ESQUIZOFRENIA: UM OLHAR DA SAÚDE MENTAL
 
ESQUIZOFRENIA: UM OLHAR DA SAÚDE MENTAL
 


A esquizofrenia é um distúrbio mental grave caracterizado pela perda do contato com a realidade, alucinações, delírios, pensamento anormal e alteração do funcionamento laborativo e social. A esquizofrenia é um importante problema de saúde pública em todo o mundo. A esquizofrenia é mais prevalente que a doença de Alzheimer, o diabetes ou a esclerose múltipla. No Brasil, são registrados 56.000 casos por ano. Diversos distúrbios compartilham as características da esquizofrenia. Os distúrbios que se assemelham à esquizofrenia, mas cujos sintomas estão presentes a no mínimo seis meses, são denominados distúrbios esquizofreniformes. Quando os sintomas persistem por pelo menos um dia, mas duram menos de um mês, eles são denominados distúrbios psicóticos breves. Um distúrbio caracterizado pela presença de sintomas do humor, tais como depressão ou mania, juntamente com sintomas mais típicos de esquizofrenia é denominado distúrbio esquizoafetivo. Um distúrbio da personalidade que pode compartilhar sintomas de esquizofrenia, mas no qual os sintomas em geral não são tão graves a ponto de satisfazer aos critérios da psicose, é denominado distúrbio da personalidade esquizotípica.

2- INTRODUÇÃO

O objeto de estudo desta revisão bibliográfica, é a esquizofrenia, mas também, da maneira como a esquizofrenia é enfocada através de uma abordagem privilegiada.

Este trabalho tem por objetivo identificar as causas, sintomas e tipos da esquizofrenia, em abordagem a diversas literaturas e estatísticas adotadas diante da esquizofrenia.

Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção e por afetos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a percepção delirante, idéias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos.

3- BREVE HISTÓRICO

São várias as tendências de reflexão sobre doença mental, notadamente sobre as psicoses que, embora provenientes de diversos momentos históricos do pensamento psicológico, estimulam bastante as discussões sobre o tema.

Temos o modelo sociogênico, no qual a sociedade, complexa e exigente, é a responsável exclusiva pelo enlouquecimento humano. Temos também o modelo Organogênico, diametralmente oposto ao anterior, onde os elementos orgânicos da função cerebral seriam os responsáveis absolutos pela doença mental.

Tem ainda o enfoque psicogênico, onde a dinâmica psíquica é responsável pela doença e subestimam-se as disposições constitucionais. Há ainda o modelo organodinâmico, que compatibiliza todos os três anteriores, onde participariam requisitos biológicos, motivos psicológicos e determinantes sociais. Na realidade esse modelo é mais conhecido como bio-psico-social.

Tem sido quase unânime a aceitação pela psiquiatria clínica a associação de determinadas configurações de personalidade predispostas e a eclosão de psicoses. Estas personalidades são as chamadas personalidades pré-mórbidas, cujo conceito é abordado em transtornos da personalidade; constituições que por si transtornam a vida do indivíduo ou incapacitam um desenvolvimento pleno, ou ainda, em certas circunstâncias, encerra uma maior aptidão para o desenvolvimento de determinadas doenças psíquicas.

A personalidade pré-mórbida é considerada pela psicopatologia como uma variação do existir humano e traduz uma possibilidade mais acentuada para o desenvolvimento de certa vulnerabilidade psíquica. Aqui o termo "possibilidade" dever ser considerado em toda sua plenitude, ou seja, um caráter não-obrigatório, mas que deve ser levado muito a sério.

Clinicamente e a grosso modo, pode-se dizer que as neuroses diferenciam-se das psicoses pelo grau de envolvimento da personalidade, sendo sua desorganização e desagregação muito mais pronunciadas nas psicoses.

O vínculo com a realidade é muito mais tênue e frágil nas psicoses que nas neuroses, nestas a realidade não é negada, mas vivida de maneira mais sofrível, valorizada e percebida de acordo com as lentes da afetividade e representada de acordo com as exigências conflituais.

Já nas psicoses, alguns aspectos da realidade são negados e substituídos por concepções particulares e peculiares que atendem unicamente às características da doença.

A sintomatologia psicótica caracteriza-se, principalmente, pelas alterações em nível do pensamento e da afetividade e, conseqüentemente, todo comportamento e toda performance existencial do indivíduo serão comprometidos. Na psicose o pensamento e a afetividade se apresentam qualitativamente alterados, tal como uma novidade cronologicamente delimitada na história de vida do paciente e que passa a atuar morbidamente em toda sua performance psíquica.

Essa alteração confere ao paciente uma maneira patológica de representar a realidade, de elaborar conceitos e de relacionar-se com o mundo objectual. Não contam tanto aqui as variações quantitativas de percepção do real, como pode ocorrer na depressão, por exemplo, mas um algo novo e qualitativamente distinto de todas as nuances anteriormente permitidas, um algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.

4- PSICOSE ESQUIZOFRÊNICA

A esquizofrenia é uma doença da personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereótipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.

Aproximadamente 1% da população é acometido pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sócio-cultural. O diagnóstico baseia-se exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes do 10 ou depois do 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.

Esquirol (1772-1840), considerava a loucura como sendo a somatória de dois elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de muitos anos de reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com palavras atualizadas. O principal modelo para a integração dos fatores etiológicos da esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, o qual supõe o indivíduo possuidor de uma vulnerabilidade específica colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes. Em determinadas circunstâncias o binômio diátese-estresse proporcionaria condições para o desenvolvimento da esquizofrenia. Até que um fator etiológico para a doença seja identificado, este modelo parece satisfazer as teorias mais aceitas sobre o assunto.

Através da CID-10, foi incluída na classificação das esquizofrenias, o transtorno esquizotípico. Na realidade não se acredita tratar de mais um tipo de doença, mas de um estágio da mesma doença. Sabendo-se que os sintomas gerais, básicos e de primeira ordem das esquizofrenias, pode-se entender o transtorno esquizotípico como sendo uma fase pré-mórbida da psicose, mais sério que o transtorno esquizóide de personalidade e menos mórbido que a esquizofrenia franca. Tanto está certa esta visão que o próprio CID-10 considera este transtorno como sinônimo de esquizofrenia prodrômica, borderline, ou pré-psicótica.

Os sintomas característicos da esquizofrenia podem ser agrupados, genericamente, em dois tipos: positivos e negativos. Os sintomas positivos são os mais floridos e exuberantes, tais como as alucinações, mais freqüentemente as auditivas e visuais e, menos freqüentes as táteis e olfativas; os delírios, persecutórios, de grandeza, de ciúmes, somáticos, místicos, fantásticos; perturbações da forma e do curso do pensamento, como incoerência, prolixidade e desagregação; comportamento desorganizado, bizarro, agitação psicomotora e mesmo negligência nos cuidados pessoais.

Os sintomas negativos são, geralmente, de déficits, ou seja, a pobreza do conteúdo do pensamento e da fala, embotamento ou rigidez afetiva, prejuízo do pragmatismo, incapacidade de sentir emoções, incapacidade de sentir prazer, isolamento social, diminuição de iniciativa e diminuição da vontade.

Alguns sintomas, embora não sejam específicos da esquizofrenia, são de grande valor para o diagnóstico, seriam:

a)audição dos próprios pensamentos, sob forma de vozes;

b)alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente;

c)alucinações somáticas;

d)sensação de ter os próprios pensamentos controlados;

e)irradiação destes pensamentos;

f)sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior.

Tentando agrupar a sintomatologia da esquizofrenia para sintetizar os principais tratadistas, teremos destacados três atributos da atividade psíquica: comportamento, afetividade e pensamento. Os delírios surgem como alterações do conteúdo do pensamento esquizofrênico e as alucinações como pertencentes a sensopercepção. Ambos acabam sendo causa e/ou conseqüência das alterações nas três áreas acometidas pela doença.

5- DELÍRIOS

Os delírios, sintoma principal da esquizofrenia, são crenças errôneas, habitualmente envolvendo a interpretação falsa de percepções ou experiências. Seu conteúdo pode incluir uma variedade de temas, como por exemplo, a perseguição (persecutórios), referenciais, somáticos, religiosos ou grandiosos. Os delírios persecutórios são os mais comuns. Neles a pessoa acredita estar sendo atormentada, seguida, enganada, espionada ou ridicularizada. Os delírios de referência também são comuns; neles a pessoa crê que certos gestos, comentários, passagens de livros, um delírio e uma idéia vigorosamente mantida às vezes é difícil, e depende do grau de convicção com o qual a crença é mantida, apesar de evidências nitidamente contrárias.

Os delírios na esquizofrenia podem sugerir ainda uma interpretação falsa da realidade percebida. É o caso, por exemplo, do paciente que sente algo sendo tramado contra ele pelo fato de ver duas pessoas simplesmente conversando. Trata-se, neste caso, de uma percepção delirante. Desta forma, a percepção delirante necessita de algum estímulo para ser delirantemente interpretado. Outras vezes não há necessidade de nenhum estímulo a ser interpretado, como, por exemplo, julgar-se "deus". Neste caso trata-se de uma ocorrência delirante. O tipo de delírio mais freqüentemente encontrado na esquizofrenia é o tipo paranóide ou de referência, ou seja, com temática de perseguição ou prejuízo no primeiro caso e de que todos se referem ao paciente, por exemplo, rádios, vizinhos, televisão, etc; no segundo caso.

Na esquizofrenia os delírios surgem paulatinamente, sendo percebidos aos poucos pelas pessoas íntimas aos pacientes. Em relação ao delírio de referência, inicialmente os familiares começam a perceber uma certa aversão à televisão, aos vizinhos, etc.

Embora os delírios bizarros sejam considerados especialmente característicos da esquizofrenia, pode ser difícil avaliar o grau de "bizarria", especialmente entre diferentes culturas. Os delírios são considerados bizarros se são claramente implausíveis e incompreensíveis e não derivam de experiências comuns da vida. Um exemplo de delírio bizarro é a crença de uma pessoa de que um estranho retirou seus órgãos internos e os substituiu pelos de outra, sem deixar quaisquer cicatrizes ou ferimentos. Um exemplo de delírio não-bizarro é a falsa crença de estar sob vigilância policial.

Os delírios que expressam uma perda de controle sobre a mente ou o corpo, geralmente são considerados bizarros; eles incluem a crença da pessoa de que seus pensamentos foram retirados por alguma força externa, que pensamentos estranhos foram colocados em sua mente ou que seu corpo ou ações estão sendo manipulados por alguma força externa. Se os delírios são considerados bizarros, este sintoma isolado já basta para satisfazer o critério principal para esquizofrenia.

6- ALUCINAÇÕES

As alucinações, outro sintoma típico, mas não exclusivo da esquizofrenia, podem ocorrer em qualquer modalidade sensorial, ou seja, auditivas, visuais, gustativas e táteis. As alucinações auditivas são, de longe, as mais comuns e características da esquizofrenia, sendo geralmente experimentadas como vozes conhecidas ou estranhas, que são percebidas como distintas dos pensamentos da própria pessoa. O conteúdo pode ser bastante variável, embora as vozes pejorativas ou ameaçadoras sejam especialmente comuns. Certos tipos de alucinações auditivas, como, por exemplo, ouvir duas ou mais vozes conversando entre si ou comentando os pensamentos ou o comportamento da pessoa, têm sido considerados particularmente característicos da esquizofrenia e foram incluídos na lista de sintomas de primeira ordem.

A desorganização do pensamento é defendida por alguns autores, como o aspecto mais importante da esquizofrenia. Em vista da dificuldade inerente ao exame do pensamento, este será feito pela qualidade do discurso do paciente, portanto, o conceito de discurso desorganizado foi salientado na definição de esquizofrenia.

As alucinações mais comuns na esquizofrenia são do tipo auditivas, em primeiro lugar e visuais em seguida. Um esquizofrênico pode estar ouvindo sua própria voz, dia e noite, sob a forma de comentários e antecipações daquilo que ele faz ou pretende fazer.

7- INÍCIO DA PSICOSE ESQUIZOFRÊNICA

O início da psicose depois dos quarenta e cinco anos, freqüentemente se relaciona com fatores orgânicos identificáveis e não se trata de esquizofrenia, mas a primeira preocupação deve ser sempre verificar se não se trata de um transtorno do humor grave com sintomas psicóticos.

Habitualmente a irrupção da esquizofrenia se nota quando a família e os amigos observam que a pessoa mudou de comportamento, que já não é mais a mesma. A pessoa passa a funcionar mal em áreas significativas da vida cotidiana, como na escola ou trabalho, nas relações sociais e familiares. Freqüentemente há uma notável falta de interesse por cuidados com si mesmo. Os próprios pacientes experimentam os seguintes sentimentos:

a)Perplexidade: no começo da doença os pacientes informa um sentimento de estranheza sobre a experiência, alguma confusão sobre de onde vêm os sintomas, normalmente alucinações, e se perguntam porque sua experiência diária tem mudado tanto.

b)Isolamento: a pessoa esquizofrênica experimenta uma sensação intensa de ser diferente dos demais e de estar separada de outras pessoas. O isolamento social e a evitação de contatos tornam-se evidente.

c)Ansiedade e terror: em geral a experiência cotidiana está invadida por uma sensação geral de mal estar e ansiedade; evidenciam-se os períodos de terror intenso, causado por um mundo dentro do qual tudo parece perigoso e incontrolável, normalmente atribuído a origens externas e mágicas.

8- CLASSIFICAÇÃO DA PSICOSES  DSM-IV

a)Tipo Paranóide

b)Tipo Desorganizado

c)Tipo Catatônico

d)Tipo Indiferenciado

e)Tipo Residual

8.1- Tipo Paranóide

A característica essencial da esquizofrenia do tipo paranóide é a presença de delírios ou alucinações auditivas proeminentes no contexto de uma relativa preservação do funcionamento cognitivo e do afeto. Algumas evidências sugerem que o prognóstico para o tipo paranóide pode ser consideravelmente melhor do que para os outros tipos de esquizofrenia, particularmente com relação ao funcionamento ocupacional e à capacidade para a vida independente.

8.2- Tipo Desorganizado

As características essenciais da esquizofrenia do tipo desorganizado são discurso desorganizado, comportamento desorganizado e afeto embotado ou inadequado. O discurso desorganizado pode ser acompanhado por atitudes tolas e risos sem relação adequada com o conteúdo do discurso. A desorganização comportamental pode levar a uma severa perturbação na capacidade de executar atividades da vida diária, por exemplo: tomar banho, vestir-se ou preparar refeições.

8.3- Tipo Catatônico

A característica essencial da esquizofrenia tipo catatônico, é uma acentuada perturbação psicomotora, que pode envolver imobilidade motora, atividade motora excessiva, extremo negativismo, mutismo, peculiaridades dos movimentos voluntários, ecolalia ou ecopraxia. A imobilidade motora pode ser manifestada por cataplexia ou estupor. A atividade motora excessiva é aparentemente desprovida de sentido e não é influenciada por estímulos externos.

Pode haver negativismo, manifestado pela manutenção de uma postura rígida contra tentativas de mobilização, ou resistência a toda e qualquer instrução. Peculiaridades do movimento voluntário são manifestadas pela adoção voluntária de posturas inadequadas ou bizarras ou por trejeitos faciais proeminentes. A ecolalia é a repetição patológica, tipo papagaio e aparentemente sem sentido de uma palavra ou frase que outra pessoa acabou de falar.

A ecopraxia é a imitação repetitiva dos movimentos de outra pessoa. Aspectos adicionais incluem estereotipias, maneirismos e obediência ou imitação automáticas. Durante o estupor severo ou a excitação catatônica, a pessoa pode necessitar de cuidados e supervisão, para evitar danos a si mesma ou a outros. Existem riscos potenciais de desnutrição, exaustão, hiperpirexia ou ferimentos auto-inflingidos.

8.4- Tipo Indiferenciado

A característica essencial da esquizofrenia no tipo indiferenciado é a presença de sintomas que satisfazem o critério principal da esquizofrenia, mas não satisfazem os critérios para os tipos paranóide, desorganizado ou catatônico.

8.5- Tipo Residual

A esquizofrenia, tipo residual deve ser usada quando houve pelo menos um episódio de esquizofrenia, mas o quadro clínico atual não apresenta sintomas psicóticos positivos proeminentes, por exemplo: delírios, alucinações, discurso ou comportamento desorganizados.

Existem contínuas evidências da perturbação, indicadas pela presença de sintomas negativos, por exemplo: comportamento excêntrico, discurso levemente desorganizado ou crenças incomuns. Se delírios ou alucinações estão presentes, eles não são proeminentes nem são acompanhados por forte afeto. O curso de tipo residual pode ser limitado, representando uma transição entre um episódio pleno e uma remissão completa. Entretanto, ele também pode estar presente de uma forma contínua por muitos anos, com ou sem exarcebações agudas.

9- GENÉTICA DA ESQUIZOFRENIA

Nas últimas décadas, devido a uma grande variedade de métodos laboratoriais e analíticos, a investigação genética deu um grande salto com enfoque sobre fatores moleculares, denominando-se, então, genética molecular. Entre as mais variadas áreas do desenvolvimento humano, houve um grande interesse da comunidade científica internacional nos estudos genéticos e moleculares da esquizofrenia.

Há suficientes evidências da presença de um componente genético familiar substancial na origem da esquizofrenia. Essas evidências provêm de um grande número de estudos familiares, em irmãos gêmeos, não gêmeos e adotados, realizados em diversas populações.

Os estudos familiares não fornecem uma avaliação direta e localizada do componente genético, mas sim uma idéia do caráter familiar para a doença. Esse caráter familiar da esquizofrenia poderia ser ocasionado por diversos fatores, entre os quais os fatores hereditários.

Normalmente esses estudos familiares avaliam a prevalência da doença nos parentes de uma pessoa afetada e a comparam com a prevalência da doença num outro grupo de população chamado de grupo de controle. Em geral esse grupo controle é representado por parentes normais, ou, mais freqüentemente, pelos índices de prevalência da população geral.

Apesar de um grande número de estudos familiares de esquizofrenia já ter sido realizado até a década de 80, os estudos mais recentes são, geralmente, considerados de maior validade. Essa maior confiabilidade deve-se ao uso de instrumentos diagnósticos mais bem estruturados aliados ao uso de grupos, controles mais adequados.

As investigações genéticas se têm concentrado nos fatores relacionados com a consangüinidade, a adoção e gestação de gêmeos monozigóticos. Os estudos sobre consangüinidade comparam a incidência da esquizofrenia em parentes que tenham um índice de casos com a de famílias de controle. A consangüinidade procura correlacionar a incidência superior de esquizofrenia. Isolaram-se as duas variáveis de ambiente genético e cultural mediante o estudo de crianças que haviam sido adotadas pouco depois do nascimento e que posteriormente desenvolveram esquizofrenia.

Esses estudos confirmaram a existência de um componente genético da predisposição à esquizofrenia. Dos membros biológicos das famílias de crianças esquizofrênicas, 9% eram esquizofrênicos também, mas só 2% dos membros das famílias biológicas das crianças adotadas não esquizofrênicas; a incidência de esquizofrenia em famílias de adoção destes dos grupos de crianças era a mesma, por exemplo, 2% e 2% respectivamente. É mais importante que um dos progenitores seja esquizofrênico, do que se este for o pai ou a mãe.

Análise independente destes dados, utilizando os critérios DSM-IV, tem confirmado os achados originais, sugerindo que a expressão genética pode representar uma "espreita de esquizofrenia", que existe nos transtornos de personalidade esquizóide, esquizotípica e paranóide. Mas os estudos sugerem ainda que, mesmo considerando o fator genético na predisposição à esquizofrenia, isso por si não é suficiente para garantir o desenvolvimento do transtorno.

Estudos sobre desenvolvimento posterior à concepção, adoção e diferentes resultados de vida entre irmãos geneticamente idênticos têm permitido uma separação dos efeitos do ambiente biopsicossocial na apresentação da doença. Somente 20% dos esquizofrênicos tem um parente de primeiro grau com a doença declarada. Para outros, parecem existir várias combinações de fatores de risco, incluindo os seguintes: consangüinidade com aqueles que tenham outros transtornos psiquiátricos importantes; estressores identificáveis no período perinatal e durante o desenvolvimento precoce; transtornos pré-mórbidos da personalidade de natureza esquizóide, paranóide ou esquizotípico e anormalidades específicas na anatomia, bioquímica e fisiologia cerebral.

Os efeitos totais dos fatores de risco definem a vulnerabilidade do indivíduo. Os estressores que ocorrem antes do diagnóstico da doença incluem desde acontecimentos claramente traumáticos, como, por exemplo, a morte de um dos pais, até as exigências normais do desenvolvimento adulto.

O modelo de esquizofrenia de vulnerabilidade ao estresse aceita a idéia de que existe uma vulnerabilidade à esquizofrenia que se encontra presente geneticamente, que tem um efeito patológico no desenvolvimento ao longo da adolescência e que se expressa como uma doença declarada na idade aproximada de vinte anos.

Dentre os estudos familiares mais recentes, em média, parentes de primeiro grau de esquizofrênicos têm um risco dez vezes maior do que pessoas da população geral de serem diagnosticados com esquizofrenia. Esse risco, entretanto, não é uma media direta do componente genético da esquizofrenia, já que os genes são um enlace dos diversos fatores transmitidos e que se traduzem em agregação familiar do caráter.

Foi realizado um grande número de estudos em gêmeos, tentando avaliar a participação do componente genético na causa da esquizofrenia. Os resultados deixam claro não haver um consenso entre os diferentes estudos, no entanto, de um modo geral, todos eles sugerem uma substancial contribuição da genética na causa da esquizofrenia. Os padrões e as características da concordância observada em gêmeos monozigóticos comparados com a concordância em gêmeos dizigóticos esquizofrênicos traduzem uma etiologia genética complexa.

9.1- Estudos Genéticos

Muito usados em genética do comportamento, os estudos clássicos em gêmeos comparam o fenótipo entre gêmeos monozigóticos e gêmeos dizigóticos. Gemes monozigóticos originam-se de um único ovo, portanto, apresentam genoma idêntico, enquanto gêmeos dizigóticos originam-se a partir de diferentes ovos, portanto, do ponto de vista genético, seriam como irmãos normais não-gêmeos e, como tal, apresenta, em média, apenas 50% do genoma em comum.

Sob a premissa de que gemes monozigóticos e gêmeos dizigóticos estão expostos de modo semelhante ao mesmo meio ambiente toda correlação fenotípica observada entre gêmeos monozigóticos que for superior àquela presente entre gêmeos dizigóticos apontará para a participação de um componente genético na etiologia da doença.

Os estudos da agregação familiar, que pesquisa a incidência de esquizofrenia em gêmeos e risco de esquizofrenia em adoção de filhos, permitiram estabelecer de modo consistente a participação de fatores genéticos na etiologia da esquizofrenia. Entretanto, esse tipo de estudo não permitiu, claramente, a caracterização e a identificação de quais fatores estariam de fato envolvidos.

Tais estudos apontaram sempre para uma concordância estatística sugestiva de contundente participação hereditária. Esses dados, além de interesse científico, também foram de grande interesse prático para o aconselhamento genético.

Mas, para melhor se entender como a esquizofrenia é transmitida de geração em geração, deve-se tentar conhecer os mecanismos biológicos de sua herança. Vem daí a necessidade dos estudos da genética molecular.

Os estudos da genética molecular em relação à esquizofrenia objetivam identificar e localizar, no genoma humano, quais são especificamente os genes que tornam as pessoas suscetíveis à esquizofrenia. São os chamados estudos de mapeamento que se faz utilizando técnicas moleculares. Uns números consideráveis desses estudos têm sido conduzidos em esquizofrenia nas últimas décadas, mas as conclusões consistentes são ainda difíceis de formular.

9.2- Conclusões provisórias

Por um lado, parece não haver qualquer dúvida em relação à participação de um componente genético importante na causa da esquizofrenia. Por outro lado, entretanto, saber quantos e quais são os genes que atribuem de fato maior suscetibilidade a essa doença permanece questão ainda em aberto.

O máximo que se pode acreditar das recentes pesquisas é que esses genes devem ser responsáveis por uma pequena porção da variabilidade genética total e que não apresentam mutações específicas presentes apenas em indivíduos afetados pela esquizofrenia, mas sim, podem aparecer como variantes comuns encontradas na população geral.

Isso tem impulsionado diversos autores a propor uma mudança na estratégia a ser utilizada em futuros estudos de mapeamento genético por associação. De modo semelhante aos estudos de ligação, estudos do tipo exploração do genoma, também podem ser realizados pela metodologia de associação.

Devidos aos avanços advindos do projeto Genoma Humano, um grande número de marcadores tem sido continuamente identificado e em breve haverá marcadores caracterizados em todos os genes humanos. Além disso, o desenvolvimento de micro-chips para a genotipagem oferecerá, em breve, estudos de rastreamento com considerável poder na detecção de genes que contribuam à variância genética total da esquizofrenia.

10- GRAVIDEZ NA ESQUIZOFRENIA

Tanto a mãe esquizofrênica como o filho são pacientes de alto risco psicossocial. A esquizofrenia, apesar de ser uma doença psiquiátrica crônica e que requer tratamento por toda vida, quando bem tratada não é impedimento para a maternidade, pelo menos sob o ponto de vista biológico, recomendável e ela deve ser evitada por representar um duplo risco, tanto para a mãe como para o filho, considerando os fatores biológicos, psicossociais e genéticos. Não obstante, a psiquiatria deve estar preparada, pois, as vezes a paciente esquizofrênica engravida sem planejamento.

O problema da gravidez na esquizofrenia não é, absolutamente, médico. Trata-se de um agravo psicossocial, familiar e de maternidade. Isso sem contar a probabilidade genética da transmissão da doença ao filho.

O fator de risco para herança esquizofrênica é, de modo geral, em torno de 10% para aqueles que têm um membro familiar direto com a doença e de aproximadamente 40% se a doença afeta ambos os pais ou gêmeos idênticos. Aproximadamente 60% dos portadores de esquizofrenia possuem parentes não próximos com a doença. O distúrbio de vestígios no olhar é uma das características genéticas que parece ser associada com a esquizofrenia.

Este risco hereditário da esquizofrenia costuma se manifestar na criança, caso tenha adquirido, geralmente depois dos quinze anos de idade. Embora algumas delas possam portar desde o berço ou primeira infância, traços de personalidade esquizóide ou paranóide, podem também ser crianças que estão estudando bem, habilidosas e socialmente normais, mas, de súbito, manifestam o quadro com as alucinações e delírios característicos.

Entre os riscos da gravidez da mãe esquizofrênica, além daqueles vindos das próprias alterações psíquicas que a gestação favorece, estão os efeitos secundários dos medicamentos usados para essa doença. Esses psicofármacos antipsicóticos podem afetar o feto, principalmente quando usados nos três primeiros meses de gestação.

Quando a mãe usa psicofármacos no final da gravidez, o filho pode apresentar efeitos colaterais depois do nascimento, como por exemplo, dificuldades na sucção da mama, taquipnéia, taquicardia, irritabilidade, tremores, sudorese aumentada e retenção urinária, mas nenhum desses efeitos tem gravidade.

A melhor conduta que se pode idealizar, na questão das pacientes esquizofrênicas e do ponto de vista científico, é prevenir a gravidez. Conhecendo os riscos, a própria paciente ou, mais provavelmente, os familiares, devem optar por algum método anticonceptivo constante ou definitivo.

11- CONCLUSÃO

Esquizofrenia é uma doença que dura a vida toda, como diabetes ou hipertensão. A maioria das pessoas com esquizofrenia necessitarão de cuidados médicos e medicação pelo resto de suas vidas. As medicações antipsicóticas não curam a esquizofrenia, somente controlam os sintomas da doença, ou seja, se o paciente deixar de tomar a medicação pode sofrer uma recaída.

Algumas pessoas, mesmo tomando a medicação regularmente, podem ter uma recaída dos sintomas psicóticos. É muito importante que elas possam reconhecer que estes estão voltando, e procurar ajuda imediatamente. Antes do aparecimento de sintomas como delírios ou alucinações, é comum aparecerem sintomas menos específicos como irritabilidade, insônia e depressão.

A esquizofrenia ainda gera muitas dúvidas, angústias e preconceitos em seus portadores, familiares, amigos e em toda a sociedade. Mesmo profissionais da área de saúde mental sentem-se freqüentemente impactar frente a um diagnóstico de esquizofrenia, devido a sua evolução, tantas vezes de difícil manejo, e a implicações decorrentes de sua freqüente cronicidade.

Também a importância da superação da negação da doença, vencendo os preconceitos, é apresentada como fundamental para o bom desenvolvimento do tratamento, sendo esse um dos pontos essenciais dos passos para a recuperação, propostos pelos grupos de psicóticos anônimos. Somente a aceitação pode conduzir à mudança. Mas para que isso aconteça, é preciso, antes de qualquer coisa, que o diagnóstico seja corretamente definido e claramente apresentado para o paciente. Todos os profissionais da saúde, principalmente os da enfermagem tem o dever de conhecer a fundo o comportamento psiquiátrico para que possa assistir de forma holística o paciente esquizofrênico, enfatizando o cuidado humanizado.

12- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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KAPLAN, H.I. et. al.: Compêndio de Psiquiatria, Artes Médicas, 7ª edição, Porto Alegre, 1977.

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SCHLITHLER, A. C. B, Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Santa Casa de São Paulo, Associação Brasileira de Psiquiatria, Internet, disponível em : <www.psiqweb.med.br>, atualizado em 2006.

TALBOTT, J. et al.: Tratado de Psiquiatria, Artes Médicas, Porto Alegre, 1992.

 
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Sobre este autor(a)
Enfermeira, especialista em Saúde Mental, atua como docente no ensino superior de Enfermagem e no ensino técnico de enfermagem. Tem experiência profissional na área de Saúde Coletiva, atuando em UBS e PSF. Participou de várias capacitações e treinamentos na área educativa e na atenção básica.
Membro desde março de 2009
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