RESUMO: Este artigo visa apresentar os aspectos geográficos da paisagem presentes na obra Nova Atlântida de Francis Bacon e suas relações com a importância do trabalho de campo para interpretar a natureza. Como apoio à esta interpretação da obra filosófica de Nova Atlântida, é apresentado a proposta do método científico de Francis Bacon na obra Novum Organum e suas contribuições nas pesquisas em Geografia Física. A análise dos aspectos geográficos do imaginário de Francis Bacon é apoiada no espírito expedicionário de Alexander Von Humboldt que apresenta os aspectos da paisagem natural em sua obra semântica Quadros da Natureza. Para a ciência geográfica, o diálogo dos autores em relação à indução pelo trabalho de campo e contato com o objeto de estudo contribui na análise da categoria lugar e como as pesquisas no campo da Geografia Física podem ser direcionadas para preservação e conservação da natureza.

PALAVRAS-CHAVE: trabalho de campo; paisagem; interpretação da natureza.

 

INTRODUÇÃO

 

A obra Nova Atlântida foi publicada em 1627, cujo autor Francis Bacon (1561-1626) não terminou a narrativa, devido seu falecimento decorrente de uma tuberculose.

A denominação Nova Atlântida se refere a um cenário fictício da ilha de Bensalém, cujo autor faz assimilações à Atlântida, governada por Netuno, apresentada por Platão em Timeu. Em sinopse, um grupo de navegadores veleja do Peru em direção ao Extremo Oriente e desembarcam na ilha de Bensalém e são acolhidos por uma civilização avançada para a época, cujo Francis Bacon apresenta uma narrativa metafórica, mas ao mesmo tempo com elementos próximos do que realmente aconteceram na história da Humanidade, como a navegação dos fenícios, cartaginenses e chineses na Idade Antiga, a dominação dos povos pré-colombianos pelos espanhóis, avanços na medicina e prolongamento da expectativa de vida.

Os críticos avaliam a obra como utópica e com elementos doutrinários. No entanto, após a interpretação científica e imparcial, pode-se considerar com a presença de metáforas e com traços de concepções religiosas, mas esta linguagem é fruto da criatividade do filósofo que idealizava o desenvolvimento tecnológico e tinha ideias à frente do seu tempo.

Ao realizar a apresentação da obra Nova Atlântida, William Rawley, secretário particular de Francis Bacon, considera: “um modelo ou a descrição de um colégio instituído para a intepretação da natureza e produção de grandes e maravilhosas obras para o benefício do homem”. Neste sentido, conforme apresenta a proposta filosófica na obra Novum Organum, Francis Bacon considerava que o homem não tem a capacidade de dominar a natureza, e precisa elaborar experimentos para investigar os fenômenos naturais a fim de interpretar os “segredos” da natureza. Logo, Francis Bacon é um filósofo conhecido por suas contribuições na História Natural e por suas críticas à filosofia moral aristotélica que considerava a possibilidade de domínio da natureza.

O contexto histórico das Grandes Navegações, com o espírito de descoberta e expedições, levou Francis Bacon a trazer elementos importantes para a Geografia como a presença de astronomia, terremotos, inundações, fenômenos meteorológicos (neve, granizo, trovões, chuva e relâmpagos), águas termais, cataratas, mananciais, fósseis, metais e pedras preciosas.

Além destes elementos relacionados à paisagem natural que podem ser utilizados nas aulas ministradas na educação básica, Francis Bacon apresenta na parte final da obra Nova Atlântida apresenta a proposta de método experimental que pode ser utilizada na formação de futuros pesquisadores.

 

ANÁLISE DOS ELEMENTOS GEOGRÁFICOS E HISTÓRICOS DA OBRA NOVA ATLÂNTIDA

 

A obra Nova Atlântida, ao apresentar uma narrativa sobre a navegação e o descobrimento de uma ilha chamada “Bensalém”, monta o contato com uma civilização desconhecida. Nos trabalhos de campo, os geógrafos se deparam com uma paisagem que pode apresentar novas ideias sobre o mundo.

Na narrativa, Bacon (1979, p. 244) afirma: “conhecemos bem a maior parte do mundo habitado, e de nossa parte, somos desconhecidos [...] éramos de diferentes confins do mundo, e esperávamos que nos encontraremos seguramente de novo”. Neste sentido, Bacon (1979, p. 247) afirma: “aquele que viaja a um país estranho em geral aprende mais através da vista que aquele que permanece em casa, fazendo-o através de relatos de viajantes, mas ambos os meios são suficientes para promover o mútuo conhecimento”, ou seja, Bacon considera que precisamos buscar a realidade empírica para conhecer melhor o mundo, mas nossos relatos também auxiliam os demais que não possuem essa oportunidade a conhecer melhor sobre o mundo.

Bacon (1979) apresenta um fator importante da história da humanidade no processo de mundialização da economia, o desenvolvimento das navegações pelos povos antigos, inclusive antes das Grandes Navegações dos espanhóis e portugueses. De acordo com Bacon (1979, p. 248) “os fenícios, e especialmente os tírios, tinhas grandes frotas. Os cartaginenses tinham sua colônia, que era mais para ocidente. Em direção ao leste, a navegação do Egito e da Palestina era igualmente intensa. A China também, e a grande Atlântida (a que vocês chamam América) que hoje só tem juncos e canas, eram então florescentes de grandes embarcações”.

Ao considerar a América pré-colombiana como “Atlântida”, Bacon (1979, p. 249) relata a imponência das civilizações astecas, maias e incas como “reinos orgulhosos e poderosos em armas, navios e riquezas”. A História nos mostrou que os espanhóis ao explorarem os minérios da América, dizimaram estas populações e juntamente seu conhecimento acumulado por séculos, do qual Bacon (1979) relata de “calamidade da América”.

Além do fato histórico de extermínio das populações pré-colombianas, Bacon (1979) apresenta a resistência da China perante o colonialismo europeu: “é verdade que lei semelhante, contra a admissão de estrangeiros, sem prévia licença, é velha no reino da China, e ainda em uso”.

Até nossos dias existe um debate entre Criacionismo e Evolucionismo para explicar a origem de nosso planeta e a escala geológica de tempo. Bacon (1979), a partir de sua concepção criacionista, relata a ocorrência do Dilúvio Universal: "a inundação não foi muito profunda: não mais que quarenta pés de altura sobre a terra, na maior parte dos lugares; de forma que, ainda que destruísse homens e animais em geral, alguns selvagens habitantes dos bosques escaparam [...] os pobres remanescentes do gênero humano que permaneceram nas montanhas repovoaram o país lentamente" (BACON, 1979, p. 250).

As Geociências comprovaram as mudanças nos níveis dos mares ao longo da história geológica, e possivelmente as inundações ocorreram, provocando a migração de espécies animais, incluindo o Homo Sapiens. Além disso, a elevação atual ou futura dos níveis dos mares pode estar relacionada aos fatores naturais de oscilação climática.

As expedições realizadas por Marco Polo (1254-1354) e outros exploradores são simbolizadas por Bacon (1979, p. 253) que descreve sobre a importância do contato dos europeus com as civilizações orientais, como afirma: “cuja missão seria apenas a de nos dar a conhecer os assuntos e o estado, naqueles países para os quais fossem enviados, especialmente, das ciências, artes, manufaturas e invenções de todo o mundo; e também trazer livros, instrumentos e modelos”. Para Bacon (1979) estas expedições contribuíram com o avanço do conhecimento que é representado pela “luz”.

 Os campos da Geografia Física são relatados por Bacon (1979) através da presença de aspectos geológicos, pedológicos, hidrológicos e meteorológicos.

Ao narrar sobre os aspectos geológicos e de mineração, Bacon (1979, p. 262-263) descreve: “possuímos amplas cavernas, com vários graus de profundidade, e as mais profundas penetram a terra [...] algumas delas foram escavadas sob altas colinas ou montanhas, de forma a reunir a altitude da colina à profundidade da caverna [...] também temos tanques, onde se extrai água pura [...] temos rochas no meio do oceano, e enseadas para as operações que exigem o ar e os vapores do mar”.

Sobre a Pedologia, Bacon (1979, p. 263) descreve sobre a importância da argila e húmus: “em diversos tipos de terreno, onde colocamos diversos tipos de cimento, como aqueles com os quais os chineses fazem a porcelana [...] E ainda uma extensa variedade de compostos de terra e de adubos para tornar a terra mais fértil”.

A respeito da Meteorologia, Bacon (1979, p. 263-264) apresenta elementos meteorológicos que foram posteriormente investigados pelos experimentos científicos: “tais torres, conforme sua altura e posição, servem para os experimentos de isolamento, refrigeração e conservação, e para as observações atmosféricas, como o estudo dos ventos, da chuva, da neve, granizo e de alguns meteoros ígneos”. Neste contexto, Bacon (1979, p. 264) prevê invenções que seriam da Agronomia como as estufas de desenvolvimento das plantas e até o fenômeno da chuva ácida: “casas grandes e espaçosas, onde imitamos e reproduzimos os fenômenos meteorológicos, como a neve, o granizo, a chuva e algumas chuvas artificiais de substâncias diferentes da água, trovões, relâmpagos”.

Sobre a Astronomia, o Sensoriamento Remoto e a Cartografia, Bacon (1979, p. 267), através dos estudos da ótica em sua época, previa a invenção de instrumentos capazes de observar astros e estrelas: “temos também casas de perspectiva, nas quais fazemos demonstrações de todas as luzes e radiações e cores [...] dispomos de meios de ver os objetos a distância, como os do céu e dos lugares remotos do espaço, e também para fazer parecerem distantes coisas próximas e próximas coisas distantes”.

Neste sentido, a obra Nova Atlântida apresenta elementos geográficos e históricos importantes a serem utilizados em sala de aula da educação básica. Além disso, os pesquisadores que atuam como professores do ensino superior podem também utilizar-se da filosofia de Francis Bacon nas aulas sobre Geografia Física.

 

O MÉTODO CIENTÍFICO DE FRANCIS BACON E A GEOGRAFIA FÍSICA

 

Na obra Novum Organum, Bacon (2003) apresenta uma proposta de método científico, um caminho, para investigar os “segredos da natureza”, através de experimentos a fim de produzir conhecimento pela prática nas descobertas empíricas.

Bacon (1979) considera a importância de novos experimentos na busca por novas descobertas e invenções. Para este autor “sintetizam as descobertas anteriores, feitas por experimentos, em observações, axiomas e aforismos de maior generalidade. A esses chamamos de intérpretes da natureza” (BACON, 1979, p. 270, grifo do autor). Neste sentido, Francis Bacon propõe a interpretação da natureza para descobrir seus segredos através da investigação dos fenômenos com as observações e experimentações.

A Geografia Física, ao estudar a natureza e suas relações com a sociedade, já está desenvolvendo métodos científicos através dos estudos dos processos erosivos na Geomorfologia, como apresenta Guerra (2005). No campo da Climatologia Urbana, são cada vez mais presentes os monitoramentos de campo nas áreas urbanas para mensurar os elementos do clima com dados georreferenciados, como apresenta Amorim; Sant’Anna Neto; Dubreil (2009).

Além dos experimentos de campo, os geógrafos podem avançar no uso das Geotecnologias para elaborar os mapeamentos em grandes escalas com riquezas de detalhe. Estas Geotecnologias, cada vez mais aprimoradas, contribuem para o ensino da Geografia sobre a compreensão dos fenômenos naturais através das imagens de sensoriamento remoto.

 

OS QUADROS DA NATUREZA DE HUMBOLDT E AS EXPEDIÇÕES

 

A Geografia Física foi sistematizada pelo barão prussiano Alexander Von Humboldt (1769-1859). Humboldt foi um geógrafo naturalista que realizou expedições na América Latina, sendo impedido de investigar o território brasileiro, pois o Segundo Império concebeu a ideia de possibilidade de espionagem.

As concepções de Francis Bacon sobre a importância da busca pelo desconhecido para o amadurecimento intelectual, retratadas em Nova Atlântida sobre a descoberta da ilha de Bensalém, são conciliadas com o espírito expedicionário de Humboldt através de suas descrições da paisagem natural.

Na obra Quadro da Natureza, Humboldt (1964) apresenta uma visão semântica da paisagem através do conhecimento da Geografia Geral. Em sua época, os cientistas possuíam um conhecimento holístico e não eram influenciados pelas especializações das áreas do saber.

A partir do conhecimento holístico, Humboldt (1964, p. 12) apresenta seu método de pesquisa “um dos resultados da geografia geral que melhor compensa os esforços que custa, consiste em ligar a constituição física de regiões separadas por vastos intervalos, mostrando, em alguns traços, a utilidade de tal comparação”. Neste sentido, Humboldt apresenta a análise da paisagem através da comparação da constituição física (Geografia Geral) das regiões.

Além do conhecimento da Geografia Geral, a descrição da paisagem em Humboldt (1964) apresenta uma proposta semântica com uma linguagem que vislumbra o leitor, conforme afirma:

 

A abóbada celeste, como que achatada, deixa cair, sobre o plano do deserto, luz pálida e sombria. Aproximam-se subitamente os limites do horizonte, a estepe reduz-se e aperta-se o coração do viajante. A terra, abrasada e pulverulenta, que flutua na atmosfera, como se fosse espesso vapor, ajunta o seu calor à calma sufocante do ar e, quando o vento do oriente chega a passar sobre este solo incandescente, em vez de trazer frescura, pelo contrário, mais ardente (HUMBOLDT, 1964, p. 20-21).

 

As descrições de Humboldt também apresentam conhecimentos científicos e analíticos sobre a Geologia, conforme apresenta:

 

[...] os vulcões em atividade estão dispostos sobre uma quebrada transversal que corre de leste a oeste e une os mares. Nestes lugares, onde em consequência do gretamento antigo da camada terrestre, ao levantar-se o solo, veio luz para o forno interior, as matérias em fusão continuam atuando contra as massas levantadas, como muralhas, através da rede de fendas de que essas massas estão sulcadas [...] desde muito que se têm sobreposto rochas de idade diversa e penetrado por caminhos abertos. A diferença que existe entre elas depende da elevação e declive das rochas de erupção, como também de progresso lento e complexo da sua transformação acima das gretas cheias de vapores, e que deixam passagem livre ao calor (HUMBOLDT, 1964, p. 51).

 

Humboldt (1964) apresenta análises importantes sobre o mar e os fenômenos atmosféricos e demonstra a ousadia dos navegadores ao desbravarem o Oceano Atlântico, cujo contato dos europeus com os povos pré-colombianos, conforme retratado por Bacon (1979), garantiu um repensar da própria cultura europeia, apesar as consequências históricas de exploração destes povos pré-colombianos. Humboldt (1964), afirma:

 

A abundância das algas e do lodo, a pouca profundidade do mar e a calma inalterável dos ventos, têm sido sempre considerados pelos antigos como fenômenos particulares ao Oceano Ocidental, mais além das colunas de Hércules. Há que suspeitar nestes bosques, e sobretudo no que respeita à falta de ventos, algum rasgo de fé habitual dos Cartagineses que, entregues às vastas operações mercantis, não teriam visto com desagrado a reserva do monopólio da navegação para oeste, desalentando a concorrência por meio de perigos imaginários (HUMBOLDT, 1964, p. 59).

 

Neste sentido, Humboldt (1964) traz o espírito da expedição do cientista de sua época que possuía um conhecimento holístico da história natural através das observações e descrições analíticas deste conhecimento acumulado e aprimorado diante da realidade empírica.

A cosmologia de Humboldt através da Geografia Geral nos leva a repensar a visão de mundo do geógrafo, atualmente muito apegado às tecnologias e às fragmentações do saber. A Geografia Física precisa buscar uma visão integrada da natureza como Humboldt possuía e o espírito desbravador a fim de representar a realidade da natureza presente na paisagem.

 

AS CONTRIBUIÇÕES DOS BARÕES INGLÊS E PRUSSIANO PARA A GEOGRAFIA FÍSICA

 

Apesar da narrativa em Nova Atlântida apresentar aspectos do imaginário em sua época, vários ideais de Bacon se concretizaram com o progresso da ciência, principalmente a partir do final do século XX.

A Geografia Física ao analisar a dinâmica da natureza, tem avançado nos estudos experimentais de campo para dar cientificidade à sua proposta. No entender de Bacon (1979, p. 271) “fazemos também predições de doenças, pragas, invasões de animais nocivos, escassez, tempestades, terremotos, grandes inundações, cometas, estações do ano e de diversas outras coisas e oferecemos conselhos sobre o que deve ser feito para preveni-los e prepará-los”.

A existência de torres de observação meteorológica, as análises de minerais, rochas e da água subterrânea, e os avanços das Geotecnologias de Sensoriamento Remoto são exemplos destes avanços no final do século XX, e no século XXI nossa tendência é ampliar estas metodologias de monitoramento dos fenômenos naturais para garantir nossa sobrevivência e adaptação aos eventos extremos.

A Geografia Física, ao buscar a compreensão da dinâmica da natureza, precisa retomar a importância do empírico e da busca pelas investigações pautadas em dados primários para evitar conclusões precipitadas e influenciadas em concepções restritamente teóricas. Apesar da importância do diálogo com a influência da ação humana na escala local da natureza, é fundamental a retomada da filosofia natural e da história natural.

De acordo com Bacon (2003, p. 82) “deve-se preparar uma História Natural e Experimental que seja suficiente e correta (exata), pois é o fundamento de tudo o mais. E não se deve inventar ou imaginar o que a natureza faz ou produz, mas descobri-lo”. Neste sentido, Francis Bacon considera que a ciência precisa evitar conceitos e teorias que interpretam a natureza da forma errada e precipitada sem comprovações empíricas, inclusive a concepção errônea que o homem seja capaz de recriar processos naturais.

Ao buscar a investigação no campo, o geógrafo físico precisa despertar o espírito da descoberta através da análise da paisagem natural. No entender de Bacon (2003, p. 104) “ao homem não é dado o poder de se emancipar e libertar-se do curso da natureza e aventurar-se a novas causas eficientes e novas de operar, afora da revelação e da descoberta de tais formas”.

Humboldt (1964) considera a importância do pesquisador em realizar as viagens (trabalhos de campo) para despertar as ideias a partir das imagens presenciadas na realidade encontrada nas paisagens. Este autor considera:

 

Estas imagens caprichosas da juventude e da agitação, opostas à secura e inércia da terra envelhecida, não podem brotar senão nos espíritos que se comprazem em procurar contrastes entre ambos os hemisférios, e não se dão ao trabalho de abraçar, num olhar geral, a estrutura do corpo terrestre (HUMBOLDT, 1964, p. 123-124)

 

As forças da natureza são consideradas por Humboldt através das análises dos fenômenos apresentes na paisagem. Este autor menciona em detalhes os conhecimentos da Geologia, em sua época influenciada pelas fundamentações de Nicolaus Steno (1638-1686), e apresenta a influência da teoria do Dilúvio Universal na análise de fósseis presentes nas camadas estratigráficas:

 

Que fenômenos tão pobres, comparados com as revoluções naturais que o geólogo deve supor no estado caótico, para poder explicar a elevação, solidificação e rotura das massas de montanhas. As forças da natureza devem ter produzido efeitos diversos, segundo a diferença das causas [...] o encadeamento e identidade das camadas horizontais e dos restos orgânicos de animais e plantas, nelas encerrados desde tempos antediluvianos, provam também que se formou grande número de depósitos quase ao mesmo tempo, em todas as partes da terra (HUMBOLDT, 1964, p. 124-125).

 

A conscientização da conservação da natureza é evidenciada nas propostas de Bacon e Humboldt. Bacon (2003) considera a importância da ciência na investigação da natureza em busca da verdade dos fatos através de experimentos a fim de evitar especulações por ideias prévias e assim desvendar os segredos da natureza. Humboldt (1964) destaca o espírito desbravador de Cristóvão Colombo que confirmou a existência do Novo Continente (e não ilha) pela imponência do rio Orinoco, como afirma:

 

O aspecto dessa região deu pela primeira vez ao espírito do grande navegador Cristóvão Colombo a firme certeza da existência de um continente americano. Como homem habituado a penetrar os segredos da natureza, deduziu, por conclusão legítima, que só um rio que atravessa uma vasta extensão de território podia arrastar na corrente tão grande massa de água e que a região em que nascera deveria ser um continente e não uma ilha (HUMBOLDT, 1964, p. 214, grifo nosso).

 

Humboldt (1964) salienta a importância da conservação da natureza, sendo que este grande geógrafo possuía um respeito por ela diante de suas expedições quando vivenciou de perto o fascínio pela magnitude da paisagem natural e o risco de futuros danos a serem causados pela ação humana. Segundo o autor:

 

Se todas das flores do espírito murcham, se o tempo arrasta nas suas tormentas as obras do Gênio Criador, do seio da terra bruta sempre nova vida. A natureza fecunda desenvolve interessantemente os seus gérmens sem que pareça inquietar-se em investigar se o homem, raça implacável, a de destruir o fruto antes da sua maturação (HUMBOLDT, 1964, p. 233).

 

O retorno às concepções de Humboldt a respeito da valorização da natureza em sua gênese e a busca pelo desconhecido são elementos a serem retomados pelos geógrafos na atualidade. Atualmente, a fragmentação do conhecimento científico e a concentração das pesquisas dentro dos muros das universidades com ausência de visitas frequentes a campo, torna necessária a busca pelo contato mais próximo com a realidade através dos trabalhos de campo e uma formação mais integrada nas áreas da Geografia para produzir novas ideias.

 

A PAISAGEM E O LUGAR: DIÁLOGO COM OS PENSADORES

 

A paisagem possui uma incontestável importância nas pesquisas em Geografia Física, pois representa as condições empíricas que são constatadas pelo cientista.

Ab’Sáber (2003, p. 09) afirma que: “a paisagem é sempre uma herança [...] herança de processos fisiológicos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram [...] caráter de heranças de processos de atuação antiga, remodelados e modificados por processos de atuação recente”.

Apesar da importância para o conhecimento geográfico destas heranças que representam o passado, o retrato das experiências no tempo presente da paisagem nos leva a pensar no que ocorreu no passado, mas não podemos nos restringir às conclusões obtidas no passado por outros autores. No entender de Kolak e Martin (2004, p. 10): “para saber coisas diretamente, tem que saber com base nas suas experiências do presente”.

A análise empírica e filosófica de Francis Bacon e John Locke (1632-1704) nos leva a considerar a análise da paisagem através dos trabalhos de campo buscando uma representação real e concreta dos fatos nos registros da paisagem no tempo presente. A paisagem é um retrato disponível para o geógrafo constatar o que ocorre na realidade e o pesquisador precisa evitar o julgo prévio das ideias a priori, a fim de evitar uma representação diferente da realidade.

Como exemplo da necessidade de romper com os julgamentos prévios antes da verificação no campo, o geógrafo ao realizar uma descrição pedológica, por exemplo, pode se apoiar na metodologia dos manuais de descrição e coleta de solos no campo, mas precisa coletar o solo e analisá-lo para descrevê-lo a partir de vários dados primários de uma região ou bacia hidrográfica pode apresentar suas conclusões de sua pesquisa empírica. Para Locke (1999, p. 88):

 

Como a mente apreende seus primeiros objetos, quais os passos que a fazem progredir com base na provisão e armazenamento dessas ideias, a partir das quais todo conhecimento de que é capaz de ser modelado; por conseguinte, devo recorrer à experiência e observação para verificar se estou correto: a melhor maneira para atingir a verdade consiste em examinar de que modo as coisas realmente são, e não concluir o que são segundo imaginamos ou fomos ensinados por outrem a imaginar.

 

A proposta experimental do método científico de Francis Bacon apresenta a importância dos estudos empíricos e indutivos, que trazem uma aproximação com a escala geográfica de detalhe no lugar.

Santos (1996) apresenta a chamada “força” do lugar no intuito de que as culturas locais possuem seu papel de contrapor à imposição da cultura de massa e às verticalidades. Neste contexto, cada lugar apresenta sua identidade territorial e cultural, cujo geógrafo através dos estudos empíricos com relatos e depoimentos pode representar de forma fiel a realidade vivenciada pelas comunidades tradicionais, que dependem da natureza para garantirem sua sobrevivência.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O resgate filosófico e geográfico dos escritos de Francis Bacon e Alexander Von Humboldt nos leva à importância da interpretação da natureza para desvendar seus segredos através de trabalhos de campo, cujos autores analisados apresentaram resultados de viagens fictícias e expedições.

A viagem fictícia realizada pelo filósofo Francis Bacon em Nova Atlântida nos revela a importância de romper com o medo do desconhecido, buscar a riqueza de culturas dominadas e esquecidas, as contribuições de religiosos para o desenvolvimento científico, a compreensão e o monitoramento dos fenômenos naturais para a realização de previsões a fim de evitar os futuros riscos para a população.

O desenvolvimento científico e tecnológico, considerado utópico na época de Francis Bacon, se concretizou posteriormente com as inovações no campo da Astronomia, das Geociências, da Meteorologia e do Sensoriamento Remoto. No contexto atual, estas áreas contribuem com as análises geográficas dos fenômenos naturais e a Geografia Física precisa apoiar suas propostas na busca pelos dados empíricos e assim produzir as informações geográficas.

As expedições de Humboldt não apresentam apenas o espírito aventureiro e desbravador, mas principalmente o conhecimento integrado dos pesquisadores de sua época, que se perderam, posteriormente, com a crescente especialização do conhecimento científico e a ausência da busca pelos trabalhos de campo em áreas isoladas no contexto contemporâneo.

A obra Quadros da Natureza de Humboldt demonstra a valorização do natural e o respeito necessário nos tempos atuais diante da crise ambiental pelo uso irracional dos recursos naturais e os impactos causados à natureza por erros cometidos pela falta de consulta aos pesquisadores que conhecem a natureza em sua dinâmica.

A Geografia Física necessita organizar suas propostas metodológicas a partir dos resultados dos trabalhos de campo com uma investigação planejada a fim de diagnosticar os problemas de degradação ambiental e propor medidas mitigadoras. Assim, as pesquisas científicas na Geografia Física terão mais proximidade com a extensão, visto que a prática de campo leva à formulação concreta de propostas de recuperação da natureza.

 

REFERÊNCIAS

 

AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê, 2003.

AMORIM, M. C. C. T.; SANT’ANNA NETO, J. L.; DUBREIL, V. Estrutura térmica identificada por transectos móveis e canal termal do Landsat 7 em cidade tropical. Revista de Geografia Norte Grande, n. 43, p. 65-80, 2009.

BACON, F. Nova Atlântida. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, Tradução de José Aluysio Reis de Andrade, Coleção Os Pensadores.

BACON, F. Novum Organum: ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2.ed. Pará de Minas: Virtualbooks, 2003.

GUERRA, A. J. T. Experimentos e monitoramentos em erosão de solos. Revista do Departamento de Geografia, São Paulo, n. 16, p. 32-37, 2005.

HUMBOLDT, A. Quadros da Natureza. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1964, tradução de Assis Carvalho.

KOLAK, D.; MARTIN, R. Sabedoria sem respostas: uma breve introdução à Filosofia. Lisboa: Temas e Debates, 2004.

LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1999, Tradução de Anoar Aiex.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 1996.