Pedagogia Hospitalar -TCC
 
Pedagogia Hospitalar -TCC
 




"As maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade".
(Vygotsky)




"Feliz daquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

(Cora Coralina)

RESUMO


O presente projeto tem a finalidade de conceituar a Pedagogia Hospitalar, valorizando a importância dessa modalidade para as crianças hospitalizadas. Esta proposta tem a pretensão de oferecer o acesso à escola possibilitando a adaptação, a motivação e a ocupação sadia do tempo ocioso através de atividades diversas de leitura e entretenimento, além de garantir o direito à educação. A inserção do ambiente escolar no período de internação é importante para a recuperação da saúde da criança hospitalizada, já que reduz a ansiedade e o medo advindos do processo da doença. O projeto aborda a importância dos professores que atuam nessa modalidade de se especializarem cada vez mais, com o objetivo de mostrar a necessidade da continuidade do trabalho oferecido pela escola às crianças que se encontram por algum motivo de saúde hospitalizada, fazendo com que elas não percam a motivação pelo estudo e para que não se sintam "perdidas" quando voltarem para a escola.
Palavra-chave: Criança Hospitalizada - O Pedagogo na escola-Classe Hospitalar










ABSTRACT


This project aims to conceptualize the Pedagogy Hospital, valuing the importance of this modality for hospitalized children. This proposal purports to offer access to the school enabling the adaptation, motivation and healthy occupation of idle time through various reading activities and entertainment, besides guaranteeing the right to education. The inclusion of school during hospitalization is important for the health recovery of hospitalized children, as it reduces anxiety and fear arising from the disease process. The project addresses the importance of teachers who work in these increasingly specialize, with the aim of showing the need for continuity of work offered by the school children who are for some reason health hospital, so they do not lose the motivation for the study and not to feel "lost" when they return to school.
Keyword: Hospitalized Child-The Educator Hospital-Grade in school.














SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 10
CAPÍTULO I ? CONCEITUANDO A PEDAGOGIA HOSPITALAR..................... 12
CAPÍTULO II ? POLÍTICAS EDUCACIONAIS DE ATENDIMENTO AO
ALUNO HOSPITALIZADO.............................................................................................15

CAPÍTULO III ? A DIDÁTICA DO PROFESSOR EM CLASSE HOSPITALAR ........ 30

CAPÍTULO IV ? BRINCAR: O RECEITUÁRIO DA ALEGRIA..............................40
CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................54
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................55








INTRODUÇÃO


A classe hospitalar tem o seu início em 1935, quando Henri Sellier inaugura a primeira escola para crianças inadaptadas, nos arredores de Paris. Seu exemplo foi seguido na Alemanha, em toda a França, na Europa e nos Estados Unidos, com o objetivo de suprir as dificuldades escolares de crianças tuberculosas (GHIRALDELLI, P. O que é Pedagogia. São Paulo. Brasiliense, 1989.).
Pode-se considerar como marco decisório das escolas em hospital a Segunda Guerra Mundial. O grande número de crianças atingidas, mutiladas e impossibilitadas de à escola, fez criarem um engajamento, sobre tudo dos médicos que hoje são defensores da escola em seu serviço. Em 1939 é criado o C.N.E.F.E. I ? Centro Nacional de Estudos e de Formação para a Infância Inadaptadas de Surenes, tendo como objetivo a formação de professores para o trabalho em institutos especiais e em hospitais.
Também em 1939 é criado o Cargo de Professor Hospitalar junto ao Ministério da Educação na França. O C.N.E.F.E. I (Centro Nacional de Estudos e Formação para a Infância Inadaptadas de Surenes) tem como missão até hoje mostrar que a escola não é um espaço fechado. O centro promove estágios em regime de internato dirigidos a professores e diretores de escolas, os médicos de saúde escolar e a assistentes sociais.
A formação de professores para atendimento escolar C.N.E.F.E. I (Centro Nacional de Estudos e Formação para a Infância Inadaptadas de Surenes) já formou mil professores para as classes hospitalares, cerca de 30 professores a cada turma existem no Brasil.
Ø Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, MEC, 1996;
Ø Estatuto da Criança e do Adolescente Hospitalizado ? resolução n.°41 de outubro de 1995, item 9.
Ø Portaria n.°30 SER, de 05/03/2001

Legislação

No Brasil, a legislação reconheceu através do estatuto da Criança e do Adolescente Hospitalizado, através da Resolução nº. 41 de outubro e 1995, no item 9, o "Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar".
Em 2002 o Ministério da Educação, por meio de sua Secretaria de Educação Especial, elaborou um documento de estratégias e orientações para o atendimento nas classes hospitalares, assegurando o acesso à educação básica. Em Santa Catarina, a SED baixou Portaria que "Dispõe sobre a" implantação de atendimento educacional na Classe Hospitalar para crianças e adolescentes matriculados na Pré-Escola e no Ensino Fundamental, internados.
em hospitais" (Portaria nº. 30, SER, de 05/ 03/2001).
Todo o aluno que freqüenta a classe possui um cadastro com os dados pessoais, de hospitalização e da escola de origem. Ao final de cada aula o professor faz os registros nesta ficha com os conteúdos que foram trabalhados e outras informações que se fizerem necessários.
O aluno que freqüenta a classe por três dias ou mais é realizado contato Telefônico com sua escola, comunicando da sua participação na classe e obtendo-se informações referentes aos conteúdos que estão sendo trabalhados, no momento, em sua turma. Após alta hospitalar, é enviado relatório descritivo das atividades realizadas, bem como do seu desempenho, posturas adotadas, dificuldades apresentadas.
Para que este seja legitimado, é necessário o carimbo e assinatura do diretor (escola da Rede Regular Estadual) a fim de encaminhá-lo à escola de origem.
A proposta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (MEC, 1996) é a de que toda criança disponha de todas as oportunidades possíveis para que os processos de desenvolvimento e aprendizagem não sejam suspensos.

CAPÍTULO 1 ? CONCEITUANDO A PEDAGOGIA HOSPITALAR
A Pedagogia Hospitalar é um ramo da educação que proporciona à criança hospitalizada uma recuperação mais aliviada, através de atividades lúdicas, pedagógicas e recreativas, além disso, previne o fracasso escolar, que é gerado pelo longo tempo de afastamento da rotina escolar.
A pedagogia hospitalar surgiu da necessidade de cuidar não só do corpo da criança hospitalizada e, mas dela como um todo, atendendo suas necessidades físicas, psicológicas e sociais. Juntos pedagogos, profissionais de saúde e família, fazem com que a criança hospitalizada supere suas dificuldades.
Para desenvolver a atividade de pedagogia hospitalar é necessário uma formação diferenciada e ter condições emocionais para se deparar com as diversas situações existentes nesse ambiente. O professor deve ter a formação pedagógica preferencialmente em Educação Especial ou em Pedagogia.
Segundo Matos e Muggiati (2001, p83), muito há pela frente, considerando suas novas vertentes que aí estão para se associarem aos primeiros esforços que, certamente, servirão de base angular para uma edificação sólida, com a consistente participação de todos, em prol daquelas crianças que têm direito à saúde, mas também têm direito de se educar. Essa polêmica realidade de ordem política, social, psicológica e educacional, com imensuráveis dimensões, veio assim se constituir em inconstantes argumentos à necessidade de se buscarem alternativas de complementação e aprimoramento científico. A pedagogia hospitalar representa a segura resposta ao desafio que se instalou.
Alguns trabalhos de pedagogos em instituições não escolares (hospitais) indicam uma melhora significativa das crianças hospitalizadas, pois as intervenções desses profissionais proporcionam as crianças hospitalizadas, motivação e a ocupação, tudo isso com atividades diversas de leituras recreativas e a garantia do direito à educação.
"Segundo MEC/SEEP, classe hospitalar é o atendimento pedagógico educacional de alunos que em razão de tratamento de uma enfermidade, estejam hospitalizados." (BRASIL, 2001).
Uma pesquisa realizada de 19 a 21 de julho de 2000 no Rio de Janeiro, relata que as classes hospitalares no Brasil estão distribuídas por 13 Estados e no Distrito Federal. As atividades das classes hospitalares são desenvolvidas por 140 professores que atendem a uma média mensal de 2.100 crianças hospitalizadas. (FONSECA, 1991)
A partir de 1990 houve um aumento significativo de classes hospitalares implantadas no Brasil devido na uma maior atenção às necessidades das crianças, resultando assim na promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente hospitalizados (BRASIL, 1995).
O nível de escolaridade das crianças hospitalizadas equivale ao primeiro ciclo e o tempo médio de internação das crianças atendidas nas classes hospitalares é de um mês, mas existem crianças que ficam de 15 dias até três meses internadas. Infelizmente 23% das classes hospitalares dispõem de salas de aulas exclusivas, 26% são de salas adaptadas para a realização das aulas, corredores de hospitais ou as próprias enfermarias servem como salas de aula. (BRASIL, 2001).
Apenas 4 classes hospitalares contam com computadores e 2 destas apenas tem acesso à internet. Essas classes hospitalares em sua grande maioria são em hospitais filantrópicos, porém vou me atentar somente em alguns, os da Rede Sarah (Cuida de Problemas do aparelho motor), dos Estados do RJ, SC e RS. (FONSECA E CECCIM, 2001).
Em muitos hospitais do Brasil tem se enfatizado a filosofia humanística.
A prática desse trabalho deverá ser o de ter os olhos voltados para o ser global, e não somente para o corpo, atendendo todas as necessidades das crianças durante o período de internação, possibilitando à compensação das faltas escolares e devolver de alguma forma a normalidade de sua vida.
Com a política de humanização da assistência hospitalar (BRASIL, 1991), as classes hospitalares em hospitais tornam-se importantíssimas para as crianças hospitalizadas, pois integram as crianças doentes no seu novo modo de vida dentro de um ambiente acolhedor e humanizado, mantendo contato com o modo de vida que possuía antes da "doença", mantendo as relações sociais e familiares.
A existência, das classes hospitalares privilegia não somente as crianças hospitalizadas, mas dá um suporte às famílias dessas crianças, que muitas vezes não conseguem falar da doença com seus filhos, buscando recuperar a socialização da criança por um processo de inclusão, dando continuidade a sua aprendizagem, será o resultado exterior, através das atividades realizadas pelas classes hospitalares.
A classe hospitalar foi criada para assegurar às crianças hospitalizadas o direito de continuar seus estudos, pois durante o período de tratamento a criança é afastada de sua casa, de sua família, dos amigos e da escola, e possibilitar um retorno após a internação sem que haja prejuízos a sua formação escolar, pois as crianças durante este período ficam muito desestimuladas e sem vontade para continuar os estudos.
















CAPÍTULO 2 ? POLÍTICAS EDUCACIONAIS DE ATENDIMENTO AO ALUNO HOSPITALIZADO.
No Brasil, a legislação reconheceu através do estatuto da criança e do adolescente hospitalizado, através da Resolução n.º 41 de outubro de 1995, no item 9, o "Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar."
Em 2002 o Ministério da Educação, por meio de sua Secretaria de Educação Especial elaborou um documento de estratégias e orientações para o atendimento nas classes hospitalares, assegurando o acesso à educação básica. Em Santa Catarina, a SED (Secretaria de Estudo da Educação) baixou Portaria que "dispõe sobre a implantação de atendimento educacional na classe hospitalar para crianças matriculadas na pré-escola e no ensino fundamental, internados em hospitais "(Portaria n.º 30, SER de 05/03/2001).
Todo aluno que freqüenta a classe possui cadastro com os dados pessoais, de hospitalização e da escola de origem. Ao final de cada aula o professor faz os registros nesta ficha com os conteúdos que foram trabalhados e outras informações que se fizerem necessários.
O aluno que freqüenta a classe por três dias ou mais é realizado contato telefônico com a escola, comunicando da sua participação na classe e obtendo ? se informações referentes aos conteúdos que estão sendo trabalhados, no momento, em sua turma. Após alta hospitalar, é enviado relatório descritivo das atividades realizadas, bem como do seu desempenho, posturas adotadas, dificuldades apresentadas.
Para que este seja legitimado, é necessário o carimbo e assinatura do diretor (escola da Rede Regular Estadual) a fim de encaminhá-lo à escola de origem.
A proposta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (MEC, 1996) é a de que toda criança disponha de todas as oportunidades possíveis para que os processos de desenvolvimento e aprendizagem não sejam suspensos.
A existência de atendimento pedagógico - educacional em hospitais e nada impede que novos conhecimentos e informações possam ser adquiridos pela criança ou jovem e venha contribuir tanto para o desenvolvimento escolar.
A diversidade na política e/ou diretrizes de educação/ educação especial seguidas pelas classes hospitalares, bem como na política e/ou diretrizes de atenção à saúde da criança, o que não diz respeito apenas às adequações regionais especificas, mas as opções teóricas e práticas incorporadas nos modelos de gestão dos mesmos.
Um total de 30 hospitais no Brasil conta com atendimento pedagógico ? educacional para crianças hospitalizadas; 80 professores atuando em classes hospitalares sendo no mínimo de um e o máximo de nove em cada hospital.
A idade das crianças internadas atendidas nas classes hospitalares é de 0 a 15 anos e com idade máxima de 18 anos.
As classes hospitalares também atuam na intervenção pedagógico-educacional não necessariamente ligada com a experiência escolar, mas com a necessidade do desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança.
A freqüência à classe hospitalar incentiva a criança hospitalizada e a família buscarem a escola regular após a alta hospitalar.
A educação em hospital é um direito de todas as crianças hospitalizadas, mas nem todas as crianças estão tendo este direito respeitado, devido a um número pequeno de hospitais com classes hospitalares. Deve-se levar em conta a grande contribuição do professor no desenvolvimento e ao resgate da saúde pela criança hospitalizada.
Conforme destaca Willis (1987)
"a função do professor de classe hospitalar não é apenas a de manter as crianças ocupadas, ele é capaz de incentivar o crescimento e desenvolvimento somatopsíquico, intelectivo e sociointerativo."
A presença do professor que conhece as necessidades curriculares da criança que esta hospitalizada, proporciona-lhe condições para a sua aprendizagem e a mesma não tem seu crescimento e desenvolvimento interrompidos pelo fato do tratamento.
Segundo Ceccim, é a "tarefa do professor de classe hospitalar afirmar a vida e sua melhor qualidade, junto com essas crianças, ajudando-as a reagir, interagindo para que o mundo de fora continue dentro do hospital e as acolha com um projeto de saúde."
As atividades recreativas ou lúdicas são importantes para que a criança hospitalizada enfrente melhor o seu tratamento, mas não substitui a atenção pedagógica ? educacional que se torna individualizado e mais específico.
Nas ultimas décadas, em função dos projetos de humanização hospitalar e da presença das equipes multidisciplinares nas classes hospitalares, algumas características desses hospitais estão modificando.
Os hospitais que eram considerados como espaços das seringas, da dor e do silêncio, passam a ser também espaço do caderno, do lápis, da alegria, do divertimento e também do professor.
Os professores que estão implantando as escolas nos hospitais no Brasil têm buscado ultrapassar fronteiras, ao mesmo tempo em que trabalham com as dores e incertezas das crianças hospitalizadas, também trabalham com alegria com a valorização da vida dessas crianças. Quando trabalham com a arte, conteúdos educativos, lúdicos, valorizam o movimento e a vida, propondo mudanças nos costumes e das subjetividades no universo hospitalar.
Para Fontes (2004), "as escolas nos hospitais representam uma reinvenção da educação na atualidade. Elas são espaços intersubjetivos em que se interpretam conceitos como educação e saúde os quais propõem uma nova perspectiva de educação que fertiliza a vida."
O artigo 214 da Constituição Federal, afirma que as ações do Poder Público devem conduzir à universalização do atendimento escolar, mas algumas circunstâncias podem interferir na permanência escolar, temporária ou permanente.
A Lei de Diretrizes e bases da Educação Nacional afirma que para garantir o cumprimento da obrigatoriedade de ensino, o Poder Público criará formas alternativas de acesso aos diferentes níveis de ensino (art 5º §5º), podendo organizar-se de diferentes formas para garantir o processo de aprendizagem (art. 23). Para os alunos com necessidades especiais, os sistemas de ensino deverão possuir currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organizações específicas para atender às suas necessidades (art. 59).
O Conselho Nacional de Educação, por meio da Resolução n.º 02, de 11/09/2001, define, entre os educandos com necessidades educacionais especiais, aqueles que apresentam dificuldades de acompanhamento das atividades curriculares por condições e limitações específicas de saúde (art. 3 § 1º e 20º) compete às Secretarias de Educação, atender a solicitação dos hospitais para o serviço de atendimento pedagógico hospitalar e domiciliar, a contratação e capacitação dos professores bem como recursos financeiros e materiais para o atendimento.
RESOLUÇÃO CNE/CEB Nº 2, DE 11 DE SETEMBRO DE 2001.
Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica.
O Presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, de conformidade com o disposto no Art. 9o, § 1o, alínea "c", da Lei 4.024, de 20 de dezembro de 1961, com a redação dada pela Lei 9.131, de 25 de novembro de 1995, nos Capítulos I, II e III do Título V e nos Artigos 58 a 60 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e com fundamento no Parecer CNE/CEB 17/2001, homologado pelo Senhor Ministro de Estado da Educação em 15 de agosto de 2001,
RESOLVE:
Art. 1º A presente Resolução institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, na Educação Básica, em todas as suas etapas e modalidades.
Parágrafo único. O atendimento escolar desses alunos terá início na educação infantil, nas creches e pré-escolas, assegurando-lhes os serviços de educação especial sempre que se evidencie, mediante avaliação e interação com a família e a comunidade, a necessidade de atendimento educacional especializado.
Art 2º Os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos, cabendo às escolas organizar-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais, assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos.
Parágrafo único. Os sistemas de ensino devem conhecer a demanda real de atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais, mediante a criação de sistemas de informação e o estabelecimento de interface com os órgãos governamentais responsáveis pelo Censo Escolar e pelo Censo Demográfico, para atender a todas as variáveis implícitas à qualidade do processo formativo desses alunos.
Art. 3º Por educação especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica. Parágrafo único. Os sistemas de ensino devem constituir e fazer funcionar um setor responsável pela educação especial, dotado de recursos humanos, materiais e financeiros que viabilizem e dêem sustentação ao processo de construção da educação inclusiva.
Art. 4º Como modalidade da Educação Básica, a educação especial considerará as situações singulares, os perfis dos estudantes, as características bio-psicossociais dos alunos e suas faixas etárias e se pautará em princípios éticos, políticos e estéticos de modo a assegurar:
I - a dignidade humana e a observância do direito de cada aluno de realizar seus projetos de estudo, de trabalho e de inserção na vida social;
II - a busca da identidade própria de cada educando, o reconhecimento e a valorização das suas diferenças e potencialidades, bem como de suas necessidades educacionais especiais no processo de ensino e aprendizagem, como base para a constituição e ampliação de valores, atitudes, conhecimentos, habilidades e competências; III - o desenvolvimento para o exercício da cidadania, da capacidade de participação social, política e econômica e sua ampliação, mediante o cumprimento de seus deveres e o usufruto de seus direitos.
(*) CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB 2/2001. Diário Oficial da União,
Brasília, 14 de setembro de 2001. Seção 1E, p. 39-40. 2
Art. 5º Consideram-se educandos com necessidades educacionais especiais os que, durante o processo educacional, apresentarem:
I - dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares, compreendidas em dois grupos:
a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica;
b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências;
II ? dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a utilização de linguagens e códigos aplicáveis;
III - altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes.
Art. 6o Para a identificação das necessidades educacionais especiais dos alunos e a tomada de decisões quanto ao atendimento necessário, a escola deve realizar, com assessoramento técnico, avaliação do aluno no processo de ensino e aprendizagem, contando, para tal, com:
I - a experiência de seu corpo docente, seus diretores, coordenadores, orientadores e supervisores educacionais;
II - o setor responsável pela educação especial do respectivo sistema;
III ? a colaboração da família e a cooperação dos serviços de Saúde, Assistência Social, Trabalho, Justiça e Esporte, bem como do Ministério Público, quando necessário.
Art. 7º O atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais deve ser realizado em classes comuns do ensino regular, em qualquer etapa ou modalidade da Educação Básica.
Art. 8o As escolas da rede regular de ensino devem prever e prover na organização de suas classes comuns:
I - professores das classes comuns e da educação especial capacitado e especializado, respectivamente, para o atendimento às necessidades educacionais dos alunos;
II - distribuição dos alunos com necessidades educacionais especiais pelas várias classes do ano escolar em que forem classificados, de modo que essas classes comuns se beneficiem das diferenças e ampliem positivamente as experiências de todos os alunos, dentro do princípio de educar para a diversidade;
III ? flexibilizações e adaptações curriculares que considerem o significado prático e instrumental dos conteúdos básicos, metodologias de ensino e recursos didáticos diferenciados e processos de avaliação adequados ao desenvolvimento dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, em consonância com o projeto pedagógico da escola, respeitada a freqüência obrigatória;
IV ? serviços de apoio pedagógico especializado, realizado, nas classes comuns, mediante:
a) atuação colaborativa de professor especializado em educação especial;
b) atuação de professores - intérpretes das linguagens e códigos aplicáveis;
c) atuação de professores e outros profissionais itinerantes intra e interinstitucionalmente;
d) disponibilização de outros apoios necessários à aprendizagem, à locomoção e à comunicação.
V ? serviços de apoio pedagógico especializado em salas de recursos, nas quais o professor especializado em educação especial realize a complementação ou suplementação curricular, utilizando procedimentos, equipamentos e materiais específicos;
VI ? condições para reflexão e elaboração teórica da educação inclusiva, com protagonismo dos professores, articulando experiência e conhecimento com as necessidades/possibilidades surgidas na relação pedagógica, inclusive por meio de colaboração com instituições de ensino superior e de pesquisa;
VII ? sustentabilidade do processo inclusivo, mediante aprendizagem cooperativa em sala de aula, trabalho de equipe na escola e constituição de redes de apoio, com a participação da família no processo educativo, bem como de outros agentes e recursos da comunidade;
VIII ? temporalidade flexível do ano letivo, para atender às necessidades educacionais especiais de alunos com deficiência mental ou com graves deficiências múltiplas, de forma que possam concluir em tempo maior o currículo previsto para a série/etapa escolar, principalmente nos anos finais do ensino fundamental, conforme estabelecido por normas dos sistemas de ensino, procurando-se evitar grande defasagem idade/série;
IX ? atividades que favoreçam, ao aluno que apresente altas habilidades/superdotação, o aprofundamento e enriquecimento de aspectos curriculares, mediante desafios suplementares nas classes comuns, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para conclusão, em menor tempo, da série ou etapa escolar, nos termos do Artigo 24, V, "c", da Lei 9.394/96.
Art. 9o As escolas podem criar, extraordinariamente, classes especiais, cuja organização fundamente-se no Capítulo II da LDBEN, nas diretrizes curriculares nacionais para a Educação Básica, bem como nos referenciais e parâmetros curriculares nacionais, para atendimento, em caráter transitório, a alunos que apresentem dificuldades acentuadas de aprendizagem ou condições de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos e demandem ajudas e apoios intensos e contínuos,§ 1o Nas classes especiais, o professor deve desenvolver o currículo, mediante adaptações, e, quando necessário, atividades da vida autônoma e social no turno inverso.
§ 2o A partir do desenvolvimento apresentado pelo aluno e das condições para o atendimento inclusivo, a equipe pedagógica da escola e a família devem decidir conjuntamente, com base em avaliação pedagógica, quanto ao seu retorno à classe comum.
Art. 10. Os alunos que apresentem necessidades educacionais especiais e requeiram atenção individualizada nas atividades da vida autônoma e social, recursos, ajudas e apoios intensos e contínuos, bem como adaptações curriculares tão significativas que a escola comum não consiga prover, podem ser atendidos, em caráter extraordinário, em escolas especiais, públicas ou privadas, atendimento esse complementado, sempre que necessário e de maneira articulada, por serviços das áreas de Saúde,
Trabalho e Assistência Social.
§ 1º As escolas especiais, públicas e privadas, devem cumprir as exigências legais similares às de qualquer escola quanto ao seu processo de credenciamento e autorização de funcionamento de cursos e posterior reconhecimento.
§ 2º Nas escolas especiais, os currículos devem ajustar-se às condições do educando e ao disposto no Capítulo II da LDBEN.
§ 3o A partir do desenvolvimento apresentado pelo aluno, a equipe pedagógica da escola especial e a família devem decidir conjuntamente quanto à transferência do aluno para escola da rede regular de ensino, com base em avaliação pedagógica e na indicação, por parte do setor responsável pela educação especial do sistema de ensino, de escolas regulares em condição de realizar seu atendimento educacional.
Art. 11. Recomenda-se às escolas e aos sistemas de ensino a constituição de parcerias com instituições de ensino superior para a realização de pesquisas e estudos de caso relativos ao processo de ensino e aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais, visando ao aperfeiçoamento desse processo educativo.
Art. 12. Os sistemas de ensino, nos termos da Lei 10.098/2000 e da Lei 10.172/2001, devem assegurar a acessibilidade aos alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, mediante a eliminação de barreiras arquitetônicas urbanísticas, na edificação ? incluindo instalações, equipamentos e mobiliário ? e nos transportes escolares, bem como de barreiras nas comunicações, provendo as escolas dos recursos humanos e materiais necessários.
§ 1o Para atender aos padrões mínimos estabelecidos com respeito à acessibilidade, deve ser realizada a adaptação das escolas existentes e condicionada a autorização de construção e funcionamento de novas escolas ao preenchimento dos requisitos de infra-estrutura definidos.
§ 2o Deve ser assegurada, no processo educativo de alunos que apresentam dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais educandos, a acessibilidade aos conteúdos curriculares, mediante a utilização de linguagens e códigos aplicáveis, como o sistema Braille e a língua de sinais, sem prejuízo do aprendizado da língua portuguesa, facultando - lhes e às suas famílias a opção 4 pela abordagem pedagógica que julgarem adequada, ouvidos os profissionais especializados em cada caso.
Art. 13. Os sistemas de ensino, mediante ação integrada com os sistemas de saúde, devem organizar o atendimento educacional especializado a alunos impossibilitados de freqüentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, atendimento ambulatorial ou permanência Prolongada em domicílio.
§ 1o As classes hospitalares e o atendimento em ambiente domiciliar devem dar continuidade ao processo de desenvolvimento e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas da Educação Básica, contribuindo para seu retorno e reintegração ao grupo escolar, e desenvolver currículo flexibilizado com crianças, jovens e adultos não matriculados no sistema educacional local, facilitando seu posterior acesso à escola regular.
§ 2o Nos casos de que trata este Artigo, a certificação de freqüência deve ser realizada com base no relatório elaborado pelo professor especializado que atende o aluno.
Art. 14. Os sistemas públicos de ensino serão responsáveis pela identificação, análise, avaliação da qualidade e da idoneidade, bem como pelo credenciamento de escolas ou serviços, públicos ou privados, com os quais estabelecerão convênios ou parcerias para garantir o atendimento às necessidades educacionais especiais de seus alunos, observados os princípios da educação inclusiva. Art. 15. A organização e a operacionalização dos currículos escolares são de competência irresponsabilidade dos estabelecimentos de ensino, devendo constar de seus projetos pedagógicos as disposições necessárias para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos, respeitadas, além das diretrizes curriculares nacionais de todas as etapas e modalidades da Educação Básica, as normas dos respectivos sistemas de ensino.
Art. 16. É facultado às instituições de ensino, esgotadas as possibilidades pontuadas nos Artigos 24 e 26 da LDBEN, viabilizar ao aluno com grave deficiência mental ou múltipla, que não apresentar resultados de escolarização previstos no Inciso I do Artigo 32 da mesma Lei, terminalidade específica do ensino fundamental, por meio da certificação de conclusão de escolaridade, com histórico escolar que a presente, de forma descritiva, as competências desenvolvidas pelo educando, bem como o encaminhamento devido para a educação de jovens e adultos e para a educação profissional.
Art. 17. Em consonância com os princípios da educação inclusiva, as escolas das redes regulares de educação profissional, públicas e privadas, devem atender alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, mediante a promoção das condições de acessibilidade, a capacitação de recursos humanos, a flexibilização e adaptação do currículo e o encaminhamento para o trabalho, contando, para al, com a colaboração do setor responsável pela educação especial do respectivo sistema de ensino.
§ 1o As escolas de educação profissional podem realizar parcerias com escolas especiais, públicas ou privadas, tanto para construir competências necessárias à inclusão de alunos em seus cursos quanto para prestar assistência técnica e convalidar cursos profissionalizantes realizados por essas escolas especiais.
§ 2o As escolas das redes de educação profissional podem avaliar e certificar competências laborais de pessoas com necessidades especiais não matriculadas em seus cursos, encaminhando-as, a partir desses procedimentos, para o mundo do trabalho.
Art. 18. Cabe aos sistemas de ensino estabelecer normas para o funcionamento de suas escolas, afim de que essas tenham as suficientes condições para elaborar seu projeto pedagógico e possam contar com professores capacitados e especializados, conforme previsto no Artigo 59 da LDBEN e com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal, e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena.
§ 1º São considerados professores capacitados para atuar em classes comuns com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais àqueles que comprovem que, em sua formação, de nível médio ou superior, foram incluídos conteúdos sobre educação especial adequados ao desenvolvimento de competências e valores para:
I ? perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos e valorizar a educação inclusiva;
II - flexibilizar a ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento de modo adequado às necessidades especiais de aprendizagem;
III - avaliar continuamente a eficácia do processo educativo para o atendimento de necessidades educacionais especiais;
IV - atuar em equipe, inclusive com professores especializados em educação especial.
§ 2º São considerados professores especializados em educação especial aqueles que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais especiais para definir, programar, liderar e apoiar a implementação de estratégias de flexibilização, adaptação curricular, procedimentos didáticos pedagógicos e práticas alternativas, adequados aos atendimentos das mesmas, bem como trabalhar em equipe, assistindo o professor de classe comum nas práticas que são necessárias para promover a inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais.
§ 3º Os professores especializados em educação especial deverão comprovar:
I - formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental;
II - complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas de conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio;
§ 4º Aos professores que já estão exercendo o magistério devem ser oferecidas oportunidades deformação continuada, inclusive em nível de especialização, pelas instâncias educacionais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
Art. 19. As diretrizes curriculares nacionais de todas as etapas e modalidades da Educação Básica estendem-se para a educação especial, assim como estas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial estendem-se para todas as etapas e modalidades da Educação Básica.
Art. 20. No processo de implantação destas Diretrizes pelos sistemas de ensino, caberá às instâncias educacionais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, em regime de colaboração, o estabelecimento de referenciais, normas complementares e políticas educacionais.
Art. 21. A implementação das presentes Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na
Educação Básica será obrigatória a partir de 2002, sendo facultativa no período de transição.
Compreendido entre a publicação desta Resolução e o dia 31 de dezembro de 2001.
Art. 22. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação e revoga as disposições em contrário.
FRANCISCO APARECIDO CORDÃO
Presidente da Câmara de Educação Básica
No Brasil, existe atualmente mais de uma centena de classes hospitalares (Oliveira, Fernandes & Sousa, 2007). Estas resultam, em sua maioria, de convênios firmados entre secretarias estaduais ou municipais de Educação ou da Saúde com hospitais. Podem, ainda, operar a partir das iniciativas de hospitais-escola de instituições públicas de ensino superior, cujos quadros de pessoal prevêem funcionários técnico-administrativos de nível médio e/ou pedagogos para atuarem nas classes hospitalares. Assim, a partir de seleção pública, são criados os quadros de professores hospitalares para a Rede Sarah de Hospitais. A instituição dessa carreira pode se dar, até mesmo, a partir da cooperação com professores de escolas de formação em Saúde dos estados, sob cujas parcerias hospitalares do SUS ( Sistema Único de Saúde) e hospitais universitários implementam as atividades de classe hospitalar em suas enfermarias pediátricas.
Muitas classes hospitalares debatem-se, assim, com a falta de material de consumo ou permanente, como brinquedos, jogos, livros, artigos de papelaria, microcomputadores, televisores, mobiliário, entre outros. Algumas são beneficiadas pela infra-estrutura pré-existente de suporte às atividades psicossociais e de terapia ocupacional ou de voluntariado organizado na forma de ONGS, que empreendem, junto às crianças e adolescentes hospitalizados, atividades de contação de histórias ou de brinquedotecas, por exemplo.
Para esta ampliação faz-se necessário, na maior parte das vezes, que sejam selecionados, do quadro de professores em serviço nas escolas das prefeituras ou nas escolas dos estados, candidatos que tenham interesse em trabalhar com crianças e adolescentes hospitalizados e que reúnam alguns pré-requisitos básicos: em geral, especialização em educação especial e/ou experiência de docência no ensino fundamental. A estruturação das classes hospitalares existentes até o momento não tem permitido a manutenção de um banco de reserva de professores, tendo em vista que a adaptação dos mesmos à nova realidade de trabalho resulta em algumas desistências e, por conseguinte, substituições.
Em verdade, observa-se que a falta de um treinamento mais consistente que prepare esses professores para o ingresso na realidade hospitalar ? esclarecendo suas rotinas, dinâmicas de funcionamento e especificidades dos quadros de adoecimento das crianças ? é um fator que concorre negativamente para a permanência ou desempenho satisfatório desses professores. O planejamento e a coordenação das atividades dos professores lotados nas classes hospitalares sejam, porventura, supervisionados pelas respectivas secretarias de ensino, nem sempre se alcança a regularidade e a sistematicidade requeridas para o acompanhamento contínuo dos professores já em atividade nos hospitais. Além disso, essa estrutura de capacitação contínua em serviço é, em geral, a mesma que se empenha na seleção recorrente de novos professores, os quais, por sua vez, gerarão mais demandas de treinamento e acompanhamento. Some-se a isso o fato dos coordenadores pedagógicos com formação exclusivamente na área da educação, dificilmente conseguirem agregar o caráter multidisciplinar dos conhecimentos requeridos para o bom desempenho de um professor que atuará em um contexto de ensino-aprendizagem escolar tão heterodoxo como o de um hospital. Espera que uma possível pedagogia hospitalar seja consolidada como um campo do conhecimento para que estudos e pesquisas ganhem fôlego e ousadia é ignorar possíveis contribuições de muitas outras áreas do saber, estas sim já há muito consagradas, como a Psicologia Hospitalar, a Psico-pedagogia, a Educação em Saúde, a Antropologia Médica, a Saúde Pública, a Psicanálise, a Medicina Social e a Terapia Ocupacional.

2.1 O Perfil ideal para um professor de classe hospitalar.
Assim, a argumentação em prol do reconhecimento desta multidisciplinaridade se atualiza facilmente a partir da apreciação do elenco de algumas habilidades e competências de um professor, esperadas para atuação em classe hospitalar. São eles:
Ø Capacidade do professor de se adaptar à demanda de uma nova classe hospitalar e justificá-la a partir da apreciação de variáveis como: a freqüência de crianças e adolescentes internados; faixa etária e tempo médio de permanência; avaliação das estruturas física e de atendimento do hospital, presença de área disponível para a realização das atividades lúdicas, pedagógicas, recreativas; densidade de leitos na enfermaria pediátrica e dinâmica da utilização do espaço; agenda de horários a estas atividades relacionados, referência a abandono, repetência ou exclusão escolar sofridas pela criança anteriormente à instalação da morbidade;
Ø Capacidade de, quando implantar uma nova classe hospitalar, apreciar a existência de outras medidas humanizadora (como presença de brinquedotecas, atuação periódica de recreadores voluntários e presença dos pais como acompanhantes integrais à internação) e integrá-las às atividades correntes de uma classe hospitalar;
Ø Capacidade de sugerir modos criativos e funcionais de explorarem os espaços e as rotinas hospitalares, de modo que esses possam compor dinâmicas de teatro;
Ø As atividades de ensino e aprendizagem das crianças e adolescentes hospitalizados ou aquelas atividades terapêuticas destinadas a colaborarem no enfrentamento psíquico da hospitalização;
Ø Capacidade de propor maneiras e materiais alternativos na confecção de jogos e brinquedos.
Espera-se, ainda, que os professores e/ou pedagogos da classe hospitalar identifiquem perguntas de pesquisa que, por sua vez, os motivem no encaminhamento de investigações futuras e produção de conhecimento. Estas contribuiriam tanto à formação dos professores enquanto pesquisadores.
Um referencial curricular mínimo para a formação de um professor de classe hospitalar requer, ainda, o necessário entendimento e reafirmação do papel desta modalidade hospitalar. Assim sendo, medidas como a presença de brinquedotecas, atuação periódica de recreadores voluntários e a presença dos pais como acompanhantes à internação se destacam na especificidade de seus direcionamentos a crianças e adolescentes hospitalizados sendo, muitas vezes, precursores a entrada de professores no ambiente hospitalar.
Nesse sentindo, passa, ainda, por instrumentá-los para reconhecer que a prática pedagógica em classe hospitalar pode atender tanto a filiações mais comprometidas com o acompanhamento curricular, quanto a filiações comprometidas "apenas" com o enfrentamento do stress da hospitalização. Isto possibilitará ao professor de uma determinada classe hospitalar circunstanciar sua prática pedagógica e a respectiva filiação teórica, de modo que possa refleti-la criticamente, e não apenas reproduzir modelos previa e arbitrariamente orientados.










CAPÍTULO 3 ? A DIDÁTICA E FORMAÇÃO DO PROFESSOR EM CLASSE HOSPITALAR.
A sociedade atual exige professores cada vez mais qualificados e preparados para atuarem em espaços não escolares. A atuação do pedagogo ultrapassa o espaço escolar, para se inserir em um novo campo de trabalho com outro tipo de visão.
A pedagogia hospitalar como uma nova vertente para a educação, ofereceu subsídios educacionais e pedagógicos ao enfermo para ajudá-lo em sua recuperação, pois carinho, calor humano, atenção e afeto constituem elementos fundamentais para a saúde física, espiritual e cognitiva.
Ao deixar de pensar na doença a criança consegue se envolver nas atividades, feliz, produtiva, cria expectativas para o futuro e para a volta ao convívio familiar e social.
O atendimento hospitalar é disponibilizado a toda criança hospitalizada desde que seu quadro clínico permita.
Segundo Sacristam (2000) a noção de dinâmica curricular é representada pelos modos como os envolvidos na ação educativa interagem com o conhecimento selecionado e organizado.
Ø A seleção de conhecimentos;
Ø Os aspectos metodológicos;
Ø Relações estabelecidas com o tempo e o espaço onde se desenvolve a ação educativa.
As classes hospitalares brasileiras funcionam orientadas pelas seguintes concepções.
1. Pedagógica: caracterizada pela educação sistematizada.
Ø O planejamento de ensino;
Ø Avaliação da aprendizagem;
Ø Objetivo de freqüência as aulas;
Ø Encontro e socialização das crianças e professores.
Para tanto, é necessário possuir um espaço onde as crianças possam expor seus trabalhos (murais), lugar para guardar lápis, papéis, cadernos, etc.
2. Lúdicas: tem o caráter mais recreativo através de jogos e brincadeiras, realizadas de acordo com o estado do paciente, com o intuito de expressar a partir de uma linguagem simbólica, medos, sentimentos e idéias que ajudem no enfrentamento da doença e do ambiente hospitalar.
3. Terapêutica: tem como proposta a intervenção terapêutica procurando resgatar seu espaço sadio, provocando a criatividade, as manifestações de alegria, os laços sociais e a diminuição de barreiras e preconceitos da doença e da hospitalização.
Outros trabalhos têm como objetivo propor ações didáticas ? pedagógicas adequadas às condições da criança hospitalizada, visando proporcionar a interlocução entre a literatura infanto-juvenil e o lúdico mediado pelo jogo e pela brincadeira.
A metodologia utilizada para o trabalho com as crianças hospitalizadas, necessariamente precisa ser variada, porque todos os dias as crianças entram e saem dos hospitais e são de idades variadas.
Uma sugestão didática pedagógica é a utilização de atividades nas áreas de linguagem (narrativa de histórias, problematizações, leitura de imagem, comunicação através de atividades lúdicas), que apontam para caminhos de mediação didática ? pedagógicas que poderão contribuir numa prática educativa humanizada no atendimento Escolar / Hospitalar. De qualquer forma o profissional dessa área tem que ter consciência que precisa sempre pesquisar novas possibilidades didáticas ? pedagógica,observando o quadro clinico de cada criança.
Os educadores hospitalares necessitam se munir de novos saberes que facilitem o conhecimento, da realidade dos alunos/pacientes para poder ajudá-los em seu processo de internação.
"Ser diferente e por isso, ter de ficar de fora é muito doloroso, vencer os obstáculos impostos pela doença, ao contrário é vitória, aprendizagem e desenvolvimento. E as classes hospitalares podem ter esse mérito."
Fonseca e Ceccim (1999 p71).


3.1 Adaptação de recursos e instrumentos didático-pedagógicas.

Ø Jogos e materiais de apoio pedagógico disponibilizados ao educando pelo professor e que possam ser manuseados e transportados com facilidade;
Ø Utilização de pranchas e suporte para lápis e papel;
Ø Teclados de computador adaptados;
Ø Softwares educativos pesquisas orientadas via internet, vídeos educativos, etc.
As condições individuais que exigem educação em classe hospitalar ou em atendimento pedagógico domiciliar são, principalmente, os repousos relativos ou absolutos, a necessidade de estar acamado ou requer a utilização constante de equipamentos de suporte à vida. Considerando estas condições e limitações especiais, compete o sistema educacional e serviços de saúde, oferecer assessoramento permanente ao professor, bem como inseri-lo na equipe de saúde que coordena o projeto terapêutico individual.
3.2 Classe Hospitalar ? Educação Profissional (Formação de Professores)
A classe hospitalar foi criada para que as crianças que se encontram hospitalizadas e afastadas da rotina escolar, não fiquem prejudicadas em relação aos conteúdos dados na escola regular.
O atendimento prestado em uma classe hospitalar é também fator que contribui para que a criança enfrente o estresse da hospitalização. Com isso a simbologia da escola dentro do hospital, resgata a auto estima da criança e reequilíbrio do desenvolvimento psíquico dessas crianças.
Segundo Schiller (200, p.105-106; grifos meus) caberia aos profissionais de saúde, junto aos professores, preparar o terreno para o retorno à escola e aos amigos. Uma das maiores lesões do câncer é a ruptura da vida escolar. As faltas são inevitáveis nas fases iniciais do tratamento, pela necessidade constante de ir às consultas, pelas diversas reações às cirurgias, às drogas ou à radiação. As faltas são compreensíveis quando o corpo expõe suas marcas, cicatrizes, emagrecimento, deformidades ou queimaduras, ausência de cabelos ou pelos. A incerteza sobre a acolhida e as limitações impostas pelo cansaço e pela dificuldade de concentração inibem os reencontros. A reintegração ao cotidiano escolar é um dos remédios para a depressão, para o isolamento, para a dependência excessiva dos pais.
Apesar de reconhecida importância dessa modalidade de atuação, devemos ter em conta que a classe hospitalar será sempre provisória e paliativa, pois nunca será totalmente igual a uma escola de ensino regular.
Como conseqüência da preocupação com o preparo de docentes, foi em 1939, no Rio de Janeiro que a pedagogia tomou forma de curso no Brasil.
Segundo Miranda (2001) pedagogia e professores encontram nessa época, dias gloriosos de reconhecimento de seu trabalho, devido ao importantíssimo papel social que representam.
O pedagogo contemporâneo deve ser um profissional capaz de desempenhar diversas funções sendo um profissional flexível no espaço escolar ou em campos alternativos.
Segundo Serrano e Lima (2001) e (Apud Furlari 2002, p.15), colocaram que a nova concepção de espaços de aprendizagem tomou novas proporções, ultrapassando os limites dos estabelecimentos escolares formais, e dando origem a um amplo leque de instituições não ? escolares (empresas, sindicatos meios de comunicação, etc.).
Pensando assim é necessário buscar, pesquisar e estudar novas propostas fora do ambiente escolar, para que o pedagogo possa colaborar de diversas maneiras com a sociedade.
De acordo com Giseli Cipriano Rodacoski, as tecnologias são possíveis de serem adotadas para aproximar educação e saúde em contexto hospitalar.
O uso de tecnologias na ação docente possibilita a educação a distância e promove a inclusão de crianças hospitalizadas, dando chance de continuarem seus estudos durante a internação e, além disso, promove a inclusão digital por uma ação mediadora do professor que torna acessível o uso de ambientes virtuais da aprendizagem.
O professor precisa trabalhar eticamente entre o que considera ser o ideal e o que é possível. Os profissionais que participam do processo de enfrentamento da doença crônica buscam o aumento da quantidade e da qualidade de vida do paciente, ainda que não seja possível cura-lo. Unidos por um mesmo objetivo, os múltiplos profissionais delineiam suas ações de intervenção, o professor que faz parte da equipe de multiprofissionais em um hospital pediátrico, busca desenvolver competências no aluno, incentivando a aprendizagem significativa e colaborativa. O professor valoriza as experiências pessoais do seu aluno hospitalizado, faz adaptações curriculares e metodológicas e define suas ações pedagógicas de forma integrada com a equipe de saúde, família e escola de origem do aluno.
A ação mediadora do professor é de fundamental importância para que o aluno seja respeitado em seu momento de visa, adaptando o material oferecido às suas necessidades naquele momento, oferecendo atividades de habilidades cognitivas ou lúdicas, de acordo com os recursos avaliados no aluno em cada encontro. Arroyo (2004, p. 138), propõe ao professor que veja seus alunos com outros olhos, respeitando seus tempos de vida e suas experiências, considerando seus corpos, suas marcas e seus limites.
O profissional da classe hospitalar deve ter Pedagogia com Licenciatura Plena e se possível habilitação em Educação Especial e Pedagogia Hospitalar.
O papel do professor é o de ser uma ponte entre os alunos e o conhecimento. O trabalho do professor na classe hospitalar é o de restaurar os laços com o cotidiano escolar. É necessária que o pedagogo proporcione aos alunos hospitalizados uma melhor inteiração social, valorizando suas aptidões, preservando sua integridade física e moral e acima de tudo respeitando seus limites dentro do quadro clínico.
Para Magalini e Carvalho "(2002, p.38)" o professor media o contato do aluno doente com as outras crianças e isto contribui para p desenvolvimento social de todos.,tal fato contribui para seu melhor ajustamento hospitalar e mais rápida recuperação."
Gil, Paula e Marion (2001) afirmam que:


"O pedagogo tem um grande trabalho a ser desenvolvido no hospital em conjunto com outros profissionais, pois salienta-se que a criança enferma precisa de cuidados que vão além dos aspectos físicos e biológicos e, por este motivo, diversas áreas do conhecimento se integram em prol da continuidade do desenvolvimento global dos pequenos pacientes."
Segundo alguns estudos, existem profissionais despreparados atuando nas classes hospitalares, por isso são importantes cursos de Pedagogia que preparem esses profissionais, possibilitando o pedagogo fortalecer sua competência profissional e seu comprometimento político-pedagógico, além de ser uma nova alternativa educacional.
Até 1997 o trabalho pedagógico realizado em hospitais era feito por voluntários, que nem sempre tenham formação específica na área, e como o trabalho voluntário é realizado por pessoa com boa vontade nem sempre ele era realizado com assiduidade.
Alguns estudos realizados em hospitais constatam que o trabalho realizado na classe hospitalar serve até de "anti-estress" para as crianças, que durante as aulas esquecem que estão em tratamento e internados e agem de maneira natural, as crianças e os pais gostam e aprovam os resultados, e os professores concordam e consideram o resultado muito bom.
O professor para atuar nessa modalidade deverá estar habilitado para trabalhar com a adversidade humana e diferente experiência cultural, identificando as necessidades educacionais especiais dos educandos impedido de freqüentar a escola, decidindo e inserindo modificações e adaptações curriculares, em um processo flexibilizador de ensino aprendizagem.
O trabalho do professor hospitalar é muito importante, pois atende as necessidades psicológicas, sociais e pedagógicas das crianças. Ele precisa ter sensibilidade, compreensão, força de vontade, criatividade, persistência e muita paciência se quiserem atingir seus objetivos.
O professor deverá elaborar projetos que integrem a aprendizagem, adaptando às crianças hospitalizadas.
O pedagogo hospitalar deve ter seus olhos voltados para o todo, objetivando o aperfeiçoamento humano, construindo uma nova consciência onde a sensação, o sentimento, a integração e a razão cultural valorizem o indivíduo, dai a importância do atendimento realizado por um profissional capacitado em desenvolver e aplicar conceitos educacionais, e estimular as crianças na aquisição de novas competências e habilidades, e ressaltar a importância de se ter um local com recursos próprios dentro do hospital que seja apropriado, onde a criança construa novos conceitos.
Devemos lembrar que o atendimento à criança hospitalizada pelo tempo que se fizer necessária é um direito garantido por lei, e que o professor que atua nessa modalidade tem direito do adicional de insalubridade.
3.3 A Educação profissional e a Formação para a classe hospitalar.
O professor de classe hospitalar tem que ser capaz de, sem reducionismos simplificadores ou sem a reprodução da linguagem médica, esclarecer ao professor da escola de origem da criança aspectos centrais de sua enfermidade: o que exatamente ela tem, como e quando vai melhorar qual o alcance desta melhora, o que fazer e o que não fazer na escola regular para ajudá-la e qual a justificativa para cada uma destas medidas.
Se considerarmos ainda a importância de um domínio mínimo, por parte de um professor que lecionará em uma enfermaria pediátrica, de temáticas como modelos assistências e sistemas de saúde no Brasil, estrutura e funcionamento das instituições de saúde, política de humanização das instituições de saúde, constatarão, então, a sua absoluta insuficiência. Pois, mesmo considerando uma formação de qualidade em nível superior, aquelas temáticas não são objetos de tratamento didático em nenhuma das disciplinas das graduações em Pedagogia ou Licenciaturas (salvo situação excepcional em que alunos, visionários de seu futuro profissional, optarem por disciplinas eletivas em outros cursos). Aqueles que porventura julgarem dispensáveis tal corpo de conhecimento bastam imaginar como pode ser possível a um professor de classe hospitalar compreender, incorporar criticamente e adaptar ao seu planejamento semanal de atividades as restrições de horários impostas pela rotina de funcionamento da enfermaria; ou, ainda, compreender para si e explicar para acompanhantes as razões da transferência de um paciente para um hospital terciário.
A possibilidade é dada tendo em vista o disposto em uma resolução da Câmara de Educação Básica, do Conselho Nacional de Educação (CNE/CEB n, 2, de 11 de setembro de 2001), que, ao instituir Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, contemplou a categoria de atendimento classe hospitalar nas ações pretendidas pelo Ministério da Educação e reafirmou o entendimento de que o desafio para os gestores da saúde na implementação de ações voltadas para a qualificação da força de trabalho deve passar pelo reconhecimento da importância de medidas intersetoriais.
Art.13. Os sistemas de ensino, mediante ação integrada com os sistemas de saúde, devem organizar o atendimento educacional especializado a alunos impossibilitados de freqüentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, atendimento ambulatorial ou permanência prolongada em domicílio. (Brasil, 2001, p.10; grifo meu)
O uso das narrativas literárias sobre doenças e sobre a prática médica representa uma ferramenta de ensino-aprendizagem com uso já reconhecido.
Ao enfocar a atividade de contar histórias e suas múltiplas interpretações como cerne da prática clínica, as narrativas literárias apresentam-se como importantes ensinamentos da arte da comunicação médico-paciente. (Cardoso & Grosmann, 2006, p.8)
O apropriar-se de narrativas literárias como ferramenta didática na instrução de professores para o trabalho em classes hospitalares pressupõe que a subjetividade dos pacientes ? crianças e adolescentes, principalmente ? encontram mais espaço de expressão junto a esses professores do que junto aos médicos e enfermeiros. Talvez mais até do que encontraria junto aos psicólogos da equipe, uma vez que o simbolismo da escola, ressignificada no ambiente das enfermeiras, provoca naqueles jovens pacientes muitas manifestações sensíveis próprias da infância e da adolescência.
Logo, como resultado dessa investida metodológica de ensino, espera-se, junto aos professores assim capacitados:
Ø Favorecer a construção de suas próprias narrativas em prontuários, bem como favorecer a esses mesmos professores, a interpretação das narrativas de anamneses e relatos clínicos (notório pelos tecnicismos) dos demais profissionais da equipe de saúde;
Ø Favorecer a construção de relatos de casos clínicos (da clínica psicopedagógica) relativos aos pacientes sob seus cuidados, relatos esses úteis na troca multidisciplinar do ambiente de aprendizagem contínua de um hospital, ou publicáveis em periódicos científicos;
Ø Favorecer a melhor interpretação das narrativas produzidas pelas crianças (presentes em desenhos, em relatos orais, ou sugeridos em jogos e brincadeiras) nos moldes da escuta pedagógica, descrita por Ceccim (1997);
Ø Favorecer o trabalho com a contação de histórias, principalmente quando esta abordagem junto às crianças hospitalizadas permitir se abster de finalidades de alfabetização e letramento, para então privilegiar a função terapêutica de elaboração catártica dos sentimentos, por parte das crianças. Haverá quem diga que esses mesmos resultados poderiam ser alcançados pelo trabalho junto aos professores, com narrativas literárias de qualquer natureza, não necessariamente médicas ou do universo da doença. No entanto, reafirmo o mérito dessas últimas, pois "A ênfase nas narrativas em medicina parece ser um caminho profícuo para aproximar o (profissional de saúde) do mundo do paciente, a ajudá-lo a entender o que a doença representa para cada indivíduo em particular" (Cardoso & Grossman, 2006, p.8).
O uso de narrativas literárias sobre doenças e sobre a prática médica em programas de formação para professores de classe hospitalar espera, por fim, cumprir a finalidade de resgatar, dos próprios professores, suas experiências anteriores com a doença, ofertando-lhes alguma autoridade de fala no processo ensino/aprendizagem que permeia sua formação profissional. Esta preocupação é aconselhável caso não se queira perder de vista a contribuição do conhecimento prévio destes professores, então posicionados como alunos. Isto é possível tendo em vista que o fenômeno do adoecimento é comum às realidades mundanas de todos nós, sendo que, no caso de professores e pedagogos, é uma verdade tanto maior, posto que a grande maioria destes profissionais são mulheres ? recorte de gênero que as releva, numa perspectiva sócio-antropológica, no papel de cuidadoras. Como se não bastasse, além disso, muitas são mães, o que as aproxima ainda mais da experiência da doença na infância.
Assim, a atuação do pedagogo em instituições não escolares como a em hospitais, propicia a este profissional a oportunidade de desenvolver práticas e adquirir conhecimentos sobre a escolarização e continuidade dos estudos das crianças hospitalizadas.
Os resultados obtidos indicam a melhora do quadro sintomático da criança hospitalizada, pois a mediação do pedagogo com a equipe médica, possibilita a adaptação, a motivação e ocupa o tempo ocioso da criança com atividades, brincadeiras, leituras, além de garantir o direito a educação.
Em visita ao Hospital Santa Isabel em Piracicaba - SP, pude observar a atuação desse profissional no dia-a-dia do hospital, onde a prática do pedagogo ocorre na unidade de internação, na ala da pediatria. As crianças internadas recebem estímulos através de brincadeiras lúdicas, jogos, leituras e também "ajuda" nos estudos (para aquelas que necessitam e que a família permite) além do atendimento ambulatorial.
Segundo Pimenta (2001) faz - se necessário apresentar alguns indicativos para a formação do pedagogo como sendo um profissional que:
"Atue como gestor/pesquisador/coordenador de diversos projetos educativos dentro e fora da escola, pressupondo sua atuação em atividades de lazer comunitário em espaços pedagógicos nos hospitais e presídios, na formação de pessoas dentro das empresas, que saiba organizar processos de formação de educadores de ONGS, assessorar atividades pedagógicas nos diversos meios de comunicação como TV, rádio, internet, quadrinhos, revistas,editoras, tornando mais pedagógicas as campanhas sociais educativas sobre violência, drogas, AIDS, dengue, que esteja habilitado à criação e elaboração de brinquedos, materiais de auto estudo, programas de educação à distância, que organize, avalie e desenvolva pesquisas educacionais, que planeje projetos culturais e afins".
De acordo com a Pedagoga Eline (Hospital Santa Isabel- Piracicaba- SP), trabalhar junto a criança hospitalizada é um desafio constante que implica em descobrir estratégias diferenciadas e adaptadas à realidade e necessidade de cada uma, como abordar e provocar neles o interesse em aprender diante de uma doença grave é muito complicado, exige um envolvimento efetivo com o "doente".
Neste hospital, atende-se o segmento lúdico (brincadeiras, jogos, leituras, brinquedoteca), a continuidade dos estudos regular é raro, pois as internações são de uma maneira geral decorrentes de procedimentos corriqueiros e pequenas cirurgias, não necessitando assim, de um acompanhamento maior., mas quando se faz necessário é dada a criança hospitalizada toda a assistência possível. A pedagoga recebe treinamento periódico, oferecido pelo próprio hospital em instituições competentes.
Nas atividades oferecias às crianças, utilizam-se muitos livros, pois ela considera que a leitura no ambiente hospitalar é uma atividade agradável que não só preenche o tempo ocioso, mas também tem a capacidade de despertar, desenvolver a imaginação, estimular a fantasia e envolver emocionalmente a criança hospitalizada, amenizando o estado de ansiedade que muitas se encontram.
Segundo a pedagoga os resultados são sempre compensadores, as crianças reagem bem frente as atividades que lhes são ofertadas e é comum pais e filhos brincarem juntos. Considera que a realização de atividades recreativas favorece a recuperação da criança e a aceitabilidade do tratamento, a criança fica mais alegre e encara o hospital de uma outra maneira, aliviando sua dor e ansiedade.
Além disso, todo o material que é oferecido às crianças pelo hospital é higienizado todos os dias, antes e depois de seu manuseio, evitando assim qualquer contaminação.



CAPÍTULO IV ? BRINCAR: O RECEITUÁRIO DA ALEGRIA.
O termo "brincar" é usado para definir um conjunto de atividades que se assemelham entre si por seu caráter lúdico. A atividade lúdica infantil, segundo Friedmann (1996), fornece informações elementares a respeito de uma criança, por meio dela podemos observar suas emoções, a forma como interage com outras crianças, seu desenvolvimento, seu nível lingüístico e sua formação moral. Por meio do jogo a criança se comunica com o mundo e se expressa, gerando uma fonte de dados que propicia a compreensão do desenvolvimento infantil, já que o jogo, o brinquedo, ou a atividade lúdica envolve emoções, afetividade, estabelecimento e ruptura de vínculos, e desta forma podem-se compreender também a dinâmica interna infantil.
O brincar na escola hospitalar é uma atividade que contribui para a construção do conhecimento e para o desenvolvimento global da criança, em especial, para a criança hospitalizada com câncer. Ao brincar as crianças podem melhorar na agilidade física, experimentar seus sentidos, e desenvolver seu pensamento. O contexto lúdico pode-se realizar sozinho, ou, na companhia de outras crianças, desenvolvendo também o comportamento em grupo e o respeito às regras. Sendo assim aprendem conhecer e a respeitar a si próprios, e aos demais, dentro de um novo ambiente, sendo esse novo ambiente, a escola hospitalar.
O evento hospitalização traz consigo a percepção da fragilidade, o desconforto da dor e o medo da morte. É um processo de desestruturação do ser humano que se vê em estado de permanente ameaça. Este quadro torna-se mais agravante quando a criança ou o adolescente recebe o diagnóstico de câncer. Há neste momento a inquietude, a surpresa, a perplexidade diante do real ali exposto e das possibilidades de tratamento e cura que se apresentam.
Embora, o câncer seja hoje considerado uma doença crônica grave, mas passível de tratamento e recuperação, continua sendo vivido como uma sentença de morte. Para os pais e filhos esta experiência, dificilmente compreensível, desdobra-se em um relato doloroso de perda da referência, dito como fatalidade: "agora estamos aqui", "por que com meu filho (a)", "o que fizemos de errado meu Deus!". Cada criança, cada família reage de modo particular à condição da doença. Conviver num cenário com essas características não é uma tarefa fácil e o objetivo do pedagogo hospital é tornar essa tarefa menos árdua para os pais e principalmente para as crianças.
Classe hospitalar é entendida por Fonseca (2003, p.30); como "Locus específico de Educação destinado a prover acompanhamento escolar a alunos impossibilitados de freqüentar as aulas em razão do tratamento de saúde que implique internação hospitalar ou atendimento ambulatorial".
Já para outros pesquisadores, o lúdico, é uma ferramenta do saber / conhecer que ultrapassa as imposições do adoecimento para atingir a expansividade da criança. É uma intervenção educacional por meio de atividades recreativas sem o rigor da continuidade da vida acadêmica, que estimula as habilidades cognitivas,, perceptivo ? motores e expressão artística.
Percebe-se a importância de se ter no hospital, uma multiplicidade de práticas que precisam ser viabilizadas na tentativa de contribuir para o desenvolvimento da criança hospitalizada e, que façam com que ela descubra desejos e expectativas para enfrentar os obstáculos que a doença, como o câncer, lhe impõe. Dentre essas práticas, pode-se citar o brincar dentro do contexto hospitalar.
O brincar surge ao longo da história da humanidade relacionada à criança e à educação, assumindo diversos significados como recreação, excesso de energia, atividade inútil, expressão de qualidades espontâneas, re-criação. Entretanto, antropólogos, sociólogos e lingüistas contemporâneos criaram referenciais teóricos para explicar o brincar como uma ação metafórica, que contribui para o desenvolvimento integral da criança e propicia a construção do conhecimento.
A importância de esse brincar que contribui para a construção do conhecimento e para o desenvolvimento da criança, em especial aqui, para a criança hospitalizada com câncer, pois ela não tem direito somente à saúde, mas também à educação, pois os seus interesses e necessidades intelectuais e sócio-interativas também estão presentes no ambiente hospitalar.
Demonstrar a importância e o desafio do trabalho do pedagogo no hospital, ou seja, trabalhar a potencialidade e não o fracasso da criança enferma. A proposta não é trabalhar o que elas estão impedidas de fazer porque estão doentes e, sim, o que elas podem fazer mesmo estando hospitalizadas com câncer. O câncer é uma célula que deixa de desempenhar suas funções normais, perde marcas que a identificam com determinado órgão e torna-se capaz de se transformar em qualquer tecido. Esta célula começa a se dividir e então nasce um aglomerado de células estranhas com acelerada capacidade de multiplicação.
Diante do supracitado, qual é a importância do brincar para crianças hospitalizadas com câncer?
Para continuarmos essa discussão vamos realizar a diferenciação entre jogo, brinquedo e brincadeira com base nos estudos de Brougère citado por Kishimoto (2006) e assinalar o que é espaço de brincar segundo Benjamim (1987).
O jogo para Brougère citado por Kishimoto (2006) pode ser visto em três aspectos:
No primeiro aspecto o jogo é visto como o resultado de um sistema lingüístico que funciona dentro de um contexto social, desta forma, enquanto fato social, o jogo assume a imagem, o sentido que cada sociedade lhe atribui.
Segundo como um sistema de regras que permite identificar, em qualquer jogo, uma estrutura seqüencial que especifica sua modalidade. O xadrez tem regras explícitas diferentes do jogo de dama, loto ou amarelinha. A existência de regras em todos os jogos é uma característica marcante,
Para Piaget (1975) faz-de-conta ou jogo simbólico implicam a representação, isto é, diferenciação entre significantes e significados, onde um objeto qualquer é usado como símbolo para representar situações não percebidas no momento. Nesse sentido uma caixa deslocada para frente e para trás pode ser usada pela criança para representar simbolicamente um automóvel.
De acordo com Singer (1973), a maior parte dos jogos de faz-de-conta também tem qualidade social no sentido simbólico. Envolvem transações interpessoais, eventos e aventuras que englobam outras características e situações no espaço e no tempo. O jogo imaginativo acontece com pares ou grupos de crianças que introduzem objetos inanimados, pessoas e animais que não estão presentes no momento.
No terceiro aspecto o jogo é visto como um objeto, ou seja, o xadrez materializa-se no tabuleiro e nas peças que possam ser fabricadas de papelão, madeira, plástico, pedra ou metais.
A brincadeira para o autor supracitado é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica. Pode-se dizer que é o lúdico em ação.
Dessa forma brinquedo e brincadeira relacionam-se diretamente com a criança e não se confundem com o jogo.
Por sua vez, acredita-se que jogo, brinquedo podem ser englobados em um universo maior, chamado de ato de brincar, ou simplesmente, brincar.
Brincar é caracterizado pelos signos do prazer, da alegria e do sorriso. Esse processo traz inúmeros efeitos positivos aos aspectos cognitivo, afetivo, corporal e social. Ousaríamos aqui dizer que brincar para criança hospitalizada é vida para ela.
Os jogos infantis, nos dizeres de Piaget (1994), constituem-se "admiráveis instituições sociais" e através deles as crianças vão desenvolvendo a noção de autonomia e de reciprocidade, de ordem e de ritmo.
Por meio de seus brinquedos e brincadeiras que a criança tem oportunidade de desenvolver um canal de comunicação, uma abertura para o diálogo, com o mundo dos adultos, onde ela estabelece seu controle interior e faz uma tradução livre da realidade exterior por ela vivenciada.
Permitir à criança espaço para brincar, proporcionando-lhe interações que vêm, realmente, ao encontro do que ela é aliada às nossas tentativas no sentido de compreendê-la, efetivamente, nestas atividades, é dar-lhes mostras de respeito. Assim fica-nos evidente a importância do brincar no âmbito hospitalar.
4.1 O hospital como espaço educativo e promotor da cidadania
Do ponto de vista do ambiente, Fonseca (2003) admite o hospital como um ambiente bastante impessoal. Qualquer pessoa que se hospitaliza, tanto criança quanto adulto, sente-se como se tivesse perdido a identidade e passa a ser um número de leito ou a uma enfermidade. Essa ruptura (ainda que temporária) com o mundo externo provoca uma série de sensações que oscilam desde a fragilidade ao abandono. Como conseqüência, altera-se o próprio estado de saúde.
Em termos do processo de internação, um dos fatores que o dificulta é a rotatividade de profissionais na vida da criança que a confunde e contribui para o aumento da desconfiança e insegurança, além de dificultar a integração entre a criança e o profissional da saúde. A respeito desse tema, Fonseca (2003) durante uma pesquisa realizada em 1995 demonstrou que, em ambiente hospitalar quanto mais os profissionais se mostrarem receptivos em relação à criança, melhor a compreensão das necessidades e interesses da criança. Além disso, essa conduta permitiu que o procedimento médico transcorresse mais facilmente.
"o tempo de aprender é o tempo do aluno;
- a interação entre as crianças é tão importante quanto a mediação do professor nas atividades desenvolvidas; e;
- "(a sala de aula tem o tamanho do mundo (e, no caso da sala de aula da escola hospitalar, serve de mediadora à), possibilidade da criança de plugar-se com o mundo fora do hospital)."
(Fonseca, 1003 pg. 13)
Em termos da estruturação do currículo, cabe destacar que este pode ser organizado em "oficinas pedagógicas" estabelecendo prioridades a partir da ampliação do espaço educativo e do oferecimento de situações lúdica as dentro e fora da enfermaria.
No que diz respeito às especificidades das classes hospitalares, Barris (1999) chamam a atenção para a "rotatividade permanente" que lhe é peculiar. Esta é acrescida de outras como:
§ O ambiente em si não parece ser suficientemente motivador para a aprendizagem;
§ A "turma" é sempre um grupo aberto onde entram e saem pacientes. O número de alunos é sempre flutuante;
§ A "turma" é marcada pela heterogeneidade em todos os aspectos: idade, seriação escolar, aproveitamento...
§ O trabalho caracteriza-se pela diversificação das atividades dado o seu caráter individualizado e individualizante;
§ A classe hospitalar não pode ser vista como sala de aula. A prioridade será sempre a saúde;
§ O currículo precisa ser flexibilizados para poder atender às especificidades do atendimento;
4.2 O perfil do professor para a classe hospitalar
Os estudos concernentes à formação do professor para atuar na classe hospitalar têm por principio o seu papel mediador entre a criança e o hospital.
Segundo Ortiz (2003) é indispensável ao professor ter conhecimento das patologias mais freqüentes na unidade hospitalar em que atua para saber dos limites clínicos do paciente-aluno.
Para a criança ou adolescente hospitalizado, o contato com o professor e com a classe hospitalar, que serve como uma oportunidade de ligação com os padrões da vida cotidiana e com a vida em casa e na escola. Por conseqüência, um dos desafios da formação de professores para as classes hospitalares refere-se à necessidade de um preparo pedagógico mais consistente ligado a uma orientação pedagógica especifica ao campo de atuação da classe hospitalar.
O perfil pedagógico ? educacional do professor de classe hospitalar de acordo com Fonseca (2003) deve ser adequado à realidade hospitalar na qual atua, destacando sempre as potencialidades do aluno, motivando e facilitando a inclusão da criança no contexto escolar hospitalar. Fonseca (2003:25) acrescenta o "professor esta lá para estimulá-las através do uso de seu conhecimento das necessidades curriculares de cada criança". Assim, sem abandonar os conteúdos acumulados pela humanidade e flexibilizando os conteúdos escolares, a classe hospitalar vai delineando a sua trajetória.
4.3 O dia-a-dia da Classe Hospitalar
Do ponto de vista do horário de funcionamento, geralmente, as classes hospitalares funcionam na parte da tarde para não interferir na rotina médica ? hospitalar que na parte da manhã é mais intensa. Porém, independentemente do horário de funcionamento da classe hospitalar, uma série de acontecimentos mescla-se com a rotina de atividades da classe como nos exemplos relatados por Fonseca (2003); a necessidade do aluno de se ausentar da classe para fazer exames médicos ou a chegada de visitas tanto para a criança quanto para a classe hospitalar. Essas interferências poderiam prejudicar o processo da mesma, porém para o atendimento pedagógico hospitalar essas interferências fazem parte da rotina da classe hospitalar.
As atividades da classe hospitalar precisam ter começo, meio e fim e o professor precisa estar ciente que cada dia de trabalho se constrói com um planejamento bem estruturado e flexível. Sobre as organizações das aprendizagens, parece oprotuno citar as contribuições de César Coll (2000).
Ø A finalidade educativa pretendida com a realização da tarefa: há que se ter presente qual o objetivo da proposição desta tarefa tendo em vista prioridades educativas (aquisição de conhecimentos, aquisição de hábitos, desenvolvimento da autonomia, criatividade,...). Uma tarefa desarticulada de um contexto desencadeador de processos mentais está fadada ao fracasso, pois se constituem para o aluno como "ações" fragmentadas.
Ø O tempo das atividades/tarefas: delimitar o tempo das atividades é essencial a um planejamento cuja intenção seja a construção do conhecimento. A mobilização do aluno para a realização da tarefa depende do desafio que lhe é proposto. Atividades longas demais dispersam a concentração dos alunos e acabam por desgastar a própria atividade. O tempo proposto para a atividade serve, inclusive, de elemento auxiliar da avaliação dos processos desencadeados pelo aluno na construção de sua aprendizagem (torna-se um indicador para o replanejamento). Cabe esclarecer o tempo (expresso em sua dimensão quantitativa) não garante a qualidade e/ou efetividade na realização de uma tarefa.
Ø Estratégias e planejamento, proposição e organização da tarefa: os materiais didáticos por si só não orientam a realização das tarefas. É função do professor, oferecer, paulatinamente aos alunos os esquemas de assimilação necessários à realização da tarefa. Se as instruções não forem precisas e/ou os critérios suficientemente explicitados, os resultados ficarão comprometidos. É possível que a prórpria tarefa não seja realizada de modo a não evidenciar exatamente o que se pretendia inicialmente. Um professor faz durante a realização da tarefa. Dosar essa intervenção é uma habilidade a ser desenvolvida. "As seqüências de aprendizagem precisam ser planejadas criteriosamente de modo a garantir que a "aula" seja percebida pelo aluno como um todo e não como um conjunto de atividades isoladas."
Ainda sobre esta questão, Fonseca (2003) destaca os procedimentos quanto o planejamento do dia a dia da classe hospitlar. Primeiramente, o professor deve ler o prontuário médico para tomar conhecimento da patologia da criança e das condições de saúde da mesma. Também as informações dadas pela criança e seu acompanhante sobre as experiências escolares devem ser consideradas. Os primeiros contatos da criança com a classe hospitalar são feitos com a mãe ou com seu acompanhante, pois a criança costuma ficar temerosa com o ambiente que ainda não conhece. A mãe ou o acompanhante servira como mediador entre a criança e o professor.
Também é de grande importância segundo Fonseca (2003) uma visita às enfermeiras antes do inicio das aulas, (mais ou menos uma semana antes), na classe hospitalar para verificar quais crianças irão estar de alta hospitalar, a faixa etária, as crianças que são portadoras de necessidades aparentes, pois essas informações vão oferecer subsídios para a elaboração de um planejamento mais elaborado.
Em síntese, o professor esforça-se para que diariamente registre as suas impressões e observações sobre o desempenho de cada criança nas atividades desenvolvidas por meio de relatórios que contribui positivamente para que a cada dia tanto o professor quanto a criança consigam atingir os objetivos propostos pela classe hospitalar.
Qualquer internação breve ou longa introduz nas vivencias infantil o registro de afastamento ou exclusão do direito à vida. Não se pode desconsiderar que o ser humano aprende a todo o momento. Até mesmo uma curta permanência, de poucos dias ou poucas horas no ambiente de classe hospitalar podem ser bastante relevante para o processo de desenvolvimento e a aprendizagem.
Dispor de atendimento de classe hospitalar mesmo que por um mínimo de horas, o que talvez pareça não significar muito para uma criança de escola regular, tem grande importância para uma criança hospitalizada. Ela pode operar com suas expectativas e dúvidas, produzir conceitos e produtos subjetivos de forma positiva, tanto para a vida escolar como conteúdo penoso ou de dano psíquico que a doença ou a hospitalização podem provocar.
4.4 Procedimentos adotados para a efetivação do acompanhamento escolar.
De acordo com as observações feitas em três hospitais que realizam atendimento pedagógco-hospitalar (dois na Região Sudeste e dois na Região Sul) para que esse acompanhamento ocorra de forma efetiva, quando a criança interna realiza-se uma abordagem junto ao paciente e acompanhante para colher dados referentes à escolarização da criança (se está inserido no sistema público ou privado de ensino; a série que esta cursando, se ocorreu repetência e/ou evasão; se esta em idade escolar, mas não esta inserida na escola e as suas causas). Depois entra-se em contato com a escola de origem da criança no sentido de comunicar a internação, caso a família não o tenha feito, bem como solicitar a relação dos conteúdos que estão sendo aplicados à classe na qual a criança está inserida, além do material didático utilizado pela escola, o que pode ser feito via relatório enviado através da família, por contato telefônico ou ainda através de vista à escola. Caso este contato com a escola seja inviável, realiza-se uma avaliação pedagógica junto à criança no sentido de sondar que conteúdos, referentes à série que esta cursando, a criança domina ou não, e se a mesma apresenta dificuldades específicas de conteúdos para que desta forma seja montado o programa de acompanhamento da sua escolarização focado nas dificuldades apresentadas. O horário de funcionamento das classes hospitalares geralmente é na parte da tarde e os problemas mais freqüentes das crianças atendidas são: câncer, AIDS, doenças genéticas.
A equipe é formada por um professor coordenador e professores (Pedagogia, Letras, Biologia, Matemática, etc.).
Após alta hospitalar, é enviado relatório descritivo das atividades realizadas, bem como do seu desempenho, posturas adotadas e dificuldades apresentadas.



4.5 Doutores da Alegria
Não posso me esquecer de falar um pouco dos "professores da alegria", dessas pessoas que levam um pouco de alegria e fantasia para as crianças que estão internadas em hospitais, (que por muitas vezes, por períodos longos) convivendo com dores, lamentos, incertezas.
Esses profissionais que me permitam chamá-los de anjos da alegria, pois levam um pouco de felicidade à estas crianças. Alguns são chamados de Doutores da Alegria, outros fornecedores/plantadores de alegria.
Vou contar um pouco desse trabalho que é voluntário inclusive. Existem alguns desses anjos que vão aos hospitais contar histórias, ler um livro, ou simplesmente vão conversar com os pacientes, um "dom" maravilhoso.
Doutores da Alegria ? Receituário da Alegria.
Em 1988 Wellington Nogueira entrou em um hospital pela primeira vez. Usando a menor máscara do mundo, um nariz de palhaço, estava fazendo residência para se tornar um especialista no ramo da "besteirologia". Acabou aprovado.
Em 1991, assumiu a identidade Di Zinho e fundou no Brasil a Doutores da Alegria, uma instituição sem fins lucrativos que tenha como objetivo levar os conhecimentos desta "especialidade médica" a crianças e adolescentes hospitalizados.
Os "Doutores da Alegria" é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que tem como missão promover a experiência da alegria como fatores potencializados de relações saudáveis por meio da atuação profissional de "palhaços" junto a crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde.
Além disso, a organização visa compartilhar a qualidade desse encontro com a sociedade com produção de conhecimento, formação e criações artísticas.
Mantida pelo apoio de empresas e pessoas físicas na forma de patrocínio, parceria e associação, a organização foi pioneira na introdução do teatro em seu quarto de hospital. O trabalho dos Doutores da Alegria foi incluído duas vezes pela Divisão Habitat da ONU entre as melhores práticas globais.
Desde sua inauguração em 1991, seus palhaços já visitaram mais de 550 mil crianças hospitalizadas, atingindo também cerca de 600 mil familiares, e envolvendo mais de 13 mil profissionais da saúde.
Além do pioneirismo no país com o trabalho nos hospitais, a organização também é preciosa no que se refere à sistematização e difusão do conhecimento obtido neste trabalho ao estudo das relações entre arte e ciência e do universo do palhaço como um todo. Assim, os Doutores da Alegria, têm hoje cursos e publicações que atingem um público amplo que vai de jovens aprendizes a estudantes universitários e empresários, além de espetáculos adultos e infantis e palestras para empresas e escolas onde se evidência o poder da criatividade e da alegria como força transformadora de obstáculos em recursos.
Desde 2004, os Doutores da Alegria realizam em São Paulo um programa de formação e inclusão social, que visa capacitar jovem entre 17 e 23 anos em artes, ciências e na linguagem do palhaço. O programa oferece aulas diárias e tem duração de dois anos. Ao final do programa, os jovens participam da criação, concepção e montagem de um espetáculo que circula entre as regiões em que vivem os jovens inscritos, além de outros teatros e centros culturais da cidade.
Em 2007, a organização lançou o programa "Palhaços em Rede", respondendo a uma demanda antiga de grupos de todo o Brasil que, inspirados pelos Doutores da Alegria, decidiram atuar com o figurino do palhaço em hospitais de todo o país, na maioria das vezes de forma amadora e voluntária. O programa oferece orientação a pessoas ou grupos selecionados por meio de edital público, ao mesmo tempo em que reforço a identidade de cada um dos participantes.
Estudos e Pesquisas comprovam que o trabalho realizado pelos Doutores da Alegria, mostrou que melhorou muito o estado físico e psicológico das crianças e jovens hospitalizadas, recuperando a auto-estima e a vontade de viver desses pacientes, e sorrir é o melhor remédio.
Os Doutores da Alegria advertem:
Ø Quando sair de casa, não esqueça a sua alegria dentro do armário.
Ø Seu sorriso não deve ser exclusivo para as fotografias.
Ø A alegria é contagiante. Deixe que elas se tornem uma epidemia.
Ø É incrível o que um simples nariz vermelho pode fazer pelas pessoas.
Ø Quando sentir a preocupação pelo ar, assopre para longe.
Ø Para viver com alegria, a receita é retomar o bom humor de 2 em 2 horas.
Ø Respeite o seu ritmo: recarregue as baterias periodicamente.
Ø Mau ? humor tem cura: sorria!
Ø Se rir é o melhor remédio, uma overdose deve ser o máximo.
Ø Não é só anestesia que espanta a dor. Rir também.
Os trabalhos desses profissionais têm feito a pacientes e familiares maravilhas em suas vidas. Parece às vezes uma bobagem, ver alguém vestido de palhaço, fazendo graça, mas depois..., os resultados são magníficos, surpreendentes mesmo, a vida fica com mais sentido, e a dor por alguns instantes somem dando lugar a vida.






















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. Resolução nº 41, de outubro de 1995. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 out. 1995.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Especial. Classe hospitalar e atendimento pedagógico domiciliar: estratégias e orientações. Brasília, DF: MEC/SEESP, 2002.
CECCIM, R.B.Criança hospitalizada: a atenção integral como uma escuta à vida.; CARVALHO, P.R.A.(ORG). Criança hospitalizada: a atenção integral como escuta à vida. Porto Alegre: UFRGS, 1997. P.27-41.
FONSECA, E.S. Atendimento escolar no ambiente hospitalar. São Paulo: Memnon, 2003.
BARROS, Alessandra Santana. A prática pedagógica em uma enfermaria pediátrica. Revista Brasileira de Educação - Rio de Janeiro, nº 12.p.84-93.
FONTES, Rejane de Souza. A classe hospitalar e a inclusão da criança enferma na sala de aula regular. Revista Brasileira de Educação Especial - Marília, São Paulo, v. B, nº 1, p.45-54, 2002.
GHIRALDELLI, P. O que é pedagogia hospitalar. São Paulo - Brasiliense 1989.
MEC, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1990.
ANTUNES, Celso. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências. Petrópolis, RJ: Vozes 2000.
Direitos da Criança e do Adolescente hospitalizado. Diário oficial, Brasília, 17, out. 1995. Seção 1, pp. 319-320.
NOVA ESCOLA, Edição Especial. Parâmetros Curriculares Nacionais fáceis de entender, 2001.
PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Foz do Iguaçu, Zahar, 198
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando as pesquisas realizadas, pudemos perceber que a Pedagogia Hospitalar é muito mais do que uma modalidade de educação. È uma oportunidade dada às crianças que estão internadas por motivo de doença, é uma forma de demonstração de carinho e atenção a estes seres que se sentiam abandonados entre médico, enfermeiros, remédios, cirurgias e até mesmo da morte, é uma tentativa de levar a vida de volta para eles.
O objetivo da Classe Hospitalar é garantir a continuidade escolar às crianças hospitalizadas, estimulando suas capacidades e assim diminuir as incertezas e até o trauma hospitalar causados pelo longo período de internação.
Sabe-se que o número de classes hospitalares ainda é muito pequena e insuficiente, mas na última década houve um aumento considerável das mesmas, pois é uma idéia criativa no intuito de oferecer suporte pedagógico as crianças hospitalizadas. Para que haja um acompanhamento de boa qualidade a estas crianças é necessário que o profissional esteja bem preparado, através de formação prática e teórica e que professores tenham capacidade de lidar com as diversidades existentes no ambiente hospitalar, além de um efetivo envolvimento com o enfermo.
Percebe-se a importância de se ter no hospital, uma multiplicidade de práticas que precisam ser viabilizadas na tentativa de contribuir para o desenvolvimento da criança hospitalizada, e que façam com que a criança descubra desejos e expectativas para enfrentar os obstáculos que a doença como o câncer lhe impõe.
Dentro destas práticas podemos citar o brincar dentro do hospital, que contribui para o desenvolvimento integral da criança e propiciar a construção do conhecimento.
O desafio do trabalho do Pedagogo no hospital é trabalhar a potencialidade e não o fracasso da criança enferma, não é trabalhar o que a criança está impedida de fazer por estar doente e, sim, o que elas podem fazer mesmo estando hospitalizadas com câncer, assim aprender a conhecer e a respeitar a si próprios e aos demais dentro de um ambiente que para elas é novo, a escola hospitalar.
As pesquisas nos mostram que os quadros clínicos destas crianças melhoram muito quando existe a classe nos hospitais. Existe também a ajuda dos Doutores da Alegria que levam as crianças a "loucura", é impressionante a mudança física e emocional destas crianças.
Embora ainda seja pequena a quantidade de classes hospitalares em hospitais no nosso País, muito se tem feito em prol das crianças internadas especialmente com câncer. Alguns hospitais trabalham com o serviço de voluntários, ajudando a contar histórias, desenhando, pintando, enfim, levando um pouco de alegria e carinho as crianças que se encontram doentes.
É muito importante o trabalho do Pedagogo nos hospitais, pois prepara a criança que se encontra internada para o retorno a sua vida social e escolar. Vale salientar que a criança enferma precisa de cuidados que vai além do aspecto físico e biológico e, por este motivo, toda a equipe médica se integra em prol da continuidade do desenvolvimento global dos pequenos pacientes.



"O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos."
( Rubem Alves )














 
Avalie este artigo:
(3 de 5)
7 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Talvez você goste destes artigos também