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O que é a Verdade pra você

A Terra gira a um milhão de quilômetro por hora em relação ao centro da galáxia; cento e sete mil quilômetros em volta do Sol (em seu movimento de translação); mil e setecentos mil quilômetros (em rotação em torno de si) próximo ao Equador.

A Física quântica afirma que todo átomo é composto de 99,9999 % de espaço vazio. Tudo é constituído por átomos; nós também. Einstein já afirmara que “o corpo físico, como todos os objetos materiais, é uma ilusão”. O mundo sob esse aspecto da “verdade” nada mais seria do que o reflexo do mecanismo sensorial, subjetivo, que o registra. Tudo estaria sob a percepção, captação, interpretação e tradução de um observador e a realidade seria assim uma construção subjetiva. “O observador transforma o observado”.

O médico indiano Deepack Chopra, em sua obra Corpo sem idade, mente sem fronteira, discorre sobre os (mais atuais) paradigmas expandidos da realidade. Dentre essas novas suposições, interessa-nos saber que tudo que existe nessa grande matrix, é relativo e em permanente mutação. Inclusive, discorre ele, sobre as mudanças celulares que ocorrem em nossas células, que são trocadas todo o tempo: nossa pele, uma vez ao mês; o revestimento do estômago, a cada cinco dias; nosso fígado, a cada seis semanas; nosso esqueleto, de três em três meses; e, em um ano 98% dos nossos átomos terão sido substituídos. Isso é incrível! Tudo muda o tempo todo, e, nós, com tudo.

Essas revelações e esses estudos vêm nos dizer que o mundinho concreto ao qual nos habituamos viver é um paradoxo da realidade; parte parcial da verdade, fruto da nossa limitada e linear forma de conceber quem somos, como somos, o que vemos, o que tocamos, o que ouvimos. Tudo limitado aos nossos, ainda empobrecidos, cinco sentidos. Sob essas constatações, cada um de nós habita uma parcialidade representativa da Realidade; conhece, ou detém, ínfima partícula da Verdade. E, nossas verdades são apenas significações que damos às coisas, em conformidade com nosso potencial de abarcá-las. Não há duas pessoas que compartilhem exatamente o mesmo universo, mesmo que compartilhem o mesmo lugar no mundo, a mesma cama, a mesma escova de dentes; cada visão de mundo cria seu próprio mundo. Isso já deveria fazer parte de nossos currículos escolares; ser estudado e aprofundado nas escolas.

Se cocriamos nossos corpos pelo processo de permanente transformação celular, se nossos átomos são compostos quase que totalmente de espaço vazio, o que seria a Realidade senão apenas nossa realidade? O que seria a Verdade senão apenas a nossa verdade? Se tudo é apenas uma “ilusão”, uma interpretação unilateral, somos meramente seres de energia e informação. Como energia, capturamos o universo pelas significações que lhes damos. E essas significações só fazem sentido para esse ser que tenta traduzir, mediante ferramentas de tradução – signos – o que lhe faz sentido. Eis o grande enigma da comunicação. O que se traduz e se comunica já foi contaminado pela própria potencialidade de se perceber e interpretar o fenômeno que se fez presente à observação. Daí, tantas verdades há, em conformidade com as subjetividades que as capturam, interpretam e a traduzem. Da mesma forma, assim também o faz o receptor,  de acordo com sua potencialidade e capacidade de compreender o simulacro de realidade que lhe é relatada. Ou seja, note bem, a realidade como fato real, e não fenomenológico, não existe. A Verdade - como categórico universal - aqui e agora, também não.

Tudo... tudo... tudo é mera representação. Tudo é signo, significado e significação. Os signos, as palavras, são meras representatividades; hieróglifos (também em constante mutação) com os quais vestimos nossa capacidade de capturar e expressar o mundo. Toda capacidade de significação – processo de semiose – é subjetivo. Somos subjetividades informacionais que transitam no meio cultural em que estamos inseridos com verdades subjetivas, absolutamente não verdadeiras de uma realidade construída e que, de fato, nem existe. Culturalmente, nos apropriamos de verdades e valores que valem para o nosso grupo cultural, em práticas significativas que só valem e servem para aquele grupo. Daí, sair da casinha nos custe tanto. Derrubem-se o mito da inviolabilidade, da imparcialidade e da objetividade do fato. Todo fato é um fenômeno na linha do tempo, disponível à captura, percepção, interpretação e tradução de uma subjetividade. Só isso.  O observador, já alterou o que viu muito antes de o traduzir. O receptor só vê o que pode e tem condições de ver. Simples assim.

Maria Angela Coelho Mirault

Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP

21.09.2020.

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