Marcos Alexandre Fernandes Rodrigues[1]

Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

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Cristiano Sandim Paschoal[2]

Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS)

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            Há um bom tempo, encontramos um vídeo na plataforma digitalYoutube esboçando uma discussão entre Marco Antônio Villa e Rodrigo Constantino – ambos comentaristas do Jornal da Jovem Pan da manhã.  Quanto ao economista, surpreendeu-nos suas ideias a partir das quais educadores com péssima formação substituiriam a transmissão de conhecimento objetivo por doutrinação esquerdista. Segundo ele, já seria uma questão ideológica ensinar o “bom português”, justamente porque seria uma narrativa da burguesia opressora do homem branco ocidental. Conjuntamente a isso, o economista se valeu deste exemplo: “Nós pegao peixe” e sucedeu “É o que tem que ser aceito hoje em dia, porque afinal de contas é um elitismo preconceituoso você não reconhecer isso”.

            Vamos por partes, como diria um poeta parnasiano. Decidimos analisar o discurso desse comentarista, justamente porque demonstra uma visão simplista sobre língua(gem) e sobre educação e, pior, é uma visão veiculada numa mídia de massa.  Por vezes, o auditório social desses veículos de comunicação não assimila que se trata de um real regulado por um ponto de vista particular. A consequência disso não é a contrapalavra, mas, e isto sim, a reprodução desse discurso por sujeitos que igualmente não compreendem o tema em análise, o que, ao nosso entender, torna um discurso estereotipado e autobastante uma verdade absoluta.  Segundo o semiolinguistaPatrick Charaudeau, a verdade não está “no” discurso, mas para “além” de seus limites.

            A primeira afirmação já nos parece, elementarmente, preocupante: professores substituem a transmissão de conhecimento objetivo por doutrinação esquerdista. Ao menos, na área de Ciências Humanas, transmitir conhecimento é a pior escolha quando a intenção é o ensino-aprendizagem. A ideia das aulas é a promoção da cidadania, da ciência, da solidariedade humana, de saberes, de significados sociais e políticos do conhecimento com o desenvolvimento da pesquisa, da escrita, da leitura, do debate, da observação, do raciocínio, da ética e dos direitos humanos – calminha, isso não é um plano de dominação comunista-freiriana-marxista-petista-lulista-esquerdista-stalinista-psolista-socialista-feminista, são o PNE e o DCN. Talvez, nos meados de 1600, com os jesuítas, essa ideia de transmissão de conhecimento fosse melhor aceita.

            A segunda afirmação, não menos obsoleta, recai sob a insígnia da falácia: ensinar o “bom português” nas escolas é doutrina esquerdista. Essa afirmativa nos conduz a questionar se Rodrigo Constantino já transcreveu foneticamente a pronuncia de seu, hipoteticamente por ele considerado, bom português. Podemos ajudá-lo nessa tarefa: [Maisɛ inegávew ki parti du problemɐ si dɛvi a ɛsɐ meĩtalidadʒi progressistɐki dominɐ, kiɛ heʒemônikɐ, nu eĩsinu públicu há dɛcadas nu país ki teĩkomu patronu akeli qui merɛsiu Pawlu Frejri,komunistɐ, defẽsor di tʃiranus].Poderíamos, à luz dos preceitos normativos de língua, subentender que um discurso em que “o” é pronunciado como “u”, que “e” é pronunciado como “i”, que as nasalizações foram ditongadas, tais como “mentalidade”, “ensino, “tem”, provém de um sujeito que não passou pelo ensino básico. Entretanto, como não seguimosos princípios de uma educação tradicionalista, a qual o economista defende, concebemos, enquanto pesquisadores da área Linguística, a língua como sendo um organismo multifacetado e atravessado por questões que se lançam para além de meras regras gramaticais. Trata-se de uma visão cujo uso linguístico é perscrutado e, por isso, percebido como um corpo estratificado por grupos sociais e, nesse contexto, quando fala, o sujeito em socialização mobiliza registros cultural e histórico, o que não a contradiz.

            A ideia é que os estudantes se adaptem a diferentes contextos de interação verbal e não verbal de acordo com condições de sociabilidade. Voltando ao exemplo “Nós pega o peixe”, o estudante precisa saber que, para contextos formais, é necessário ajustar o seu discurso e escrever-dizer “Nós pegamos o peixe” ou “A gente pegou o peixe”. O elitismo ocorre quando os registros socioculturais dos estudantes são ignorados no ensino-aprendizagem de língua portuguesa, estabelecendo preconceitos linguísticos. A língua portuguesa é aquela disciplina escolar – infelizmente assim a intitulam- que estuda a língua(gem) em suas distintas estratificações da vivência social e que, ao lado disso, pretende compreender o seu funcionamento morfossintático, cultural, artístico, histórico, político, social de maneira a articular esses eixos.

            Tristemente, certos professores de língua portuguesa aderem a essa noção de bom português e a transformam, infelizmente, em disciplinaregada à memorização de frases e de suas regras gramaticais. Penso que a maior parte das pessoas que passaram pelo ensino básico tenham a imagem do professor escrevendo uma sequência de orações no quadro e demandando a análise sintática. De um ano para o outro, os estudantes esquecem todo o conteúdo. Não se trata, pois, de uma questão ideológica, mas, sim, de uma concepção que desconsidera séculos de avanço no campo linguístico-discursivo. Deveriam ter feito economia tais professores, a esses, sim, a lógica lhes veste melhor!        

[1] Graduando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

[2] Graduado em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul. Atualmente, é mestrando, na área de concentração em linguística, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).