O Hinduísmo: Considerações Sobre a Trimúrti

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

*Artigo escrito e publicado em 2021

Ao crescermos em um país laico ocidental, somos condicionados a acreditar que somente o nosso deus, e seus mensageiros na Terra, existiram. Não nos são passadas, pela família ou pelo Estado, informações a respeito de culturas e religiões tão diversas, mas tão diversas da nossa, que, se ainda estivéssemos da Idade Média, seus seguidores seriam injustamente tachados de hereges. E esse é o caso do Hinduísmo, fascinante doutrina da maior parte da população naquele que, talvez, seja o mais misterioso país do mundo: a Índia.

Religião politeísta, com um número de deuses que chega à casa das centenas - num Panteão, por isso mesmo, dos mais diversos em todo o mundo - o Hinduísmo, por ser individualmente definido como a filosofia própria de cerca de 65% a 80% da população indiana, faz parte da identidade nacional daquele país, eis que tal nação é a única do mundo em que o mesmo se constitui numa doutrina absolutamente majoritária (tal qual a língua portuguesa no Brasil em relação ao restante da América: como somos a única nação na região a tê-la como idioma oficial, nele se constitui um fator de identidade nacional no nível continental).

É impossível, aqui, falar sobre todos os deuses do Hinduísmo. Por isso, restringirei a argumentação à tríade sagrada de deuses hindus, chamada Trímúrti e constituída por Shiva, Brama e Vishnu (assim como no Cristianismo Católico e Ortodoxo, em que há igrejas dedicadas a este ou aquele santo, há tempos hindus de adoração somente a cada um dos três deuses da Timúrti - ou dos deuses remanescentes, como o famoso Ganesha, representado por um ser com corpo de homem e cabeça de elefante - e, a exemplo do Cristianismo Protestante, que não crê em santos e por isso suas igrejas são ofertórios apenas ao Deus cristão, no Hinduísmo há templos dedicados, ou à Trimúrti, ou à religião como um todo).

Comecemos por Shiva e Brama: também chamado de Destruidor, Shiva é uma divindade que, juntamente a Brama, representa a ciclicidade dos sucessivos universos por ele criados. Shiva (cuja mencionada alcunha de Destruidor, na minha opinião, é injusta, pois se trata mais de um Reformador ou Transformador, como o dizem alguns hindus, o que se refletiu, inclusive, na lhe atribuída criação do yoga, conforme abaixo se explicita), desfaz um universo decadente a fim de que, em seu lugar, haja a recriação num outro, inovado e mais coerente, por Brama, corretamente alcunhado de Criador, ou Recriador.

A primeira representação de Shiva, assim considerada por arqueólogos, data do Período Neolítico (por volta de 4.000 a.C.). Em suas representações menos remotas, Shiva aparece com um trishula, que é o tridente utilizado para destruir a ignorância dos seres humanos. As serpentes enroscadas em seu quadril e pescoço significam o domínio final sobre a morte, tão bem domada também por meio de seus cabelos enroscados, que assim ficaram depois que Shiva notou que o Rio Ganges, sustentador de seu povo e que cairia à Terra para sustentá-los, era bastante violento, e com tal fúria poderia aniquilar o mundo - pelo que os homens lhe pediram que amortecesse sua queda. Shiva, então, se pôs no caminho do rio e fez com que sua queda sobre a Terra fosse precedida por um impacto sobre sua cabeça, acalmando-o. Assim, o Rio Ganges se amansou e até hoje serve aos indianos, benevolente e manso que é.

Como é tido por Renovador ou Transformador, Shiva não apenas atua no plano abstrato ou imaterial, mas também no terreno, como tão bem mostra sua atitude diante do Rio Ganges e a invenção do yoga, a ele creditada e que produz intensas transformações físicas, psicológicas, espirituais e mentais nos seus praticantes, inclusive com a imposição do calor que emerge da base da coluna e se irradia sobre os chacras, num conjunto de práticas que até hoje se encontra em evidência, com nítidos resultados, inclusive no Ocidente.

E depois de quanto tempo Shiva destrói um universo decadente, para que, ao fim, haja a renovação ou transformação em outro, pelo poder do Criador ou Recriador Brama? Aqui entra o terceiro deus da Trimúrti, que é Vishnu, considerado o sustentador do universo em evidência, sustentação esta que dura apenas um dia de Brama, ao final do qual Vishnu dorme, havendo, assim, nova destruição e posterior renovação ou transformação, por meio dos outros dois deuses aqui discutidos.

Um dia de Brama - ou seja, o tempo total de existência de um universo - é estimado em cerca de quatro bilhões, trezentos e vinte milhões de anos terrestres. Desta forma, em termos científicos, se levarmos em conta que, desde o Big Bang, se passaram cerca de 13,7 bilhões de anos, estaríamos no quinto universo criado por Brama, que também se constitui no quinto dia de sua vida, todos sustentados por Vishnu. E, como a Terra possui cerca de 4,5 bilhões de anos, estaríamos no segundo dia de atuação de Brama sobre o nosso planeta.

Vishnu, durante a existência do atual universo, atou no nosso mundo por meio de sua encarnação em avatares caracterizados por compaixão e sabedoria. Até o momento, foram cerca de uma dezena, sendo os mais famosos Krishna e Sidarta Gautama, o Buda (que significa Desperto, ou Iluminado). Quem conhece a doutrina budista sabe se tratar de uma filosofia apartada do Hinduísmo, eis que existente há cerca de dois mil e quinhentos anos, ao passo que o último é bem mais antigo, haja vista, por exemplo, a citada representação de Shiva durante o Período Neolítico, em cerca de 4.000 a.C.

Portanto, o surgimento do Budismo fez com que o Hinduísmo se apropriasse da figura de Buda como um dos avatares encarnados de Vishnu, num sincretismo pouco conhecido entre as duas religiões, fazendo com que a doutrina Hinduísta viesse a incorporar, também na profunda meditação e consequente iluminação, uma das formas do já conhecido Samsara, que é o contínuo ciclo de encarnações e reencarnações neste mundo de sofrimento, como o próprio Buda dizia, embora - e, repita-se - o Budismo seja uma religião diversa e não teísta. E, se é não teísta, mostra-se compatível com quaisquer outras filosofias, mono ou politeístas, especialmente o Hinduísmo, vez que Buda nunca se referiu a qualquer deus, ou deuses, como figura central de seus ensinamentos. Por isso, bem-vindo o sincretismo realizado pelo Hinduísmo, na figura de Vishnu, que, ao fim do dia de mais de 4 bilhões de anos terrestres de Brama, e depois de cumprida sua missão pela encarnação em diversos avatares, dorme, deixando de sustentar o universo então existente para que Shiva o remova e haja a sua recriação por Brama, numa realidade alternativa, mais sábia e benevolente.

Todas as religiões são doutrinas maravilhosas. Mas, assim como ideologias, devem ser exercidas com comedimento, e, sobretudo, respeito aos que pensam de forma diversa, de modo a evitar conflitos e preservar a bela multiculturalidade de nosso mundo. Multiculturalidade de que os ateus, também dignos de respeito, fazem parte. A ninguém é dado o direito de impor quaisquer pensamentos, por mais altruístas que sejam, mediante o uso da força. E este é, e sempre será, o espírito da laicidade.