1. INTRODUÇÃO 

O curso das civilizações, desde o período que podemos, inicial e primordialmente, identificar como “História” - ou seja, um interstício que, “como relato do passado humano, não pode retroceder muito mais do que a primeira escrita”, escrita esta cuja datação ocorreu “entre 3500 e 3000 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 72), é a História das Migrações, das Guerras, das Tragédias Naturais, mas, sobretudo, das Religiões, cujas doutrinas oficiais explicam e até mesmo justificam ditos fenômenos culturais e naturais. E a História de determinadas religiões, incluindo a suméria e egípcia, suposta e intimamente ligadas, e que são o cerne desta pesquisa, não deve ser retirada do contexto maior em que se insere, sob pena de afetação da sua própria inteligibilidade: não tem este acadêmico o objetivo de expressar, aqui, todos os aspectos das mencionadas doutrinas, eis que seria este um trabalho de toda uma equipe de historiadores, num recorte que abrangeria muito mais do que as presentes 15 (quinze) páginas deste trabalho. Entretanto, têm-se por pretensão, sim, demonstrar, ainda que superficialmente, a extraordinária experiência que é a imersão no universo das religiões suméria e egípcia, por meio do relato cronológico de sua História - e, desta forma, fazer-nos refletir a respeito da nossa própria religião judaico-cristã ocidental, dando a entender que, mesmo que tenham sido os deuses da Antiguidade, bem como o deus único da modernidade, provenientes da imaginação humana, as pessoas que outrora e ainda os reverenciam não impõem limites às suas respectivas adorações, espontânea ou forçosamente. E as maiores e mais robustas provas são as construções de obras de grande magnificência, como templos, pirâmides, basílicas, catedrais, pinturas e afrescos, expondo, assim, um insuperável medo de nossa própria finitude ao tentarmos agradar determinada(s) entidade(s), que dela nos salvaria, sendo esta a razão maior da crença em várias divindades, ou em um único deus. Não importando a fé de cada qual, temos que o estudo da História, desde antes de seu início (isto é, preteritamente à primeira escrita, que, como já referido e segundo ROBERTS, ocorreu “entre 3500 e 3000 a.C.”) é a análise da História das Religiões, vez que foram elas a, na maior parte da jornada humana sobre este planeta, ditar as primeiras formas de organização social, que, erigidas sob o temor da ira divina e conseguinte adoração às forças superiores punitivas, tinham como eventuais representações na Terra os militarmente mais fortes. 4 Desta forma, utilizando o medo da morte e do destino traçados pelos deuses, ou pelo deus único, em caso de subversão, os supostos outorgados dos céus, com “procuração divina”, lançavam os estratos mais vulneráveis numa espécie de capitulação, política e econômica, sem que estes esboçassem qualquer forma de resistência aos seus algozes, igualmente humanos. Era o surgimento, na Suméria, das primeiras teocracias, bem mais a seguir comentadas. 

2. A PRÉ-HISTÓRIA: ATÉ O ANO 10.000 A.C.

A grosso modo, “depois de surgir por volta de 800.000 a.C., uma criatura de um novo tipo físico se espalhou gradualmente por todo o ‘Velho Mundo’ (ou seja, a massa de terra da África, Europa e Ásia, já separada das Américas e da Australásia) por volta de 250.000 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 29). Muito mais adiante, já durante a nossa Era e em época historiográfica recente, foram localizados no Vale do Neandertal, situado no território alemão, restos mortais de um ser humanoide, cuja datação remonta a cerca de 100.000 a.C. Por terem sido encontrados no referido local, tivemos seu batismo com a célebre e famosa denominação latina por todos conhecida: Homo Sapiens Neandertalensis (Homem de Neandertal). Conhecido por sua inabalável determinação de subsistência diante de inúmeros desafios naturais, especialmente a significativa Era Glacial ocorrida numa época situada em torno do ano 120.000 a.C. em diante, dois são os fatos que merecem ser destacados no sucesso de sua empreitada de sobrevivência perante a glaciação: de início, ele ocupava cavernas que foram escolhidas por sua posição geográfica, suscetíveis ao recebimento de bastante luz solar, bem como utilizava o fogo como instrumento de defesa contra inúmeros animais selvagens, e como utilitário de cozimento destes, eis que também lhe serviam de alimento. Além disso, o próprio fogo mostrava-se um forte aliado na luta contra o frio glaciar. Segundo, e, consequentemente, ele “se espalhara amplamente desde a Europa Ocidental e o Marrocos, num extremo, até a China, no outro, com povoamentos no Oriente Próximo, no Iraque e no Irã” (ROBERTS, 2005, p. 39). Desta forma, o Homo Sapiens Neandertalensis concluiu sua jornada de emigração ao Oriente Médio, lá tendo mais chances de sobrevivência, haja vista o clima menos rigoroso que o europeu, em época glaciares ou não. Neste ponto se chega ao eixo central da questão: como diz ROBERTS (2005, p.p. 39 e 40), “O crescimento do domínio sobre a natureza sugere a existência de linguagens complexas, 5 embora alguns cientistas argumentem que os crânios sugiram que as partes do cérebro que lidam com a fala não são tão bem desenvolvidas quanto as outras. No entanto ele deve ter tido idéias muito avançadas - e, portanto, palavras com as quais se expressavam, porque também fez algo inteiramente novo: enterrava os seus mortos (...) Perto de Samarcanda, o corpo de uma criança Neandertal foi enterrado dentro de um anel de chifres de animais; outra sepultura, no Iraque, continha o corpo de um homemcercado de pilhas de flores silvestres e grama, colocadas ali antes do enterro”. Parece-nos evidente que os aludidos rituais funerários, ofertados por aqueles que emigraram em tempos remotos à Ásia Central e ao Oriente Médio, e em seus contextosmaiores, podem e devem ser interpretados como componentes de religiões pré-históricas, mesmo que ainda não saibamos, de fato, se efetivamente o eram. E, ainda que, no futuro, vier a ser provada tal teoria, talvez nunca venhamos a nos certificar se alguma das duas se constituía, definitivamente, na última religião da Pré-História, embora tenha a primeira tenha, com certeza, a ela tenha pertencido - afinal, conforme transcrito no parágrafo anterior, o corpo encontrado era de uma criança Neandertal, provando que o Homo Sapiens Neandertalensis já ocupava a região de Samarcanda, hoje situada no Uzbequistão, milhares de anos antes do período denominado “História” - que teve e tem como único protagonista o Homo Sapiens, ou Homem de Cro-Magnon, cujo surgimento se deu há cerca de 50.000 anos (ROBERTS, 2005, p. 44). Quanto ao corpo do homem “cercado de pilhas de flores silvestres e grama, colocadas ali antes do enterro”, localizado no Iraque, já se pode dizer que se tratava de um ancestral mais próximo do Homo Sapiens, ou Homem de Cro-Magnon. É, provavelmente e portanto, um antepassado mais recente, com o qual os arqueólogos e historiadores podem trabalhar, não obstante, com uma extensão temporal tão ampla, também e ainda não saibamos se o discutido ritual ocorreu antes ou após o aparecimento da primeira escrita, isto é, antes ou após o início da História. Como diz ROBERTS (2005, p. 72), “mesmo que concordemos quanto a quem são os primeiros humanos, o que foi feito por eles não é de forma alguma História”, pois “só poderemos verdadeiramente começar a compreender os povos e a escrever a história real quando tivermos evidências que nos dêem uma idéia razoavelmente boa do que eles pensavam”. Enfim, “precisamos ter palavras e compreendê-las” (ROBERTS, 2005, p. 72). Então, e obviamente, ROBERTS, numa posição quase que pacificada diante da historiografia mais moderna, afirma ser o ponto de inflexão entre Pré-História e História o aparecimento da escrita, e não o surgimento de alguma primordial religião, certamente constituída muito antes (ainda que 6 não se tenha certeza de quando e onde): religiões fazem parte da Pré-História e da História, não sendo, portanto, o divisor de águas entre uma e outra. Tal atribuição cabe à escrita, verdadeira constituinte e transmissora dos valores de uma respectiva civilização (incluindo sua religião), constituindo-a e fazendo com que somente por meio de um eventual sistema de comunicação a mesma possa transmitir seus valores às gerações então presentes e futuras, e, desta maneira, manterse, prosperar e perdurar. A História, deste modo, “como relato do passado humano, não pode retroceder muito mais do que a primeira escrita. Diz-se que dois caracteres chineses encontrados datam de 5500 a.C., mas a primeira escrita de que termos certeza foi inventada entre 3500 e 3000 a.C.(...) É a era dos relatos escritos” (ROBERTS, 2005, p. 72). Tendo em mente o até aqui exposto, e quase que com inabalável clareza que, da mesma forma que a Ásia Central, o Oriente Médio já se encontrava habitado há milhares de anos pelo Homo Sapiens Neandertalensis, lá houve significativa evolução física e intelectual para o Homo Sapiens, ou Homem de Cro-Magnon, dando vazão ao posterior surgimento da Suméria como a “a primeira civilização identificável”, surgida “no sul da Mesopotâmia, antigo nome grego do atual Iraque” (ROBERTS, 2005, p.p. 82 e 81), já que, naquela localidade, o idioma sumério surge pela primeira vez como língua escrita, em torno do ano 3.500 a.C. A mencionada imersão escrita ocorre por meio de pictogramas e conseguinte evolução ao modelo cuneiforme, representativo de sinais e seus mais respectivos grupos, a fim de expressar sons, tornando, desta forma, muito mais inteligível a capacidade de comunicação (ROBERTS, 2005, p.p. 83 e 84). Se a História Humana começou na Suméria, é pacífico que suas respectivas religiões passaram a ser as doutrinas espirituais iniciais, as primeiras formas de organização devocional da “era dos relatos escritos” (ROBERTS, 2005, p. 72). E é nelas - as religiões sumérias, bem como na egípcia - que submergiremos mais adiante, numa contagem cronológica que vem desde cerca de 10.000 a.C. [...]