* Artigo escrito e publicado em 2016.

Há algumas semanas, o presidente dos EUA, Barack Obama, visitou Hiroshima. Lá, quase 71 anos após a destruição da cidade no fatídico 06 de agosto de 1945, teve contato direto com sobreviventes da bomba atômica lançada pelos americanos. E, apesar de tanto, não pediu desculpas pelo holocausto nuclear promovido por seu país. Entende-se o motivo de tal atitude. Ao longo da História e até hoje, somente Hiroshima e Nagasaki foram alvos de ataques atômicos. Entretanto, por mais que tenham morrido pessoas naquelas duas cidades - e de forma mais abjeta - o número de óbitos não se compara ao total ocasionado no restante do Japão como consequência do uso direto de armamentos convencionais por parte dos EUA. Assim, se pedisse desculpas pelas carnificinas ocasionadas nas mencionadas localidades, deveria invocar o perdão dos japoneses como um todo, vez que, por exemplo, as ofensivas com bombas incendiárias sobre Tóquio mataram mais gente. Agora, cabe perguntar: por que, então, não o faz logo? Por que não pede desculpas ao povo japonês, já que se julga tão politicamente correto? Antes do início da Segunda Guerra Mundial o Japão já possuía uma ideologia expansionista colocada em prática durante a invasão da região da Manchúria, localizada no nordeste da China, e de outros países vizinhos, onde seu Exército imperial violou gravemente os direitos humanos, especialmente em relação às mulheres nativas, utilizadas como escravas sexuais. E, por ocasião daquele conflito, os japoneses formaram aliança com Hitler e Mussolini: Alemanha, Itália e Japão configuraram o grupo que se convencionou chamar de “Potências do Eixo” (que tinha como satélites, por exemplo, Romênia, Bulgária e Hungria). O Eixo se contrapôs, no decorrer da guerra, aos Aliados (EUA, Reino Unido, França, URSS, China, Canadá, Austrália, Brasil e vários outros). No caso em tela, a Alemanha e a Itália se renderam antes de meados de 1945. Falando especificamente a respeito da Alemanha, o país foi completamente destroçado pelas aviações militares dos EUA e do Reino Unido, bem como pelas tropas da URSS oriundas do Leste. Milhões de alemães inocentes morreram em ditos bombardeios, muito mais que o número total de vítimas japonesas no decorrer de toda a guerra, incluindo os episódios de Hiroshima a Nagasaki. Portanto, se Obama pedisse desculpas ao Japão pelas bombas atômicas lançadas em seu território, ou pelos letais bombardeios a Tóquio, estaria legitimando as ações que aquele país praticou antes da Segunda Guerra Mundial, provocando um mal-estar diplomático com a China, grande parceira econômica e superpotência com um mercado consumidor de 1,4 bilhão de pessoas. E, pior, abriria as portas para que, em uma época de ascenção da extrema-direita, algum futuro líder político-partidário europeu do antigo grupo dos Aliados viesse a semear a idéia de, num futuro relativamente distante e instigado pelos revisionistas, pedir desculpas à Alemanha - ainda que a perda de mais cidadãos que o Japão, por parte daquela, tenha se dado sob o comando de Hitler. A guerra é a pior coisa que existe na face da Terra, e o mais revoltante é verificar que civis sempre foram as maiores vítimas de tal tipo de comportamento, mesmo que tivessem vivido em países cujos governos representavam o lado imoral do conflito. Mas, em relação à Segunda Guerra Mundial, é melhor não tentar expiar as culpas, pois hoje a Alemanha, a Itália e o Japão são aliados dos EUA e do Reino Unido. O correto é fazer tudo para que nunca, nunca mais uma guerra de proporções apocalípticas como aquela se repita. Obama, então, agiu corretamente.