Os irmãos Jamba e Hóssi (conto infanto-juvenil)

Certo dia, numa aldeia não muito distante do Huambo, uma mulher deu à luz a gémeos. O mais velho chamava-se Jamba, que significa elefante ou o rapaz mais velho, entre os gémeos. O segundo chamava-se Hóssi, que significa leão ou o rapaz que nasce depois, entre os gémeos.

Desde o primeiro dia, todos na família elogiavam Jamba. Bonito daqui, lindo daí, belíssimo acolá.

- O mais velho é muito lindo e corpulento, é simpático, olhem as bochechas fofinhas. Diziam as pessoas que os visitavam.

O mais novo não recebia os mesmos elogios, tinha outras qualidades. Era, além de doentinho, muito carente de atenção, chorava muito, era muito dependente e muito menos bonito. Então, no segundo ano de vida, a maioria das pessoas que os visitavam ou com quem se cruzavam apaixonava-se pelo primeiro dos jingongos. Os pais assistiam a tudo, com tristeza e preocupação, achavam aquilo muito injusto. Só um dos seus amores recebia atenção.

Lamentava-se a mãe:

- Já não sei o que fazer, o Hóssi não tem culpa de ter as suas qualidades. Ó Deus!

Devolvia o pai, que entendia não haver diferenças entre seis e meia-dúzia:

- Nem o Jamba tem culpa, mas eu sinto que não gostam muito de Hóssi.

Com o passar dos dias, das semanas e dos meses, os pais, sem querer, sem a mínima intenção, passaram a compensar com mais amor, carinho e atenção o segundo filho, naturalmente. Davam menos mimo ao primeiro, porque este já recebia tanto em qualquer lugar para onde fossem. Portanto, eram mais elogiosas as palavras a Hóssi dirigidas. Essa demonstração amorosa foi crescendo e, quando já todos se aperceberam, era uma realidade que os pais gostavam mais de Hóssi do que de Jamba.

Os anos se passavam e, espante-se pela mudança, Hóssi começou a ficar um pouco mais bonito. Depois ficou melhor de saúde. Chegou até a ser mais saudável do que o irmão. Houve um ano em que os pais acreditaram que ficara muito mais bonito.

Falou só para a sua mente o pai:

- O filho que outrora tinha as suas qualidades especiais, agora parece o mais bonito dos gémeos! Hum!

Os progenitores já não podiam mudar ou trocar as tendências que antes tiveram, ninguém mandava no coração, era tudo espontâneo. Por tanto que os pais tentassem, disfarçassem, dessem mil voltas, não podiam esconder o carinho a mais que tinham a favor do segundo jingongo. Antes, Hóssi não se apercebia da diferença de tratamentos, porque era ainda criança, não sentia a falta de atenção das pessoas. Agora, mais bonito e a receber mais carinho, sentia a diferença e o privilégio que tinha. Então Jamba, da mesma forma, sentia a enorme diferença de tratamento que os progenitores davam a cada um deles. Sentia-a na pele. Achava-se injustiçado, não entendia. Por tanto que perguntasse, os pais negavam, porque não o faziam por vontade própria nem por maldade, era inconsciente. Embora Jamba continuasse a ser, para muitas outras pessoas de fora, o mais bonito, a verdade é que, para os progenitores, os pais, havia a necessidade de Hóssi ser igual ou mais bonito do que o irmão para compensar o pequeno desprezo das pessoas.

Sempre viveram assim, um irmão convivia com a dor de não ter os pais a amá-lo de forma justa e outro a ouvir sempre das restantes pessoas que o Jamba era o mais bonito. Os pais, que só queriam buscar equilíbrio, igualdade e justiça, acabaram por cometer injustiças contra quem só queria ser acarinhado também com justiça. Para cada um deles, qualquer amor demonstrado ao outro, sob desculpa de justiça ou de compensar, era uma injusta justiça.

‘Caberá a ti, querido leitor ou querida leitora, escolher qual o fim que preferes: um ou dois?’

Um dia, os dois irmãos acordaram muito iguais, quase ninguém os sabia distinguir pela cara, estavam tão bonitos, com o mesmo rosto, só os pais os distinguiam pela voz. Daí em diante tiveram o mesmo carinho, amor e atenção de todos.

Dois anos depois, tanto a população da aldeia como os pais, apercebendo-se da injustiça que cometiam sempre ao tentar compensar aqui e acolá – e porque depois criavam guerrinhas entre os dois - iam demonstrando muita igualdade e algum equilíbrio no tratamento aos jingongos, de forma desobrigada. Então, eles tornaram-se iguais e ninguém mais era tratado com indiferença ou desprezo.

Hilton Fortuna Daniel, Luanda, 2018. http://os irmãos jamba e hóssi hilton fortuna daniel