TEA na educação infantil: inclusão e afetividade na prática docente

Por ELLEN MONTINELLI | 28/11/2025 | Educação

TEA na educação infantil: inclusão e afetividade na prática docente



 

Ellen MONTINELLI1



 

RESUMO: A relação entre autismo e educação é um tema essencial no contexto da inclusão escolar e da valorização da diversidade no ambiente educacional. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social, e por isso requer práticas pedagógicas específicas e inclusivas para garantir o direito à aprendizagem de todos os estudantes.








 

Palavras-chave: TEA, escola, aprendizagem











 

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1 Professora da Física, Matemática e Pedagogia, montinelli@hotmail.com.

Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social. Com o aumento dos diagnósticos nos últimos anos e o avanço das políticas públicas de inclusão, a presença de crianças com TEA nas escolas de educação infantil tornou-se uma realidade crescente. Diante disso, o papel do professor se transforma, exigindo uma atuação pedagógica sensível, acolhedora e pautada na afetividade.

A importância da inclusão na educação infantil

A educação infantil é a primeira etapa da educação básica e desempenha um papel fundamental na formação da criança. É nesse período que se estabelecem as primeiras interações sociais, afetivas e cognitivas. A inclusão de crianças com TEA nesse ambiente é um direito garantido por lei e um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa, empática e igualitária.

Incluir significa garantir não apenas a presença física do aluno com autismo na sala de aula, mas também sua participação ativa nas atividades, seu desenvolvimento integral e o respeito às suas especificidades. Para isso, é necessário romper com modelos padronizados de ensino e investir em práticas pedagógicas flexíveis e individualizadas.

A afetividade como eixo da prática docente

A afetividade é um dos pilares do processo educativo, especialmente na educação infantil. No contexto da inclusão de crianças com TEA, o vínculo afetivo entre professor e aluno torna-se um instrumento poderoso para o desenvolvimento da comunicação, da linguagem e da socialização.

A construção de um ambiente seguro, previsível e acolhedor favorece a confiança da criança e contribui para a redução de comportamentos desafiadores. Quando o professor atua com empatia, paciência e escuta ativa, ele se torna um facilitador do processo de aprendizagem e promove o bem-estar emocional dos alunos.

Desafios enfrentados pelos professores

Apesar dos avanços legais e teóricos, a prática docente ainda enfrenta muitos desafios na inclusão de crianças com TEA:

  • Falta de formação específica: muitos professores não se sentem preparados para lidar com as particularidades do espectro autista.

     

  • Ausência de apoio especializado: em muitas escolas, não há profissionais como psicopedagogos, terapeutas ocupacionais ou acompanhantes especializados.

     

  • Sobrecarga de trabalho: a rotina escolar, aliada à diversidade de perfis na sala de aula, pode dificultar o planejamento de estratégias individualizadas.

     

  • Preconceito e desinformação: o estigma em torno do autismo ainda é um entrave para a inclusão plena.

     

Estratégias pedagógicas inclusivas

Para uma prática docente efetiva e afetiva, é essencial que o educador adote estratégias que respeitem o ritmo e as necessidades da criança com TEA. Algumas delas incluem:

  • Rotinas estruturadas: o uso de imagens, quadros visuais e cronogramas ajuda na compreensão e na previsibilidade do dia a dia escolar.

     

  • Comunicação alternativa: o uso de gestos, pictogramas e recursos visuais auxilia na interação com crianças não verbais ou com dificuldades de fala.

     

  • Atividades sensoriais: brinquedos táteis, música, cores e texturas estimulam o desenvolvimento sensorial e motor.

     

  • Mediação social: promover atividades em pequenos grupos, com apoio do professor, para incentivar a interação entre colegas.

     

  • Formação continuada: participação em cursos, oficinas e grupos de estudo sobre TEA e práticas inclusivas.

O que é o Autismo (TEA)?

O TEA é caracterizado por uma ampla gama de manifestações, que variam em intensidade e forma de apresentação. Os principais critérios diagnósticos envolvem:

  • Dificuldades na comunicação verbal e/ou não verbal;

     
  • Comprometimentos na interação social;

     
  • Comportamentos repetitivos e interesses restritos;

     
  • Sensibilidade sensorial (a sons, cheiros, texturas, etc.).

     

Essas características podem impactar significativamente o modo como a criança com autismo aprende, interage e se comporta na escola.

Qual é o papel da escola?

A escola tem o papel fundamental de garantir a inclusão de todos os alunos, independentemente de suas condições. Isso significa que os estudantes com TEA devem ter:

  • Acesso ao currículo escolar;

     
  • Participação efetiva nas atividades;

     
  • Apoio adequado às suas necessidades;

     
  • Ambientes estruturados e acolhedores.

     

Para isso, é necessária a adaptação das metodologias, uso de recursos didáticos alternativos e, muitas vezes, a presença de profissionais de apoio.

A importância da afetividade

A afetividade é um elemento central na educação de crianças com TEA. Professores que constroem vínculos de confiança e segurança emocional com seus alunos promovem:

  • Maior engajamento e cooperação;

     
  • Redução de comportamentos desafiadores;

     
  • Melhora da comunicação e da socialização.

     

O acolhimento afetivo ajuda a criança com autismo a se sentir parte do grupo e favorece seu desenvolvimento global.

Formação docente e desafios

Apesar dos avanços legais, muitos professores ainda relatam dificuldades para lidar com o autismo na sala de aula, como:

  • Falta de formação específica sobre o TEA;

     
  • Escassez de apoio técnico e humano (como cuidadores e especialistas);

     
  • Desinformação e preconceito;

     
  • Sobrecarga de trabalho e dificuldades em individualizar o ensino.

     

Por isso, é essencial investir na formação continuada dos educadores, no fortalecimento das políticas de inclusão e na colaboração entre escola, família e profissionais da saúde.

Educação inclusiva é um direito

A Constituição Federal, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a Política Nacional de Educação Especial garantem o direito das pessoas com deficiência, incluindo o TEA, à educação regular com apoio necessário.

A presença de alunos com autismo na escola não é apenas uma questão legal, mas uma oportunidade pedagógica e humana para desenvolver a empatia, a convivência e o respeito à diversidade.

Conclusão

A relação entre autismo e educação é desafiadora, mas profundamente transformadora. Uma escola que acolhe crianças com TEA não só cumpre sua função social e pedagógica, mas também enriquece o processo educativo para todos. A inclusão verdadeira exige mais que presença física: demanda práticas conscientes, afetivas e personalizadas. O caminho é o da empatia, da escuta e do compromisso coletivo com a aprendizagem de cada aluno.

A inclusão de crianças com TEA na educação infantil é uma construção diária, que exige compromisso ético, empatia e conhecimento por parte dos educadores. A afetividade, quando aliada a práticas pedagógicas planejadas e fundamentadas, torna-se uma ponte entre o desenvolvimento da criança e a vivência plena do ambiente escolar.

Mais do que ensinar, o professor da educação infantil tem o papel de acolher, respeitar e transformar. E, nesse processo, cada gesto de carinho e compreensão é um passo a mais na direção de uma escola verdadeiramente inclusiva.

Referências

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  20. OLIVEIRA, Rita de Cássia Nogueira; PLETSCH, Márcia Denise. Autismo e práticas pedagógicas inclusivas: contribuições para a formação docente. Curitiba: Appris, 2020.


 

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