Mais do que aquela dor muscular, a metáfora do coração que dói trata justamente da dor que não se resolve com remédios medicinais. Esta metáfora trata daquela dorzinha, aquela profunda dor causada por alguma situação triste, mas que não necessariamente é definitiva. São sentimentos que por vezes temos que ir desperdiçando, gastando, fazendo deles um martírio, um sacrifício, quando não, deixando aprisionados estes sentimentos verdadeiros e intensos. E o cárcere vem do silêncio, porque não é sempre que conseguimos verbalizar ou que podemos falar claramente sobre tudo que sentimos e temos dentro do coração. E é por isso mesmo que essa forma estranha e bonita e esse sacrifício todo aprisiona os sentimentos que nascem no coração e que neles sempre viverão, sempre viverão... Sufocar o amor machuca muito, mas matá-lo às vezes machuca mais, pois o medo do vazio se instalar causa o distanciamento, causa a solidão, causa o silêncio dentro de nós. E o martírio, o sacrifício é fazer silenciosamente algo para que esse amor nasça no outro também. E como nós somos ingênuos, achando que nossos gestos são notados por quem queremos que sejam vistos. Bem como aquilo que escrevemos. Mas se pensarmos bem, a metáfora do coração que dói vive de certa forma em cada um de nós. Seja por não termos a coragem necessária de dizer em palavras claras aquilo que os nossos olhos denunciam a cada encontro e reencontro. Aquilo que nossos sonhos e desejos nos causam quando estamos frente a frente, ou por uma vez ou por outras tantas vezes novamente. E seja por não termos aqueles atrativos para mudar a situação e ganhar da vida (ou criar na vida) esta chance de demonstrar coragem para dizer um "eu te amo" sem receio algum da rejeição. A metáfora do coração que dói causa dor mesmo quando esquecemos quem somos, tentando ser quem não sabemos ser, e caímos em um abismo de falta de personalidade e deformação afetiva. Por fim, que esta metáfora caiba em nós no tamanho que pudermos suportar, assim como é a cruz de cada pessoa, do tamanho que se pode carregar sozinho. Não absolutamente na solidão, mas sabendo curar as dores do coração, ainda mais quando não há metáforas para definí-las ou curá-las.