INTRODUÇÃO A História não é uma ciência exata. Ela é constantemente escrita e reescrita, de acordo com as evidências arqueológicas e documentais até então encontradas e catalogadas, dando origem a numerosos e acalorados debates. Logicamente, isso vale para o estudo de passagem do paganismo ao cristianismo na Europa durante a Antiguidade Tardia (c. De 284 – c. 750). A Antiguidade Tardia seria o interstício havido, na Europa Ocidental e Mediterrâneo Oriental, entre a Crise do Terceiro Século, por volta de 284, até cerca de 750, quando da cessação do expansionismo islâmico e do início da Dinastia Carolíngia. 1 Entre seus extremos cronológicos se inclui a Queda do Império Romano do Ocidente, ocorrida em 476. Por abarcar os últimos séculos daquele Império, há controvérsias entre os eruditos sobre a eventual (in)correção de dito termo e a respeito do que o mesmo representou, se uma continuidade ou uma ruptura com o status quo. Henry Pirenne (1937), John Bury (1889- -1911), Lynn White Jr. (1966), Theodore Mommsen (1942), Henry-Irénée Marrou e Peter Brown, citados por Silva (2013)2 , defendem sua adequação ao uso corrente, bem como a continuidade como a visão mais adequada. Já Arnaldo Marcone e Mark Edwards, mencionados pelo mesmo autor, definem tal conclusão como perigosa, dado que a expressão “Antiguidade Tardia” carregaria apenas um projeto de unidade europeia ao subestimar as idéias reais de conflito e crise. Com o devido respeito aos primeiros mestres supracitados (Pirenne, Bury, White Jr., Mommsen, Marrou e Brown), deve-se discordar de eventual continuidade. Entende-se como correta a tese contrária, de Marcone e Edwards, não por haver um projeto de unidade europeia, mas, como dito no parágrafo seguinte, por ter existido realmente um conflito ou crise, bem como religião, como cernes principais da ruptura da civilização romana. Isso porque o imperador Constantino Magno (272-337) já havia sido o primeiro monarca romano a se converter ao cristianismo niceno, em 312, e Teodósio (Hispânia, 347-Milão, 395) fez do mesmo a religião oficial do Império, fatos que já configuram um rompimento com o credo pagão oficial e politeísta anterior. Tal fato, aliado à incompatibilidade entre o modo de vida cristão e o Estado romano, bem como às migrações bárbaras, propiciou o seu ocaso. 3 Neste ponto, os primeiros autores acima mencionados estão com a razão. Afinal, apesar de haverem se equivocado na ideia de continuidade, a denominação “Antiguidade Tardia” é correta. O próprio Peter Brown expressa, na obra “The World of Late Antiquity” (1971), referido por Silva (2013),4 que aquele foi um período de renovações e começos, e que teria seus ápices nos concílios, sermões e bençãos ocorridos a partir de 300-306, com o Concílio de Elvira.