A INTERDISCIPLINARIDADE NA 1ª SÉRIE DE ENSINO FUNDAMENTAL: para além da fragmentação do ensino-aprendizagem

Ângela Conceição dos Anjos Pena[1]

Maria Madalena Santos Nunes[2]

 

RESUMO

Este trabalho traz uma discussão que conduz a uma reflexão sobre como vem efetivando-se o processo de ensino-aprendizagem nas escolas públicas, direcionada a uma metodologia fragmentada que em nada vem contribuindo para formação integral de alunos que ingressam na 1ª série do Ensino Fundamental. Traz uma proposta para a construção de um trabalho interdisciplinar pautada no conhecimento por meio da problematização vinculada aos conteúdos. No entanto, para se compreender as bases pedagógicas da interdisciplinaridade, se faz necessário falarmos um pouco sobre sua importância desta, que concepções norteiam alguns autores sobre a conceituação da interdisciplinaridade verificando como está o conhecimento do professor haja vista ser este o sujeito responsável pela mediação pedagógica entre o aluno e o conhecimento, uma vez que ao lidar com os dois, fará de forma disciplinar ou interdisciplinar haja vista que ele também é um aprendente e seu papel é o de orientar o aluno a se relacionar competentemente com os conteúdos de ensino e os instigar para pensar sobre as possibilidades de apresentar soluções viáveis para as problemáticas existentes em seu contexto social. Com vistas ao estabelecimento de uma satisfatória base teórica que permita entender para a problemática estudada, será realizado um levantamento da bibliografia referente à interdisciplinaridade com a utilização de textos interdisciplinares, bem como dos principais conceitos relacionados ao tema, tendo como aporte maior à leitura de Jantsch e Bianchetti (1995), Morin (2000), Perrrnoud (2000). Esta pesquisa evidenciará como vem sendo efetivado o processo de ensino aprendizagem na 1ª série do Ensino Fundamental. Uma vez detectadas as principais dificuldades dos alunos e professores, serão desenvolvidas medidas que visem sanar pelo menos em parte os problemas diagnosticados.

Palavras-chave: Interdisciplinar. Metodologia. Fragmentação. Ensino-aprendizagem.

RESUMEN

Este trabajo lleva a una discusión que lleva a una reflexión sobre cómo el proceso de enseñanza-aprendizaje en las escuelas públicas se ha hecho efectivo, dirigido a una metodología fragmentada que de ninguna manera contribuye a la formación integral de los estudiantes que ingresan al primer grado de la escuela primaria. Presenta una propuesta para la construcción de un trabajo interdisciplinario basado en el conocimiento a través de la problematización vinculada a los contenidos. Sin embargo, para entender las bases pedagógicas de la interdisciplinariedad, es necesario hablar un poco sobre su importancia, qué concepciones guían a algunos autores sobre la conceptualización de la interdisciplinariedad, verificando cómo es el conocimiento del profesor, ya que este es el sujeto responsable de la mediación pedagógica. entre el estudiante y el conocimiento, una vez que se ocupe de ambos, lo hará de forma disciplinaria o interdisciplinaria, ya que también es un estudiante y su función es guiar al estudiante para que se relacione de manera competente con los contenidos de la enseñanza y el instigar a pensar en las posibilidades de presentar soluciones viables a los problemas existentes en su contexto social. Con miras al establecimiento de una base teórica satisfactoria que permita comprender el problema estudiado, se realizará una bibliografía de interdisciplinariedad con el uso de textos interdisciplinarios, así como de los principales conceptos relacionados con el tema, teniendo como principal contribución la lectura de Jantsch. y Bianchetti (1995), Morin (2000), Perrrnoud (2000). Esta investigación mostrará cómo el proceso de enseñanza del aprendizaje en el 1er grado de la escuela primaria se ha hecho efectivo. Una vez que las principales dificultades de los estudiantes y maestros hayan sido detectadas, se desarrollarán medidas para curar al menos parcialmente los problemas diagnosticados.

Palabras clave: interdisciplinar. Metodologia La fragmentación. Enseñanza-aprendizaje.

1 INTRODUÇÃO

Há décadas professores e educadores em geral procuram formas de superar a fragmentação do conhecimento provocada pelo olhar acadêmico disciplinar na Educação Básica (Educação Infantil, Fundamental e Médio). No segmento de 5ª a 8ª série e no Ensino Médio essa fragmentação se torna ainda mais profunda, com professores de formações e visões educativas diferentes trabalhando com os mesmos alunos. Superar essa fragmentação, tornando a aprendizagem um processo significativo para crianças e jovens, é um desafio que procuramos superar em nosso cotidiano de sala de aula. Porém, nossa inquietação limitar-se-á em perceber como vem ocorrendo o processo de ensino-aprendizagem na 1ª série do Ensino Fundamental uma vez que consideramos a base primordial de toda sequência escolar.

 Desenvolver uma prática pedagógica interdisciplinar, na qual os alunos sejam levados a refletir sobre o conhecimento que constroem em atividades de aprendizagem significativas, não pode estar isolada da ideia de que a unidade escolar deve se constituir em uma comunidade de construção de saberes, na qual educadores, alunos e seus familiares compartilhem objetivos e respeitem-se mutuamente.

 A interdisciplinaridade desenha-se assim, não somente como uma nova forma de aprender (cognitivamente) saberes, compreendendo-os de forma relacional, mas com a possibilidade de apre(e)nder a realidade, afinal o sujeito  nunca atinge o seu potencial máximo, que se apresenta como um tesouro inesgotável, à espera de novas formas de aprendizagem e de avaliação, as quais devem ser pautadas pela riqueza do diálogo, movimento, curiosidade, diversidade, dúvida e atitudes experimentadas durante as atividades realizadas. Com isso o objetivo desse estudo promover uma reflexão sobre o ensino fragmentado na 1ª série do Ensino Fundamental percebendo este dentro de uma visão construtivista cujos conceitos trabalhados correlacionem-se em decorrência da aprendizagem deles, desde as aplicações simples lineares, até a exploração autônoma das possibilidades com que acenam. Compreender a interdisciplinaridade como forma metodológica para o trabalho com alunos de 1ª série; Perceber a importância da interdisciplinaridade para no Ensino Fundamental; Formar cidadãos conscientes, críticos, participativos e capazes de atuar na transformação do meio em que vivem; Resgatar a historicidade que devolve aos sujeitos o poder da palavra espontânea e consciente; Perceber que o espaço da sala de aula deve transcender os limites da escola atingindo a comunidade.

Trata-se de uma pesquisa mista em que abordaremos questões de reais interesses para a educação, que conduzem à compreensão histórica e a influência da interdisciplinaridade enquanto prática desenvolvida pelos docentes, e que promovem um repensar sobre as dificuldades de efetivação da prática de interdependência das variáveis, que fomentam um eficaz processo de ensino-aprendizagem.

Pretendemos a partir de leituras obtidas, contextualizar a interdisciplinaridade como atitude que venha impedir que se estabeleça a supremacia de determinada ciência, em detrimento de outros aportes igualmente importantes; não se pretende a construção de uma super ciência, mas sim uma mudança de postura frente ao problema do conhecimento, uma substituição da concepção fragmentaria para uma concepção unitária do ser humano.

Comentaremos também a respeito da importância dada à pesquisa, enquanto instrumento metodológico utilizado para a realização deste trabalho, fornecendo subsídios necessários para o levantamento da problemática existente. A elaboração e adoção de uma metodologia interdisciplinar implicam na superação dos obstáculos institucionais, epistemológicos, psicosociológicos e culturais.

Em busca da superação dessa problemática, serão apresentadas algumas propostas metodológicas com ênfase na pesquisa e construção de projetos, como forma de favorecer o fazer docente, considerando principalmente a realidade social. Verifica-se sobre as condições materiais de existências precárias, sobre tudo nas escolas públicas do 3º mundo, a inexistência de um “discurso” interdisciplinar “redentor” que pudesse se contrapor, com os subprodutos da miséria humana, sem intervir na realidade social, que para isto requer mais do que um simples discurso do sujeito teórico, mas uma ação política revolucionária, a exigir acima de tudo, prioridade de investimento na educação, uma vez que é impossível superar os problemas estruturais da sociedade, por conta das políticas educacionais que não contemplam as reais necessidades vivificadas pelo professor em seu cotidiano.

Não basta apenas que os sistemas educacionais introduzam uma metodologia inovadora no campo cientifico e educacional, é preciso que o profissional da educação seja visto como importante elemento na formação do educando, e que para isto rompa com uma cultura alienada imposta pela sociedade, tecendo em seu dia-a-dia na sala de aula, uma prática interdisciplinar que vá a busca de uma autonomia e qualidade de trabalho buscando superar as restrições das políticas educacionais bem como das relações de poder existente no cotidiano escolar.

O nosso propósito, portanto, é de desenvolver uma reflexão sobre a existência de uma prática docente coletiva, substanciada com referenciais teóricos, que garanta a eficiência do desenvolvimento de sua prática educativa, em que se envolva a teoria na prática e a prática na teoria tendo como norte a execução de uma tarefa interdisciplinar, imbuindo-se de conhecimento que lhe permitam atuar, pressupondo, antes de tudo, um ato de perceber-se interdisciplinar.

É nesse sentido que desenvolvemos este trabalho, procurando dar oportunidade para o leitor de uma pesquisa que venha demonstrar a relevância da interdisciplinaridade dentro de uma proposta que venha minimizar a fragmentação do ensino como forma de contribuir para a educação.

Tais considerações, aliadas às nossas buscas e inquietações motivaram-nos a buscar leituras que nos subsidiasse numa discussão teórica sobre o fazer docente. Daremos ênfase ao papel do professor de 1ª série e sua prática pedagógica na formação do indivíduo, por acreditarmos ser este profissional, um dos elementos primordiais deste processo, e que, irá orientar, mediar e mostrar o caminho, percorrendo junto com o aluno, os passos que o conduzem a um novo saber.

Historicamente, a figura do professor vem passando por grandes transformações em sua conceituação, ou seja, houve um grande passo no que se refere a sua ação educativa do passado até os dias atuais, por conta das mudanças provenientes de teorizações e práticas observadas a partir de estudos sobre as mesmas. Antes o professor era visto como o detentor de toda sabedoria, só a ele cabia o conhecimento integral e a ninguém mais. Hoje já se observa a preocupação com quem vai aprender, de que forma vai atuar junto a este aluno para melhor alcançar um objetivo, mantendo assim, sua importância no fazer pedagógico. O professor está efetivamente entrando em contato com as dinâmicas que podem melhorar e transformar a educação brasileira e sempre será o alguém que terá um papel relevante na relação professor-aluno.

 Por considerar o tema proposto de significante relevância no processo ensino-aprendizagem, é que destacamos a prática docente numa visão interdisciplinar, com suas variantes e interesses que o caracterizam, de acordo com sua competência e comprometimento com o fazer pedagógico enquanto prática que venha ao encontro do que realmente espera-se de uma educação que contemple as necessidades de quem se propõe a aprender, uma vez que concebemos que um ato educativo deve propiciar a realização e a compreensão dos sujeitos em todas suas dimensões, integrando-os política e socialmente em nossa sociedade. Pois dessa forma a educação estará se efetivando para assumir sua verdadeira finalidade, enquanto prática humana.

2 O HISTÓRICO INTERDISCIPLINAR

O termo interdisciplinaridade no ensino tem sido bastante discutido principalmente neste momento em que se fala muito de mudanças na educação. No Brasil vários educadores têm mostrado interesse pelo tema, muito embora pareça algo muito novo, estudos apontam que o enfoque interdisciplinar surgiu há décadas atrás como afirma Follari (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 129): “Basta assinalar que no fim dos anos sessenta os estudantes universitários se haviam tornado um grave problema por suas posições anticapitalista”. As discussões feitas pelos universitários naquele momento, não eram diferentes do que vem se discutindo no momento atual, a falta de uma integração entre conteúdos e realidade.

Este estado de alerta geral diante da indefinição dos rumos da sociedade humana, descontentava também amplos setores da burguesia esclarecida e ao mesmo tempo da esquerda anticapitalista de determinados segmentos universitários, surgindo primeiramente na Europa (França, Alemanha) e depois na América Latina (México, Argentina e Brasil). Durante os debates discutia-se sobre alienação entre a prática e a teoria; a falta de relevância social dos conteúdos curriculares e, a exagerada especialização do conhecimento em face de fragmentação das disciplinas no ensino superior.

Diante do exposto propõe-se um enfoque interdisciplinar como nova forma metodológica para superação do conhecimento excessivamente especializado, mutilador da unidade totalizadora da realidade.

Segundo Follari a primeira proposta interdisciplinar na América Latina surgiu no México, difundida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, no ano de 1375, tendo Jean Piaget, o “Pai do estruturalismo construtivista”, como um de seus mentores intelectual o que é afirmado por Follari (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p.131): Deste modo, pudemos ver em diversos casos que J. Piaget era o fundador epistemológico destes esforços, ao mesmo tempo em que havia participado da formulação canônica da interdisciplinar proposta pelos governos da Europa Ocidental.

Sem abandonar o referencial Piagetiano, muitos trabalhos e propostas foram elaborados em favor da interdisciplinaridade, virando um modismo no Brasil. Em nosso país, um dos primeiros a falar do assunto foi Japiassu, seguido de Fazenda, que consideramos uma profissional que mais tem se reportado sobre o assunto, circunscrita, entretanto, a uma filosofia do sujeito; filosofia esta que pressupõe a superação do conhecimento fragmentado, através de uma parceria, ou seja, a somatória de sujeito pensante, que com boa vontade se transforma num sujeito coletivo, capaz de vivenciar a interdisciplinaridade em qualquer espaço de atuação.   

Como essas condições na Sociedade Capitalista, apesar das modificações no modelo “Fordista/Taylorista” até então dominante, não se transformaram estruturalmente em sua essência, mas engendraram novas formas de alienação social, como no caso da alienação tecnológica, em que percebemos que uma maioria ainda está à margem dos benefícios da “Sociedade do Conhecimento”, o reestudo da proposta interdisciplinar através de um novo olhar com lentes contextualizadas, nos remete a discutir criticamente suas contribuições, seus alcances, não deixando a mercê também seus limites e dificuldades de efetivação em decorrência das severas críticas do referencial construtivista da interdisciplinaridade, que deixa ao sujeito pensante toda a responsabilidade pelo êxito da proposta, ao lado da pouca compreensão pelos educadores de como se aplicar à interdisciplinaridade na prática.

Por outro lado percebe-se através de estudos, que a interdisciplinaridade também surge como uma reação do próprio Capitalismo diante dos sinais de esgotamento de seu modelo Fordista/Taylorista e, sua necessidade de recompor-se diante de suas sucessivas crises cíclicas. Diante deste contexto, imposto pela nova sociedade emergente, setores empresariais organizados perceberam a urgente necessidade de fazer valer a política e científica do Capitalismo vigente, que precisava se reestruturar sob bases tecnológicas e cientificamente mais avançadas, tendo em vista inúmeros problemas sociais decorrentes do incontrolável aumento das forças produtivas, como no caso dos limites de crescimento econômico imposto pela destruição ambiente, faz-se necessário criar novos paradigmas pela necessidade de se colocar o conhecimento a serviço da aplicação em campos inéditos para facilitar o avanço do Capitalismo pós-industrial.

Ainda Follari (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p.130) nos aponta que:

Foi assim que se chegou à hipótese de que a interdisciplinar podia dar lugar a uma superação da excessiva especialização, chegando-se também à conclusão de que ela podia fornecer meios para vincular o conhecimento à prática, permitindo, por tanto, situar seu lugar dentro da estrutura social em seu conjunto.

 

Partindo de uma reflexão sobre o exposto percebemos que a interdisciplinaridade no ensino, ocorrerá como meio de conseguir uma melhor formação geral do sujeito.

3 CONCEITUANDO INTERDISCIPLINARIDADE

A interdisciplinaridade é um termo utilizado para caracterizar a colaboração existente entre as disciplinas diversas ou entre setores heterogêneo de uma mesma intensa reciprocidade nas trocas, visando enriquecimento mútuo. O termo interdisciplinaridade é um neologismo cuja significação nem sempre é a mesma; não possui um sentido único e instável. Apesar das inúmeras distinções terminológicas, o princípio é sempre o mesmo.

São Jantesch e Binchetti (1995, p. 195) que nos aponta: “Também as análises sobre o interdisciplinar se diferenciam muito entre si, envolvendo tanto a questão das naturezas das falas quanto às visões dos sujeitos que falam”. A necessidade de romper com a tendência fragmentadora e desarticulada do processo do conhecimento, justifica-se pela compreensão da importância da interação e transformação recíproca entre diferentes saberes, porém não se deve jamais considerar a interdisciplinaridade de maneira fetichizada como se fazer capaz de redimir o mundo das mazelas.

A totalidade concreta, não é tudo e nem a busca do princípio fundador de tudo. Mas a especificidade das Ciências Sociais vem marcada, na sociedade capitalista, por uma determinação que torna a produção do conhecimento cientifico e o necessário trabalho interdisciplinar prisioneiros de uma materialidade social cedida em classe cujos os interesses são antagônicos (KOSIK apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1978).

Conceituar interdisciplinaridade no plano histórico é complexo, pois percebemos que cada autor possui uma concepção em relação a esta, no entanto sabemos que nossa relação com o mundo social, natural e cultural se dá fragmentada de tal modo que cada fenômeno observado ou vivido é entendido ou percebido como fato isolado, por isso a busca constante de um saber integrado tem sido alvo de pesquisa para muitos autores, pois veem o conhecimento de forma global, entendendo que cada fenômeno observado ou vivido está inserido numa rede de relações que lhe dá sentido e significado.

Segundo Jantsch e Bianchetti (1995, p.195): “Também as análises sobre o interdisciplinar se diferenciam muito entre si, envolvendo tanto a questão das naturezas das falas quanto às visões dos sujeitos que falam”. Entre os princípios pedagógicos que estruturam as áreas de conhecimento destaca-se como eixo articulador, a interdisciplinaridade.

Para observância da interdisciplinaridade é preciso entender que as disciplinas escolares resultam de recortes e seleções arbitrários, historicamente constituídos, expressões de interesses e relações de poder que ressaltam, ocultam ou negam saberes. E mais: alguns campos de saber são privilegiados em sua representação como disciplinas escolares e os outros não. Historicamente são valorizados determinados campos do conhecimento escolar, sob o argumento de que se mostram úteis para resolver problemas de dia-a-dia.

Para Etges (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 79): “O fenômeno escola tão comum da cristalização do saber na memória, do saber cristalizado, do saber bancário fica superado pelos processos propriamente interdisciplinares”.  Conceituar interdisciplinaridade torna-se uma tarefa complicada, uma vez que até hoje não se conseguiu definir o que vem a ser a integração de diversas disciplinas. Isso se dá, devido à interdisciplinaridade ser vista para muitos apenas como ideal, ou seja, é um processo que está engatinhando em nossas instituições educacionais apenas no termo teórico,  muito desejado  mais ainda não efetivado. 

Por este motivo torna-se importante à pesquisa dos diferentes profissionais, em diversas áreas, acerca da interdisciplinaridade, procurando assim entender o processo da mesma, haja vista que as conceituações utilizadas por estes estudiosos podem de alguma forma nos levar a uma real compreensão do termo.

Frigotto (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 19):

Trata-se de aprender a interdisciplinaridade como necessidade problema. A questão da interdisciplinaridade, ao contrario do que se tem enfatizado especialmente no campo educacional não é sobre tudo uma questão de método de investigação nem a técnica didática ainda que se manifeste enfaticamente neste plano.

 

 Para o autor, a interdisciplinaridade vai além do método e da técnica visando uma superação de uma metodologia que ocorre de forma fragmentada. Etges (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 14): “Concebe a interdisciplinaridade enquanto princípio mediador entre diferentes disciplinas, não poderá jamais ser elemento de redução a um denominador comum, mais elemento teórico-metodológico da diferença e da criatividade”.

Wallner (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 19 e 74) Este autor segue uma visão construtivista, partindo, porém do trabalho imediato dos cientistas, não tem seu desenvolvimento imanente lógico e histórico. Seu artigo estabelece uma crítica radical ao tradicional conceito da unidade do espírito e do modelo clássico da ciência que propõe a formação de rede em contradição, em que a interdisciplinaridade necessária se da mediante ao aprendizado social que implica a necessidade teoria e a busca de uma construção teórica.

 Follari (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 20):

Interdisciplinaridade detém-se sobretudo nas questões práticas na vivência interdisciplinar, inclusive cogitando a interdisciplinaridade no ensino, sem, contudo, abrir mão das especificidades das disciplinas nem de um profundo conhecimento disciplinar.

 

 

Severino (apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 20): “Ao eleger como categoria da análise da realidade a totalidade, concebe o homem e suas criações como uma construção histórico-social.” Dessa forma entendemos que este autor percebe que a prática educacional possui um caráter  fragmentado e que para superar tal fragmentação a educação  precisa ser trabalhada em uma linha de projetos e pesquisas científicas contemplados no Projeto Político-Pedagógico. “A superação da fragmentação da prática da escola só se tornará possível se ela se tornar o lugar de um projeto educacional” (SEVERINO, apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 170). Dessa forma o autor afirma que a interdisciplinaridade será um princípio mediador entre as diversas disciplinas.

Jantsch; Bianchetti (1995, p.195):

A interdisciplinaridade não é um conceito unifoco hoje. Este termo é usado, atualmente, em muitos eventos culturais e os científicos sem uma base comum e, além disso, partindo demandas de diferentes naturezas, situando-se de diferentes visões de mundo, de homem e de conhecimento.

 

 

Consideram ainda que: “Tanto a disciplinaridade quanto a interdisciplinaridade se impõem historicamente, ambas sendo, portanto, filhas do tempo (uma construção humana necessária)”.

Para nós, interdisciplinaridade passa a ser um sistema de cooperação de várias disciplinas que diante de uma problemática em comum, enveredam-se na pesquisa para enriquecer seus conteúdos e relacioná-los à realidade, gerando assim novos conhecimentos. Desta forma, a interdisciplinaridade refere-se a uma nova concepção de ensino e de currículo, baseada na interdependência entre os diversos ramos do conhecimento, consolidando-se assim uma visão de totalidade.

Entendemos ainda a Interdisciplinaridade, como sendo a cooperação de várias disciplinas que diante de uma problemática em comum possam enveredar-se na pesquisa para enriquecer seus conteúdos e relaciona-los a realidade, gerando assim novos conhecimentos. A interdisciplinaridade refere-se a uma nova concepção de ensino e de currículo, baseada na interdependência entre os diversos ramos do conhecimento.

A interdisciplinaridade rompe a barreira existente entre as disciplinas e seus especialistas, a verdade suprema de cada disciplina é substituída pela verdade do homem enquanto ser no mundo. Também promove a abertura a novos saberes, favorece a compreensão e a reconstrução através da invenção. Para isso o educador deve se questionar sempre, deve estar sempre duvidando de seu saber e de si mesmo, deve estar em constante espírito de procura e nunca de posse ou poder. O progresso da educação não está na domesticação, mas, no ensinar a aprender, a se construir ou a se reconstruir.

4 IMPORTÂNCIA DA INTERDISCIPLINARIDADE

Compreendermos a interdisciplinaridade como um trabalho aberto e solidário na busca da reconstrução da disciplina e como forma de impor um novo modelo curricular, exigindo uma nova visão de escola criativa, ousada e com uma nova concepção de divisão do saber uma vez que a especificidade de cada conteúdo, dentro de cada disciplina, precisa ser garantida paralelamente à sua integração num todo harmonioso e significativo. Nesse sentido Etges (apud JANTSCH; BIANCHETTI,1995, p. 73) afirma que a interdisciplinaridade, “[...] é necessária para mediar a comunicação entre os cientistas e entre eles e o mundo do senso comum.” O mesmo autor ao falar da interdisciplinaridade construtiva evidencia que esta “[...] ensina e aprecia a tolerância frente às outras teorias, pois para ela não se trata de uma situação em que só uma pessoa possa ser verdadeira segundo o sentido metafísico de cópia do mundo dado” (ETGES, apud JANTSCH; BIANCHETTI,1995, p. 78).

Sendo o homem um ser social e constituído intrinsecamente de fatores biológico, psicológicos, intelectuais e culturais que não funcionam aleatoriamente mais sim, de forma engendrada na sua totalidade, sendo relevante sua prática para transcender a fragmentação enquanto uma necessidade de construção da existência individual e coletiva. Acreditamos que todo o processo de transformação e renovação é, realizado na cooperação, na corresponsabilidade, baseado nas relações interpessoais dialógicas e no crescimento pessoal de cada um em sua intersubjetividade, na persistência e na audácia através da dialética.

A interdisciplinaridade torna-se relevante por cultivar o desejo de enriquecimento por enfoques novos, de ultrapassar caminhos já trilhados e saberes já adquirido. “A interdisciplinaridade sistematicamente desenvolvida eleva a capacidade de cooperação com os outros para um tipo de jogo onde todos ganham” (ETGES, apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 78).

A abertura a novos campos de conhecimento e novas descobertas, a valorização do ensino e pesquisa, é favorecida pela interdisciplinaridade, porém cabe ao educador guardar um interesse fundamental pela pesquisa, e trabalhar para despertar no educando o espírito de busca, ser um agente desequilibrado de estruturas mentais rígidas, aproximar os problemas tratados com as experiências cotidianas para a manutenção do interesse e motivação, ser um verdadeiro interdisciplinar.

Os educadores devem se trabalhar, para saírem do papel de disciplinadores intelectuais, para que possam cumprir a missão de despertar, de provocar, de questionar e de se questionar. Tais subsídios deverão sim ser enfocados a partir das séries iniciais quando a criança ainda esta no seu processo de desenvolvimento cognitivo.

5 O PROFESSOR E O ATO DE EDUCAR

Analisando a história do professor nos dias atuais, nos remete a perceber toda sua influência e sua interação com a realidade de nossa educação, não podendo ser estudada isoladamente. Para tanto analisaremos os entraves que este enfrenta para a efetivação de uma prática de sucessos dentro do processo EDUCAR.

Entretanto, para explicar e compreender as causas dessas variáveis e consequentemente à insatisfação que vão desde as condições de trabalho, a degradação dos salários e desgaste diário, a individualidade de cada integrante e conteúdos desinteressantes reproduzindo uma rotina de trabalhos acríticos e repetitivos sem atender às exigências da formação de seus alunos que estão em fase de constante inovação. Diante do exposto, não podemos considerar o professor como panaceia da educação.

Infelizmente em nosso país os governantes têm preferido desviar-se destas questões, provocando desta forma, uma política educacional destinada ao fracasso e, fragmentada, deixando de construir uma fonte importante de desenvolvimento. 

Esse processo se dá porque está em causa um jogo de relações de poder, os interesses/valores se sobrepondo às representações, que se tornam então ideológico. Assim, a função dissimuladora da ideologia, ocultando outra relação de poder político com suas raízes econômicas, ao afirmar uma determinada relação entre os homens, está na realidade afirmando uma exploração, de opressão. (SEVERINO apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995).

O sistema educacional brasileiro encontra-se voltado para o contexto sócio político, econômico e cultural vigente, funcionando como reflexos dos interesses da classe dominante para garantir o poder, adequando às escolas as suas necessidades ideológicas, uma vez que esta se constitui como aparelhos ideológicos do Estado. Percebe-se assim que as escolas estão com suas funções definidas ideologicamente na sociedade, espelhadas com o poderio, transpondo formas de produção e distribuição de conhecimento.

Consideramos a escola como o instrumento mais certo de reprodução das relações de produção do sistema capitalista, pois nela estão crianças de diversas classes sociais, onde o conhecimento é repassado através de inculcação anos após anos. Nesse sentido a escola exerce duas funções: uma de contribuir para a força de trabalho e outra para inculcação da ideologia dominante.

Os professores vivem num ambiente complexos onde participam diariamente de múltiplas interações sociais, convivendo com diversas realidades escolares, muitas vezes incapazes de perpassar uma criticidade aos alunos, pois nem sempre também são possuidores desta.

Acreditamos que a educação brasileira exige de nós educadores um constante buscar providos de desafios e audácia. Rompidas as fronteiras entre as disciplinas, mediações do saber, na teoria e na pesquisa, impõe-se considerar que a interdisciplinaridade é condição também da prática social (SEVERINO apud JANTSCH; BIANCHETTI, 1995, p. 172).

 

Nos dias atuais, ensinar é a cada dia um desafio para os educadores que se encontram cada vez mais envolvidos com acontecimentos, fatos e situações que exigem profundas reflexões sobre a sua prática, que também está diretamente relacionada com as relações que ocorrem na sociedade, e interferem nas relações mantidas na sala de aula, por isso os professores devem pensar sobre o seu trabalho e a forma como este é realizada, visando se encaixar neste cenário de transformações.

PALAVRAS FINAIS

No decorrer deste estudo que objetivou compreender “A INTERDISCIPLINARIDADE NA 1ª SÉRIE DE ENSINO FUNDAMENTAL: para além da fragmentação do ensino-aprendizagem”, criando possibilidades para que outras pessoas com esse espaço que abrimos para nós, valendo-nos de autores, pudessem também fundir-se aos conhecimentos de nossa formação acadêmica, profissional foi possível perceber questões significativas que nos remeteram a um (re)pensar sobre a dimensão do ato de ensinar e suas mazelas deixadas na sociedade.

Este trabalho foi bastante significativo para nós, pois nos proporcionou momentos em que pudemos perceber os problemas existentes, e levantar questionamentos junto aos educadores foco de nossa pesquisa, no sentido de os levar a rever as posições tomadas em sua prática, reconsiderando os conhecimentos obtidos em sua formação inicial, fazendo um paralelo entre as diferentes maneiras de se promover o processo ensino-aprendizagem e os avanços que vem acontecendo em todo a educação, e principalmente fortalecer a ideia de ressignificar seus conhecimentos para juntos com o educando, conduzir o processo ensino aprendizagem dentro do que se espera do perfil do educador de uma nova era. A educação pode fazer a diferença no futuro, uma vez que o futuro será, sem dúvida, uma sociedade baseada no conhecimento.

Acreditamos que o conhecimento é o processo de apropriação e construção, que exige uma relação entre educador e educando numa perspectiva dialética. Através do conhecimento e da metodologia implementada, desenvolve-se uma nova concepção de homem e de mundo. O problema metodológico não é problema de uma escola, curso ou professor; ao contrário, é um problema que perpassa todo o sistema educacional, uma vez que é longa a tradição de um ensino desfragmentado, desvinculado da vida. Em outros tempos convivia-se com este tipo de ensinar, hoje com as crescentes transformações do mundo contemporâneo, há um questionamento profundo e uma rejeição por parte das novas gerações. O mundo mudou e continuará mudando. A metodologias tem que acompanhar o ritmo e os interesses do educando, e promover uma aprendizagem desfragmentada de outros saberes.

Percebemos que muitos são os desafios. Consideramos, todavia, que o educador para implementar uma transformação metodológica em sala de aula, precisa de um referencial teórico que o oriente na interação com as contradições e o desenvolvimento da prática. Não queremos, de forma alguma, afirmar que a teoria pode resolver o problema da prática. Acreditamos, pois que, embora deficiente, o referencial teórico é necessário para o educador, para a transformação da prática metodológica em sala de aula.  É mister desfazer o mito da aula centrada em um único conhecimento. É de suma importância conceber a troca de conhecimentos e de experiências entre os que fazem o aprendizado dos alunos.

Nesta perspectiva, a prática docente perpassa por uma consciência e compromisso político, induz a mudança do professor “auleiro” para orientador e, do aluno, de objetivo da aprendizagem para parceiro da construção do conhecimento, em que mais importante que escutar, copiar e aprender matéria, é fazê-la com as próprias mãos, por elaboração própria, teorização das práticas e fortalecimento de sua argumentação pessoal. Para tanto, ensinar interdisciplinarmente exige uma postura pedagógica que ultrapasse a mera exposição didática. Exige que se instigue o diálogo, que se instigue a curiosidade do educando.

Dessa maneira podemos dizer que o educador, em sala de aula, com o recurso do diálogo pode explorar o senso comum dos educando, e chegar com eles ao conhecimento científico, ao pensamento mais elaborado, e que gradativamente o educador vai assumindo o papel de motivador, facilitador e orientador, em vez de ser a fonte da informação e seu principal transmissor.

Após o estudo realizado, entendemos que este foi de fundamental importância para nossa formação profissional, pois não representou apenas uma exigência acadêmica do curso de Pedagogia, mas uma possibilidade de vislumbrar uma prática interdisciplinar que venha ao encontro do que realmente seja interessante para o processo ensino-aprendizagem, dentro de uma ação educativa pautada em uma metodologia que contemple todos os pressupostos necessários para a formação integral do indivíduo.

REFERÊNCIAS

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[1] Psicopedagoga e Professora da Escola Superior Madre Celeste – ESMAC. Presidente do Colegiado do Curso de Pedagogia [email protected]

[2] Licenciada em Educação em Ciências, Matemática e Linguagens – UFPA e Professora na Associação Escola Amintas Pinheiro. [email protected]