1. INTRODUÇÃO

O título deste trabalho pode causar estranheza aos não versados em História, como bem sabe a ilustre professora: afinal, se não vier a se considerar os anteriores Australopithecus, aparecidos “há dois ou três milhões de anos” (ROBERTS, 2005, p. 27), o fato é que, “depois de surgir por volta de 800.000 a.C., uma criatura de um novo tipo físico se espalhou gradualmente por todo o ‘Velho Mundo’ (ou seja, a massa de terra da África, Europa e Ásia, já separada das Américas e da Australásia) por volta de 250.000 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 29). Ocorre que, em torno de 100.000 a.C. surgiram os fósseis que, na época moderna, foram identificados como do Homo sapiens neandertalensis, possuidor desta denominação em razão de seus restos mortais terem sido localizados no Vale do Neandertal, Alemanha, local de clima que, mesmo nos tempos atuais, é conhecido pela rigidez de seus invernos. Entretanto, não obstante tais dificuldades, o Homo sapiens neandertalensis, com toda a sua rudeza diante de nossos conceitos, foi muito bem-sucedido perante tal desafio por dois motivos. Primeiramente, porque enfrentou e sobreviveu à fortíssima glaciação que se sucedeu a partir de 120.000 a.C., por meio da proteção em cavernas escolhidas por sua luminosidade diante do Sol e com a utilização do fogo como proteção, seja em relação a animais selvagens, seja contra o próprio frio. Segundo e por consequência, porque “se espalhara amplamente desde a Europa Ocidental e o Marrocos, num extremo, até a China, no outro, com povoamentos no Oriente Próximo, no Iraque e no Irã” (ROBERTS, 2005, p. 39). Já havia, assim, completado sua emigração à Ásia Menor com um nível superior de sofisticação tecnológica dos recursos naturais disponíveis. Neste ponto se chega ao eixo central da questão: como diz ROBERTS (2005, p.p. 39 e 40), “O crescimento do domínio sobre a natureza sugere a existência de linguagens complexas, embora alguns cientistas argumentem que os crânios sugiram que as partes do cérebro que lidam com a fala não são tão bem desenvolvidas quanto as outras. No entanto ele deve ter tido idéias muito avançadas – e, portanto, palavras com as quais se expressavam, porque também fez algo inteiramente novo: enterrava os seus mortos (...) Perto de Samarcanda, o corpo de uma criança Neandertal foi enterrado dentro de um anel de chifres de animais; outra sepultura, no Iraque, continha o corpo de um homem cercado de pilhas de flores silvestres e grama, colocadas ali antes do enterro”. 4 Talvez tais práticas evidenciassem uma gama de atitudes que, em seu conjunto, podem ser consideradas uma das religiões do período nomeado “Pré-História”, religiões estas influenciadoras das imediatas e posteriores fés que viriam a caracterizar, em período ulterior e já com o Homo sapiens, ou Homem de cro-magnon, como protagonista - desde seu surgimento há cerca de 50.000 anos (ROBERTS, 2005, p. 44) - o que viríamos a denominar “História”. A questão é como conceituar a “História”: segundo ROBERTS (2005, p. 72), “mesmo que concordemos quanto a quem são os primeiros humanos, o que foi feito por eles não é de forma alguma História”, pois “só poderemos verdadeiramente começar a compreender os povos e a escrever a história real quando tivermos evidências que nos dêem uma idéia razoavelmente boa do que eles pensavam”. Enfim, “precisamos ter palavras e compreendêlas”. Deste modo, a História, “como relato do passado humano, não pode retroceder muito mais do que a primeira escrita. Diz-se que dois caracteres chineses encontrados datam de 5500 a.C., mas a primeira escrita de que termos certeza foi inventada entre 3500 e 3000 a.C.(...) É a era dos relatos escritos” (ROBERTS, 2005, p. 72). Pode-se afirmar, com quase cristalina certeza, e levando-se em conta que, como acima referido, o Oriente Próximo já estava ocupado milhares de anos antes por nossos ancestrais Homo sapiens neandertalensis, que a Suméria foi “a primeira civilização identificável”, surgida “no sul da Mesopotâmia, antigo nome grego do atual Iraque” (ROBERTS, 2005, p.p. 82 e 81). Lá, a língua suméria aparece pela primeira vez na forma escrita, por volta de 3.500 a.C., através de pictogramas e posterior evolução ao modo cuneiforme, representativo de sinais e seus respectivos grupos a fim de expressar sons, o que tornou mais inteligível, e muito, a comunicação (ROBERTS, 2005, p.p. 83 e 84). Portanto, a História humana iniciou-se por volta de 3.500 - 3.000 a.C. na Suméria, eis que, de acordo com os dados e evidências disponíveis, ali se originou a escrita. O que ocorreu antes de tal desiderato pode, sim, ser conceituado como “Pré-História”, mas não “História”, embora o próprio interregno temporal da Pré-História seja significativamente superior ao da História em si, como o mostram não somente o resumo cronológico expresso no início desta introdução, mas as próprias Teorias Darwinianas da Evolução e da Seleção Natural. Se a História humana iniciou-se na Suméria, parece patente que as respectivas religiões passaram a ser as suas fés iniciais, bem como o primeiro modo de devoção organizado da “era dos relatos escritos”. E é sobre elas – as religiões sumérias, de antes e depois do começo da 5 História – que se debaterá nos próximos capítulos, com uma cronologia que remonta a cerca de 10.000 a.C. [...]