O FAZ-DE-CONTA SEGUNDO VYGOTSKY

 

ROCHA, Douglas Diego Palmeira

HOFFMAN, Jéssica Fernanda de Andrade

RODRIGUES, Paula Margherita Maria de Oliveira

Quando Vygotsky discute o papel do brinquedo, refere-se especificamente à brincadeira de "faz-de-conta", como brincar de casinha, brincar de escolinha, brincar com um cabo de vassoura como se fosse um cavalo. Faz referência a outros tipos de brinquedo, mas a brincadeira "faz-de-conta" é privilegiada em sua discussão sobre o papel do brinquedo no desenvolvimento. O autor focaliza o contexto social em que a criança está inserida; segundo ele, a brincadeira possibilita a investigação e a aprendizagem sobre as pessoas e as coisas do mundo.

“O lúdico influencia enormemente o desenvolvimento da criança. É através do jogo que a criança aprende a agir, sua curiosidade é estimulada, adquire iniciativa e autoconfiança, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento e da concentração.” (VYGOTSKY, 1998)

As crianças evoluem por intermédio de suas próprias brincadeiras e das invenções das brincadeiras feitas por outras crianças e adultos. Nesse processo, ampliam gradualmente sua capacidade de visualizar a riqueza do mundo externamente real, e , no plano simbólico  procuram entender o mundo dos adultos, pois ainda que com conteúdos diferentes, estas brincadeiras, possuem uma característica comum: a atividade do homem e suas relações sociais e de trabalho. Deste modo, elas desenvolvem a linguagem e a narrativa e nesse processo vão adquirindo uma melhor compreensão de si próprias e do outro, pela contraposição com coisas e pessoas que fazem parte de seu meio, e, que são, portanto,  culturalmente definidas também.

Para Vygotsky, ao reproduzir o comportamento social do adulto em seus jogos, a criança está combinando situações reais com elementos de sua ação fantasiosa. Esta fantasia surge da necessidade da criança, como já dissemos, em reproduzir o cotidiano da vida do adulto da qual ela ainda não pode participar ativamente. Porém, essa reprodução necessita de conhecimentos prévios da realidade exterior, deste modo, quanto mais rica for a experiência humana, maior será o material disponível para as imaginações que irão se materializar em seus jogos. A construção do real parte então do social (da interação com  outros), quando a criança imita o adulto e é orientada por ele, e paulatinamente é internalizada pela criança. Ela começa com uma situação imaginária, que é uma reprodução da situação real, sendo que a brincadeira é muito mais a lembrança de de alguma coisa que de fato aconteceu, do que uma situação imaginária totalmente nova. Conforme a brincadeira vai se desenvolvendo acontece uma aproximação com a realização consciente do seu propósito.

Vygotsky coloca que o comportamento das crianças em situações do dia a dia são  o contrário daquele apresentado nas situações de brincadeira.

"A brincadeira cria zona de desenvolvimento proximal da criança que nela se comporta além do comportamento habitual para sua idade, o que vem criar uma estrutura básica para as mudanças da necessidade e da consciência, originando um novo tipo de atitude em relação ao real. Na brincadeira, aparecem tanto a ação na esfera imaginativa numa situação de faz-de-conta, como a criação das intenções voluntárias e as formações dos planos da vida real, constituindo-se assim, no mais alto nível do desenvolvimento pré-escolar." (Vygotsky, 1984, p.117).

Outro aspecto importante colocado por Vygotsky (1984) é que, no jogo de faz-de-conta, a criança passa a dirigir seu comportamento pelo mundo imaginário, isto é, o pensamento está separado dos objetos e a ação surge das idéias. Assim, do ponto de vista do desenvolvimento, o jogo de faz-de-conta pode ser considerado um meio para desenvolver o pensamento abstrato.

Mas além de ser uma situação imaginária, o brinquedo é também uma atividade regida por regras. Mesmo no universo do "faz-de-conta" há regras que devem ser seguidas. Ao brincar de ônibus, por exemplo, exerce o papel de motorista. Para isso tem que tomar como modelo os motoristas reais que conhece e extrair deles um significado mais geral e abstrato para a categoria "motorista". Para brincar conforme as regras, tem que esforçar-se para exibir um comportamento ao do motorista, o que a impulsiona para além de seu comportamento como criança. Tanto pela criação da situação imaginária, como pela definição de regras específicas, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança. No brinquedo a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades da vida real e também aprende a separar objeto/significado.

Portanto é preciso, inicialmente, considerar as brincadeiras que as crianças trazem de casa ou da rua e que organizam independentemente do adulto, como um diagnóstico daquilo que já conhecem tanto no diz respeito ao mundo físico ou social, bem como do afetivo e, é necessário que a escola possibilite o espaço, o tempo e um educador que seja o elemento mediador das interações das crianças com os objetos de conhecimento. o professor deve usar o jogo como um recurso pedagógico que desperta interesse e motivação e envolva o aluno mais significativamente, para que a aprendizagem se efetive.

Assim sendo, conclui-se que o brincar, de fato, constitui-se como peça primordial dentro do processo de desenvolvimento e aprendizagem. Este não é, como preza o senso comum, apenas um passatempo ou uma válvula de escape da realidade; pelo contrário, é a interpretação a cerca da própria realidade e de sua influência sobre o indivíduo.

Ampliar os conceitos sobre o brincar e o faz-de-conta na Educação da Infância e no desenvolvimento da Aprendizagem permite-nos avançar em nossa formação acadêmica, de modo que venhamos a tornar-nos pedagogos que valorizem a criança em todos os sentidos, de acordo e a partir dos sinais subjetivos, as pistas deixadas pela própria criança através do brincar.

Por fim, recordando a canção Bola de meia, bola de gude, de Milton Nascimento, queremos fazer memória do menino que há em cada um de nós, em nosso encontro contínuo com as tramas do tempo e as marcas por ele cravadas em nós, de modo, que ele nos ensine a ser, de fato, educadores, contribuidores e co-gestantes de uma nova sociedade, tendo nossas crianças como autores do futuro!

"Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração; / toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar à mão. / Há um passado no meu presente, o sol bem quente lá no meu quintal; / toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão! / Ele fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir: / Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor. / Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver, / e não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal. / Bola de meia, bola de gude, o solidário não quer solidão; / toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão. / Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração; / toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar à mão....

REFERÊNCIAS

 KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O jogo e a educação infantil. São Paulo: Pioneira, 2003.

VYGOTSKY, Lev Semyonovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

http://www.profala.com/arteducesp101.htm

http://www.abpp.com.br/artigos/61.htm

http://pt.scribd.com/doc/504407/A-CRIANCA-E-O-FAZ-DE-CONTA

http://www.webartigos.com/artigos/jogos-e-brincadeiras-de-faz-de-conta-no-processo-pedagogico/16437/#ixzz1xrMZCZmO