Este artigo tem por finalidade analisar a reescrita das memórias na obra “Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras”, da autora Eliane Brum.

Narrativa sobre a infância, a obra Meus desacontecimentos (2014), da autora Eliane Brum não é um texto infantil ou escrito para crianças. Trata-se de uma obra memorialística em que uma narradora já adulta, que se apresenta com o mesmo nome da autora, retoma o passado, ou a infância, para compreender o presente e o seu processo de amadurecimento através da reescrita.

O objetivo desse trabalho é compreender e refletir sobre a obra em questão e sobre as singularidades da reescrita das memórias na dualidade do tempo do enunciado (infância) e do tempo da enunciação (presente).

Para tanto nos fundamentaremos em Todorov (2000), Le Goff (2003) e Olmi (2006) para discutirmos o tema proposto. Todorov (2000) nos mostra como distinguir os bons usos dos abusos da memória. Segundo ele, o bom uso da memória dá-se quando a memória é utilizada como fonte de libertação; se, no entanto, a memória for utilizada para perpetuar o ódio, será um mau uso. Ambas vertentes podem ser percebidas por meio das reminiscências.

Para Le Goff (2003) a dimensão histórica da memória deve ser considerada, bem como suas formas de libertação e seu uso como forma de memorar recordações, sendo fonte de evolução e desenvolvimento para a sociedade.

Para Olmi (2006), a memória, torna-se parte da técnica retórica e, na era da escrita, supera o armazenamento de dados e nela se reconhece sua dimensão criativa. Para a autora, portanto, ela não é o depósito do revivido, é invenção e linguagem.

Desse modo, percebe-se que os teóricos citados anteriormente se reportam à mesma matéria pré-existente da escrita memorialística, mas o valor atribuído a cada produção é diferente. Olmi quer tratar a maneira peculiar com que cada escritor produz seu texto retrospectivo e Le Goff acrescenta ao caráter criativo da memória também a função libertadora, como fonte de poder. Todorov enfatiza os diferentes usos da memória. O gênero memórias pode ser visto como um todo, mas a maneira de abordá-lo é diferente.

O trabalho será dividido em duas partes específicas, além das referências. A esta, “Sobre a obra e a autora”, seguirão o capítulo 2, intitulado “A reescrita do passado” e será sucedida pela  “Conclusão”.

Sobre o método, vale salientar que se trata de uma pesquisa de base qualitativa já que a interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados, próprias da pesquisa qualitativa, dizem respeito à proposta de unir a reescrita das memórias de Brum às memórias de infância.

Além disso, o presente artigo se justifica por apresentar leitura reflexiva sobre uma obra literária publicada recentemente e tentar, por meio desta leitura, explicar a maneira como a autora, usando de suas próprias escolhas, singulariza sua produção de reescrita de memórias e, sobretudo, de memórias da infância. Deste modo, seguindo o caminhar da pesquisa científica, as informações específicas sobre a obra selecionada serão precedidas por informações gerais sobre a obra e autora, trilhamento que será iniciado a seguir.

Com cento e quarenta e quatro páginas distribuídas em vinte e um capítulos, publicada em dois mil e quatorze pela editora Leya, a obra, desde o início, apresenta uma escrita retrospectiva em que fica claro o retorno ao período da infância. Por outro lado, a marca da escrita destas memórias é seu caráter criativo, já que o texto acaba por se tornar algo muito maior que um depósito de fatos passados. A seleção dos episódios apresentados contemplam a infância por meio de uma linguagem metafórica e plurissignificativa.

A autora Eliane Brum, gaúcha de Ijuí, é jornalista, documentarista, escritora e trabalhou por onze anos como repórter do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Atuou dez anos como repórter especial para a Revista Época, em São Paulo, desde outubro de 2013 escreve uma coluna quinzenal no site do jornal global El País e atualmente trabalha como freelancer.

Além de “Meus desacontecimentos”, a escritora gaúcha publicou mais cinco livros, dentre eles, quatro de não ficção e um romance. Participou como integrante de coletâneas de crônicas, contos e ensaios. Como jornalista, Eliane Brum ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem e como escritora inúmeros prêmios, dentre eles, o Prêmio Jabuti 2007 de melhor livro de reportagem com a obra, “A Vida Que Ninguém Vê” (2006). Por três vezes ganhou o Troféu Mulher Imprensa. Recebeu três vezes o Prêmio Cooperifa, “por ajudar, com suas ações, a construir uma periferia melhor para viver”, e o Prêmio Orilaxé, do grupo AfroReggae, concedido a pessoas e entidades que, com seu trabalho, tem conseguido “mudar a realidade, melhorando a qualidade de vida das pessoas e do planeta”.

De 2009 a 2011, Eliane publicou crônicas semanais no site Vida Breve e faz também conferências e participa de debates no Brasil e no Exterior além de participar no Brasil de diversos festivais e encontros literários, como a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty).

No ano de 2011, Brum foi convidada a visitar projetos dos Médicos Sem Fronteira (MSF), que narram as suas experiências revelando realidades para as quais o mundo parece estar de olhos vedados. A autora foi para o interior da Bolívia, um povoado denominado Novillero, onde se deparou com uma menina que a agarrou pelos braços pedindo que não a deixasse morrer, a jornalista sentiu na pele que escrever aquela reportagem não salvaria a vida da menina.

       A partir desse momento, Eliane Brum, que passou anos escrevendo sobre a vida de pessoas anônimas, conta como ela mesma se arrancou do silêncio para virar narrativa. Em Meus desacontecimentos, portanto, reescreve suas memórias de infância ao mesmo tempo em que descobre seu amor pela literatura. Abordando alguns “desacontecimentos” que marcaram a sua infância, a autora revolve-se para lidar com a menina que foi, salva da morte pela escrita.

Inúmeros escritores retomaram, em obras específicas, apenas o período da infância ao escrever suas memórias: Jorge Amado; José Lins do Rego, José Saramago etc. Também Brum optou por esta forma de memórias. Dentro de sua escolha, a marca da singularidade de sua escrita neste universo de memórias da infância parece estar vinculada ao caráter criativo escrito em busca de sua libertação, privilegiando não a vida escolar, nem os episódios apenas familiares, mas aqueles que, aparentemente desconexos, foram unidos como sequência de um amadurecimento sofrido, ligado às palavras, improvável, brutal e que vai construindo o eu que intenta se libertar: “Esta é minha memória. Dela sou aquela que nasce, mas também sou a parteira” (BRUM, 2014, p.9).

Desta maneira, compreendeu-se que é na reflexão sobre as palavras que nascem do revivido das experiências infantis que está o cerne da obra. Meus desacontecimentos amplia o conceito de memórias e de retorno à infância ao sacralizar o literário como rito de passagem, ou seja, a escrita desta obra se assemelha a um ritual tal como o das sociedades primitivas, nas quais ocorrem cerimônias especiais, conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem. Essas cerimônias, mais do que representarem uma transição particular para o indivíduo, representavam, igualmente, a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual estavam inseridos, tendo, portanto tanto o cunho individual quanto o coletivo. Ao leitor, resta a impressão de que a narradora ao reviver, pode superar, pela palavra, muitas experiências ainda não “digeridas”.          

Ao final, na obra de memórias da jornalista-escritora, amplia-se o conceito de memórias e de retorno à infância ao sacralizar-se o literário como rito de passagem: “Libertei as letras, e elas emergiram dos meus abismos como voragem. Voltei a escrever. Dessa vez, uma vida para mim.” (BRUM, 2014, p.143). Assim terminam as memórias da autora que fez de suas várias mortes ou “desacontecimentos”, uma ponte para inventar-se, firmada sobre o vazio da linguagem, mas com a firmeza própria da fluidez das memórias de infância.

 

REFERÊNCIAS

 

BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985.

BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. São Paulo: Leya, 2014.

DIGNIDADE! : Nove escritores vivenciam situações- limites e relatam o comovente trabalho da organização Médicos Sem Fronteira- São Paulo: Leya, 2012.

Disponível em: http://desacontecimentos.com/biografia/. Acesso em 24 de Outubro de 2018.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5 ed. Campinas: Ed. da UNICAMP, 2003.

LEJEUNE, Philippe. El pacto autobiográfico y otros estudios. Madrid: Megazul-Endymion, 1994.

OLMI, Alba. Memória e memórias: dimensões e perspectivas da literatura memorialística. Santa Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2006.

TODOROV, Tzvetan. Los abusos de la memoria. Barcelona: Paidós, 2000

LIDIANE DA SILVA XAVIER - Graduada em Pedagogia; Especialista em Educação Infantil e professora na Rede Municipal de Ensino Público na cidade de Rondonópolis. 

RAQUEL SANTOS SILVA - Graduada em Letras; Especialista em Educação Infantil e professora na Rede Municipal de Ensino Público na cidade de Rondonópolis.

VALQUIRIA RODRIGUES DIAS- Graduada em Pedagogia (UFMT); Especialista em Psicopedagogia (UNISERRA) e professora na Rede Municipal de Ensino Público na cidade de Rondonópolis.