A Diplomacia Brasileira, Comprometida pela Covid-19 Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho *Artigo escrito e publicado em 2021 Há alguns anos, quando um alto funcionário do governo israelense qualificou o Brasil como “anão diplomático”, discordei veementemente: o Brasil faz parte de uma minoria que mantém relações amistosas com todos os demais membros de ONU (Organização das Nações Unidas). Portanto, se existe algum “anão diplomático” não somos nós. Porém, é no âmbito da própria ONU que nos transformamos, de fato, em tal e humilhante condição, pois, desde os primórdios da organização, é o representante brasileiro - embaixador na própria entidade, ministro das Relações Exteriores ou presidente da República - que abre os debates anuais da Assembleia Geral. Somos sempre os primeiros a nos pronunciar, dado nosso caráter multilateral. O que poderia, insultuosamente, não ter ocorrido neste ano. Todos sabem que o presidente Jair Bolsonaro é um negacionista convicto da pandemia de Covid-19. É e foi contra a vacinação, afirmando que não o faria em si mesmo, ou, na melhor das hipóteses, seria o último brasileiro se imunizar. Entretanto, para os debates anuais da Assembleia Geral que se iniciaram em 21 de setembro, o respectivo presidente, Abdullah Shahid, afirmou ter recebido notificações da Prefeitura de Nova Iorque informando que "a prova de vacinação é exigida para certas atividades em ambientes internos, incluindo a sede das Nações Unidas”. O prefeito de Nova Iorque é Bill de Blasio, do Partido Democrata - agremiação de Joe Biden, adepta da imunização e adversária de Donald Trump. Desta forma, não é demais imaginar que a exigência - necessária, diga-se - pode ter tido como objetivo principal a retaliação ao presidente brasileiro: afinal, como dito, ele se traduz num negacionista. Assim, Blasio imaginou que, se o líder brasileiro não se vacinasse até o dia de abertura da Assembleia Geral, não teria como provar que tem condições de participar do evento, e haveria o consequente impedimento de acesso a quaisquer dependências da ONU, trazendo-lhe enorme desgaste diplomático. Ocorre que a iniciativa de Blasio foi, apenas, parcialmente eficiente por três motivos. Primeiro, fracassou porque a sede da ONU é um dos chamados “territórios por ficção jurídica”, não sendo considerado, para todos os efeitos, parte de qualquer país. É solo internacional, sobre o qual a prefeitura de Nova Iorque não tem qualquer ingerência. Segundo, falhou porque Bolsonaro estava, como ainda está, obcecado em provar que não agiu com dolo na condução crise pandêmica da Covid-19, que já vitimou mais de 600 mil brasileiros. Descaracterizado o dolo, não poderá vir a ser condenado pelos diversos delitos que lhe são imputados, aí incluídos crimes contra a humanidade. Para tanto, não hesita em arriscar a própria vida. É como se nos dissesse que realmente crê no que dissemina a respeito da enfermidade e de suas respectivas vacinas, reforçando ao máximo a mensagem de acredita no que propaga, falhando sem má intenção, como real ser humano que é. Mesmo que, em razão disso, o presidente da Assembleia Geral ou o secretário geral da ONU o proibissem de ingressar naquele território internacional (poder que confesso desconhecer se eles possuem, mas suponhamos que o detenham), rompendo a tradição de ser o Brasil o primeiro a discursar, e, pior, impedindo o próprio discurso em si - seja em qual ordem de prioridade fosse - causando, portanto, enorme desgaste ao nosso país. O que ocorreu pelo conteúdo do discurso, não por eventual impedimento. Já o terceiro motivo foi o parcial êxito de Blasio. Bolsonaro não pôde entrar em restaurantes da cidade por causa da exigência do prefeito, agora em seu próprio território, de apresentação do passaporte sanitário para o respectivo ingresso. Nunca, na História de Nova Iorque, um chefe de Estado e de Governo estrangeiro passou, ali, por tanto ultraje e constrangimento. Mas Bolsonaro, no fundo, não estava nem aí, já que tudo valia para descaracterizar o dolo de que é constantemente acusado, e, desta maneira, salvar sua liberdade e seu mandato (ainda mais no momento em que era alvo constante das conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19). Mandato este que, convenhamos, acabou de ser seriamente atacado, também, pela correta atitude de um prefeito estrangeiro.