéc seria a pátria da França-canadense.

Handler mostra que o processo de modernização de Quebec, ou seja, a transformação de uma comunidade rural para uma sociedade urbanizada e industrial, é definida por alguns autorescomo "revolução silenciosa", caracterizada por uma crescente burocratização. A primeira medida a ser tomada deveria ser definir o que estava no domínio da cultura, e, em seguida, entender que, seja qual for conceito de cultura adotado, ele só poderia ser dirigido de forma fragmentada, em contraste com a filosofia holista que tem guiado as políticas pensadas para Quebec.

A noção de cultura Québécois, que em Lapalme estava associada ao conceito francês de civilização, com grande influência do pensamento humanista da pátria-mãe européia, se aproximou das definições antropológicas a partir de Pierre Laporte, seu sucessor no "Ministério dos Assuntos Culturais", que iniciou um certo questionamento sobre a degradação da cultura nacional franco-canadense de Quebec. No entanto, a cultura ainda estava sendo vista como uma totalidade que delimitaria o território franco-canadense.

Com a volta do partido liberal ao poder, a influência de uma visão antropológica de cultura é mais explícita. A federação canadense passou a ser interpretada com referência no multiculturalismo, uma união de vários povos que se constituiria numa característica que distinguiria o país dos Estados Unidos. Esta noção de "totalidades mutuamente exclusivas" se coaduna com a lógica do nacionalismo, pois, na teoria, também não admite a existência de outras nações ou culturas dentro destas totalidades. As diversas subculturas internas, assim, seriam secundárias diante de uma cultura nacional homogênea. Todavia, é sempre complexa a relação entre a integração cultural e o pluralismo. No caso específico da cultura de Quebec, há diferenças associadas, por exemplo, a classe social e região, mas todas as subculturas seriam interligadas por características comuns, como a língua francesa.

A presença dos elementos do passado no presente são preservados como patrimônio cultural de Quebec, uma representação concreta e materializada dos aspectos comuns a toda coletividade, uma herança dos antepassados. Determina a legislação que os bens classificados como monumentos e objetos de arte devem ser reparados e restaurados, não podendo ser destruídos. No entanto, divergências aparecem quando é necessário definir como este patrimônio deve ser tratado. Uma concepção interpreta a lei a partir de um entendimento "arqueológico", como se fosse um elemento que sobreviveu intacto e imutável ao longo dos anos. Seriam esses elementos que poderiam ser considerados "autênticos". Longos debates se estabelecem, em torno de questões como a restauração, que, para muitos, tiraria a autenticidade, provando que os patrimônios materiais, sacralizados, se constituem como símbolos culturais objetivados.

O principal argumento do nacionalismo consiste na existência de uma unidade geográfica, histórica e cultural para a nação. Em outras palavras, os membros de uma nação estariam de forma indissolúvel ligados por compartilharem um território, crenças e uma história comum, que não seriam imposições arbitrárias, mas naturais e consensuais. Esta perspectiva é raramente discutida pelos membros do grupo, mas, quando questionados pelos de fora, provocando uma competição entre grupos nacionais, é frequentemente defendida com fervor e criatividade. A propriedade coletiva de um patrimônio, como representação material de uma identidade cultural, é mobilizado para estabelecer a uma distinção de outros grupos. Citando o contrato social de Lock, Handler explica que a legislação sobre propriedade cultural tem por objetivo projetar e demonstrar a existência de uma coletividade, protegendo-se contra uma possível reivindicação de outra coletividade.

Após a segunda guerra mundial, a dicotomia entre anglófonos e francófonos se torna mais complexa com a chegada de imigrantes de várias partes da Europa, como gregos, portugueses, italianos e outros. Essa novas minorias que passam a viver em Quebec priorizaram o aprendizado da língua inglesa, desequilibrando a relação entre os descendentes de franceses e ingleses. A presença destas minorias aumenta o perigo de degeneração do idioma francês, pois resultou na diminuição da população francófona, alimentando a visão negativa do nacionalismo Québécois, representada pela defesa da autentica linguagem fraco-canadense.

O anglicanização e o bilingüismo são duas formas de degradação comentadas pelos teóricos da visão negativa do nacionalismo Québécois. Esta "poluição" da linguagem é discutida como "propriedade cultural", usada mais rotineiramente como cultura material, museus e história reconstruída. Utilizando uma metáfora já mencionada, a presença de palavras inglesas no idioma franco-canadense, semelhante à incapacidade econômica, é visto como uma prova de imaturidadeda nação e um atraso rumo a soberania.

Sobre a suposta degeneração da língua francesa, o autor mostra que a palavra Joaul é constantemente utilizada. Em uma de suas utilizações, joaul é uma variação do idioma francês falado em Quebec, em termos de pronuncia diferente quando comparada com o mesmo idioma na própria França.Numa segunda forma de ser concebido, esta expressão designaria não um idioma falado em todo Quebec, mas a língua dos francófonos de Montreal. Em ambas as concepções, contudo, o termo Joaul é utilizado para expressar a corrupção e a degradação da língua original, que, na história idealizada, seria a língua da pátria-mãe européia e da Nova França que surgiu em continente americano.

Na visão de Handler, apreocupação com a pureza do idioma e uma defesa contra a "poluição" apresenta uma preposição fundamental para a ideologia nacionalista, que é a presença de fronteiras, distinções com outros e homogeneidade interior da nação. Essa análise é fundamental para a compreensão do que é, talvez, o mais controverso aspecto da legislação de Quebec sobre a linguagem, que são as leis referentes ao ensino do idioma nas escolas públicas da província.

Ao definir Quebec como uma província que tem o francês como idioma dominante, a língua dos francófonos torna-se o elemento capaz de gerar a homogeneidade da nação e a manutenção das características culturais essenciais. Historicamente, a luta entre os canadenses e os Québécois tem sido a luta pelo estabelecimento de fronteiras que garantam a homogeneidade da nação. Se o Canadá se define em oposição ao Estados Unidos pelo multicuralismo, especialmente o bilingüismo, Quebec se define em oposição à porção anglo-canadense da federação por ser uma sociedade que tem o francês como idioma.

Para o partido québécois, só o estado forte poderia preservar as "propriedades nacionais" e traçar o caminho para a independência, impondo instituições igualmente fortes e capazes de erguer as fronteiras nacionais. O nacionalismo franco-canadense convive com a constante dúvida sobre a existência nacional, com a busca pelos valores autênticos e com a interminável fragmentação da burocracia criada para administrar a existência nacional e cultural, cultivando, como já vimos, uma distinta personalidade Québécois.

Utilizando-se Arendt, Handler mostra que a noção de "personalidade natural" contribuiu para os movimentos totalitaristas racistas e anti-semita do século XX, que da mesma forma baseou seus discursos na busca pela "pureza" e pela necessidade das instituições estatais preservarem a legítima cultura nacional.A visão de totalidade é essencial para a ideologia nacionalista. O moderno senso de totalidade, entretanto, não pode ser confundida com o holismo de uma sociedade hierárquica. A totalidade nacionalista procura a homogeneidade e o controle das fronteiras, ressaltando as diferenças para outras atividades similares pelo mundo. A totalidade nacional deseja conhecer sua própria essência, controlar a definição de sua própria existência. Ela reconheceria outras unidades nacionais, mas acredita que a identidade não dependeria de inter-relações e trocas. A "verdadeira existência" estaria na essência natural da coletividade.

Para completar essa existência, Handler afirma ser fundamental as "propriedades nacionais". O "indivíduo coletivo" só pode realizar uma produção uniforme com a contínua "objetivação" do que é imaginado como sendo a "autentica cultura". Entretanto, a apropriação da cultura em Quebec não proporcionou a totalidade, mas a fragmentação burocrática da legislação. As atividades do "Ministério para Assuntos Culturais" não procurou valorizar a diversidade, mas tentou uniformizar o Estado com investimentos nos estereótipos culturais que são vendidos como "produtos de Quebec".

No mundo de hoje, Handler acredita que a apropriação da cultural, buscando preservar ou criar uma totalidade cultural natural que simbolize e prove a existência nacional, é um fator cada vez mais evidente. Sem dúvida, a objetivação cultural, ou seja, a instrumentalização da cultura como elemento político, torna-se cada vez importante em Quebec ou em qualquer outra parte do planeta.

Resenha:

A vitória de 1976 não foi suficiente para, quatro anos mais tarde, o partido Québécois conseguir aprovar democraticamente a soberania da província de Quebec. A identidade franco-canadense é pensada em contraste com a outra parte da população, de origem inglesa, mas as pretensões políticas não são homogêneas, pois, apesar da maioria francófona, o nacionalismo do partido foi incapaz de sensibilizar os descendentes de franceses de que o destino da coletividade está na independência.

A autonomia dos Québécois continuaria submetida ao poder central canadense, sediado em Ottawa, com o apoio de parte significativa dos franco-canadenses. Usando as metáforas geográficas de Hannerz (1997), em relação à confederação canadense, de maioria anglo-canadense, Ottawa é o "centro" e Quebec a "periferia". Entretanto, a relação de poder é invertida quando analisamos o interior da província de Quebec, pois, ao contrário do que acontece na federação, os francófonos formam a maioria. O programa do partido Québécois, ao defender vigorosamentea cultura franco-canadense dominante como a autêntica cultura de Quebec, acaba adotando uma postura intolerante com a minoria anglo-canadense e procura dar contornos homogêneos à diversidade multicultural da região. O resultado é uma agenda política autoritária que é, muitas vezes, acusada de xenofobia.

A complicada relação de poder na federação canadense nos ajuda a pensar a representatividade dos atuais Estados acionais. Na Espanha, por exemplo, a oposição entre Castela e Catalunha é motivo de intensos debates e disputas. Em relação ao Estado espanhol, cuja identidade principal está associada a Castela, inclusive o idioma, os catalães são minorias. Entretanto, na região da Catalunha, são os castelhanos quem sofre com a discriminação. Oliveira (1995), mostra que, em Barcelona, o catalão, anfitrião voluntário de uma forma geral, não apresenta a mesma "generosidade" diante de um castelhano, sobretudo se for um alto funcionário do poder central vindo de Madrid (OLIVEIRA, 1995, p. 14).

Todavia, tanto francófonos e anglófonos, no caso do Canadá, quanto castelhanos e catalães, na Espanha, formam dois grandes grupos relevantes para as relações políticas e econômicas de suas nações. Situação mais complexa, certamente, ocorre com as minorias étnicas historicamente excluídas, como os grupos indígenas, cujo poder de barganha, sobretudo de forma isolada em relação ao poder do Estado, é bastante reduzido. Podemos colocar, assim, uma dúvida sobre o poder de representatividade dos organismos internacionais, como a ONU, organizada em função dos Estados nações. Entretanto, essa questão foge do escopo de Handler neste trabalho, ficando apenas como um ponto à ser refletido.

Para entender a ideologia nacionalista franco-canadense, é preciso voltar aos tempos primevos, para a "Nova França Católica", que floresceu em continente americano e que é a origem do glorioso passado idealizado. Em contrapartida, o presente é interpretado pela visão negativa, pela degeneração dos valores autênticos. O passado, desta forma, age diretamente nas ações do presente, constituindo a base do nacionalismo Québécois.

Utilizando Friedman (1994) como referência, podemos dizer que, em Quebec, o passado age sobre o presente de maneira próxima ao que o autor observa na formação da identidade grega. Para este autor, desde a formação da moderna nação grega, que remonta ao século XIX, a referência é a antiga cultura da Grécia clássica. Esta representação, aliás, é mais antiga que a própria nação grega atual, aparecendo primeiro na Europa renascentista, que glorificou a clássica cultura grega como berço da civilização ocidental, responsável pelo surgimento da filosofia, ciência e da democracia ( FRIEDMAN, 1994, p.119).

A formação de identidades na Grécia e Quebec, segundo Friedman e Handler, respectivamente, apresenta outra similaridade importante. Na Grécia, o nacionalismo se desenvolveu no momento em que o povo grego buscava autonomia dentro do antigo Império Otomano (FRIEDMAN, 1994, p. 133). Em Quebec, o nacionalismo franco-canadense é também uma arma pela autonomia, mas em relação ao poder central canadense (HANDLER, 1988).

Todavia, Handler não concebe a influência do passado sobre o presente como uma reprodução fiel e estática. A moderna ideologia do progresso concebe a sociedade em constante transformação. A língua francesa é um elemento fundamental da nação Québécois, sobretudo porque marca uma distinção em relação aos anglófonos. A religião católica, apesar da visão secularizada predominante nos dias de hoje, é um elemento histórico também importante, distinguindo dos ingleses protestantes. Mas Quebec não é simplesmente uma versão americana da pátria-mãe francesa. Os fundadores, seguindo um pressuposto importante do moderno individualismo, deixaram a Europa e escolheram a região onde hoje se localiza Quebec para viver, adaptando-se a uma nova realidade climática e dialogando com outras culturas, sobretudo inglêses e indígenas. Os valores autênticos da cultura Québécois, então, surgiram na América e estão associadas à "Nova França" que floresceu no novo mundo, e não na Europa, como o idioma francês e o catolicismo. Assim, as danças folclóricas se destacam como símbolos da genuína cultura nacional.

A origem das danças folclóricas é imprecisa. Provavelmente, seja originária de alguma fusão entre danças tradicionais francesas, inglesas, escocesas e irlandesas. Entretanto, ela é uma sobrevivência do passado mítico, da gloriosa "Nova França Católica", que se perpetuou através dos anos como uma característica que une o passado e o presente, uma herança recebida de épocas imemoriais. A teoria da "invenção das tradições", citado por Handler, é definida assim por Eric Habsbawm:

conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. (HOBSBAWM, 2002, p. 09).

As mudanças sociais que Quebec vivenciou nas últimas décadas, deixando para trás um passado rural em direção a uma sociedade urbana e industrial, definida por alguns autores como "revolução silenciosa", é, para Hobsbawm, um campo fértil para o surgimento de "novas tradições", pois os novos padrões sociais são incompatíveis com as "velhas tradições". Estas "novas tradições", entretanto, são revestidas de um caráter de antiguidade para se popularizarem, pois sempre é possível encontrar um amplo repertório de elementos no passado de cada sociedade (HOBSBAWM, 2002, p. 14).

Com a necessidade de encontrar símbolos do nacionalismo Québécois capazes de promover um sentimento de coletividade franco-canadense, as danças folclóricas são instrumentalizadas e tomadas como referência. De forma análoga, Trevor-Roper mostra que a saia xadrez (Kilt) se tornou símbolo da Escócia, mesmo que, originalmente, tenham sido idealizada por um industrial inglês e em épocas relativamente recente, para possibilitar não a manutenção da forma de vida tradicional dos montanheses, mas justamente facilitar a transformação deste modo de vida (TREVOR-ROPER, 2002, p. 33).

Para muitas famílias de Quebec, a elevação das danças folclóricas à condição de símbolos nacionais, instrumentalizadas como a "autêntica cultura franco-canadense", trouxe uma nova fonte de renda graças ao interesse do turismo. A exploração da indústria turística em um bem cultural imaterial, como é o caso das danças típicas, pode trazer várias conseqüências, e existem muitas divergências em relação aos aspectos positivos e negativos desta atividade. O próprio Richard Handler compara os argumentos de Boostin e MacCannel, dois dos principais teóricos do turismo cultural.Para o primeiro, as danças folclóricas instrumentalizadas, ou seja, transformada em espetáculo turístico para atender os interesses da indústria do entretenimento, torna-se um "pseudo-evento", perdendo sua espontaneidade e seu caráter autentico. Para o segundo, o turismo seria uma experiência fundamental para as modernas sociedades, e os espetáculos turísticos seriam uma forma de alteridade singular de nossos dias (HANDLER, 1988, p. 80).

Para Handler, a indústria turística, mesmo indiretamente, auxilia na preservação dos aspectos tradicionais. Mas povos como os havaianos, segundo Friedman (1994), adotam estratégias para conter a presença de turistas, pois "tradição autêntica" não existe para satisfazer o consumo externo. Embora tenha aumentado nos últimos anos, os estudos antropológicos sobre o turismo carecem de maiores incentivos e reconhecimento. Independente do juízo de valor, artificial ou não, é impossível ignorar que o turismo organizado é uma das principais formas de alteridade do mundo moderno.

Na ideologia nacionalista, a principal função destes "símbolos autênticos" é servir como instrumento político. Como símbolos da coletividade, segundo Handler, os membros que integram uma nação podem ser diferentes e, ainda assim, compartilharem atributos essenciais que constituem sua identidade nacional. Mas esse uso político da cultura instrumentalizada não é exclusividade dos Estados nações. Terence Turner (1991), estudando os Kayapós, também percebe que a cultura se transforma em um objeto político. Se antes a cultura era incorporada na prática, sem qualquer monitoramente reflexivo, este autor percebe que, alguns anos mais tarde, os indígenas passaram a ter uma consciência reflexiva da cultura, como algo que tinha que ser protegido e preservado. Desta forma, a categoria "cultura", no sentido antropológico, que não existia entre os Kayapós, passa a representar a sobrevivência dos valores tradicionais, encarados como uma forma de resistência frete à sociedade brasileira que estava ao seu redor (TURNER, 1991. p. 299).

Alguns movimentos sociais procuram, a partir de uma visão essencialista, utilizar a cultura como fator agregador e instrumento político. Em relação ao movimento negro, como mostrou Cunha (2000), alguns grupos defendem a "cultura negra como estratégia de mobilização, politização e conscientização da população" (CUNHA, 2000, p. 333). Mesmo recebendo críticas de grupos que adotam uma postura mais diretamente política, algumas associações recreativas, que tem sua principal atividade em festas e comemorações, instrumentalizam a cultura para mobilizar a parcela da população com o qual se deseja criar um sentimento de coletividade.

A utilização da língua francesa como instrumento político, no caso dos francófonos do Canadá, é análogo á descrição que Oliveira (1995) faz sobre o idioma Catalão, que surgiu como parte do renascimento das tradições culturais da Catalunha. A língua original é valorizada pelos catalães como referência da genuína cultura nacional e para reforçar sua identidade, construída em contraste aos castelhanos (OLIVEIRA, 1995, p. 27).

Embora privilegie em seu estudo os aspectos "objetivos", Handler reconhece a importância das teorias que enfatizaram a percepção subjetiva para o senso de identidade. Entretanto, a forma como estes elementos objetivos são interpretados subjetivamente pelos indivíduos passa ao largo do trabalho, e a função dos sentimentos subjetivos na demarcação de "fronteiras culturais" fica limitada praticamente a alguns breves parágrafos no primeiro capítulo. Talvez, se tivesse utilizado como referência alguns autores que dedicaram seus estudos à subjetividade para o reconhecimento da nacionalidade ou da etnicidade, a importância da instrumentalização cultural tivesse encontrado argumentos que complementassem a tese do autor.

Para Weber, uma "relação comunitária" existe "quando e na medida em que a atitude na ação social repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencerem, afetiva ou tradicionalmente, ao mesmo grupo". Só a manifestação do sentimento de pertencimento a uma coletividade possibilitaria esta "relação comunitária" (WEBER, 1994, p. 25-26)

Mas o que possibilitaria este sentimento de pertencimento a uma coletividade? Na busca de uma resposta para esta pergunta, Handler chega às danças folclóricas, ao patrimônio material, a língua francesa, e tudo mais que possa ser considerado uma característica comum aos indivíduos de uma mesma nacionalidade, apropriado como posse de uma cultura. Para Weber, estes aspectos só seriam determinantes quando fossem sentidos subjetivamente pelos indivíduos como uma característica comum. Realizando uma análise surpreendentemente atual, Weber diz que a idéia de raça só é capaz de desenvolver o reconhecimento de uma coletividade nos racialmente homogêneos quando for sentida subjetivamente como uma característica comum ao grupo, especialmente em relação a algum outro grupo que não possua as mesmas características. Assim, aspectos objetivos, como características raciais, uma língua comum, e, podemos acrescentar, compartilhar o conhecimento de uma mesma dança folclórica,nada representam sem a subjetividade que une os indivíduos, sem significarem sinais contrastivos em relação em relação a outras grupos que não possuem tais características, pois a identidade coletiva é sempre afirmada em relação a terceiros (WEBER, 1994, p. 269  270).

Décadas mais tarde, Barth, seguindo as trilhas de Weber, ratifica a importância dos critérios subjetivos, refutando os elementos até então reconhecidos pela literatura antropológica para a definição dos grupos étnicos, especialmente a semelhança de aspectos biológicos e a homogeneidade cultural, enfatizando a importância da auto-atribuição e da atribuição por outros. Assim como o sociólogo alemão, as características étnicas semelhantes só possuem sentidos ao serem incorporadas como emblemas para uma identidade contrastiva, constituindo sinais diacríticos usados durante a interação (BARTH, 2002, p. 27-32).

O antropólogo norueguês, assim, defende a tese de que um grupo étnico deve ser compreendido como uma forma de organização social, de forma que podemos transpor sua teoria também para o nacionalismo dos modernos Estados nacionais. A interação não traz a eliminação das diferenças, pois o relacionamento é organizado pelas categorias atributivas. Barth, então, mostra que as fronteiras sociais entre os grupos são mantidas, ou mesmo reforçadas, na interação com os outros, pois apenas assim a distinção é estabelecida (BARTH, 2002, p.43).

O nacionalismo franco-canadense não é étnico, e sim cívico, como o próprio site oficial do partido québécois na internet (www.partiquebecois.org) esclarece. A teoria de Barth, que revolucionou os estudos étnicos no final da década de 1960, poderia, como vimos acima, ser utilizada para explicar a realidade de Quebec. A partir deste pressuposto teórico, seria possível entender que a interação ocorre principalmente entre os indivíduos, e não apenas entre a coletividade francófona e anglófona em suas disputas pela hegemonia cultural e política. A interação não traz a eliminação das fronteiras, pois os indivíduos continuariam usando seus sinais diacríticos, como a língua inglesa, a religião católica, a dança folclórica e outros exemplos demonstrados por Handler, como sinais diacríticos eleitos pelo grupo para comunicar uma identidade coletiva.

Como se relacionam os indivíduos francófonos e anglófonos no quotidiano de Quebec? Esta pergunta fica sem resposta no trabalho de Handler. O livro passa a impressão de que os dois grupos não se relacionam, facilitando a manutenção das fronteiras, mesmo que o autor reconheça seu caráter fluído. Os descendentes de ingleses e franceses, entretanto, não interagem apenas como membros de uma coletividade, mas também como indivíduos, no inevitável contato diário das relações pessoais ou profissionais.

Segundo Sökefeld, nada impede que os indivíduos tenham interesses conflitantes. Um islâmico, mesmo sendo xiita, não deixa de ter familiares ou amigos sunitas, e a opção religiosa não limita suas relações sociais. Na visão deste autor, as pessoas refletem e agem conforme interpretam a ação, propondo uma abordagem do self que tem ficado para um segundo plano das análises antropológicas, que teria privilegiado o caráter holista e integrador da cultura. Embora procure enfocar o individualismo, utilizando Dumont como referência, Handler privilegiou a relação da teoria individualista com a ideologia integradora nacionalista, mas não abordou a forma como os indivíduos agem e constroem suas subjetividade.

A obra de Handler apresenta uma sociedade heterogênea, dividida não apenas entre descendentes de franceses e ingleses, mas também por imigrantes de outras regiões que, sobretudo após a segunda guerra mundial, tornaram ainda mais complexas as relações entre os dois grandes grupos originais. Entretanto, não mostra como os indivíduos constroem suas próprias subjetividades agregando aspectos culturais franceses, ingleses ou mesmo das novas etnias, como se os significados culturais estivessem restritos ao grupo de origem e inacessíveis ao restante da população.

Após a leitura dos oito capítulos, ficamos com a noção que conhecemos um pouco mais das particularidades do Canadá e, de uma forma mais específica, da província de Quebec. Nos familiarizamos com as políticas culturais, disputas, conflitos e, sobretudo, aprendemos como os símbolos nacionais são instrumentalizadospara servirem como referências em uma sociedade multicultural, mas as dúvidas sobre como os indivíduos, em constante interação em suas vidas diárias, interpretam e re-elaboram esta diversidade cultural que está ao seu redor, permanecem sem respostas.

Ao analisar a relação entre catalães e castelhanos em Barcelona, Oliveira (1995) chama atenção para o que Fabregat definiu como "identidade bifurcada", que é o processo em que o imigrante de língua castelhana acaba por adotar, ele próprio ou sua descendência, a identidade catalã (OLIVEIRA, 1995, p. 11 e 12). Assim, podemos perceber que existe fluxo de indivíduos e, sobretudo, de bens culturais, que influenciam mutuamente os dois grupos. Na obra de Handler, mesmo que não tenha sido esta a intenção do autor, ficamos com a impressão de que as fronteiras que delimitam os grupos francófonos e anglófonos são rígidas e impermeáveis, demarcando os valores culturais "autênticos" de ambos e limitando as ações individuais.

As formas de hibridismo apresentadas pelo autor são vistas, no discurso nacionalista, como degradação, ou, estabelecendo uma analogia com Mary Douglas, uma "poluição" da cultura original. Ao que parece, Handler não associa hibridismo e degradação, como faz o discurso nacionalista, nem cai na armadilha de reproduzir os discursos de "autenticidade", mas também não apresenta uma terceira opção aos grupos francófonos e anglófonos vivendo Quebec, pois, mesmos os imigrantes, são interpretados na medida em que provocam desequilíbrio na relação entre as coletividades já estabelecidas.

O nacionalismo, como Handler repetiu ao longo do trabalho, é uma ideologia baseada em fronteiras, continuidade e uma homogeneidade abarcando a diversidade. Estas fronteiras nacionais estão em constante ameaça, seja de francófono em relação a anglófono, de Quebec em relação a Ottawa, de Quebec em relação aos Estados Unidos, ou mesmo da Federação Canadense em relação ao poderoso vizinho. Entretanto, nesta interação entre características nacionais, os indivíduos são coadjuvantes na narrativa. Para Handler, ainda que diferentes,os membros que integram uma nação podem, ainda assim, compartilharem atributos essenciais que constituem sua identidade nacional.Ao analisar as pretensões de soberania política dos Quebecóis, o autor mostra que, entre os franco-canadenses, não existe um consenso, de forma que as diferenças individuais são destacadas. Entretanto, em relação aos símbolos culturais "objetivados", como a dança folclórica, as diferenças individuais não são problematizadas. Será que todos os indivíduos se reconhecem na dança folclórica? Será que, no presente, existem outras formas de expressão mais populares? Será que a dança folclórica tem a mesma aceitação nas diferentes classes sociais, regiões e faixa etária de Quebec? Ou será que, incentivada pelo turismo, a importância da dança folclórica não seria construída por uma visão externa sobre a imagem dos Québécois ? Estas são algumas dúvidas que não são respondidas.

Bibliografia

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WEBER, Max. (1994)  "Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. 01. Brasília: Editora UnB

Site oficial do partido Québécois: www.partiquebecois.org

 
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