DIÁLOGO DE TIMEU E O LIVRO DE GÊNESIS CAPÍTULOS 1 -2 

                        Ivone Cortina

Licenciatura em Filosofia

Faculdade de Ciências Humanas – FACH

e-mail: ivone-cortina@bol.com.br

  1. Resumo

O diálogo de Timeu escrito por Platão faz uma verossimilhança quanto ao mundo criado e narrado em Gênesis nos capítulos 1 e 2. Na página 92, 27 c se denota a importância de se evocar um deus antes de todo e qualquer empreendimento, por menor que esse o seja. Do mesmo modo, o mundo criado no Timeu (p.94 28a) é belo como o citado no livro de gênesis Capítulo 1 versículo 36. Nessa narrativa o Demiurgo platônico cria o mundo bom. A natureza até o homem são frutos de uma obra de um ser cuja inteligência os dotou de bondade e racionalidade eliminando todas as formas de imperfeição (p. 96 29b.). Portanto para essa obra de Timeu mão existe uma multiplicidade de universos, os quais seriam um arquétipo para a criação divina (P. 96 29c).

Segundo Timeu: “o deus quis que todas as coisas fossem boas e que, no que estivesse à medida do seu poder, não existisse nada imperfeito”. (p. 97 30 a). E assim fazendo-se um paralelo com o livro do gênesis percebe-se que quando Deus criou o mundo, primeiramente fez a natureza e posteriormente criou o homem (Gênesis capítulo I, versículo 26) e viu que tudo estava bom e o colocou no Éden para desfrutar de toda a criação divina.

Prosseguindo em suas reflexões Sócrates faz menção à alma, e que essa seria a mais bela e excelente obra criada (p. 98 30 c) e no livro de gênesis, Deus criou o homem e o dotou com a sua alma imortal. Para Timeu é necessário a harmonia entre alma e corpo, pois para ele a alma se ocupa com questões intelectuais e quanto ao corpo se não for bem cuidado e for esquecido produzira a ignorância.

O que se denota nesse diálogo de Timeu, que Platão tenta romper a visão materialista (physis) dos pré socráticos (cosmologia), partindo de uma realidade supra-sensível. Platão insere a figura divina no universo, em uma demonstração de perfeição e bondade, culminando na racionalidade. Nesse diálogo, têm-se a figura de um deus “Demiurgo” - princípio divino - que toma a matéria em sua singularidade e a moldando transforma em um universo bom e belo, sem nenhuma imperfeição e objetiva o eterno, e nesse contexto tem-se a alma que é eterna e contempla as ideias perfeitas.  

Quando se refere ao Dialógo de Timeu em relação ao livro de Gênesis, podem-se constatar alguns indícios de singularidades, pois na citação bíblica em seu capítulo 1, constata-se: “No começo fez Deus o Céu e a Terra. A Terra era invisível e desorganizada. As trevas estendiam-se sobre o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”... “No começo fez Deus o Céu e a Terra”.  Platão em Timeu trata da criação do mundo e que deus Demiurgo começou a sua obra unindo a terra e o fogo. O deus Demiurgo cria a  alma do mundo, sendo essa substância não sensível, porém invisível, ao mesmo tempo mutável e imutável. Posteriormente a alma é revestida de um corpo, sendo sua matéria os cosmos e esses formam toda a demais criação, inclusive a matéria de criação do “Todo” (homens, animais, plantas). Assim na visão de Platão, o demiurgo é a causa da “alma do universo”, que o fez de uma matéria imitando as essências eternas formando os seres mortais (pensamento cosmogônico). Ainda em Timeu há uma fundamentação racional com o livro de Gênesis quando refere que descobrir o autor e pai do cosmo é uma grande façanha e uma vez descoberto, é impossível divulgá-lo de modo que chegue a todo o mundo. Realizar essa façanha é o desafio para o platonismo.

Quanto à criação do universo, esse seria dotado de alma e razão (Timeu 30b) e, portanto o conhecimento das leis que regem a natureza seria o mesmo que conhecer a alma do Universo, fundamentada em leis da harmonia. E quanto ao movimento desse, têm-se a seguinte narrativa:

``... o tempo nasceu com o céu, para que havendo sido criados concomitantemente, se dissolvessem juntos caso venham um dia a acabar...'' (Timeu 38b) ``...e, para que o tempo nascesse, também nasceram a lua e os outros cinco astros denominados errantes ou planetas, para definir e conservar os números do tempo.'' (Timeu 38c)

 

Segundo o diálogo de Timeu, a alma do universo abarca a de todos os Viventes Inteligíveis e dotada de movimento desordenado quando associada ao Intelecto, é passível de produzir matéria secundária (sensível), com movimento ordenado (Timeu 30c). Aqui se denotada que o deus Demiurgo põe em curso a formação de almas individuais destinadas a se unir a porções de matéria sensível, gerando desse modo entes com composições diferentes de alma e corpo.

Segundo Timeu, o deus Demiurgo, ao coligar o Intelecto à Alma do Mundo cria uma natureza de "matéria inteligível" que agregaria as formas imanentes a partir da qual são os entes sensíveis moldados, ou seja, uma matéria primeira (inteligível) sem corpo e não gerada que abrigaria as formas imantes.  Assim para Platão, o mundo empírico é fruto do mundo inteligível e o descreve como um ser vivo onde se encontram todos os astros do firmamento.

Essa metodologia filosófica de Platão também serviu de base para o cristianismo, referente ao desenvolvimento de uma nova metafísica onde se denota a perspectiva da construção da ideologia da alma e da possibilidade de outra vida.

Deus no livro do Gênesis possui a sabedoria, o conhecimento e a potência de unificar todas as coisas em uma só unidade e de dissolver a unidade em várias coisas. Deu atua na criação das coisas, realiza a unidade na multiplicidade de forma harmoniosa e por ordenamento. E Platão baseou-se nessa ordem para conceber a justiça e a virtude como geradoras e unificadoras da realidade. E assim de igual forma cabe ao Demiurgo organizar o universo conforme Timeu.


Conclusão

           

            O livro de Timeu e o livro bíblico Gênesis estão marcados pela assimilação das concepções. No Timeu o Demiurgo empregou as formas perfeitas e eternas para a criação do universo de modo harmonioso, conforme seu intelecto racional, posteriormente criou os deuses e fê-los seus co-criadores na criação da natureza dicotômica entre o mortal e o imortal, imprimindo assim a teleologia com o fim do bem. Quanto ao Gênesis, narra a criação do mundo até a expulsão do homem do paraíso condenando a humanidade às intempéries de suas penas. Desse modo o livro bíblico procura explicar a realidade através da narrativa mitológica, pois quando se refere ao princípio não explica o anterior a esse “principio”, dando um caráter dogmativo de revelação divina.

 

Referência    

PLATÃO. Timeu-Crítias. Colecção Autores Gregos e Latinos. Série Textos. Tradução do grego, introdução e notas Rodolfo Lopes. 2010.