O Paciente com transtorno mental e a família
 
O Paciente com transtorno mental e a família
 


Os transtornos mentais e do comportamento são problemas clinicamente significativos que se caracterizam por uma alteração de modos de agir, de lhe dar com o outro ou uma alteração de funções mentais.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), entendem-se como transtornos mentais e comportamentais as condições caracterizadas por alterações doentias de pensar ou do humor e do comportamento associadas à angústia expressiva ou deterioração do funcionamento psíquico global.
Um comportamento anormal ou um curto período de anormalidade não significa que uma pessoa tenha um transtorno mental ou de comportamento. Para que seja considerado um transtorno, esses comportamentos devem persistentes (geralmente mais de 6 meses) e causem certa perturbação funcional no individuo.
Uma pessoa pode modificar seus comportamentos também por razões emocionais ou sociais, como por exemplo, um estado deprimido e uma depressão, o estado deprimido surge por uma situação ou uma determinada circunstancia estressante, enquanto a depressão é uma doença e precisa ser tratada.
Em uma pesquisa feita em 2008 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 23 milhões de brasileiros sofrem de algum transtorno mental (cerca de 12% dos brasileiros) e pelo menos 5 milhões (3%) sofrem com transtornos mentais graves e persistentes. Apesar da política de saúde mental prioriza as doenças mais graves como esquizofrenia e o transtorno bipolar, as doenças mais comuns em atendimentos de saúde mental são a depressão, a ansiedade e o transtorno de ajustamento. Mesmo com toda essa quantidade de pessoas que sofrem com transtorno mental, existem 1.513 CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) no Brasil que são mal distribuídas, no Amazonas tem 3 milhões de habitantes e apenas 4 CAPS, dos 27 estados brasileiros, apenas Paraíba e Sergipe tem capacidade para atender o parâmetro de uma unidade para cada 100 mil habitantes.



Os transtornos mentais são identificados e diagnosticados por métodos clínicos parecidos com os utilizados para transtornos físicos, se faz uma entrevista com o paciente e com outras pessoas incluindo a sua família, um exame clínico para verificar o estado mental e suas condições orgânicas, e os exames que necessários para comprovar a existência do transtorno.
Para se tornar mais fácil o diagnóstico, o tratamento, e o reconhecimento desses transtornos, foi criada a Classificação Internacional de Doenças (CID) pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a fim de promover a comparação internacional das doenças. Desde 1992 o CID encontra-se em sua décima revisão, que classifica os transtornos mentais da seguinte forma:
Ø (F00-F09) - Transtornos mentais orgânicos inclusive os sintomáticos.
Ø (F10-F19) ? Transtornos mentais e comportamentais devido a uso de substancias psicoativas.
Ø (F20-F29) ? Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes.
Ø (F30-F39) ? Transtornos de humor (afetivos)
Ø (F40-F49) ? Transtornos neuróticos, transtornos relacionados aos stress e transtornos somatoformes.
Ø (F50-F59) ? Síndromes comportamentais associadas a disfunções fisiológicas e fatores físicos.
Ø (F60-F69) ? Distorções da personalidade e do comportamento adulto.
Ø (F70-F79) ? Retardo mental.
Ø (F80-F89) ? Transtornos do desenvolvimento psicológico.
Ø (F90-F98) ? Transtornos do comportamento e transtornos emocionais que aparecem habitualmente durante a infância ou a adolescência.
Ø (F99) ? Transtorno mental não especificado.


Para se chegar a algum desses diagnóstico o paciente terá que ser avaliado por um psicólogo que o entrevistará e pesquisar qual a queixa principal do paciente, o motivo da consulta, a história da doença, ou seja, quando e como tais sintomas surgiram, a história pessoal do paciente e a história familiar, para saber se já houve caso semelhante na família.



A família no contexto do transtorno mental

Para abordar a questão familiar do portador do transtorno mental, é necessário voltar na história. A assistência em psiquiatria mostra que a atenção aos familiares do portador é bem recente. Enquanto apenas os manicômios respondiam pelas necessidades do portador, a interação entre a instituição, o portador, a família e a comunidade estavam apenas começando. A partir da década de 40 e 50, e se acentuando na década de 60, pesquisas de estudiosos nos EUA e Europa voltaram os olhares para a questão para os familiares, e realizaram um estudo que procuravam entender como as relações familiares estariam diretamente envolvida nos transtornos mentais.
No Brasil, na década de 70, surgiu o movimento de reforma psiquiátrica, que busca substituir as internações nos manicômios por iniciativas sociais, culturais, políticas e também mudar os conceitos e a relação da sociedade com os portadores de transtorno mental. A política de saúde mental no Brasil foi influenciada pelo italiano Franco Basaglia, que era médico e psiquiatra e foi o precursor do movimento de reforma psiquiátrico italiano.
Então a Reforma Psiquiátrica, visa alterar o sistema de tratamento da doença mental, eliminando a internação, como forma de exclusão social e esse modelo é substituído por uma rede de serviços psicossociais visando a inclusão dos portadores de transtornos mentais a sociedade. Dentro dessas redes de serviços existem os CAPS, as oficinas de geração de renda, as cooperativas de trabalhos dirigidos, as residências terapêuticas e os centros de convivência e cultura.
As atuais políticas públicas brasileiras de saúde mental, a desospitalização e a desinstitucionalização da assistência, e tornam a família a principal responsável pelo cuidado do doente. Nestas modalidades de atendimento, os pacientes recebem o acompanhamento médico que necessitam, em regime ambulatorial, e permanecem com suas famílias.¹
Com a permanência dos pacientes em casa, passaram a fazer parte da rotina familiar: garantir as suas necessidades básicas; coordenar suas atividades diárias; administrar sua medicação; acompanhar-los aos serviços de saúde; lidar com seus comportamentos problemáticos e episódios de crise, fornecer-lhes suporte social; arcar com seus gastos; e superar as dificuldades destas tarefas e seu impacto na vida social e profissional do familiar.²

Com isso, as transformações, que ocorrem na saúde mental, visam inserir os portadores de transtorno mental e seus familiares como protagonistas de um processo que busca inovar as formas de atenção; também contam com a parceria de profissionais desta área, que atuam nos diversos cenários, atendendo a essa população, baseando-se no acolhimento, no estabelecimento de vínculos, na responsabilização e na ética do cuidado.³
Porém, a família é, na maioria das vezes, o suporte de acolhimento do doente mental, além dos demais profissionais de saúde que atuam na rede de saúde mental. Os familiares passam então, a conviver de mais de perto com o portador de transtorno mental, situação que tende a gerar mais dificuldades no relacionamento, sofrimentos e, por vezes, reinternações do paciente. [4]
Os familiares dos portadores mentais, ao se ver nesta situação de cuidador, sofre mudanças significativas em suas vidas, tendo então que modificar constantemente o seu dia a dia, e isso se reflete em vários aspectos no estilo de vida levado por cada família afetada pelo transtorno. Deparados a esse transtorno, a equipe de saúde mental devem incluir-las no processo de tratamento do paciente.
Então deve-se verificar o conhecimento da família em relação ao transtorno mental e as possíveis formas de cuidado a saúde, verificar se a família tem alguma experiência familiar e oferecer possíveis formas e interação para lidar com a doença, com dificuldades na aceitação e no enfrentamento. Oferecer apoio ao cuidador na adaptação do novo estilo de vida que vai enfrentar.
Geralmente os portadores buscam a causa ou efeito no transtorno mental, querendo compreender o motivo ou o erro a que levou o portador a adquirir o transtorno mental, geralmente entram em conflito com si mesmo e se perguntam como aquela pessoa, tão cheio de vida, saúde e idéias adquiriu uma doença mental, ou uma mãe que está vendo seu filho crescer, se depara com a situação em que não vê seu filho "normal" e começa a se martirizar onde foi que ela errou e que estaria pagando seus pecados.






Mas a doença mental não se ocorre com um "erro" ou "pagamento de pecados", o transtorno mental podem ter fatores genéticos, mesmo que ainda não seja comprovado que o fator genético possa causar um transtorno mental também não pode ser descartado se influenciada por outros fatores, biológicos,para se falar da aquisição do transtorno mental por fatores biológicos, é importante conhecer o sistema nervoso, o sistema endócrino e o sistema imunológico. Boa parte dos transtornos mentais há modificações no sistema nervoso central e os transtornos mais importantes afetam o sistema cognitivo (memória, atenção, concentração, pensamentos, etc..) bem como distúrbios da regulação das emoções e do stress. A regulação hormonal tem também um papel importante no desenvolvimento do transtorno mental, geralmente encontrados nas depressões, transtornos do stress pós-traumáticos e transtornos alimentares.
Outro fator que pode gerar um transtorno mental é o psicológico, que causam uma "fraqueza" na pessoa, ou seja, deixa a pessoa mais propensa a adquirir um transtorno mental. Essa "baixa" pode ser pessoal como fatores sócio-econômicas ou ambientais, ou também pode ser devido a uma fase da vida, como puberdade, perda de emprego, perda de um ente-querido etc.
Um paciente com transtorno mental significa encargos financeiros, com a questão do transporte, custos de medicação, tratamento e vestuário, são encargos emocionais também, por causa da instabilidade e insegurança e também são encargos nas relações sociais, por motivo de vergonha, cansaço ou frustração, os familiares tendem a se distanciar das atividades sociais, deixando de comparecer a festas e eventos culturais, restringindo-se apenas a visitas a casa de amigos próximos e parentes. Mas de modo geral, as famílias apresentam uma tendência a minimizar as vivências de sobrecarga.
Atualmente existe um grande acúmulo de evidências que demonstram a eficácia das intervenções familiares em promover melhora do quadro clínico, diminuir recaídas e diminuir o número de intervenções psiquiátricas nos pacientes com transtorno mental severo. As pesquisas apontam para a necessidade de desenvolver estratégias de envolvimento da família, especialmente no tratamento de pacientes esquizofrênicos.





Um ambiente familiar muito crítico e stressante é desfavorável para o tratamento, como alguns familiares que se mostram superprotetores e hiperenvolvedores e isso intensifica os conflitos e dificulta os acordos. Em inúmeras situações os familiares são pessimistas em relação a possibilidade de melhora no quadro, por que após algumas tentativas fracassam e desiludidos, não acreditam mais na melhora do paciente com o transtorno, e resgatar essa esperança é fundamental em qualquer projeto de cuidado.
O Campo da reforma psiquiátrica busca uma intensificação dos esforços no sentido de substituir o tratamento nos hospitais e buscando a possibilidade de assistência na comunidade, e isso implica um meio que possa identificar a realidade dos familiares e buscar maneiras de ajudar-los. Hoje já existem uma grande rede de serviços que substituem o modelo psiquiátrico tradicional que de maneira geral, se caracterizam pela utilização intensiva de um conjunto de tecnologias terapêuticas e práticas psicossociais para manter a pessoa na comunidade.
O sofrimento do familiar começa quando seus questionamentos e dúvidas sobre os transtornos não são respondidos satisfatoriamente, isso por que muitos médicos não dão informações detalhadas em relação aos remédios e seu possíveis efeitos colaterais ou ainda não explicam o significado do diagnóstico ou então não explicam os motivos dos procedimentos terapêuticos, então os familiares se sentem sozinhos e impotentes diante de suas dúvidas e situação, aí entra mais uma vez o sentimento de culpa e o medo. Na maioria das vezes o familiar não está procurando pela primeira vez a ajuda médica, e nem sempre muito felizes com as respostas médicas, é muito comum um familiar chegar com uma certa resistência, cheia de respostas prontas, e de mecanismo de defesa bem preparados, então eles ficam desconfiados e sempre a espera de um comentário culpabilizante.

Com os serviços psicossociais, existe a aproximação das famílias, que exige muita paciência, devido a subjetividade de cada um, então isso envolve a estratégia de conhecer-los de uma maneira mais abrangente, tentando assim, criar métodos de cuidado mais apropriadas as suas necessidades. Porém essas necessidades não podem ser generalizadas, isso por que não existe um modelo universal de família, cada pessoa tem o seu estilo de vida, e seu modo de confrontar certas situações. Então para isso é importante um olhar atento a subjetividade dos sujeitos, para uma atenção personalizada dirigida a construção de um processo terapêutico que leve em consideração particularidades de cada situação.
O transtorno mental vem crescendo nessas últimas décadas, ela atinge de 6 a 16 % no sexo masculino e de 2 a 9% no sexo feminino, esse risco é maior no meio urbano que na zona rural. Essas pessoas não são doentes mentais, mas se as pessoas não cuidam delas, elas podem cair em estado delirante, não são portadores da doença "construída" mas precisam de um apoio que os permita de se inserir no meio social e na realidade, quando são jovens são rejeitados na escola, ajudando-os a se "fechar" no mundo deles e criam o isolamento. A população de portadores de transtornos mentais se desenvolvem notamente por diversos fatores sociais.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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