CONCEITOS, OBJETIVOS E PRINCÍPIOS DA AGROECOLOGIA
 
CONCEITOS, OBJETIVOS E PRINCÍPIOS DA AGROECOLOGIA
 


CONCEITOS, OBJETIVOS E PRINCÍPIOS DA AGROECOLOGIA
Helio Teixeira Leite*
Resumo: Este artigo aborda os desafios da produção agrícola para uma sociedade em constante crescimento social, econômico tendo a necessidade, também, crescente da preservação ambiental. A Revolução Verde e suas duas missões importantes: a maximização da produtividade e do lucro. As conseqüências do modelo de produção da agricultura convencional. A Agroecologia definida de varias formas. A Agroecologia contrapondo a chamada agricultura tradicional. A Agroecologia e os elementos: conservação e regeneração dos recursos naturais; Manejo dos recursos produtivos; Implementação de elementos técnicos. A multidimensão da Agroecologia.

Palavras Chave: Sistemas atuais de produção agrícolas não sustentáveis Revolução Verde. Insustentabilidade da Agricultura Moderna. Conceitos, objetivos e princípios da Agroecologia.

Abstract: This article discusses the challenges of agricultural society to an ever-growing social, economic, have also increased the need for environmental conservation. The Green Revolution and its two important missions: to maximize productivity and profit. The consequences of the production model of conventional agriculture. Agroecology defined in various ways. Agroecology opposing the so-called traditional agriculture. Agroecology and the elements: conservation and regeneration of natural resources, management of productive resources, implementation of technical elements. The multidimensão Agroecology.
Keywords: Current systems of agricultural production unsustainable Green Revolution. Unsustainability of modern agriculture. Concepts, objectives and principles of agroecology

Pontos de Partida

O maior problema e desafio em relação à produção agrícola para a sociedade atual é manter um equilíbrio sadio dessa produção com crescimento socioeconômico e a proteção ambiental.
As pressões populacionais, inovações tecnológicas de extração dos recursos naturais, conflitos éticos, econômicos e sociais, os movimentos migratórios, a exploração irresponsável de Governos Nacionais e Transnacionais, têm levado a exaustão dos recursos naturais não renováveis, locais e globais. Do ambiente ecologicamente equilibrado e sustentável, a curto, médio, longo prazos dependerá a qualidade de vida da humanidade, atualmente, e da sobrevivência das gerações futuras.
É possível minimizar os impactos negativos ao meio ambiente, promovendo-se, no meio rural, o aumento da biodiversidade de sistemas e adequado uso de tecnologias ecológicas, consolidando processos produtivos agropecuários.
Deve-se saber que, enquanto a agricultura convencional maximiza-se entrada de energia externa no sistema, através de intervenções por operações como: aração, fertilizantes sintéticos altamente solúveis, herbicidas ? na Agroecologia, maximizam-se os processos biológicos e as interações ecológicas, tais como: revolvimento do solo pela fauna, plantio direto, cultivo mínimo, reciclagem biológica de nutrientes pelo uso de leguminosas em rotação de cultura, consórcio, controle biológico.

Sistemas Atuais de Produção Agrícolas Não Sustentáveis.

O grande fantasma da fome mundial previsto na década de 70 foi, parcialmente, superado devido aos incrementos tecnológicos providos pela Revolução Verde. Esse modelo de produção foi e ainda continua sendo o responsável pelo grande aumento da produtividade de alimentos e redução dos preços dos gêneros alimentícios, entretanto, essa Revolução, ao longo do tempo, encarregou-se de apresentar ao mundo sérias conseqüências negativas - ameaçando a sustentabilidade ecológica, econômica e social das populações do planeta.
A Revolução Verde tem suas duas missões importantes: a maximização da produtividade e do lucro. É com esses objetivos que a nossa agricultura se sustenta. Para atingir tais objetivos foi necessário criar o pacote tecnológico com técnicas agrícolas programadas e uniformes para todas as regiões agrícolas do mundo. Esse pacote incluiu seis práticas básicas: cultivo intensivo do solo, monocultura, irrigação, aplicação de fertilizantes, controle químico de pragas e doenças agrícolas e de ervas adventícias, manipulação genética de plantas cultivadas.
Na agricultura moderna (convencional) o plantio é considerado uma fábrica, tem-se sua eficiência melhorada com a alteração genética; o solo é visto como um substrato pelo qual a planta está ancorada.

Insustentabilidade da Agricultura Moderna

As conseqüências do modelo de produção da agricultura convencional são várias: degradação do solo, desperdício e uso exagerado de água, poluição do ambiente, perda da biodiversidade, perda do controle local sobre a produção agrícola, desigualdade social e econômica global.
Estudos têm mostrado que no Brasil e no mundo que a perda do solo está entre a faixa de 9,5 a 21,1 ton./ha/ano e a reposição não passa de 1,5 ton./ha/ano. Alem da erosão, há outros prejuízos, como assoreamento dos cursos de água, lagos, córregos, rios, e por fim, o oceano.
A falta de água doce já é considerada o maior problema mundial no futuro. Existem países que já estão importando água doce de outros, pois já não a tem. Devem-se procurar métodos não dispendiosos de irrigação, uma vez que, as fontes superficiais e subterrâneas estão em processo acelerado de esgotamento.
Os usos de herbicidas, de fertilizantes solúveis provocam a contaminação de diversos sistemas abióticos e bióticos. A principal contaminação é notada na água que no homem ? em virtude do efeito acumulativo - pode ocasionar intoxicação, alterar a fertilidade humana e provocar até o câncer. Existem produtos pouco degradáveis que ficam no solo por mais de décadas, intoxicando plantas, animais e fonte de água doce.
A variabilidade genética é uma dos índices de sustentabilidade mais importante que permite a alta adaptabilidade às condições adversas do ambiente. Em uma planta homogênea, geneticamente, corre-se o risco de aparecer doenças que ataquem toda a lavoura; em um cultivo geneticamente diversificado é possível existir individuo mais susceptíveis e outros mais tolerantes a pragas, doenças e às intempéries naturais.
Outra conseqüência do modelo agrícola convencional é a perda do controle local sobre a produção, uma vez que, os produtores perdem a capacidade de liberdade para produzir sem utilizar insumos (é a dependência de energia externa ao sistema). Por outro lado, os produtos agrícolas são commodities. O preço do insumo é dado pelo fabricante, o preço do produto é dado pelo mercado. O produtor perde o controle de sua produção, ficando descapitalizado, sem recursos financeiros para investimento; a conseqüência é o êxodo rural para os grandes conglomerados em busca de trabalho e renda.
Este cenário de desequilíbrio motivou movimentos questionadores que debatem uma maneira de trabalhar a produção de alimentos, de forma sustentável, surge a Agroecologia.
A Agroecologia é definida de varias formas, dependendo da visão cognitiva, filosofia e religião de críticos, cientistas e segmentos sociais e produtivos. É um conjunto de princípios que se materializam através das Agriculturas Alternativas. Orienta no sentido de uma agricultura multidimensional com sustentabilidade: econômica, geológica, social, cultural, ética e política. Esse conjunto de princípios tem ensejado estudos que envolvem a agrobiodiversidade, a não industrialização da vida, a não hiperespecialização do conhecimento dos agrossistemas produtivos, a biologizaçao da agricultura, a ecologização seletiva de transição de um modelo produtivo convencional para um agroecologico, a interdisciplinaridade, a participação do produtor na construção local dos modelos mais adequado a sua realidade.
Conforme CAPORAL e COSTABEBER, a Agroecologia proporciona as bases cientificas e metodológicas para a promoção de estilos de agriculturas sustentáveis, produção de alimentos em quantidade adequada:

A Agroecologia proporciona as bases científicas e metodológicas para a promoção de estilos de agriculturas sustentáveis, tendo como um de seus eixos centrais a necessidade de produção de alimentos em quantidades adequadas e de elevada qualidade biológica, para toda a sociedade. Apesar de seu vínculo mais estreito com aspectos técnico-agronômicos (tem sua origem na agricultura, enquanto atividade produtiva), essa ciência se nutre de diversas disciplinas e avança para esferas mais amplas de análise, justamente por possuir uma base epistemológica que reconhece a existência de uma relação estrutural de interdependência entre o sistema social e o sistema ecológico (a cultura dos homens em coevolução com o meio ambiente).

Conceitos, Objetivos e Princípios

A Agroecologia deriva de duas ciências: Ecologia e Agronomia. Esta aplica metodologias cientificas no campo agrário; a primeira somente se preocupa em investigar temas de sistemas naturais. Nenhuma das duas interralacionavam, com raras exceções, até um período mais recente com a criação da Agroecologia.
Na década de 30, ecologistas propuseram o termo Agroecologia como Ecologia aplicada na agricultura. Após a II Guerra Mundial, o distanciamento entre a Ecologia e a Agronomia aumentou com a adoção de tecnologias baseadas em princípios químico-físicos. Após a década de 50, quando se despertou maior interesse em ecossistemas, foi criado um ramo da Ecologia denominado de Ecologia Agrícola. Foi na década de 80 que o setor agrícola de pesquisa iniciou trabalhos com a Ecologia aplicados a Agricultura. Na década de 90, a Agroecologia toma certo corpo como um novo paradigma científico a ser adotado que leva em consideração fundamentos baseado na Ecologia e Agricultura ? os chamados fundamentos biológicos.
Atualmente, está em curso um intenso debate conceitual sobre a Agroecologia, embora esse termo tenha sido utilizado há mais tempo. Estudiosos brasileiros e internacionais têm contribuído para a visibilidade do termo, dentro da cultura e ciências contemporâneas. O conceito em construção é inspirado em funcionamentos dos ecossistemas naturais, no manejo tradicional e indígena dos ecossistemas naturais e no conhecimento cientifico.
A Agroecologia contrapõe a chamada agricultura tradicional que por sua vez se fundamenta na premissa filosófica como no Atomismo que postula que as partes dentro de um sistema podem ser entendidas pelo estudo das mesmas, sem precisa correlacioná-las, sendo o sistema a soma das partes envolvidas; o Mecanismo postula que as relações entre as partes estão fixas; as relações do sistema não mudam. No Universalismo o mundo e as relações existentes podem ser explicados por um número relativamente pequeno de princípios universais, o Objetivismo postula que as ações, valores, podem manter-se aparte do sistema que estudar-se; conforme o Monoísmo, os estudos - individualmente - funcionam de modo coerente; já o Reducionismo postula que todo o estudo deve ser simplificado, nada é complexo no sistema.
Diante de tais premissas dominantes surge o pensamento alternativo que fundamenta a Agroecologia, principalmente, na construção de seu conceito e definição de seus objetivos. As principais premissas são o Holismo que postula a visão do sistema a partir das partes, da relação entrem essas, das relações externas. É a visão no sentido multidimensional. O Determinismo postula o conhecimento das partes sem deixar de aceitar o Mecanismo. As relações entre as partes podem ser fixas, também, variáveis, dependendo da evolução das relações das partes. O Contexturalismo definiu os fenômenos como sendo provocados por grande número de fatores particulares no tempo e no espaço. O Pluralismo procura mostrar que os sistemas complexos só podem conhece-se mediante fatores múltiplos e pensamentos diferentes.
Pode-se enfatizar que a Agroecologia não nega os aprendizados com a Ciência Agrícola dos sistemas produtivos atuais ? ela apenas expande o conhecimento para aperfeiçoar e melhorar a maneira que atuamos no mundo.
Observa-se, hoje, certa confusão conceitual entre Agroecologia e Agriculturas Ecológicas, dentre elas, especialmente em relação à Agricultura Orgânica. Agricultura Ecológica surge para traduzir uma variedade de manifestações que vinha sendo tratadas como Agriculturas Alternativas, entre elas: Agricultura Natural, Agricultura Orgânica, Agricultura Biológica, Agricultura Biodinâmica, Permacultura e outras.
As Agriculturas Ecológicas nem sempre aplicam os princípios da Agroecologia; as primeiras estão voltadas exclusivamente para nichos de mercado; enquanto a última tem uma dimensão ecológica e social, sendo um referencial teórico, orientador para as experiências de Agricultura Ecológica que ganha caráter concreto quando aplicado às realidades locais; as experiências locais podem validar os princípios, ponderando cada qual e enriquecendo a própria concepção teórica da Agroecologia, esta tem inspirado e contribuído para a construção de um banco de referencias com potencial para inspirar o desenho e o manejo de agroecossistemas sustentáveis nas mais variadas condições.
Agroecologia é considerada como ciência emergente, orientada por uma nova base epistemológica e metodológica, é um campo do conhecimento transdisciplinar, que recebe as influências das ciências sociais, agrárias e naturais. Tem base na relação sinérgica entre a evolução do conhecimento cientifico e do saber popular e a sua necessidade integração. No aspecto, mais técnico, a Agroecologia encerra os seguintes elementos: a) Conservação e regeneração dos recursos naturais ? solo, água, recursos genéticos, alem da fauna e floras benéficas; b) Manejo dos recursos produtivos ? diversificação ? reciclagem dos nutrientes e da matéria orgânica e regulação biótica; c) Implementação de elementos técnicos, definição de técnicas ecológicas, escala de trabalho, integração dos elementos dos sistemas em foco e adequação a racionalidade dos agricultores.
Um conceito igualmente importante para a Agroecologia é a agrobiodiversidade que pode ser entendida como um recorte da biodiversidade, caracterizada por um processo de relações e interações entre plantas cultivadas, seu manejo e os conhecimentos tradicionais a eles associados.
A multidimensão da Agroecologia exige, também, abordagens de trabalho conjunto de pesquisadores de diferentes disciplinas; e de acordo com o grau de interação podem se classificados em: a) multidisciplinaridade que consiste em vários pesquisadores de diferentes disciplinas se dedicarem ao mesmo objeto de estudo, usando metodologias especifica e obtidos os resultados, se reúnem para formar um quadro geral do objeto de estudo ? b) interdisciplinaridade que acontece quando vários pesquisadores de diferentes disciplinas se dedicando ao mesmo objeto de estudo, definido em conjunto as metodologias comuns, analisando os resultados em conjunto; c) transdisciplinaridade é o conhecimento novo que está alem das disciplinas, incorporando novos conceitos, novos pressupostos e metodologias de estudo.

Considerações Finais.

E finalmente, não há receitas prontas, não é possível desenvolver pacotes tecnológicos agroecológicos para desenvolver o sistema. Os passos possíveis e não exclusivos para a construção do novo sistema de produção agroecológico poderão ser: a) redução da dependência de insumos comerciais ? b) utilizar recursos renováveis e disponíveis no local; c) enfatizar a reciclagem de nutrientes; d) introduzir espécies que criam diversidade funcional no sistema ? e) desenhar sistemas que sejam adaptados às condições locais e aproveitem, ao máximo, os microambientes; f) manter a diversidade, a continuidade espacial e temporal da produção ? g) otimizar e levar os rendimentos, sem ultrapassar a capacidade produtiva do ecossistema original; h) resgatar e conservar a diversidade genética local; i) resgatar e conservar os conhecimentos e a cultura local.
Inúmeras lacunas ainda estão em aberto e exigem um extraordinário esforço de pesquisa, experimentação, teste em meio rural para expandir o conhecimento na área e a adoção de tecnologias agroecológicas por parte dos agricultores.

BIBLIOGRAFIA

AQUINO, A.M.; ASSIS,R.L. (Editores). Agroecologia: Princípios e técnicas para uma agricultura orgânica sustentável. Brasília: Embrapa, 2005. 517p.
ROBERTO, P.S. Manual prático de agricultura orgânica. Campinas.SP. 2007. 216 p.
PRIMAVESI, A. Manejo ecológico de pragas e doenças: técnicas alternativas para a produção agropecuária e defesa do meio ambiente. São Paulo: Nobel, 1988. 137p.
CAPORAL, F.R.; COSTABEBER, J.A Agroecologia: conceitos e princípios para a construção de estilos de agriculturas sustentáveis, disponível em http://www.planetaorganico.com.br/trabCaporalCostabeber.htm, em 22.11.2010.

 
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Sobre este autor(a)
Poeta, Bacharel em Direito, Engenheiro Agrônomo, Professor, Coordenador da Unidade de Atendimento Integrado do Viva Cidadão do João Paulo (Ma), Auditor Interno da Qualidade, Artista Plástico (técnica pintura em tela). Especialista em Administração Pública. Especialista em Gestão Estratégica de Servi...
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