MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA E SEUS REFLEXOS NO ESPAÇO AGRÁRIO DO BRASIL
 
MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA E SEUS REFLEXOS NO ESPAÇO AGRÁRIO DO BRASIL
 


Hercules de Oliveira Ferreira1

RESUMO

O presente trabalho trata das transformações sofridas pelo espaço agrário brasileiro, a partir do avanço tecnológico na produção agrícola, cujo processo passou a ser denominado "Revolução Verde", com principais características: mecanização e tecnificação dos meios de produção e maquinários especializados. A modernização da agricultura consiste na incorporação de novos padrões tecnológicos no espaço rural como forma de integrar as famílias e/ou agricultores rurais a novas formas de racionalidade produtiva, neste contexto salienta-se a reforma agrária como algo importante no sentido de provocar homogeneização quanto à apropriação e posse fundiária, e à renda que ela pode gerar sob determinadas condições socioeconômicas das diversas categorias de proprietários. Até porque historicamente a concentração de terras no Brasil tem deixado arraigada a desigualdade em termos de apropriação, tendo de um lado o pequeno proprietário com seus minifúndios de caráter subsistente e do outro os grandes proprietários da agropecuária moderna, atendendo as determinações capitalistas do mercado globalizado.

Palavras-chave: Modernização, Agricultura, Reforma Agrária, Espaço Agrário.

A partir da segunda metade do século XX, especificamente a partir da década de 60, o espaço agrário do Brasil passou a sofrer um forte avanço tecnológico na produção agrícola com a crescente adesão de processos industriais ao campo. Foi a denominada ?Revolução Verde? cujas principais características eram a mecanização e tecnificação dos meios de produção com a utilização de tecnologias poupadoras de mão-de-obra, como maquinários especializados e uso de agroquímicos (fertilizantes).

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1Licenciado em Geografia pela Universidade do Estado da Bahia ? Campus XI (Serrinha-BA)
Email: [email protected]
Conjuntura esta, eminentemente, baseada no latifúndio de caráter agrário-exportador, cujo processo de produção atendia aos preceitos da economia de escala. Como salienta Navarro (2001):

Entre as décadas de 1960 - 1970 ocorre um intenso processo de modernização das atividades agrícolas com base no paradigma da Revolução Verde que designava o conjunto de esforços realizados para incrementar a produção agrícola no mundo por meio de novas variedades e utilização de técnicas agrícolas modernas como fertilizantes, agrotóxicos e irrigação, a intenção era de aumentar a produção e a produtividade [...] (NAVARRO, 2001, p.84).

Complementarmente, no Brasil entre vários produtos que se adequaram a tal realidade destacam-se as produções de cana-de-açúcar, laranja, café, batata, frutas cítricas e principalmente a soja cujas fronteiras agrícolas já abarcaram praticamente toda Região Centro-Oeste, parte da Região Sul, leste do estado da Bahia, além de ter avançado fortemente para a Região Norte com impactos diversos, cuja explicitação não cabe nessa discussão.
Em outros termos, a modernização da agricultura consiste na incorporação de novos padrões tecnológicos no espaço rural, uma espécie de tentativa de rompimento com o passado (práticas tradicionais de cultivo agrícola), entre outros fatores, como forma de integrar as famílias e/ou agricultores rurais a novas formas de racionalidade produtiva. Condizendo com os ditos de Abramovay:

A modernização da agricultura se caracterizou como um processo induzido, que ocorreu a partir do avanço da ciência e da tecnologia moderna que introduziu novas formas de produção que resultaram no aumento da produtividade e na baixa quantidade de mão-de-obra, mas é preciso apontar que nem todos os agricultores de um país adotam as mesmas técnicas, assim existem graus de modernização diferenciados em propriedades agrícolas vizinhas, sobretudo na relação latifúndio-minifúndio [...] (ABRAMOVAY, 1992, pp. 59-60).

Todo esse processo tem provocado gradualmente a mercantilização da vida social no campo, pois, de forma lenta a autonomia que a agricultura (atividades agrícolas) até então tinham, têm sido levada a atender uma subordinação de novos interesses, formas de vida e de consumo típicos de áreas urbanas.
Por outro lado, é preciso evitar generalizações oriundas de reflexões limitantes! Já que a inserção de novos padrões de vida associados à novas tecnologias de produção agrícola, não tem possibilitado (com poucas exceções) aumento da renda familiar e melhores condições de vida da população diretamente afetada pela modernização da agricultura, ou seja, os pequenos proprietários e os indivíduos interligados.
Para (GRAZIANO NETO, 1985, p.27 apud TEIXEIRA, 2005, p.22), "o conceito de modernização não pode se restringir aos equipamentos usados e sim, deve levar em conta todo o processo de modificações ocorrido nas relações sociais de produção". Teixeira (2005) complementa afirmando que,


[...] a verdade é que a modernização da agricultura segue os moldes capitalistas e tende a beneficiar apenas determinados produtos e produtores, tendendo a fortalecer a monocultura. Com a modernização ocorre o que vários autores denominam de "industrialização da agricultura", tornando-a uma atividade nitidamente empresarial, abrindo um mercado de consumo para as indústrias de máquinas e insumos modernos [...] Com novas técnicas e equipamentos modernos, o produtor passa a depender cada vez menos da "generosidade" da natureza, adaptando-a mais facilmente de acordo com seus interesses. No entanto, por esse caminho a agricultura está cada vez mais subordinada à indústria, que dita as regras de produção (TEIXEIRA, 2005, pp. 22-23).

O capitalismo em sua crescente penetração no mundo rural mediante modos de produção que se desenvolvem por meio da demanda de mercado externo (exportações) tem capitalizado cada vez mais a renda da terra. Os efeitos mais marcantes tem sido a geração ou aprofundamento da desigualdade social e a diferenciação quanto à extração da renda da terra com relação aos pequenos agricultores rurais.
Estes não têm conseguido (em grande parte) inserção no mercado moderno, ora por não resistirem em vender suas propriedades, por não ter condições materiais e financeiras ou simplesmente pelo fato de que para eles a renúncia à modernização agrícola seja uma forma (desejo) de manter seus modos de produção como o mais adequado a sua vida, assim não aderindo a outras formas de produção.
Destarte, a industrialização crescente das relações de produção no campo tem propiciado aumento do êxodo rural. Os pequenos produtores não têm sido atendidos em sua totalidade pelas políticas públicas, no sentido de facilidades de credito agrícola, apoio infra-estrutural, assistência técnica e facilidades de comercialização das produções. O mercado da agricultura moderna, assim, impulsionou uma situação de concorrência desigual onde os grandes proprietários sempre são os beneficiados.
A intensificação da questão da reforma agrária, entendida como a luta pela posse e manutenção da terra, em contraposição a sua concentração histórica e a desigualdade inerente, é uma das principais formas de manifestação que vai de encontro aos princípios da modernização da agricultura (grosso modo). No Brasil parece que a historia tende a repetir-se, onde os poucos ainda possuem grandes propriedades fundiárias e muitos possuem pequenas.
Portanto, o intuito é de ressaltar que a reforma agrária é algo importante, e precisa ser repensada nos moldes atuais, ante a modernização da agricultura, no sentido de provocar homogeneização quanto à apropriação e posse fundiária, e à renda que ela pode gerar sob determinadas condições socioeconômicas das diversas categorias de proprietários.
É bastante complexo e contraditório o processo de modernização da agricultura! Por isso mesmo existe diversos vieses a serem abordados. Mas, é primordial destacar sua importância no âmbito econômico do país. Em prol do tão afamado ?desenvolvimento econômico? têm-se investido fortemente no agronegócio como forma de conquistar altos patamares nas relações comerciais em escala mundial.
Não é à toa que o Brasil têm se destacado entre os maiores produtores agrícolas de diversas culturas em detrimento do aumento da produção de culturas de subsistência, importantes para regularizar e/ou manter o preço da alimentação do país em situação estável. Assim:

O quadro que se forma no campo brasileiro é de uma estrutura fundiária altamente pautada na concentração de terras nas mãos de uma minoria, com uma produção voltada para exportação e para servir como matéria-prima para as indústrias, com crescente diminuição na produção de alimentos para o mercado interno e marginalização dos pequenos produtores rurais (SILVA, 1981, p.44 apud TEIXEIRA, 2005, p. 28).

Não se trata de contestar os impactos favoráveis obtidos na balança comercial via aumento das exportações e conseqüente aumento do PIB, fatores (entre outros) condicionantes para o crescimento econômico, metamorfoseado pela idéia ?desenvolvimento econômico? do país. Ou seja,

[...] com o crescente avanço da industrialização e urbanização no Brasil, a modernização do setor agrário se torna necessária dentro do contexto que a envolve. Era necessário produzir alimentos e produtos para exportação para controlar a balança comercial do país [...] (TEIXEIRA, 2005, pp. 25-26).

Urge refletir como tem acontecido essa modernização agrícola, a quem ela tem beneficiado, e se há possibilidades de associação entre a adoção de novas tecnologias em prol de altas produtividades, concomitantemente à distribuição e apropriação igualitária da posse da terra; além de propiciar melhores condições de vida e produção para os pequenos proprietários, afetados diretamente por esse processo de penetração da industrialização e/ou modernização das relações produtivas no campo.
Enfim, em virtude dos fatos abordados pode-se perceber que a modernização da agricultura provocou uma complexificação da problemática agrária, e modificou profundamente as relações socioeconômicas no campo, no que tange a ocupação, produção e organização do espaço agrário brasileiro.

REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY, Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo: HUCITEC, 1992.

MARTINS, José de Souza. Impasses sociais e políticos em relação à Reforma Agrária e a agricultura no Brasil. Disponível em Acesso em: 17 de Fevereiro de 2009.

NAVARRO, Z. S. . Desenvolvimento rural no Brasil: os limites do passado e os caminhos do futuro. Estudos Avançados, USP, v. 15, n. 43, p. 83-100, 2001.

TEIXEIRA, Jodenir Calixto. Modernização da agricultura no Brasil: impactos econômicos, sociais e ambientais. Três Lagoas ? MS, Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros, v. 2, n. 2, ano 2, Setembro, 2005. Disponível em: . Acesso em 18 de Fevereiro de 2009.
 
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