A poesia engajada de ferreira gullar
 
A poesia engajada de ferreira gullar
 


                      

A POESIA ENGAJADA DE FERREIRA GULLAR*

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Marcia Jovelina de Jesus**

 

EPIGRAFES:

 

“Pode-se dizer que toda poesia é sempre política. Pois forma no leitor,no ouvinte, no espectador, ainda que de forma indelével, uma nova consciência do sensível, criando palavras que sejam a expressão desta sensibilidade e que correspondam a novas formas de percepção da realidade. Esta consciência estabelece que o mundo pode ser transformado, o que parece impossível pode ser possível; logo, que a utopia é a verdadeira dimensão do homem e a missão dos poetas.(LIMA,2001,p.76).

 

14.           Digo adeus à ilusão
15. Mas não ao mundo. Mas não à vida,
16. Meu reduto e meu reino.
17.           Do salário injusto,
18.           da punição injusta,
19.           da humilhação, da tortura,
20.           do terror,
21. Retiramos algo e com ele construímos um artefato
22. Um poema
23. Uma bandeira.
(Ferreira Gullar, “Agosto de 1964” terceira estrofe,).

 

É bastante comum, pessoas que tentam amordaçar e silenciar os poetas que através da sua poesia, mostram fatos do cotidiano, reais, sem máscaras. Com certeza para estes poetas engajados, autênticos, aquele bordão comumente

*

 

 utilizado “poesia rima com fantasia, cai por terra”. Sim, a poesia rima com poesia, através pelo fato de ser um poeta engajado e participante o Ferreira Gullar (1930- ), contradiz o bordão, e situa-nos que poesia rima com poesia, e vem denunciar, mostrar através do poema AGOSTO DE 1964, que consta dentro do livro Dentro da noite veloz, cuja publicação ocorreu em 1975, e denunciava  as mazelas da sociedade.

 

 O Ferreira Gullar é muitas vezes rotulado poeta puramente político por causa da algumas das suas poesia de teor denunciativo, pelo simples fato de ser Gullar um ser atuante e participante, dos contextos da nacionalidade. Gullar considera a Academia Brasileira de Letras algo anacrônico, que nada faz, senão se vestir de maneira a rigor, e sentar-se numa cadeira acolchoada.

Há muitíssimo o que comentarmos a respeito das obras de Ferreira Gullar, pois é escritor, ensaísta, tradutor, é um dos maiores poetas brasileiros.

 

 Certo é que cada poeta segue suas indiossicrasias, o seu estilo próprio. “Para Jean - Paul Sartre (1905- 1980) “o império dos signos é a prosa” (p.13), essa reflexão que Sartre se refere a prosa, difere da poesia, pois segundo ele” a poesia está lado a lado com a pintura, a escultura, a música (...) Não é porque use palavras, como a prosa, que a poesia deva ser considerada engajavel, até porque a poesia não se serve de palavras (p.13).

 

As poesias gullarianas não são fugas da realidade, nem tão menos um emaranhado de palavras sem nexo, pelo contrário, são de grande valia, pois resgatam a vida real, mostrando-a como ela é, há um engajamento poético e político, assim como nosso corpus de estudo “AGOSTO DE 1964”.

 

Em comparação com os poetas da antiguidade, assim como Dante, Horácio e Virgilio, com certeza os poetas modernos trabalham a realidade, não queremos desmerecer, nem simplificar os poetas antigos, dizendo que eram alheios a realidade de seu tempo, por trabalharem nas suas poesias com elementos mitológicos, já que cada poeta possuem suas indiosicrasias.

Evidentemente que muitos questionam acerca do que é e para que serve a poesia.

 

José Ribamar Ferreira, pseudônimo Ferreira Gullar (1930- ), é poeta engajado e participante, sempre esteve a frente das questões relacionadas à cultura e aos problemas políticos- sociais brasileiros, desde a sua juventude, em terra maranhense. Sua poesia é objetiva, concisa, voltadas para a realidade nacional. Tem muitas obras dentre as quais destacamos: A luta corporal(1954); Dentro da noite veloz (1975), Poema sujo( 1975); Na vertigem do dia (1980); Barulhos (1987); Muitas vozes (1999).

 

Gullar é um dos mais importantes representantes da geração pós - movimento modernista 1922 destaca-se pela poesia social, política, mas sensível as emoções cotidianas dos indivíduos. Mais a partir de 1962, seus textos mostram com maior intensidade o teor de denuncia, combate, as torturas, as mazelas sociais e humanas. Onde ocorriam que o governo tinha o poder de silenciar, e cabia-os “os intelectuais tinham a responsabilidade por seus conhecimentos ao alcance do povo, para que estes passassem a ser grande protagonista das transformações políticas no país” (CAMENIETZKI, 2006 p.69).

 

Não pretendemos com este ensaio esgotar todas as possibilidades de análise acerca do corpus, do nosso estudo, o poema “AGOSTO DE 1964”, do livro Dentro da noite veloz, publicado em 1975, composto por quarenta poemas escritos de1962 a 1974, o título do livro é de grande valia e bastante revelador, a velocidade, o tempo, o noturno (escuro), retratando a conturbada época que fora escrito.  Ao contrário o que objetivamos com este ensaio é contribuir, para analisar o engajamento político e social, no poema “AGOSTO DE1964”, de Ferreira Gullar, a partir do qual comprovaremos como o trinômio a linguagem, mensagem e montagem gullarianas se complementam. Contextualizando o momento histórico que assolava o país, detectando o entendimento de Jean - Paul Sartre, como ele aborda o papel da poesia no engajamento do poeta.

 

 

  Antes da análise do poema gullariano, “agosto de1964”, convém citarmos na íntegra, para maior e melhor visualização do eixo temático o trinômio, linguagem, mensagem e montagem.

 

 Agosto 1964

1. Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
2.             mercados, butiques,
3. Viajo
4.             num ônibus Estrada de Ferro - Leblon.
5.             Volto do trabalho, a noite em meio,
6.             fatigado de mentiras.

7. O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
8. relógio de lilases, concretismo,
9. neoconcretismo, ficções de juventude, adeus
11.           eu a compro à vista aos donos do mundo.
12.           Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
13. a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

14.           Digo adeus à ilusão
15. Mas não ao mundo. Mas não à vida,
16. Meu reduto e meu reino.
17.           Do salário injusto,
18.           da punição injusta,
19.           da humilhação, da tortura,
20.           do terror,
21. Retiramos algo e com ele construímos um artefato
22. Um poema
23. Uma bandeira.
(Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, 1975).

 

Segundo Alfredo Bosi (1994, p.473) Inflectindo para a opção participante, Gullar deixou de lado os experimentos em que intervinha no corpo da palavra e passou a veicular a própria mensagem em códigos modernos, sim, mas organicamente presos à estrutura do verso que o Concretismo iria esconjurar.

 

O poema estudado serve como arma política, com função político social, contradiz Sartre, que “É vedado ao poeta engajar-se, e que os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem”. (p. 13).  

 

Para o pensamento sartreano o poeta não se comunica, para ele a poesia, e o poeta não estão inceridos no engajamento. Com o poema “Agosto de 1964”, Gullar mergulha na profunda e obscura realidade de seu tempo. O período e o contexto histórico do país serviram de inspiração. Pois “a poesia armava-se, não havia mais lugar para a poesia desarmada” (LIMA 2001 p. 79).

 

No século XX, o engajamento ocupou maior espaço nas discussões, sobre literatura. Sartre em seus estudos literários provoca polêmica ao afirmar: “examinar a arte é escrever sem preconceitos” (p.10)*. Diz com isso que cada arte tem sua peculiaridade e que nem todos são engajáveis. “Uma coisa é trabalhar com sons e cores, outra é expressar-se com palavras, notas, as cores, as formas não são signos, não remetem a nada que lhes seja exterior” (p.10).

 

Analisando o poema “AGOSTO DE1964”, percebemos que há uma incorporação do “outro”, como sujeito esboçando o lirismo, intensa exploração da subjetividade, produções poéticas engajadas “agosto1964”, que perdurou a ditadura militar.

 

 Este poema da voz aos que estavam sem voz, por causa do silenciamento aos quais foram expostos, silenciamento este que os consumiam a cada momento, a cada instante.

 

O poema gullariano nos remete a um índice para quem lê, a mensagem é a mesma, porém a linguagem e a montagem são diferentes. Rejeitando o que vinha fazendo com os outros poemas que se preocupava mais com a linguagem e a montagem.

No poema há ampliação de identidades: a pessoal, ampliada pela identidade nacional. As desigualdades sociais são mais do que explicita. A sensação de velocidade expressa o anseio pelo fim da opressão e das injustiças, que são demoradas. Mais fica respingo de esperanças, “Mas não ao mundo. Mas não a vida” (v.15).

 

O espaço é urbano e o contexto histórico é a ditadura militar. Neste sentido, palavras como adeus e vida estão muito presentes no poema, dando mais ênfase a palavra adeus, como podem ser constatados, nos “(...) Adeus, Rimbaud (...) ficções de juventude, adeus. Digo adeus à ilusão.” (v.7, 9 e 14).

 

Gullar fez parte do movimento concretista e do neoconcretismo, porém no poema, dar adeus aos movimentos (v. 8 e 9 ). Pois os considera puramente ilusão (v. 8 e 9 ).

 

O “eu” de Gullar viaja sozinho, cansado de mentiras e de ilusões “Viajo... fatigado de mentiras” (v.3 e 6 ). Mesmo com as perseguições, torturas, Gullar não calou-se, ganhou mais força e ele retrata: “da punição injusta, da humilhação, da tortura, do terror” (v.18,19 e 20). O poema não transparece experiência isolada e sim, do povo.

 

Nos versos 21,22 e 23 aparecem três elementos são eles: um artefato, um poema, uma bandeira. O artefato (equipamento de guerrilha), um poema (dialogo com o povo), e bandeira (ação coletiva que representa, luta sindicalidade, paz, força).

 

Neste poema gullariano há três estrofes, composto de vinte e três versos. Na primeira estrofe sextilha, na segunda estrofe sétima e na terceira estrofe décima. As três estrofes são heteromérica e heterorrítmica.

 

No poema ocorre um encadeamento, pois na realidade são dois versos, que passam praticamente, a formar um só (v.1,2), ( v.3,4) e assim sucessivamente.

 

Nos versos (7 e 15) há um efeito produzido por pontuação final, no interior do verso, corte. No sétimo “O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud” e no verso quinze “Mas não ao mundo. Mas não a vida”.

As rimas são misturadas e há versos brancos.

 

Segue o eixo temático do engajamento político - social forma poética engajada, início de sua produção pode-se falar de um engajamento poético-existencial, em sua fase seguinte o engajamento torna-se político-social: sua poesia transforma-se em arma de luta e resistência. ou seja, a fase engajada do poeta, de compromisso com a ação revolucionária,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BOSI, Alfredo. “Ferreira Gullar. A poesia participante” IN: História concisa da literatura brasileira, 41ª edição São Paulo: Cultrix, 1994, p. 473

CAMENETZKI, Eleonora Ziller. “ A militância e a poesia engajada: um projeto de poder” IN :poesia e política: a trajetória de Ferreira de Castro. Rio de Janeiro: Revan, 2006, p. 53-104.

LIMA, Costa. “ Quem tem medo da poesia política? IN: 100 anos de poesia: um panorama da poesia brasileira do século XX. RODRIGUES, Claufe, MAIA, Alexandra (orgs). Rio de Janeiro: O verso Edições, 2001, p. 76-81.

MOISÉS, Massaud.Dicionário de termos literários. 12ª edição São Paulo: Cultrix, 2001

SARTRE, Jean- Paul. O que é literatura ?. São Paulo: Editora Ática, 2004

 

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Notas

* SARTRE,Jean- Paul Op. Cit p.7. As próximas citações desta obra virão seguidas com o número da página em que se encontra.

 

 

 

 

 

 
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Sobre este autor(a)
Sou o mistério em pessoa. Sou como fênix, pronta para mergulhar e ressurgir das cinzas. Naturalidade paulistana, nascida em São Paulo. Estudante do 2º. periodo de Letras Vernaculas da UNEB - Campus XXI
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