OS SINTOMAS CONTEMPORÂNEOS QUE ELEVAM AO ATO DE SUICIDAR
 
OS SINTOMAS CONTEMPORÂNEOS QUE ELEVAM AO ATO DE SUICIDAR
 


OS SINTOMAS CONTEMPORÂNEOS QUE ELEVAM AO ATO DE SUIDAR-SE 

RESUMO

O estudo estabelece a reflexão sobre os sintomas contemporâneos que elevam ao ato de suicidar. Desta forma tem como objetivo principal mostrar a importância da relação entre os sintomas contemporâneos e o suicídio. Pois hoje na atualidade muitas pessoas buscam o ato de morrer como algo para "solucionar" a dor existencial. Realizou uma pesquisa bibliográfica considerando a contribuição de autores BAUMAN (1998,1999), BIRMAN (2006), MANDUCA (2005) e entre outros. Conclui-se que o suicídio é uma forma de saída para a pessoa que está em sofrimento e os sintomas contemporâneos contribuem para tal comportamento. Mas quem faz é o próprio ser, através das suas construções e escolhas.

 Palavras-chave: suicídio. sintomas contemporâneos. ser 

Introdução                                                        

            O presente trabalho pretende discutir “Os Sintomas Contemporâneos que Elevam ao Ato de Suicidar ”. Buscou-se trabalhar com este estudo os sintomas contemporâneos que assolam as pessoas no ato de suicidar.

            Pretende-se, com este artigo, uma conexão entre ser, suicídio e contemporaneidade. Dessa maneira, vê-se necessário a discussão entre o suicídio e o contemporâneo, fazendo uma relação com os sintomas que causam sofrimentos ao ser e como o próprio se vê diante destas circunstâncias.

            As mortes por suicídio chocam e impressionam, porém nenhuma tentativa é igual à outra. Como é um problema grave, o número de casos é cada vez mais elevado, pois hoje as pessoas por não terem uma forma de vida suportável, digna da sua existência passam a sofrer e assim exterminar a sua própria vida.

            Define-se suicídio como uma atitude individual ou coletiva de extinguir a própria vida, podendo ser causada entre outros fatores por um elevado grau de sofrimento, que tanto pode ser verdadeiro ou ter sua origem em algum transtorno afetivo, transtorno psiquiátrico e  psicológico, depressão ou fatores sociais.

            Na contemporaneidade, muito se vê pessoas que não suportam os sofrimentos que estão presentes na sua existência e assim cometem tal ato. É uma forma de dizer algo, que não está claramente exposto. 

            A cada dia o sofrimento físico e emocional fica mais intenso e o viver torna-se um fardo pesado e angustiante. A vida perde o sentido e o mundo ao redor do ser fica insosso. A pessoa que comete o suicídio o faz porque é a forma de escapar de uma sensação de dor ou impotência extrema e também de aniquilar o momento profundo de desespero e da grande falta de esperança.

            Na questão do suicídio, os grupos de tem maior incidência são: os homens, os subgrupos, os solteiros, os viúvos as pessoas idosas, os médicos e também encontramos nos adolescentes.  Cada grupo supracitado tem questões em relação a sua existência, algum sofrimento ou angústia. Porém, as definições teóricas sobre o suicídio se alteram, se completam ou se contradizem, pois não temos uma resposta exata ou definida em relação ao ato de suicidar. O caminho para o suicídio é de forma ambígua, porque cada país ou cultura vê o suicido de uma forma, podemos citar como exemplo as sociedades orientais e tribais.

            Segundo a Organização Mundial de Saúde  (OMS, 2006), atualmente um milhão de pessoas se matam por ano no mundo. No Japão, a média é de 25 mortes por 100 mil habitantes, enquanto que em países como Espanha, Itália, Irlanda, Egito e Holanda, é de menos de dez mortes a cada 100 mil habitantes. Em2004, amédia nacional (Brasil), era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes. A média brasileira é baixa em relação a outros países, mas o suicídio acontece em todos os estados e regiões, entre homens e mulheres, em todas as classes sociais, entre jovens e idosos, negros e indígenas.

            Em relação aos sintomas contemporâneos que podem propiciar que as pessoas cometam suicídio são: o vazio, o niilismo, o hedonismo, individualismo, o narcisismo, as relações de poder, enfim são as incertezas que a pós-modenidade estabelece.

            Estes sintomas fazem com que o ser fica sem rumo, sem esperança em relação à existência, desta forma fica em um labirinto sem saber como sair e vendo que a única saída para o martírio é a morte. Vê na morte o seu descanso para os seus tormentos. É uma forma de dizer que a vida não vale à pena, que é um fardo e não uma existência de prazeres e felicidades.

Para alcançar os objetivos propostos utilizou-se como recurso metodológico, a pesquisa bibliográfica, realizada a partir de análise de materiais já publicados na literatura.

            O texto final foi fundamentado nas ideias e concepções de autores como: Bauman (1998,1999), Birman (2006), Dias (1991), Giddens (2002), Giovanetti (1997), Kumar (1997), Manduca (2005), May (2002) e Rojas (1997).

 Desenvolvimento

             A pós-modernidade é a época das incertezas, das divisões, da mutação, do vazio, do niilismo, do rápido, do hedonismo, da substituição da ética pela estética, do individualismo, do consumismo e das desconstruções. O sujeito busca a sua felicidade no bem-estar e nas questões que lhe vão trazer um sentimento de satisfação momentânea. Ele não está interessado em vivenciar a sua existência na plenitude, mas em uma vida sem projetos e significados.

 Temos aqui o mundo pós-moderno: um mundo de presente eterno, sem origem ou destino, passado ou futuro; um mundo no qual é impossível achar um centro ou qualquer ponto ou perspectiva do qual seja possível olhá-lo firmemente e considerá-lo como um todo; um mundo em que tudo que se apresenta é temporário, mutável ou tem o caráter de formas locais de conhecimento e experiência. Aqui não há estruturas profundas, nenhuma causa secreta ou final; tudo é (ou não é) o que parece na superfície. É um fim à modernidade e a tudo que ela prometeu e propôs. (KUMAR, 1997, p.152).

             Para Giddens (2002), a sensação de que a vida não tem a oferecer, a falta de sentido pessoal é um problema psíquico fundamental na modernidade tardia.

            O hedonismo estabelece que as coisas sejam passageiras, sem muita importância, valorizando o descartável e o individualismo. O importante é o desejo efêmero, é a felicidade momentânea, não vem ao caso à questão de se aprofundar nas coisas e nas situações.  Portanto é a tendência de buscar o prazer imediato, individual e evitando tudo que pode ser desagradável (MANDUCA, 2005).

            Diante da sociedade de consumo, a vida perdeu o seu valor. O caráter sagrado e com isso o suicídio torna-se banalizado, uma alternativa descartável. O não pensamento dá o significado ao suicídio e isto assola o mundo contemporâneo. A sociedade de consumo promete a gratificação imediata e, ao mesmo tempo, frustra as perspectivas que são oferecidas.

            De acordo com Birman (2006), a posse de bens demonstra poder e assim define o status do individuo. O ter é a forma de preencher um vazio, assim dá ao individuo uma segurança, pois faz o mesmo acreditar que é detentor de algum poder pelo status que pode exibir. A compulsão do ter se evidencia e revela a face mortífera da sedução.

Não tanta avidez de adquirir, de possuir, não acúmulo de riqueza no seu sentido material, palpável, mas a excitação de uma sensação nova, ainda não experimentada _ este e o jogo do consumidor. Os consumidores são primeiro e acima de tudo acumulador de sensações. São colecionadores de coisas apenas num sentido secundário e derivativo. (BAUMAN, 1999, p. 91)

             O consumismo universaliza a maneira de viver das pessoas, invadindo e determinando suas necessidades, até o sentido da vida pode ser comprado, embora não venha ao caso, por quanto tempo. A imediaticidade é buscada de maneira incessante e elevada às últimas consequências. A cultura da globalização impõe a constante busca de existência e superação, que ultrapassa a fronteira política e econômica dos países e chega até as pessoas, atingindo, globalizando seus sentidos, sentimentos, enfim, os modos próprios da sua existência (MANDUCA, 2005).

Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais. Está-se diante de uma vida coquetel, desorganizada: uma mistura de verdades oscilantes, uma conduta no aproveitar bem o momento e consumir. Uma atitude de se interessar por tudo e ao mesmo tempo não se comprometer com nada. Constata-se a inquietude, a frivolidade, o crescimento a níveis muito altos do egoísmo humano. Assim para os referidos investigadores da pós-modernidade, pode-se afirmar que o homem pós-moderno é sumamente vulnerável. À primeira vista, esse homem é atraente, dinâmico e divertido, mas pouco a pouco, oferece sua verdadeira imagem: um ser vazio, hedonista, materialista, sem ideais, sem rumo e se sente muito vazio (MANDUCA, 2005, p. 11).

             As pessoas se relacionam com as outras na superficialidade, valorizando o narcisismo, no qual o outro não é valorizado. O que importa é sempre valorizar a questão do particular e não do público. Tal comportamento é denominado de niilismo (BAUMAN, 1998, p. 36-37):

 Como tudo o mais, a imagem de si mesmo se parte numa coleção de instantâneos, e cada pessoa deve evocar, transportar e exprimir seu próprio significado, mais frequentemente do que abstrair os instantâneos do outro. Em vez de construir sua identidade, gradual e pacientemente, como se constrói uma casa – mediante a adição de tetos, soalhos, aposentos, ou de corredores -, uma série de “novos começos”, que se experimentam com formas instantaneamente agrupadas mas facilmente demolidas, pintadas umas sobre as outras: uma identidade de palimpsesto. Essa é a identidade que se ajusta ao mundo em que a arte de esquecer é um bem não menos, se não mais, importante do que a arte de memorizar, em que esquecer, mais do que aprender, é a condição de contínua adaptação, em que sempre novas coisas e pessoas entram e saem sem muito ou qualquer finalidade do campo de visão da inalterada câmara da atenção, em que a própria memória é como uma fita de vídeo, sempre pronta a ser apagada a fim de receber novas imagens, e alardeando um garantia para toda a vida exclusivamente graças a essa admirável perícia de uma incessante auto-obliteração.

             Através do individualismo, o sujeito se volta para si mesmo, mas ele não se conhece, não sabe o que quer e que veio. Ele não se conhece por completo, já que possui uma existência fragilizada pelas sensações de prazeres efêmeros.

            De acordo com Rojas citado por Giovanetti (1997), quando se aprofunda os estudos sobre um modelo humano recente, a imagem que surge é de uma sociedade desorientada, perplexa, desenganada e cética, mas orgulhosa de caminhar para traz, num galope desumanizado.

            O mundo pós-moderno não é imóvel, tudo está em movimento, mas os movimentos parecem aleatório, dispersos e destituídos de direção bem delineada, é antes de tudo uma direção acumulativa. É difícil ou impossível julgar a sua natureza “avançada” ou “retrógrada”, pois o interajustamento entre as dimensões espacial e temporal do passado quase se desintegrou, enquanto os próprios espaço e tempo exibem repetidamente a ausência de uma estrutura diferenciada ordeira e intrinsecamente (BAUMAN, 1998).

            Na contemporaneidade o individuo, é um vazio gerado pela indiferença, é fruto da saturação. O excesso se apresenta em tudo e o homem indiferente não se aferra a nada, não tem verdades absolutas, nem crenças firmes, gerando uma inquietante frivolidade que converte tudo em epidérmico, superficial tópico: o que importa é seduzir, provocar e ser divertido. A consequência disso é uma mediocridade pública (MANDUCA, 2005).

 A origem psicológica da experiência do vazio é devido à sensação de vácuo que observamos ao nível social e individual e que não deve ser tomada no sentido de que as pessoas são vazias, desprovidas de potencialidades emocionais. Um ser humano não é oco no sentido  estático, como se fosse uma bateria precisando de uma nova carga. A sensação de vazio provém, em geral, da ideia de incapacidade de fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos. O vácuo interior é o resultado acumulado a longo prazo da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo ou exercer influência sobre o mundo que nos rodeia. Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que a tantos aflige hojeem dia. Euma vez que o que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira  importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta  de emoções são defesas contra a ansiedade. Quando alguém continuamente defronta-se com o perigo que é incapaz de vencer, sua linha final de defesa é evitar a sensação de perigo (MAY, 2002, p. 22).

             Para o mesmo autor, a situação de vácuo e impotência é um grande perigo, pois mais cedo ou mais tarde, pode conduzir a ansiedade, ao desespero e finalmente ao desperdício. Desta forma a um bloqueio das mais importantes qualidades do ser humano. Tal bloqueio pode gerar a redução e o empobrecimento psicológico ou a sujeição a uma autoridade destrutiva.

 A subjetividade contemporânea não consegue mais transformar dor em sofrimento, isso se deve à impossibilidade de interlocução, já que, lançada na vida nua e no mundo sem sentimento, chafurda na depressão. Isso porque a interlocução pressupõe a existência do outro para que se possa fazer um apelo e ser o suporte para a produção do sentido. Enfim o vazio da subjetividade atual é o correlato do mundo que perdeu o sentido (BIRMAN, 2006, p. 193).

             Para Manduca (2005), o desespero humano é a expressão da falta de uma direção ou ação e assim leva- se ao suicídio, este ato denuncia uma última tentativa de dar um sentido à existência. A falta de rumo dá se o significado de viver dentro de um barco sem direção e sendo levado pelo movimento das ondas, não sabendo se chegará a algum lugar. Assim, o ser humano tem necessidade de dar um significado à vida.

            Nesta perspectiva entende-se  que o suicídio seria então uma das consequências de tal impulsividade. Seria uma reação as promessas de felicidade e de satisfação instantâneas, que não são cumpridas. Por terem dificuldade de entrar em contato consigo mesmas, as pessoas perdem a tolerância à frustração. O que é posto para as pessoas é a questão da necessidade superficial. A pessoa torna-se fragmentada, assim há uma grande crise de sentidos e sentimentos. O homem perde o contado com o seu próprio ser natural e torna-se dividido.

 Na cultura ocidental contemporânea, podem-se observar traços coletivos – como o tremor intenso da velhice e da morte, a deterioração de laços de intimidade ou compromisso entre homens e mulheres, o descompromisso emocional para com o outro, a tendência a preferir atitudes competitivas a atitudes cooperativas, a busca de autossuficiência (DIAS, 1991, p.102).

                Portanto, o suicídio é algo que abrange vários aspectos, pois o individuo é um ser bio-psico-social, é de natureza multidimensional. Na contemporaneidade, o ser não estabelece um vínculo consigo mesmo. As relações são individuais e sem compromisso emocional; o importante é a relação de poder entre as pessoas. Nesta situação, o sujeito estabelece uma dicotomia entre a vida e a morte, o bom e o mau, o céu e inferno. O suicida recusa então o mundo que não lhe parece favorável para viver. A existência fragmentada, o individualismo, o hedonismo, o niilismo e o vazio é uma das causas deste sofrimento existencial que ocasiona o suicídio.

Conclusão

             O suicídio é uma situação, no qual não temos um significado pronto, pois como foi descrito têm várias formas de perceber e entender o ato de suicidar.

             Os sintomas da contemporaneidade fazem com que as pessoas estabeleçam um vazio existencial, no qual ficam perdidas e assim não sabendo para onde ir. O que é importante são os prazeres momentâneos, o individualismo, o narcisismo e as relações de poder. É a super valorização do ter ao invés de ser ou da estética pela ética. 

            O suicídio é uma forma de saída para a pessoa que está sofrendo, mas quem faz é o próprio ser, através das suas construções e escolhas. Ele não vê as possibilidades existenciais que podem estabelecer em outras escolhas. A pessoa é um ser-aí que se constrói através de seus movimentos de interiorização, exteriorização e de transcendência.

            A pessoa deixar de ser-suicida é transcender-se para o ser-aí, desta forma irá possibilitar a realização da sua existência e poderá ser amplo os horizontes que irá vir-a-ser. É a possibilidade de redirecionar os seus projetos existenciais e assim descobrir as possibilidades que estavam ocultas. Desta forma a pessoa terá uma visão transparente sobre a sua existência e no qual refletir sobre o morrer e viver.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 272 p.

 BAUMAN, Zygmunt. Globalização : as consequências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. 145 p.

 BIRMAN, Joel. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2006, 418 p.

 DIAS, M. L. O suicida e suas mensagens de adeus. In: CASSORLA, Roosevelt M. S. (Coord.). Do suicídio: estudos brasileiros. Campinas: Papirus, 1991. cap. 5, p. 89-106.

 GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. 233 p.

 GIOVANETTI, José Paulo. Pós-Modernidade e o vazio existencial. In: CASTRO, Dagmar Silva Pinto de (Org.). Existência e saúde. São Bernardo do Campo: FENPEC, UMESP, SOBRAPHE, 2002. p. 91-1004

 KUMAR, Krishan. Da Sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna: Novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. 04-158.

MANDUCA, Maria Natalina de Lima. O vazio existencial na pós-modernidade. 2005. 1 CD-ROM. Monografia (Graduação em Psicologia) - Centro Universitário Newton Paiva, Belo Horizonte, 2005.

 MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

 ROJAS, Henrique. A Ansiedade. In: José Paulo Giovanetti. A Ansiedade São Paulo: Mandarim, 1997.

 
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