FACULDADE DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL – RELIGIÃO E CULTURA PROVA DA DISCIPLINA DE CRISTANDADE MEDIEVAL: IGREJA, ESTADO E SOCIEDADE Aluno: Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho Professora: Priscila Aquino 1) Analise a formação da cristandade feudal através de eixos estudados durante o curso como espiritualidade, vassalidade e sociedade de três ordens. As conquistas territoriais de Carlos Magno, aliadas aos interesses da Igreja Católica Romana, consolidaram uma grande, embora instável, sociedade teocrática - tão instável que, com o desaparecimento da mencionada personalidade, o respectivo território foi alvo de grandes invasões e a pretendida centralização veio a ser subitamente pulverizada, especialmente com o Tratado de Verdun, em 843, que partilhou o Império entre seus netos (CALAINHO, 2014, p. 64). Tais fatos, associados à diminuição da dominação régia sobre a terra quando esta era transferida aos vassalos - submetendo-a, assim, à transmissão por hereditariedade - e ao gigantismo territorial do Império Carolíngio, destroçou-o, dando vazão, do século X ao XI, à independência econômica e política dos proprietários de grandes extensões de terras (CALAINHO, 2014, p. 51). Desta forma, a autoridade monárquica foi sendo esvaziada, fazendo com que os soberanos viessem a se tornar apenas grandes suseranos. A vassalagem passou a ocorrer mais entre os referidos e mencionados senhores de terras, possuidores de sangue carolíngio, e não, tanto, entre os mesmos e os reis (CALAINHO, 2014, p. 56). Dita vassalagem era fiada na fidelidade pessoal, caracterizada num ritual de passagem composto por “Homenagem”, “Juramento de Fidelidade” e “Investidura”, em que os suseranos (proprietários mais abastados) transmitiam uma parcela de suas terras, chamada “feudo”, que viria a ser hereditário (com a repetição de idêntico ritual de passagem), aos vassalos, menos ricos (CALAINHO, 2014, p. 56-57). Com os feudos em suas mãos, os vassalos contraíam uma série de deveres, dentre os quais serviço militar e obrigações pecuniárias, a exemplo do recolhimento de tributos e alimentos àqueles numa economia que, desde a ruralização provocada pela Queda do Império Romano Ocidental, era essencialmente agrícola (CALAINHO, 2014, p. 58). Aos vassalos também era permitido possuir mais de um suserano, ou serem suseranos de um ou mais vassalos (CALAINHO, 2014, p. 56). O referido sistema era espiritualmente apoiado pela Igreja, o que foi fundamental na concepção da mentalidade medieval de que os homens possuíam um destino, imutável, determinado por Deus (CALAINHO, 2014, p. 52). CALAINHO nos dá a entender, especialmente, que “O cristianismo e a Igreja tiveram um papel fundamental nas estruturas mentais do homem medieval. Como vimos, a Igreja aliou-se ao reino franco, refletindo uma cristianização da sociedade, processo que não parou de crescer. A evangelização dos povos germânicos foi bem-sucedida, e a Igreja tornou-se uma grande proprietária no Ocidente, tendo vassalos, colonos e escravos, e, no século IX, suas terras compunham a terça parte das terras cultiváveis da Europa católica.” (CALAINHO, 2014, p. 52). Agora, devemos nos perguntar: ambos - o cristianismo e a Igreja Católica Romana - ou apenas esta última teve participação fundamental e destacada nas “estruturas mentais do homem medieval”? Crê-se que mais a Igreja. De início, a sociedade teocrática, cuja maior parte da população se dizia cristã, e que Carlos Magno havia fundado anteriormente à consolidação do feudalismo na Baixa Idade Média, politicamente incluiu a quase totalidade dos territórios que hoje formam os Países Baixos, a França, a Áustria, a Suíça, a Alemanha, a “Fronteira Espanhola”, a Itália Setentrional e áreas da Europa Central e Oriental que abrangiam a atual Hungria e o que já foi a Iugoslávia. Uma sociedade com aquelas extensões territoriais, ainda que com a Igreja como fiadora moral, só poderia ter sido forjada à força, ferro e fogo. Como nos informa ROBERTS quando menciona Carlos Magno: “Obviamente ele ainda era um tradicional rei-guerreiro franco; realizava conquistas e o seu interesse era a guerra (ROBERTS, 2005, p. 348). Em relação aos saxões, foram brutalmente convertidos ao cristianismo pelo exército carolíngio, de forma que “os que recusavam o batismo ou que mais tarde revertiam ao paganismo eram mortos. Existem estimativas aproximadas de que um quarto da população da Saxônia foi eliminado no processo de conversões forçadas” (HART, 2001, p. 544). HART também afirma que Carlos Magno não possuiu uma função tão decisiva na expansão do cristianismo, “Além de a conversão forçada dos saxões por Carlos Magno ser moralmente indefensável e também totalmente desnecessária. Os anglo-saxões da Inglaterra converteram-se ao cristianismo sem a necessidade de massacres...” (HART, 2001, p. 547-548). Tal fato forjou a mentalidade das populações europeias medievais para que, após a fragmentação do Império Carolíngio e já na Baixa Idade Média, sob o sistema feudal, o mesmo fosse controlado pela Igreja, cujas terras “compunham a terça parte das terras cultiváveis da Europa católica.” (CALAINHO, 2014, p. 52) e cujo papa “governou os seus próprios domínios como qualquer outro monarca” (ROBERTS, 2005, p. 348), em um modo de produção essencialmente agrícola, e que abrangia, além da vassalagem, também o escravismo. Estava firmada a mentalidade, predominante no Ocidente, de que os ditames da Igreja Católica Romana eram, sempre, os desígnios de Deus, de modo que os respectivos seguidores a confundiam com o próprio cristianismo. Esta realidade, aliada ao fato de a maior parte da população da Europa de então ser completamente iletrada, a fazia presa fácil do poder, sendo a maior evidência o próprio sistema feudal, cuja composição, de acordo com um dos mais destacados religiosos de Lyon, Agobardo (século IX), era a uma sociedade na qual “uns rezam, outros guerreiam e outros trabalham” (CALAINHO, 2014, p. 55), sintetizando o que a “Igreja pensava desta sociedade: os homens formavam um só povo de Deus, que os criou e os colocou cada um no seu devido lugar - clérigos, guerreiros e camponeses” (CALAINHO, 2014, p. 55). Ou seja, isso consolidava o que muitos historiadores consideram a chamada “Sociedade das Três Ordens” - aquela na qual havia a total estratificação social nos moldes acima descritos, a fim de perpetuar o injusto e opressivo sistema feudal, cujos fundamentos maiores eram sempre a palavra final da Igreja Católica Romana. Como se não bastasse, as terras eram poucas, gerando lutas. Para proteger as posses e os privilégios dos suseranos, encastelados, existiam os cavaleiros, corriqueiramente filhos de vassalos, que treinavam desde cedo para defender os primeiros em razão da fidelidade feudo-vassálica, sempre em vigor e referendada – novamente - pelos líderes do catolicismo romano. Tecidas estas considerações, e tendo em vista que a guerra e a escravidão não correspondem à real filosofia cristã, afirma-se que a Igreja moldou mais a mentalidade das populações europeias medievais que o cristianismo em si, manipulado para proteger os privilégios das elites econômicas e religiosas de então. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CALAINHO, Daniela Buono. História Medieval do Ocidente. Editora Vozes. 2014. HART, H. Michael. As 100 Maiores Personalidades da História. Editora Bertrand Brasil Ltda, 2001. ROBERTS, J. M. O Livro de Ouro da História do Mundo. Da Pré-História à Idade Contemporânea. Ediouro, 2005. 2) Diferencie a espiritualidade típica do movimento monástico com a que nasce com o advento das Ordens Mendicantes. Associe essa diferença ao contexto histórico de formação de cada um desses movimentos. 3) Analise a configuração do Além medieval e explique a importância do alémtúmulo na chamada lógica da salvação. Cara Professora Priscila: enquanto este aluno escrevia, o mesmo percebeu que a análise abaixo pode se referir tanto a uma quanto outra das questões logo acima propostas, eis que, no nosso entender, ambos os assuntos são indissociáveis. Pede -se, portanto, que a considere uma resposta única e conjunta aos referidos questionamentos. Inicialmente, cabe afirmar que, não obstante no século XIII a Igreja Católica Romana ter consagrado sua dominação espiritual na maior parte do Ocidente, os grupos heréticos e muçulmanos que vinha combatendo não paravam de crescer, e isso a preocupava muito, eis que a mesma já se encontrava envolta nas Cruzadas, possuidoras de forte apelo espiritual desde que o papa Urbano II, em 1095, convocou a primeira da série de oito expedições militares a Jerusalém, e que durariam, no total, cerca de duzentos anos, do século XI ao XIII. Em relação aos muçulmanos na Península Ibérica, foram definitivamente expulsos de Portugal pelos cristãos, em 1253, e da Espanha ao fim da Idade Média, mais especificamente em 1492, num episódio que a historiografia moderna denominou “Reconquista Cristã”. O incentivo para que os cristãos viessem a combater os infiéis que ameaçavam a Igreja Católica Romana na Península Ibérica e o sistema feudal do qual era beneficiária no restante do Ocidente Medieval sempre foi o mesmo que os convocava para lutar nas Cruzadas: a salvação eterna, com a remissão dos pecados, conforme se pode verificar pela transcrição de parte do conclame de Urbano II no Concílio de Clemont, em 1095: “Que combatam os infiéis os que até agora se dedicavam a guerras privadas (...). Que recebam as recompensas eternas os que até então lutavam por ganhos miseráveis. Que tenham uma dupla recompensa os que se esgotavam em detrimento do corpo e da alma” (CALAINHO, 2014, p. 96). Como se pode verificar, há, no texto acima, um apelo para que os cristãos de todas as classes sociais viessem a participar do movimento cruzadístico, numa exceção ao princípio do imobilismo social segundo o qual a sociedade cristã era um ambiente onde somente “uns rezam, outros trabalham e outros guerreiam” (CALAINHO, 2014, p. 55). Aqui, os que rezam, como os senhores feudais (e que participavam de “guerras privadas”), são conclamados a lutar. Os que trabalham, como os servos (“os que até então lutavam por ganhos miseráveis” e os que “se esgotavam em detrimento do corpo e da alma”) e os comerciantes, são chamados a combater. Como a mentalidade do homem europeu medieval era estritamente religiosa - o que significava obediência total aos ditames da Igreja Católica Romana -muitos senhores foram lutar, bem como servos, pobres comerciantes e outras pessoas que nada tinham a perder, como mendicantes e aventureiros de toda espécie: todos partiram para a Palestina no intuito de obter a salvação. Não devemos esquecer, também, que naquela época a espiritualidade do Ocidente Medieval estava muito restrita aos mosteiros, e, em virtude da presença, no mundo em geral, dos grupos considerados heréticos, havia muito pessimismo em relação ao homem. No entanto, como que num reflexo vindo da alta cúpula, apesar de os monges nada possuírem pessoalmente, seu sustento era garantido pela enorme quantidade de bens recebidos, pelos riquíssimos monastérios, da nobreza e do povo em si. Parte das ordens era muito luxuosa. E, apesar disso, praticar o monasticismo ou a religião era, junto à luta pela fé - em especial nas Cruzadas - a única via garantida para o Paraíso. Por isso, muitos leigos, quando sentiam estar no fim da vida, se convertiam de última hora (a chamada “piedade fugitiva”). Mas, ao longo do século XII, no Ocidente Medieval passou-se a difundir as ideias de um deus benevolente, com a elaboração, por teólogos, da Teoria do Purgatório, que seria um estágio espiritual entre a Terra e o Céu, de acordo com sua beatitude. Desta forma, o Ocidente Medieval se torna mais otimista no que diz respeito ao destino de cada um, não sendo o Céu exclusividade de monges enclausurados ou religiosos em geral, bastando, para alcançá-lo, simplesmente praticar o cristianismo. Entretanto, como dito dois parágrafos acima, parte das ordens era luxuosa - parte, mas nem todas, pois também havia “ambientes de ascetas e/ou de vida consagrada”, já que “os primeiros monges conjugaram à contestação da mundanização uma tradição de rigorismo moral e ascético, e uma atitude de fuga do mundo, de desprezo pelo mundo (contemplus mundi) e de ida ao deserto como local da luta ascética e do encontro com Deus na solidão. Com esta forma de segregação do convívio social e eclesial, os monges desejavam proclamar a absolutidade de Deus”, numa “luta contra demônios e contra a vontade própria” (GOMES, Francisco José Silva, p.p. 02 e 03). Afinal, “O cristão é aquele que deixa tudo para seguir o Cristo (sequela Christi)”, sendo que “O monge deve perseverar na busca de Deus até o fim” (GOMES, Francisco José Silva, p.p. 03 e 05). Não obstante, fica, também, registrado que “Bento na sua regra (...) diz: ‘Otiositas inimica est animae’. O valor do trabalho é reconhecido como benéfico para a Salvação enquanto elemento de penitência” (GOMES, Francisco José Silva, p. 06). Não custa, da mesma forma, lembrar que “o monge céltico era antes de tudo um penitente que praticava quotidianamente fortes austeridades: jejum diário, salmodia coral pesada, sono curto, muitas mortificações”( (GOMES, Francisco José Silva, p. 08). Por que mencionamos os monges célticos? Simplesmente pelo fato de que “monges /padres irlandeses tornaram-se igualmente missionários em terra estranha: quer na Escócia, que na Inglaterra, quer ainda no continente” (grifos nossos - GOMES, Francisco José Silva, p. 08), o que, até prova em contrário, não exclui a Península Itálica, onde todas essas ideias foram recepcionadas por São Francisco de Assis (1181-1226), opositor tanto da grande suntuosidade exibida pelo clero da Igreja Católica Romana, assim como dos mosteiros que não praticavam as penitências supramencionadas e da clausura monástica: integrante de uma família rica da cidade de Assis, por volta dos 24- 25 anos de idade abandonou todos os seus bens materiais para se converter num discípulo de Cristo, literalmente à imagem e semelhança do Messias, ou seja, pobre a caridoso, bem como advogando que a religião deveria ser fonte de felicidade, e não de opressão, como nas Cruzadas. Também pregava um retorno às origens do cristianismo primitivo por meio de um contato direto com o povo, nas ruas, a exemplo do que passou a fazer. Não é errôneo dizer que se tornou um mendigo - daí o outro nome pelo qual a Ordem dos Franciscanos também viria a ser conhecida quando de sua fundação: era uma das “Ordens dos Mendicantes”. Entretanto, inobstante suas ideias serem contrárias às atitudes de fato da Igreja Católica Romana de sua época, São Francisco de Assis não foi reprimido. Ao contrário: à medida que foi ganhando seguidores sua pregação se expandia. Desta maneira, em 1210 o papa Inocêncio III adotou oficialmente seu discurso, de forma que passou a ser conhecido em todo o Ocidente Medieval, naquele que foi um passo para o reconhecimento da referida Ordem dos Franciscanos, em 1223, e sua posterior canonização, poucos anos depois de morrer. São Francisco de Assis foi, digamos, “imitado” por Domingos de Gusmão (1170- 1221), fundador da Ordem dos Dominicanos (a outra “Ordem dos Mendicantes”), que também criticava a riqueza material do clero da Igreja Católica Romana, e que, do mesmo modo, abandonou tudo em 1210 para seguir sua vocação. Ele - e isso é muito importante - pregava que os povos pagãos deveriam ser convertidos pela persuasão, com o ensino da verdadeira filosofia cristã, e não pela força. Também não foi perseguido e sua Ordem viria a ser reconhecida em 1216. Percebemos, destarte, que na época de São Francisco de Assis e Domingos de Gusmão se inaugura um novo período de visão da cristandade quando o que está em jogo é a salvação da alma. Não é demais dizer que, como afirma a historiografia, com ambos, por meio da rebelião individual, mas pacífica, de seus espíritos em relação ao injusto sistema feudal - do qual a Igreja Católica Romana, voltamos a dizer, fazia parte - a pobreza e o subjugo próprio, e (por que não?) a pregação da liberdade de religião, com a conversão pacífica dos hereges, passaram a ser ineditamente propagadas, num grau de oposição até então inexistente em relação à Instituição Eclesiástica, não obstante a não perseguição a ambos, com cujas ideias a própria Igreja nunca demonstrou concordar (tanto que, alguns anos após suas mortes, em 1231, instituiu o Santo Ofício da Inquisição). As doutrinas franciscanas e dominicanas, aliadas aos anteriores ensinamentos dos monges penitentes, passariam a ser cânones de salvação após a morte: foram verdadeiras revoluções na espiritualidade medieval. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CALAINHO, Daniela Buono. História Medieval do Ocidente. Editora Vozes. 2014. GOMES, Francisco José Silva. Peregrinatio e Stabilitas: Monaquismo e Cristandade Ocidental do Século VI a VIII.