Revolução Industrial, o pioneirismo inglês.
 
Revolução Industrial, o pioneirismo inglês.
 


SÉCULO XVII, REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E O PIONEIRISMO INGLÊS                                                                      Luciano Braga RamosPalavra-chave:Revolução, Inglaterra, cercamentos.                                                                       INTRODUÇÃOO Autor Paulo Micelli, (1994) "Inglaterra estranho país onde ovelhas devoram homens." utiliza esse subtítulo, se utilizando das palavras de Thomas Mours para justificar a crítica que faz no texto sobre o contexto social referente à época a qual o autor direciona seus estudos, mostrando as transformações sociais impulsionadas palas alterações das forças produtivas no momento de transição que é o século XVII. Onde a estrutura do modo de produção feudal não atende as demandas do capitalismo, fazendo com que ocorram as transformações no mundo rural inglês.

A INGLATERRA SAIU NA FRENTEAté o século XV, o camponês dentro do modo de produção feudal, (estamos nos referindo à Inglaterra) mesmo preso as obrigações feudais, estipuladas pelos acordos com o senhor, ainda assim vai ter uma certa autonomia, em relação ao camponês despojado de seus direitos nos séculos XVI, XVII em diante, que vai acabar gerando, como analisou Marx, massas de reserva de mão-de-obra operária para suprir as fábricas,

Mas voltando ao camponês do século XV, esse pagava os impostos pré-estabelecidos ao seu senhor, usava terras e matas do senhor e tinha a hereditariedade da terra deixando-a para seus filhos após sua morte. Porém no século XVI, as formas de transição do feudalismo para o capitalismo começam a mudar esse contexto de sociedade estagnada, já que o capitalismo não admite tal modelo.

Com o desenvolvimento de indústria têxtil e a ascensão econômica dos comerciantes burgueses, o campo começa alterar essa conjuntura, mesmo deixando para um segundo momento a produção agrária de gêneros alimentícios (não que houvesse essa produção desaparecido), mas o lucro agora esta em criar ovelhas para se obter a lã de onde vai se alimentar as indústrias têxteis em crescimento. Esse crescimento passa pelo artesanato, a manufatura, até a indústria mais desenvolvida, onde o comerciante capitalista vai ser detentor do capital e dos meios de produção restando aos operários somente sua força de trabalho para vender.

No século XVI esse processo ao qual estamos discorrendo, é chamado de cercamentos, sendo que no século XVI ainda ilegal, já no século XIX será legalizada, agora tal medida expulsa o camponês de suas terras em favorecimento dos grandes proprietários, que no lugar do camponês coloca ovelhas, por isso que o autor faz essa afirmação, "Inglaterra país estranho, onde ovelhas devoram seres humanos", como podemos observar na obra do autor, essa afirmação pode ser vista não como uma metáfora, mas como realidade, já que devora tudo que o camponês possuía dentro do sistema feudal de produção agora saturado.

Devora a vida, os bens que já eram poucos, devora os sonhos, as perspectivas de dias melhores, a ponto de o autor afirmar que o camponês encontrava mais perspectivas dentro do modo de produção feudal, e que agora com o processo de cercamentos, e devorado pelas ovelhas, este despojado dos seus meios de sobrevivência. Assim sendo a única alternativa é ir para acidade engrossar as massas de mão-de-obra, barateava ainda mais os preços dos salários, levando muitos operários à situações caóticas, de insalubridade, fome, doenças, trabalho das mulheres, trabalho infantil, péssimas moradias.

Esse é o processo de devoramento dos homens da Inglaterra pelas ovelhas, nesse período. Devora a vida humana, porque o homem desta época, no mundo rural que vivia, era apesar dos pesares, dono de sua família e de sua dignidade. As ovelhas não só devoraram os seres humanos dessa época, os camponeses, como também o prostituíram, pois os camponeses feudais entregavam aos seus senhores subsídios de sua produção, agora expulsos dos campos entregavam seus corpos e sua força de trabalho para o capitalismo.

O processo de cercamentos e "devoramento humano", que se inicia no século XVI se estende até o século XIX na Inglaterra continuamente, antes ilegalmente,para ser posteriormente legalizado, sendo um processo importante como tantos outros para o acúmulo de capitais para a Revolução Industrial. Isso acontecendo dentro do capitalismo comercial, impulsionando a economia rumo ao capitalismo industrial.

Essa questão de ser a Inglaterra pioneira na Revolução Industrial é um assunto que chama atenção dentro do Ensino Fundamental e Médio, quando alunos se perguntam por quê de ser a Inglaterra a se lançar primeiro na Revolução Industrial? Assunto esse que estimula a curiosidade e a busca por respostas, e para podermos compreender melhor a nossa dependência financeira desta potência, até o início praticamente do século XX, assim entendendo melhor nossa realidade atual.

São muitos os fatores que contribuem para esse pioneirismo, fatores internos e externos. Só para tentarmos seguir os passos do autor Francisco Iglesias, (1986), podemos começar falando do fator geográfico: a Inglaterra geograficamente por ser uma ilha estava bem posicionada, seu território não sofreu destruição com as guerras que se davam no continente europeu, com isso preservava melhor sua produção sem abalos, os rios navegáveis com um fácil escoamento de sua produção para os portos e para os mares, também a ilha era rica em carvão mineral e ferro, importantes elementos parao desenvolvimento industrial.

Outro fator importante, era a precoce unidade política inglesa em relação aos outros países europeus, (com exceção de Portugal e Espanha já unificadas) onde era possível canalizar os interesses econômicos, e jurídicos, contando com a religião Anglicana de ideologia mais pratica e incentivadora de investimentos, em detrimento dos países católicos, estagnados nas "verdades da Igreja".

A Revolução comercial, essa foi importante na medida em que a administração do governo inglês soube através da produção de manufaturas, acumular, ouro e prata, principalmente de seus vizinhos ibéricos, detentores das ricas colônias americanas.

A Inglaterra como não possuía colônias com grandes recursos de metais preciosos, soube através de suas políticas econômicas investir em mercadorias para tomar conta do mercado europeu e dessas potências que tinham metais mas viviam do bulhionismo.

A partir de 1650, os Atos de Navegação de Cromwell garantem a supremacia da marinha mercante inglesa monopolizando as rotas marítimas, e também incentivando a pirataria, emitindo cartas de corso antes da Revolução de 1640.

Outro comércio importante e responsável pelo acúmulo de capitais foi o comércio de escravos africanos, principalmente com as Américas. A Revolução comercial ainda dentro da ótica do mercantilismo, ganhou importância para o pioneirismo da Inglaterra na Revolução Industrial no século XVIII, pois esse acúmulo de divisas gerado no comércio até o final do século XVII, vai impulsionando a Revolução Agrária, transformando as forças produtivas, onde o modo de produção rural ainda ligado ao feudalismo não atendeu mais as demandas do capitalismo comercial

Então a Revolução Agrária vai se dar no bojo, ou vai ser a resposta de acúmulo de capital da Revolução Comercial a uma já ineficiente economia rural. Dessa maneira a Revolução Agrária introduz o capitalismo no campo, buscando aquilo que mais geraria lucro naquele momento que era o investimento na indústria têxtil, acontece ai a grande revolução, o processo de cercamentos, mudando radicalmente o contexto social do campesinato inglês, é importante ressaltar que vai haver posteriormente investimento em produção de alimentos para atender um mercado consumidor, que pela entrada da prata americana na Europa vai estar disposta a gastar em produtos destes países que estão investindo em indústria e comércio.

Os cercamentos possibilitam a sobrevivência de grandes proprietários sejam eles pequenos ou grandes burgueses, ou da nobreza conservadora, ou da incipiente pequena nobreza investidora, o certo é que a Revolução Agrária, veio lentamente transformando a agricultura do período, expulsando o camponês do campo, acabando com as relações feudais e com um mundo rural de economia de subsistência, para a partir dos cercamentos uma agricultura fornecedora de matéria prima para investidores capitalistas

Para entendermos melhor essa mudança de mentalidade, temos que procurar entender o que foi a importância da Revolução Intelectual, para as mudanças que estão se processando na Inglaterra nesse momento, e irão se propagar posteriormente para Europa. Se processam primeiro na Inglaterra e não em outro lugar, porque é na Inglaterra do século XVII, que novas idéias vão encontrar terreno fértil.

Como já foi falado anteriormente, a Inglaterra politicamente era unificada, havendo um rei e um Parlamento que se equiparavam em exigências jurídicas visando cada qual seusinteresses, pois ao lado do rei haviam nobres conservadores e a grande burguesia detentora dos monopólios reais, no lado do Parlamento uma pequena nobreza mais empreendedora, e uma pequena burguesia, que se via prejudicada pela concessão dos monopólios aos grandes burgueses.

Até ai tudo bem, o grande lance inglês é uma mudança da mentalidade, é o que difere e legitima o pioneirismo inglês na Revolução industrial em relação as potências vizinhas. Pois esse período era marcado ainda por uma grande crendice e um fé inabalável nas coisas de Deus, e de como elas eram colocadas pelos homens da Igreja independente da religião, porém quando Henrique VIII adota o anglicanismo no século XVI, como forma de protestar contra a Igreja Católica, acaba abolindo também uma serie de dogmas católicos que entravavam o desenvolvimento econômico, político e intelectual do homem.

Dessa maneira é na Inglaterra que a Revolução Intelectual vai poder se impulsionar mais livremente, onde os pensadores e cientistas não vão ser demonizados, não que não vai haver rejeição pelas máquinas, muito pelo contrário, houve quebra - quebra e punições. Porém o sistema jurídico na Inglaterra nesse momento já não consegue ditar muitas regras contra o capitalismo, porque há até mesmo burgueses de ambos os lados.

Sendo assim a mentalidade teocêntrica dá lugar à mentalidade burguesa, progressivamente vai se aperfeiçoando as invenções, que vão atender à crescente indústria. Esses burgueses, alcançando pela via econômica participação jurídica, seja ao lado do rei, seja junto ao Parlamento vão influenciar nas leis, pois é justamente nesse período que Locke escreve seus dois tratados, já num país católico correria o risco de ser perseguido pela inquisição.

Só para citar algumas invenções: a desencaroçadeira, o tear mecânico, a lançadeira volante, a maquina a vapor substituindo a energia animal, eólica, e hidráulica.

Em suma a Revolução Intelectual acontece na Inglaterra, porque lá se tinha um contexto, uma conjuntura que vinha se desenhando de tempo, ou seja, uma unidade política, que por sua vez encontra no Parlamento o seu equiparador de forças, esses dois livres da estagnação da ideologia da Igreja Católica que condenava a usura, em contrapartida encontra no protestantismo seja anglicano ou calvinista a liberdade de acumular lucros, apoiados na crença da predestinação.

E por fim a influência da burguesia, já detentora do poder econômico, se infiltrando de vez na política interferindo no poder jurídico, essa burguesia que não possuía monopólios reais no tempo da Revolução de 1640, e que agora buscou seu lugar ao sol junto dos outros agentes.Desencadeando de vez as forças que alteraram o contexto social inglês. Então as idéias intelectuais dentro dessa conjuntura podem encontrar espaço para gradativamente revolucionar a mentalidade inglesa, garantindo assim o pioneirismo inglês na Revolução Industrial.

Referências.

MICELI.Paulo. As Revoluções burguesas. São Paulo: Atual, 1994.

IGLESIAS, Francisco. A Revolução Industrial. São Paulo, Brasiliense, 1986.

 
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Sobre este autor(a)
Licenciado em História ULBRA Gravataí, RS. Monitor do Laboratório de Arqueologia da ULBRA Gravataí, Bolsista de História, UFRGS, no estudo e reconhecimento de territórios quilombolas, no RS em 2008. Estudante de Pós-Graduação, em História do Rio Grande do Sul, UNISINOS, 2011.
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