1 FACULDADE DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL – RELIGIÃO E CULTURA HISTÓRIA SINTETIZADA DE ROMA - DO INÍCIO DA REPÚBLICA A JÚLIO CÉSAR Disciplina: Fundamentos da Cultura Greco-Romana Professor: Gisela Chapot Aluno: Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho Rio de Janeiro Março de 2020 2 ÍNDICE 1.INTRODUÇÃO......................................................................................................................03 2. O INÍCIO DA REPÚBLICA..................................................................................................04 3. A HERANÇA HELÊNICA....................................................................................................04 4. AS LUTAS EXTERNAS E INTERNAS...............................................................................07 5. A DECADÊNCIA DA REPÚBLICA....................................................................................10 6. O ADVENTO E QUEDA DE JÚLIO CÉSAR.......................................................................11 CONCLUSÃO...........................................................................................................................12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................................14 3 1. INTRODUÇÃO A História é constituída de fatos e homens. E dela fazem parte justamente as entidades e pessoas cujas contribuições são intrínsecas às suas respectivas biografias, seja para o bem ou para o mal. Duas destas personificações são a República romana e aquele que se traduz num dos mais polêmicos líderes da Antiguidade, o político e militar Júlio César. Nascido no território da maior potência militar e política da Idade Antiga, Júlio César foi uma personalidade cujas ações desencadearam reações que transmutaram a cronologia daquela sociedade, bem como alteraram a História das demais civilizações que pelos romanos haviam sido conquistadas. Afinal, se certos povos se encontram sob o domínio de outros, os fatos e acontecimentos econômicos, políticos, religiosos e militares da metrópole repercutem nos territórios periféricos privados de soberania, dado o vínculo de submissão. É como lançar uma pedra em um lago: o impacto na água se irradia em todas as direções, de idêntico modo que alguma decisão específica de uma personagem histórica, por mais remota que seja sua época, influencia o futuro mais distante, positiva ou negativamente. Isso porque, como expresso no primeiro parágrafo, a história pessoal de cada um daqueles protagonistas, sejam entidades políticas, sejam pessoas em si, em algum momento, e por conta da realização de feitos únicos, se confundiu com a própria História da civilização humana. Isso se aplica à República romana e Júlio César, cujos contextos de existência são os tópicos centrais deste artigo. Claro que o presente trabalho não possui a pretensão de esgotar o aludido tema em um breve compêndio de apenas quatorze páginas. De acordo com ROBERTS, 2005, p. 15: “Não se trata de um resumo. Não se pode simplesmente condensar a História geral reduzindo páginas a parágrafos e parágrafos a frases. Quando se apresenta as principais linhas num espaço menor, os tópicos precisam ser distribuídos de modo diferente, às vezes em sequências diferentes. Como a vida de Júlio César se funde à História da sociedade romana, dominadora das relações intercivilizacionais ocidentais de sua época de auge e glória, o presente trabalho tratará, inicialmente, de fatos que antecederam sua vida desde o nascimento da República, a fim de posteriormente situá-la no contexto geral em que se passou, visto que é impossível argumentar sobre o dito líder sem entender o porquê de suas ações. 4 Os fatos expressos nas próximas páginas representam uma tentativa de descrever a História Geral de Roma até o assassinato de Júlio César na Tribuna do Senado, sempre seguindo a linha de raciocínio de vários historiadores, mas especialmente de J. M. ROBERTS. 2. O INÍCIO DA REPÚBLICA Durante o passar dos séculos, e desde o início da História humana, por volta de 3.500 – 3.000 a.C., com a descoberta da escrita pelos sumérios, é fato que os conflitos de todas sociedades conhecidas foram resultado de uma conjugação de fatores. Mas também se sabe que a maior parte dos casos se consolidou em decorrência das próprias convulsões políticas internas e/ou externas, estas últimas, em sua imensa maioria, devido a guerras. E assim foi, inexoravelmente, com Roma. Apesar de considerada, de certo modo, “um Estado sucessor do helenismo” (ROBERTS, 2005, p. 215), sua História, de acordo com a historiografia mais amplamente aceita, se inicia bem antes da conquistas de Alexandre Magno: o marco inicial teria ocorrido “depois da expulsão dos reis etruscos, por volta de 510 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 215). Segundo ROBERTS, “Tratava-se de uma República” (...), “embora há muito o seu governo parecesse monárquico” (2005, p. 215). Os posicionamentos a respeito de sua duração ainda são objeto de debate, sendo que, para a maior parte dos estudiosos, “pode-se no máximo admitir que a República tenha durado cerca de 450 anos, até a metade do século I a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 215). Englobava, portanto, o período de vida de Júlio César (100 – 44 a.C.). A questão é no que consistia aquela República, cuja forma e sistema de governo, junto ao helenismo, viria a influenciar sobremaneira as repúblicas modernas iluministas, como a França e os EUA, e que perdurou até o século I a.C. É o que se vê no próximo capítulo. 3. A HERANÇA HELÊNICA Como acima expresso, para ROBERTS (2005. p. 215), Roma era “um Estado sucessor do helenismo”. Isso significa que suas instituições, especialmente depois do início da dominação romana sobre a Grécia, com a pilhagem de Corinto por Lúcio Múmio, em 146 a.C., e no escopo de um maior aprimoramento da República, com um sério objetivo de diversificação administrativa e intelectual que lhes concedesse o status de grandiosidade, passaram a ser 5 inspiradas em suas congêneres helênicas, principalmente Atenas, visto que os romanos tinham o costume de assimilar parte da cultura dos povos conquistados, aí incluídas as religiões. Aqui, cabe uma observação: interpretando-se a obra de ROBERTS, deve-se ampliar o conceito de “helenismo” para considerar, também, as culturas política e jurídica gregas anteriores às conquistas de Alexandre Magno – bem como, obviamente, o período posterior, eis que a República romana durou “cerca de 450 anos, até a metade do século I a.C.”, ultrapassando, desta forma, toda a existência do nobre conquistador (356 - 323 a.C.). Tal ocorre porque, como já dito, ROBERTS afirma taxativamente que Roma era “um Estado sucessor do helenismo”, e não apenas uma República ou Império sucessor. Como a República precedeu o Império, com a mesma se formou o Estado romano, havendo, então, fundamento para se afirmar que a influência helênica sobre Roma possa datar de período anterior a 146 a.C. Passa-se, assim, a um breve histórico das instituições atenienses, algumas das principais fontes de inspiração da República romana: em Atenas, no ano de 621 a.C. o legislador aristocrata Drácon fora investido de poderes absolutos para fazer cessar o caos em que aquela pólis se encontrava. Ao mesmo tempo que redigiu um código legislativo, semelhante a uma Constituição, que sobrepunha os interesses públicos sobre os particulares, fazendo, dentre outras inovações, cessar a vendetta (“vingança privada”), endureceu muito as punições criminais. Como maior evidência, pode-se citar que as penas para crimes tão diferenciados como o furto, o roubo e o homicídio era, igualmente, a morte (GÉLIO, AULO, Noctes Atticae, Livro XI, Capítulo 18). É muito fácil, hoje, criticar Drácon, mas sua obra estava de acordo com o contexto, os valores e a moral da época em sua pólis, embora, ulteriormente, suas leis tenham simplesmente deixado de ser aplicadas por demasiado pesadas. Além do mais, foi, também, o primeiro legislador do Ocidente a diferenciar o homicídio culposo do assassinato doloso e da legítima defesa (GÉLIO, AULO, Noctes Atticae, Livro XI, Capítulo 18). Também em Atenas, em 594 a.C., o legislador Sólon criou a Eclésia, que pode ser considerada a principal fonte de inspiração do Senado romano, bem como dos parlamentos modernos. Formada por homens atenienses maiores de vinte e um anos, livres, de pais atenienses e com dois anos de serviço militar efetivamente cumpridos, possuía milhares de membros, cujo principal foco de discussão era a política externa da pólis. Um clássico exemplo foram os debates a respeito da Guerra do Peloponeso, com acaloradas reuniões que ocupavam dias inteiros, várias vezes ao mês, razão pela qual, naquele contexto, eram os membros remunerados. Da mesma forma, a Eclésia agia como poder fiscalizador dos agentes públicos, 6 mormente os juízes (Aristóteles, Constituição dos atenienses, 4-9, e In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011). Só que a Eclésia podia, também, deliberar a respeito de assuntos econômicos, políticos e sociais internos por delegação da Bulé, também criada por Sólon. Da Bulé participavam homens livres com mais de trinta anos, de pais atenienses e eleitos por sorteio (POMBO, Olga, em “http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras2/links/inst_dem.htm”). Da mesma maneira, Sólon também fez nascer o Tribunal de Justiça de Atenas, ou Heliaia, que possuía cerca de seis mil membros, também indicados por sorteio e que aplicavam as leis de Sólon, bem como as de Drácon que não tinham deixado de viger pela sua costumeira inobservância. Os membros da Heliaia, além de escolhidos pelo sorteio, não podiam estar privados dos direitos civis ou ter dívidas ou histórico de lesão para com o Tesouro ateniense (Aristóteles, Constituição de Atenas, 63.3) . Tecidas essas considerações, percebe-se a nítida semelhança com as instituições da República romana, em que o governo era comandado por dois cônsules, escolhidos anualmente pelos cidadãos romanos, bem como aconselhados pelo Senado, “principal corpo do governo, como indicam inscrições em muitos monumentos e emblemas de armas: SPQR, iniciais das palavras latinas ‘o Senado e o Povo Romanos’” (ROBERTS, 2005. p. 215). Mas o Senado era o “principal corpo do governo”, e não o único. Abaixo, um breve resumo da estrutura institucional da República romana (BEZERRA, Juliana, em “https://www.todamateria.com.br/republica-romana/”): (a) Senado – era de sua atribuição deliberar sobre a política externa, e cujos cargos de senador eram vitalícios e ocupados por patrícios - aristocratas que pertenciam às famílias mais antigas de Roma, possuidores de grandes propriedades de terras, sendo os mais ricos. Tais aristocratas haviam sido antigos magistrados, ou participado fundamentalmente dos destinos da República. (b) Magistratura – os ocupantes deveriam ser cidadãos e possuir uma renda mínima, de modo que os magistrados tinham direito a lugares especiais em espetáculos públicos e cerimônias. Seus mandatos eram de um ano, podendo as magistraturas serem duplas ou colegiadas. Os magistrados podiam ocupar quaisquer dos seguintes cargos: (b.1) Cônsul – Comandante militar, com mandato de um ano e sempre eleito simultaneamente a um similar. Possuíam amplos poderes e cada um tinha atribuições de veto sobre as ações do outro. Se houvesse impedimento de um dos dois, ou alguma guerra, interna ou externa, os cônsules seriam removidos e substituídos por um ditador. 7 (b.2) Pretor – Administrador da Justiça. (b.3) Edil – Fiscalizador do comércio e administração da cidade. (b.4) Censor – Recenseava a população, também fiscalizando os pretendentes a Edil e a moral pública. (b.5) Questor – Era o cobrador de tributos, além de custodiar o patrimônio público romano. Desta forma, a similaridade entre as anteriormente citadas instituições helênicas e as da República romana é, destarte, notada por dois fatores. Primeiro porque, além de milhares de anos antes de Montesquieu, embora este também tenha sido influenciado pelos antigos gregos, e da Constituição dos EUA, todas estavam sob o mando de leis ou costumes que já previam a separação dos Poderes estatais por meio da repartição dos mesmos, configurando-se, de fato, no próprio sistema de freios e contrapesos, como mostra o próprio poder de veto dos cônsules sobre as ações de seu congênere. Segundo, derradeira e consequentemente, em virtude de que, assim, ao menos em tese, não haveria a indesejada concentração de poderes nas mãos de um único homem, de modo que a ninguém era, legalmente, permitido o exercício de poder absoluto sobre idênticos concidadãos dentro dos limites da pretensamente democrática República romana. Entretanto, todo esse formidável sistema político e jurídico não foi suficiente para garantir a paz interna da República, vez que a situação ali existente era outra, conforme se verificará logo abaixo. 4. AS LUTAS EXTERNAS E INTERNAS Internamente os primeiros séculos da República romana “foram crivados de violentas lutas políticas, às vezes originadas de demandas dos cidadãos mais pobres em participar do poder das famílias mais abastadas e nobres, ou seja, dos ‘patrícios’ que dominavam o Senado” (ROBERTS, 2005, p. 2015). A situação descrita no parágrafo anterior mostra bem que, não obstante o fato de suas instituições serem bastante similares, nas formas e ritos, às matrizes helênicas, como mostra, por exemplo, a formal e mencionada sigla SPQR, “o Senado e o Povo Romanos”, os que não possuíam riqueza, sangue nobre ou vínculos aristocráticos se sentiam alijados da partitura do poder. Por isso, nesta página, este autor denominou tal organização social como “pretensamente democrática República romana”. 8 Isso porque o próprio ROBERTS afirma que “embora os cidadãos mais pobres conquistassem muitas vitórias e uma parte maior nos espólios do poder, Roma nunca se tornou uma democracia no sentido de que estes cidadãos controlassem o governo por muito tempo” (2005, p.p. 215-216). Mas tal não significa que os menos abastados, com ou sem aquelas vitórias, fossem insignificantes. Ao contrário, embora politicamente em posição coadjuvante, “Por um longo tempo, o típico cidadão romano era camponês e cultivava sua pequena propriedade”, sendo que “Este cidadão já demonstrava a diligência e a habilidade dos futuros italianos. A agricultura era a base da primitiva República” (ROBERTS, 2005, p. 216). A República, deste modo, não podia sobreviver sem os agricultores politicamente submissos, tanto que, em tempos ulteriores, “os romanos se lembrariam com saudade dos dias simples do início da República, como a época em que os pequenos proprietários, cidadãos independentes, preservavam as virtudes romanas” (ROBERTS, 2005, p. 216). Sentiam saudade de um tempo em que eram indispensáveis, apesar do comando governamental pouco expressivo que lhes era reservado. Além do mais, basta recordar que, em relação às centúrias seguintes, até, aproximadamente, o século II a.C., “não se deve pensar na enorme metrópole (...) importando milho, engolida por um grande número de imigrantes, como típico dos primeiros dias da República” (ROBERTS, 2005, p. 216). Justamente por isso este autor sustenta que, se não fossem os pequenos proprietários, a República já estaria fadada ao fracasso em poucas dezenas de anos, e não ao sucesso por várias centenas, como, de fato, ocorreu em vários aspectos, mas principalmente na vertente militar. Afinal, o excedente agrícola teria que ser bastante expressivo para sustentar a mais formidável máquina de guerra conhecida de toda a Antiguidade desde a fundação da República, em 510 a.C., eis que o território romano obteve muitos acréscimos já no século V a.C., e “Somente no século II a.C. é que se tornaram comuns as grandes propriedades, cujos donos viviam na cidade e dependiam do trabalho escravo para colher grãos ou azeitonas” (ROBERTS, 2005, p. 216). Como afirma ROBERTS (2005, p. 215), “Houve muitas mudanças ao longo dos anos, mas uma delas foi mais importante do que as outras, porque explica o impacto de Roma na História: a expansão do poder romano, que, nos tempos republicanos, chegou a englobar todo o mundo mediterrâneo num sistema de dominação e transformou Roma num império que até hoje molda grande parte da nossa vida”. 9 Assim, conclui-se que, em relação à política externa, Roma passou à condição de superpotência ainda nos tempos da República. No entanto, cabe indagar como aquela máquina bélica se solidificou para além, é claro, da produção agrícola dos pequenos proprietários, e que fora sua mais eminente sustentadora. Vários fatores podem nos dar tal explicação, como a posição geográfica de Roma, mas acredita-se que a mais correta seja o modo de recrutamento da força militar romana, pois “cada cidadão do sexo masculino, que fosse proprietário, era obrigado a servir o exército, se necessário. Tratava-se de uma exigência pesada, pois no início da República um soldado de infantaria servia por dezesseis anos (embora o serviço não se estendesse pelo ano inteiro, uma vez que as campanhas começavam no inverno e terminavam no outono)” (ROBERTS, 2005, p. 217). Portanto, com exigências tão taxativas acerca de seus integrantes, somadas à experiência dos soldados proprietários no manejo e transporte alimentar, era inevitável uma, ainda que inesperada, profissionalização do Exército romano, que estaria preparado para diversas campanhas militares ao longo dos séculos de existência da República, dentre as quais podemos citar, como principais, as três Guerras Púnicas, lutadas contra Cartago. Vale lembrar que os cartagineses estavam interessados nas ricas regiões situadas no oeste da Itália, bem como no próspero comércio dos respectivos portos. Os romanos reagiram ferozmente, vencendo os cartagineses pela primeira vez, após décadas de confrontos, em 241 a.C., por meio de contra-ataques que puseram, sob o domínio da República, a Sicília, a Sardenha e a Córsega. A Segunda Guerra Púnica foi iniciada em 218 a.C., quando o Exército cartaginês, a partir de posições privilegiadas localizadas na costa mediterrânea, marchou até a Itália sob as ordens do general Aníbal, introdutor de elefantes no teatro de guerra europeu. Esta guerra durou cerca de doze anos e também foi vencida pelos romanos, embora com sérias perdas. Como se percebe, a Primeira e a Segunda Guerras Púnicas foram iniciadas por Cartago. Mas pode-se afirmar que a Terceira foi obra inicial da República, já que “O Senado romano permitiu que Cipião, o general vencedor, transferisse suas investidas para a África, onde, numa das batalhas decisivas da História, ele venceu Aníbal, o único rival importante de Roma no oeste, em 202 a.C., em Zama. Os cartagineses foram forçados a fazer as pazes, mas muitos romanos ainda os temiam. Só muito depois irromperia uma terceira guerra púnica – em 149 a.C. – encerrada com a derrota total dos cartagineses” (ROBERTS, 2005, p. 218). 10 Nota-se que as investidas militares da República podem, como de fato foram, ter sido motivadas por um imperialismo expansionista e agressivo, mas isso também ocorreu por medo e receio dos vizinhos. Nos dois sentidos, conquistas foram efetuadas sobre o sul da Espanha e da Gália, sobre a Macedônia e outros, fazendo, como já aqui transcrito e segundo ROBERTS, com que o as anexações romanas englobassem “todo o mundo mediterrâneo”. 5. A DECADÊNCIA DA REPÚBLICA Importantes mudanças ocorreram no passar dos séculos de existência da República, especialmente na extensão dos direitos de cidadania romana, incluindo o voto e a obtenção de justiça, a pessoas residentes fora dos territórios romanos originais. Mas o principal dos câmbios foi o fato de, em virtude do recrutamento obrigatório, as guerras púnicas terem jogado na pobreza as famílias dos pequenos proprietários rurais italianos - justamente aqueles que eram uma das forças motrizes do Exército. Em relação a àqueles desvalidos, “as guerras haviam abalado fortemente a trama social e econômica de Roma, e muitos camponeses haviam perdido tudo” (HART, 2001, p. 386). Como consequência, muitos dos veteranos não tinham mais como se sustentarem autonomamente, e assim migraram do interior para Roma e outras cidades latinas, pois “O cidadão camponês tendia a se amontoar na cidade em busca de subsistência da melhor forma possível e estava a caminho de se tornar aquilo que os romanos chamaram de ‘proletário’ – alguém cuja contribuição para o Estado era ter filhos” (ROBERTS, 2005, p. 220). Assim, “Mais cidadãos pobres significavam mais pobres a serem comprados, engambelados e intimidados por políticos ansiosos por alcançar posições que poderiam lhes dar uma chance de conseguir ricos prêmios oferecidos pelas conquistas no exterior” (ROBERTS, 2005, p. 220). Com mais pobres, estes dispostos a servir, mediante pagamento que lhes aliviasse da miséria e lhes concedesse direitos de cidadania, maior o contingente de soldados. Tal estado de coisas fez aumentar sobremaneira a profissionalização do Exército - já anteriormente verificada quando do recrutamento obrigatório dos pequenos proprietários - que passou a ser desnecessário em virtude de tantos e novos pretendentes. Estes passaram a ser mais leais a seus comandantes militares que à própria República em si, desfigurando-a. Portanto, com o Exército como principal instituição romana de fato, nos novos territórios conquistados havia saques, pilhagens e obtenção de escravos, resultando, desta forma, em mais 11 tributos para os submetidos ao poder romano, com menos sobretaxas aos seus próprios cidadãos, incluindo os pobres que serviam militarmente, agora durante todo o ano. Aqui se evidencia, mais uma vez, a helenização da República descrita no início deste trabalho, vez que “Parte da nova riqueza também foi destinada a embelezar Roma e outras cidades italianas, que às vezes refletiam mudanças quando o contato com o Leste se tornou mais comum. Foi o que se deu com as cidades gregas, cujo passado cultual, afinal de contas, os romanos cultos respeitavam como sendo suas próprias raízes” (ROBERTS, 2005, p. 221). 7. O ADVENTO E QUEDA DE JÚLIO CÉSAR Independentemente das guerras em que se envolveu a fim de anexar todos os territórios conquistados, ou no intuito de se defenderem, como no caso das duas primeiras guerras púnicas, não se pode dizer que os romanos praticavam más administrações naqueles confins. Ao contrário, talvez a paz e a prosperidade tenham sido mantidas por mais tempo do que se tais recantos permanecessem independentes, ou se fossem tomados por outras potências. A República, embora já decadente, se tornou uma vasta entidade política composta de vários povos, num cosmopolitismo organizado como nunca antes se havia visto. É nessa entidade, pujante por sua multiculturalidade, mas agonizante pela violência e ambição desmedidas, bem como corroída pelo fato de que “A corrupção política estava disseminada, e todo o mundo mediterrâneo estava sofrendo com a falta de um governo eficiente em Roma” (HART, 2001, p. 386), que surge o político e militar Júlio César, conquistador das últimas anexações republicanas, como a Gália. A capital havia se tornado um local inóspito pela instabilidade e assassinatos políticos, e por isso se temia o uso da figura do ditador, anteriormente citada na página seis deste texto, e que viria a ser ele, em especial pelo fato de que “A dominação da Gália tornou César, que já era um personagem político de prestígio, um herói popular em Roma” (HART, 2001, p. 387). Júlio César marchou ilegalmente sobre Roma porque “o Senado romano ordenou-lhe que voltasse a Roma como cidadão particular, ou seja, sem o exército. César temia, e provavelmente com razão, que, retornando a Roma sem as tropas, seus inimigos políticos usassem a oportunidade política para destruí-lo” (HART, 2001, p. 387). Desta maneira, ele esmagou toda a oposição, interna e em alguns dos seus domínios exteriores. Enfrentou tropas leais ao Senado e venceu. Após a dita guerra civil, estabeleceu uma cordial relação com os senadores, que lhe concederam a vitaliciedade no cargo de ditador. Mas, 12 apesar da alegação de defesa da República, seus inimigos temiam que, com tantos poderes concentrados por ser “popular e poderoso demais” (HART, 2001, p. 387), ele viesse a estabelecer uma Monarquia, e por isso foi assassinado em 44 a.C. Ocorre que, independente de sua morte, o caminho para o estabelecimento do Império Romano já estava pavimentado por suas investidas, de modo que seu sobrinho-neto, Otaviano, alegando a irreversibilidade dos atos do tio-avô, se tornou o imperator (“Comandante das Tropas”), depois “Augusto”, e, após, princeps (“Primeiro Cidadão”) da nova ordem, mesmo que, formalmente, a entidade política permanecesse uma república. Ambos, Júlio César e Otaviano, foram declarados deuses após suas mortes. Estava, definitivamente, formado o Império Romano. CONCLUSÃO Qualquer sociedade entra para a História como uma grande civilização quando, respeitados o contexto, os valores e a moral então vigentes, consegue se destacar por seu impacto sobre outras através de grandiosas e magníficas realizações, seja nos campos filosófico, literário, religioso e outros. Com os gregos foi assim. Sua herança cultural se espalhou não somente aos seus vizinhos mais imediatos – especialmente com as conquistas de Alexandre Magno - mas a todo o mundo então conhecido. A beleza e cultura da civilização grega até hoje nos desperta fascínio e paixão E assim foi, necessariamente, com Roma, que expandiu sua própria cultura latina, bem como suas intrínsecas raízes gregas, por meio da força militar. O que se pretendeu mostrar, com este texto, além de um panorama sobre a História da República romana, é que uma visão maniqueísta não ajuda na compreensão dos fatos que moldaram o mundo ocidental como ele é hoje. Roma não era “boa” ou “má”, apenas agia de acordo com o contexto, os valores e a moral vigentes em sua época, motivo pelo qual, se for o caso, não se deve condená-la ao léu - até mesmo porque sua firme atuação civilizacional exterior, como aqui referido, proporcionou longos períodos de paz e prosperidade nos territórios conquistados, apesar das tensões políticas internas que deram fim à República. Bem diferente, portanto, dos nazistas e fascistas do século XX, cuja terrível mancha de barbárie já foi devidamente condenada pela História por suas ações anticivilizacionais, ou seja, 13 que não respeitaram o contexto, os valores e a moral vigentes em seu tempo de indevida governança. E idêntica condenação não deve, definitivamente, ser feita a Roma. 14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES, Constituição de Atenas, 63.3, em https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Arist%C3%B3teles,_Constitui%C3%A7%C3%A3o_de _Atenas,_63.3.&action=edit&redlink=1. ARISTÓTELES, Constituição dos atenienses, 4-9, e In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003- 2011. BEZERRA, Juliana, “República Romana”, disponível em: https://www.todamateria.com.br/republica-romana/. GÉLIO, AULO, Noctes Atticae, Livro XI, Capítulo 18, citado em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dr%C3%A1con HART, H. Michael. As 100 Maiores Personalidades da História. Editora Bertrand Brasil Ltda, 2001. POMBO, Olga, “Instituições democráticas em Atenas”, disponível em: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras2/links/inst_dem.htm ROBERTS, J. M. O Livro de Ouro da História do Mundo. Da Pré-História à Idade Contemporânea. Ediouro, 2005.