1. INTRODUÇÃO

A filosofia não é uma ciência exata. Intimamente ligada à História, seu estudo suscita muitas controvérsias e acalorados debates. Quando se trata da filosofia grega, então, percebe-se que as celeumas se originam em seus primórdios, passando por mestres como Sócrates, Platão e Aristóteles, chegando à Idade Contemporânea. Esse é o cerne do tema tratado nesta dissertação, isto é, o Helenismo e suas mais influentes correntes, que são o Estoicismo, o Epicurismo e o Ceticismo, em um contexto que nos remete às ideias formadoras do que conhecemos por Antiguidade. Tal período se estendeu por vários séculos, num longo lapso temporal duradouro até o encontro do mundo greco-romano com sua subsequente civilização judaico-cristã ocidental. Abaixo, uma síntese expositiva dos referidos temas.

2. AS RAÍZES DO HELENISMO

Por volta do século IV a.C., o mais notório discípulo de Aristóteles, por ele tutelado até os 16 anos de idade, foi o soberano macedônio Alexandre Magno (356 a.C.- 323 a.C.), dominador da Grécia e também conhecido como Alexandre, o Grande, que lançou um projeto de expansão pan-helênica sem precedentes. Desejoso de criar um Império que viesse a universalizar a cultura, a filosofia e a língua gregas em todo o mundo conhecido, iniciou uma série de conquistas militares e consequentes anexações que viriam a resultar na pretendida universalização, desde a região do Mar Mediterrâneo Oriental até o Noroeste da Índia. Houve uma das maiores e mais conhecidas expansões culturais da História humana, incluído o estabelecimento da língua grega como idioma-padrão internacional, semelhante ao inglês dos dias de hoje, e a aceitação da moeda helênica em todo o Império alexandrino. Foi, como se pode dizer, o embrião do sistema de globalização, que viria a se estender até os dias atuais. A expansão grega promovida por Alexandre produziu o contato com as culturas dos territórios anexados, resultando num previsível sincretismo, especialmente em Alexandria, capital do Império por ele fundada em 332 a.C. no Egito conquistado. A existência de Alexandria tinha por objetivo torná-la o principal centro irradiador da identidade nacional grega, sendo, portanto, uma metrópole multicultural. 4 Em 323 a.C. Alexandre faleceu. Como não deixou descendentes, o Império foi repartido entre seus mais notórios generais, que assumiram o papel de seus sucessores, mas ainda assim mantendo a hegemonia helênica. Tanto que no século III a.C. o rei Ptolomeu Filadelfo II funda o Museum, que continha, dentre outros centros de excelência intelectual, a Biblioteca de Alexandria. Esta, em sua fase áurea, possuía mais de 500 mil rolos de papiros, muitos provenientes do próprio Aristóteles, sendo até meados do século I a.C. a principal fonte da ciência grega, influenciando a pesquisa e conhecimento científico desde então, apesar de ter sido incendiada por Júlio César quando da conquista do Egito, em 47 a.C. Tecidas essas considerações, pode-se dizer que o Helenismo foi, certamente, o período da comentada expansão da identidade nacional grega em todo o mundo até aquele momento conhecido, por meio das referidas conquistas de Alexandre (MARCONDES, 2010, p. 84-101). Alguns historiadores defendem que tal período de influência vai da morte de Alexandre, em 323 a.C. até anexação da península grega e respectivas ilhas por Roma, em 146 a.C. Dita visão é, destarte, equivocada. Primeiro, porque Alexandre, difusor do Helenismo, já havia conquistado grande parte de seu Império por volta dos 25 anos de idade, e, desta forma, não é razoável afirmar que a influência grega tenha se dado somente após seu falecimento, quando já havia toda uma uniformização da cultura, da filosofia, da língua e mesmo da moeda gregas. Isso não ocorreria se mencionada expansão, pretensamente, fosse tentada entre alguns generais após o comentado óbito, já que a heterogeneidade de suas mentalidades geraria guerras internas, e não coesão. Em relação ao período-limite da mencionada influência, “Embora houvesse uma filosofia desenvolvida em Roma e escrita em latim, ela resultava em grande parte de desdobramentos das escolas filosóficas gregas, sobretudo o estoicismo e o epicurismo” (MARCONDES, 2010, p. 84-101). Além do mais, a destruição definitiva da Biblioteca de Alexandria somente se deu “quando os árabes conquistaram o Egito em 642” (MARCONDES, 2010, p. 84-101), o que resultou no fato de que “a filosofia do helenismo tem sido pouco estudada, sendo esse período talvez um dos menos pesquisados da história da filosofia, embora cobrindo mais de dez séculos” (MARCONDES, 2010, p. 84-101).