Lic. Fil: António Teca Dicondele [1].

SUMÁRIO: 1. Ponto de partida; 1.1 Amizade como bem em si mesmo; 2. A felicidade e amizade; 2.1 O paradoxo entre amor e a amizade; 2.2 A amizade desde o jardim de Epicuro.

 

Resumo: Neste artigo, propomo-nos fazer um diálogo aproximativo, entre duas escolas da filosofia Ocidental. Trata-se da Escola Peripatética, e a Escola Epicurista. Ambas alinhadas numa perspectiva essencialmente ética. A amizade, tal como eles a entendem, é uma relação intrinsecamente humana. Mas que só se adquire por intermédio da prática incessante da virtude. A amizade conquista-se com tempo, não se estende a momentos transitórios apropriando-se apenas daquilo que outro já possui. Contudo, a amizade é uma outra forma de se fazer a filosofia, ou seja, é um modo de vida para os epicuristas.

Palavras-chave: Aristóteles, Epicuro, amizade, comunidade, relação.

Resumé: Dans cet article, nous proposons de faire un dialogue approximatif entre deux écoles de philosophie occidentale. C'est l'école péripatéticienne et l'école épicurienne. Les deux s'alignaient dans une perspective essentiellement éthique. L'amitié, telle qu'ils la comprennent, est une relation intrinsèquement humaine. Mais cela ne s'acquiert que par la pratique incessante de la vertu. L'amitié se gagne avec le temps, elle ne s'étend pas aux moments transitoires, ne s'appropriant que ce que quelqu'un d'autre a déjà. Cependant, l'amitié est une autre façon de faire de la philosophie, c'est-à-dire un mode de vie pour les épicuriens.

Mots clés: Aristote, Epicure, amitié, communauté, relation.

 

 

INTRODUÇÃO

 

Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai.

Jo 15, 14-15 [2].

A amizade é uma daquelas temáticas complexas que a filosofia antiga nos legou através da história de duas escolas: a Peripatética de Aristóteles (Período Clássico), onde a actividade filosófica esteve fundamentalmente vinculada aos ideais da Pólis, e a Escola Epicurista do Período Helenístico ligada essencialmente aos problemas éticos. Apesar desta disparidade, as duas escolas tinham um elemento em comum: tomar a ética como modelo de orientação para uma vida boa na Cidade.

Entretanto, para este artigo, queremos manter um diálogo aproximativo com outros filósofos e, pelo facto de a temática ser atemporal, convém também estendê-la aos nossos dias. Assim sendo, o propósito deste artigo, numa primeira fase, estará voltado nestes pequenos detalhes que nos poderão servir de orientação e de guia. Já para segunda fase, analisaremos aquilo que quotidianamente todo o mundo diz sobre amizade, e sem unanimidade.

A deturpação do conceito não está na sua essência, mas sim no aproveitamento de oportunidades que ela traz. Para se fazer uma amizade hoje, faz-se espécie de um menu de interesses, calcula-se o número de despesas, balança-se a amizade procurando por onde pesa mais. É verdade que nada se faz sem algum interesse; por exemplo, se decido me tornar amigo de alguém é porque espero dele alguma coisa em troca. Ora, se olharmos apenas nesta perspectiva, a amizade tornar-se-á inumana e utilitária, parece engraçado, mas tal é a ideia que se pretende perpetuar.

 

 

1. Ponto de Partida

 

 Quando nos deparamos pela primeira vez com uma palavra nova num determinado texto, a nossa primeira intenção consiste em desmontá-la para que se torne clara e a mesma intenção se submete também a amizade. Se nos contentarmos com uma simples definição, diríamos que etimologicamente a palavra amizade é de origem grega (piA.Í0C), que significa afeição. Para Aristóteles, a amizade é «uma virtude ou está estreitamente unida à virtude: de qualquer forma, é o que há de mais necessário à vida, já que os bens que a vida oferece, como riqueza, poder, etc. não podem ser conservados nem usados sem os amigos» [3].

Contrariamente à antiguidade, onde a amizade era considerada como um bem em si mesmo, hoje a discussão ganhou outros contornos. É também amizade àquela que se faz nas redes socias, também se considera uma amizade se ofereceres uma banana alguém… não é de admirar que existem pessoas com quinhentos amigos no facebook. Entretanto, devemos perseguir três questões importantes para aferirmos a verdade ou a falsidade de uma amizade: quem é um amigo? O que é amizade? Quem é o nosso verdadeiro amigo?

Segundo Aristóteles, é evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Já na ética a Eudemo (2015), inclui também a importância da amizade. A actividade de amar é tratar bem o seu amado, enquanto o amigo é um objeto de amor para o amigo enquanto caro a ele, […] portanto, o prazer da amizade é aquele extraído do próprio indivíduo enquanto ele mesmo:

 

Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem [...], aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra, não sendo detido por nenhum freio e, como uma ave de rapina, estaria sempre pronto para cair os outros. Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. A natureza, que nada faz em vão, concedeu apenas a ele o dom da palavra, que não devemos confundir com os sons da voz [...], nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto. Assim a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade [4].

 

Consequentemente, a natureza constitui-se como um dado comum de todos os seres vivos, atendendo que ninguém que há entre os mortais que não dependa dela, ou dos seus produtos.

Ainda sobre as questões introdutórias, existe uma diversidade de opiniões sobre o assunto, o que também nos torna difícil precisar uma resposta cabal. Mas, se olharmos atentamente estas questões desde dentro, podemos afirmar que a verdadeira amizade consiste no amor-próprio, embora esta atitude revele até certo ponto um egocentrismo.

 

1.1 Amizade Como Bem em si Mesmo

 

No campo da axiologia, discute-se muito dois critérios valorativos, que são: a dimensão objectiva dos valores e a subjectiva. Quanto à primeira, trata-se, na verdade, do valor das coisas em si mesmas, ou seja, na sua própria essência. Enquanto a segunda afirma que é pelo sujeito que conhecemos as coisas. Ora, como não é o nosso interesse abordar a última dimensão, limitar-nos-emos apenas à primeira para tentarmos fundir a pretensão do estagirita.

A amizade é uma questão de tempo e de confiança. Por isso, descarta-se a possibilidade daquelas amizades que se fazem num dia para o outro. Como enfatizava Teógonis, o poeta trágico, parafraseado por Aristóteles na ética a Eudemo: «não podes conhecer a mente do homem nem da mulher até que os tenhas experimentado como experimenta o animal de carga» [5]. A amizade como bem em si mesmo é aquela que está orientada para fins teleológicos, requer uma habituação. Por isso, verifica-se muito pouco a pessoas vulgares;

 

Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. Estes querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo [...], amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem; e, na verdade, a excelência é duradoura [6].

 

A amizade primária baseia-se na virtude e, neste sentido, a amizade não é apenas uma disposição da alma consigo mesma, mas sim é uma habituação. Ora, a amizade é um conceito de extrema importância na nossa sociedade actual. Ninguém vive isoladamente como cogumelos nas florestas sem estabelecer uma teia de relações com os outros, a amizade está sempre direcionada para o horizonte natural,

 

A amizade manifesta-se assim entre seres de um mesmo género, submetidos entre os seres Humanos. Daí louvarmos a amizade do homem pelo homem. Também se pode ver, quando viajamos, um sentimento de afinidade e um laço de amizade entre os homens [7].

 

Embora sem a prévia noção, é desde a infância que começamos a estabelecer uma teia de relações e que só depois se consolidam no período da maturação biológica ou psicológica. Na visão de Aristóteles, a amizade «não é então apenas uma das coisas necessárias a existência humana, mas também bela» [8]. Tal como dizemos que o conhecimento é um processo recíproco, a amizade também o é, pois os amigos são aqueles que partilham os seus bens. «Para que duas pessoas sejam amigas é necessário que se queiram bem uma a outra e se desejam mutuamente tendo o bem, mas de uma forma tal que isso não lhes passe despercebido [...]» [9].

De acordo com Aristóteles, existem três tipos de amizade: o primeiro está na essência das coisas, o segundo radica no prazer e o terceiro está no âmbito da utilidade. Assim sendo, estas duas formas de amizade (a do prazer e a da utilidade) são demasiadas superficiais, pois não possuem raízes sólidas, são fáceis de serem arrastadas quando o grau de utilidade acaba, porque estes vivem de paixões e perseguem sobretudo o seu próprio prazer e aquele que se oferece no momento presente. À medida que a idade passa, também são outras as coisas que lhes dão prazer. É por esse motivo que tão depressa arranjam amigos como deixam de os ter [10].

Aristóteles apresenta três filósofos: Empédocles, Heráclito e Eurípedes. O primeiro coloca a ideia no dado da semelhança, o segundo enfatiza os desejos opostos e o terceiro fala do desejo que a terra tem de ser alimentada pela chuva;

 

Mas deixemos, de lado as dificuldades de natureza teórica (porquanto não pertencem à presente investigação) e analisemos a respeito do acontecimento Humano, as diversas formas de amizade de acordo com as diversas formas de afecção que aí têm lugar [11].

 

Como afirmava o estagirita, a amizade também implica reciprocidade, ou seja, um diálogo permanente. Neste sentido, exige-se disponibilidade de tempo, o que obviamente torna o caso complicado, sobretudo, nesta era das novas tecnologias. Por exemplo, ter duzentos amigos no facebook, o que não se pode efetivar na vida prática, pois são amizades meramente virtuais. Ainda no facebook, é possível conectar e desconectar uma amizade, sem que isso constitua um problema. Já na vida prática, para se criar uma amizade é preciso ter uma experiência conjunta de dificuldades e ganhar confiança mútua, o que é muito difícil. «Os homens não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem provado sal juntos; e tampouco podem aceitar um ao outro como amigos enquanto cada um não parecer estimável ao outro não depositar confiança nele» [12]. Visto sobre este olhar, a amizade não se baseia nos meios, mas nos fins, porque o desejo da amizade é um dado intrínseco para o homem e está baseada na sua natureza.

«Com efeito, os pais amam os seus filhos mal nasçam, mas os filhos só começam a amar os seus pais passados algum tempo, quando adquirem compreensão e começam a aperceber-se das coisas» [13].

 

2. A Felicidade e Amizade

 

A Ética Aristotélica é puramente teleológica, porque se baseia na busca dos fins últimos. Todavia, estes fins não se alcançam por intermédio de outra coisa, que não seja por uma habituação. Em uma breve história da filosofia, Nigel Warburton introduz uma questão pertinente. Neste sentido, a amizade e a felicidade são conceitos aproximativos, ambos só se consolidam por intermédio da prática.

Mas o que significa buscar a felicidade? Hoje muitas pessoas entenderiam a expressão como modos de divertir a si próprias. Para alguns, diriam que a felicidade envolveria férias no exterior ir a festas de música ou desfrutar o tempo com os amigos. Essas coisas, no pensar do estagirita, podem até ser requisitos para uma vida boa. Porém, para ele a melhor maneira de viver era sair em busca de prazeres maiores. Uma boa vida resumir-se-ia no acordo do ser consigo mesmo [14].

A partir deste olhar atento de Nigel Warburton, a felicidade não diz respeito a momentos efêmeros de alegria, ou como nos sentimos. Ela é mais objectiva, significa simplesmente o bem em si mesmo na sua essência, daí reside a complexidade dos conceitos. Mas seja como for, é também natural que entendamos os conceitos. Ora como ter tantos amigos, ora como ter tantos bens. Segundo Warburton, «a felicidade diz respeito à nossa realização na vida, algo que pode ser afetado pelo que acontece com as pessoas que são importantes para nós. Essa realização também pode ser afetada pelos eventos que não controlamos e não conhecemos» [15].

Para o estagirita

 

O bem completo, parece bastar-se a si próprio. Nós entendemos por autossuficiente não aquela existência vivida num isolamento de si, nem uma vida de solidão, mas a vida vivida conjuntamente com os pais, filhos e mulher e, amigos e concidadãos, uma vez que o homem está destinado, pela sua natureza, a existir em comunhão com os outros [16].

 

A felicidade é um bem em si mesmo é aquilo que se escolhe como prioridade independentemente dos fins particulares, isto significa que o homem se sente feliz quando cumpre devidamente as suas tarefas. Por exemplo, a felicidade de um estudante pode consistir num exame bem feito, […] cuidamos que uma coisa deste género é a felicidade. Ademais, cuidamos que a felicidade é, de entre todas as coisas boas, a favorita, mesmo sem ser levada em consideração com as outras. Se fosse levada em consideração com todas as coisas boas, ela seria preferível quando acrescentada de um bem- porque por mais ínfimo que fosse- constituirá sempre um acréscimo de bem e um bem maior é sempre a melhor possibilidade de escolha [17].

Comentando a felicidade na perspectiva do estagirita, Warburton dizia a felicidade não é meramente um dado de busca, pois esta busca pela essência da felicidade é guiada necessariamente por duas vias: a da virtude e do vício: 

 

Precisamos sentir os tipos certos de emoção no momento certo, e eles farão com que nos comportemos bem. Em parte, isso dependerá de como fomos criados, pois a melhor maneira de desenvolver bons hábitos é praticá-los desde cedo. Portanto, a sorte também tem o seu papel nisso. Bons padrões de comportamento são virtudes; padrões ruins são vícios [18].

 

Aristóteles mostrou-nos de forma recorrente, na sua obra ética a Eudemo, que a felicidade é uma actividade de uma alma boa. Esta ideia de bondade, a nosso ver, implica uma obediência a determinados comportamentos amplamente aceitos pela sociedade e não o contrário. Bons comportamentos são pautados pela prática da virtude. «A felicidade é uma atividade da vida perfeita em consonância com a virtude perfeita» [19]. Ou seja, «como a virtude é indispensável para a felicidade, a felicidade do Estado não deve limitar-se a uma de suas partes, mas abarcar a universalidade dos cidadãos proprietários» [20].

Já santo Agostinho, no diálogo sobre a felicidade, mostra-nos que todo o ser humano anseia a felicidade, mas esta felicidade não se consubstancia na ordem natural das coisas nem na pura contemplação filosófica, mas sim na dimensão ontológica transcendental. «No entanto, enquanto procuramos ainda não alcançamos a fonte e, para me servir da palavra de há pouco não nos saciamos com toda a plenitude, ainda não alcançamos, devemos reconhecê-lo a nossa medida» [21].

 

2.1 O Paradoxo Entre Amor e a Amizade

A grande controvérsia que as expressões supracitadas nos colocam, reside significativamente no dado apresentado por dois grandes filósofos clássicos: Platão e Aristóteles e de diferentes modos. O primeiro dá mais primazia ao conceito de amor que é a força que engendra a actividade filosófica. O segundo enfatiza a amizade como habituação activa. Porém, o que há de comum entre os dois filósofos é a busca desinteressada pelo conhecimento.

Tal atitude constatamos no diálogo o banquete de Platão:

 

Eu, aliás, quando sobre filosofia digo eu mesmo algumas palavras ou as ouço de outro, afora o proveito que creio tirar, alegro-me ao extremo; quando, porém, se trata de outros assuntos, sobretudo dos vossos, de homens ricos e negociantes, a mim mesmo me irrito e de vós me apiedo, os meus companheiros, que pensais fazer algo quando nada fazeis. Talvez também vós me considereis infeliz, e creio que é verdade o que presumis; eu, todavia, quanto a vós, não presumo, mas bem sei [22].

 

Como se sabe, no banquete, Platão procura teorizar a ideia do amor levando-o para as maiores latitudes. Porém, ainda no diálogo existem algumas atitudes que não podemos descurar caso queiramos compreender de perto o seu pensamento.

O amor que Platão nos apresenta na sua obra não se parece ao amor inteiramente engajado na possessão do sentimento do outro. Para ele o amor distancia-se da simples vulgaridade de afectos e repousa essencialmente na busca incessante do conhecimento. Assim como amor, a sua proposta filosófica também se distancia a espíritos menos inquietos […] que sugiro então é que mandemos embora a flautista que acabou de chegar, que ela vá flautear para si mesma, se quiser, ou para as mulheres lá dentro; quanto a nós, com discursos devemos fazer nossa reunião hoje; e que discursos- eis o que, se vos apraz, desejo propor-vos [23].

Portanto, a exclusão que o filósofo coloca demonstra, por um lado, a seriedade que a actividade filosófica exige, mas seja como for não é nossa pretensão estender este conflito numa temática bastante escorregadia. Todavia, se há algum paradoxo, este baseia-se efectivamente na sua própria natureza. E constatamos esta atitude implícita no discurso de Aristófanes, que exalta o amor homossexual;

 

Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, aponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno momento. E os que continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes venha da parte de um ao outro [24].

 

 

Entretanto, o amor de Aristófanes não se descola do objecto tipicamente carnal, ele permanece tão-somente neste universo do sensível e do puramente aparente. Aristófanes tinha um desejo, a natureza primitiva. «O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo. Portanto, ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor» [25]. Enquanto Platão pretendia efectuar uma marcha a procura do Belo como horizonte metafísico. Neste itinerário pretendido por Platão, alinha-se o Poeta Agatão, uma das personagens do referido banquete no que toca à beleza do amor, não só como bem em si mesmo, tal como a amizade para o estagirita, mas acima de tudo como um desejo atemporal,

 

 

É ele que nos tira o sentimento de estranheza e nos enche de familiaridade, promovendo todas as reuniões deste tipo, para mutuamente nos encontrarmos, tornando-se nosso guia nas festas, nos coros, nos sacrifícios; incutindo brandura e excluindo rudeza; pródigo de bem-querer e incapaz de mal-querer; propício e bom; contemplado pelos sábios e admirado pelos deuses […] [26].

 

Com a entrada de Sócrates em cena a narrativa sobre o amor começa a ganhar um estatuto mais especial e específico, deixando de fora a opinião meramente ordinária e ancorada no dado sensível. Entretanto, seguindo passo a passo o seu pensamento, Sócrates leva-nos a entender que o amor pretendido não é de facto uma possessão de um corpo belo, mas sim uma carência daquilo de que se não tem. E o filósofo se parece como um bom amante que faz este itinerário com o intuito de alcança-lo, mas impossível;

 

[…] Julgue enfim de pouca monta o belo no corpo; depois dos ofícios é para as ciências que é preciso transportá-lo, a fim de que veja também a beleza das ciências, e olhando para o belo já muito, sem mais amar como um doméstico a beleza individual de uma criançola, de um homem ou de um só costume, não seja ele, nessa escravidão, miserável e um mesquinho discursador, mas voltado ao vasto oceano do belo e, contemplando-o, muitos discursos belos e magníficos ele produza, e reflexões, em inesgotável amor à sabedoria, até que aí robustecido e crescido [27].

 

 

 A fronteira entre o amor e amizade é restrita, embora os clássicos tivessem opiniões relativamente diferentes. Por isso, pretender uma explicação exaustiva sobre tais conceitos, para além de ser uma delimitação, escapa-nos quase sempre o seu horizonte de sentido e novamente nos vemos num paradoxo. Portanto, o amor não é um conceito uniforme, ele depende muito também do seu contexto. […] Por isso, é necessário ter em mente essa diversidade ao se considerar o uso que os filósofos fizeram desse termo, já que não raro esse uso é modelado por um ou mais tipos particulares de experiência amorosa. «Os gregos viram no amor sobretudo uma força unificadora e harmonizadora, que entenderam baseada no amor sexual, na concórdia política e na amizade» [28].

 

2.2 A Amizade Desde o Jardim de Epicuro

 

 

Se há na verdade alguma coisa que nos possa orgulhar no pensamento do mestre Epicuro, é certamente a temática da amizade e do seu estilo de vida. […] Os alunos não tinham em Epicuro um mestre no estilo tradicional, formavam um grupo de amigos que filosofavam juntos. Epicuro exercia influência, não só pelo ensino directo como pela extraordinária personalidade. Era um homem bondoso, de natureza terna e amável, que, apesar dos sofrimentos físicos impostos pela doença que o torturava e aos poucos o paralisava, cultivava as amizades, auxiliava os irmãos e tratava delicadamente os escravos. Por essa razão todos os que o conheciam dificilmente deixavam seu convívio [29].

Eis como Lucrécio o descreveu após a morte:

 

Foi um deus, sim, um deus, aquele que primeiro descobriu essa maneira de viver que agora se chama sabedoria, aquele que por sua arte nos fez escapar de tais tempestades e de tais noites, para colocar nossa vida numa morada tão calma e tão luminosa [30].

 

Está na esfeira do pensamento epicurista que a filosofia mais do que ser um trabalho rigoroso do pensamento, é acima de tudo um modus vivendi que se desenvolve por intermédio do diálogo na comunidade de amigos. «É com efeito um dos caracteres mais notáveis da escola epicurista esta amizade que não cessou de nela reinar, unindo por um lado os professores e os alunos, por outro lado os alunos entre si» [31]. Ora, observando atentamente, a preocupação da escola epicurista leva-nos a entender que ser amigo de alguém significa, acima de tudo, confiar-lhe uma certa responsabilidade e o dever de partilhar com ele o conhecimento. Assim sendo, o conhecimento ganha intrinsecamente a ideia da reciprocidade, tal como a amizade.

Para a escola epicurista o processo do conhecimento que nos permite alcançar a felicidade como fim desejado, não se desdobra inteiramente nos moldes já avançados pelos clássicos como processo abstractivo e dedutivo, mas sim no dado da sensibilidade que é a sua fonte primária. «De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade. Toda amizade é desejável por si própria, mas inicia-se pela necessidade do que é útil» [32].

Assim sendo, a importância que Epicuro dá a amizade se distancia da ideia daqueles que concebem a amizade como apenas uma oportunidade, ou seja, o momento propício da aproximação de usufruir dos bens que o outro já possui. Para ele, assim como para Aristóteles, ser amigo de alguém é acima de tudo querer-lhe o bem. Não é um amigo àquele que tem segundas intenções, pois a sua relação de amizade se resume essencialmente na busca de fins utilitários.

O critério para valorar uma amizade é o tempo porém, mesmo com esta categoria não se descarta a possibilidade de haver contendas em algumas amizades já velhas, e os motivos são claramente conhecidos quase por todos nós […], e ainda quando estejam mais adiantados na amizade, chega esta a faltar se pretendem ambos um mesmo emprego honorífico, pois nenhum mal há maior nas amizades que a cobiça do dinheiro, mulher em muitos e, nos melhores, a competência em pontos de honra e de glória [33]. Porém, para nós, a amizade verdadeira ultrapassa a dimensão natural e a meramente instrumental. E alocamos o conceito à alteridade que consiste em ver no outro a nossa própria imagem e não como objecto;

 

Muitas vezes, pois, quando paro a pensar na amizade, parece-me digno da maior consideração, se se introduziu por fraqueza e necessidade, de sorte que, por recíprocos ofícios, receba um do outro o que não alcança por si mesmo e o devolva mutuamente, ou se era isto próprio e consequente da amizade, porém sua origem mais antiga, mais honesta e mais filha da natureza. Porque o amor (que deu o nome à amizade) é o principal motivo de conciliar-se a benevolência. Pois as utilidades se costumam experimentar também daqueles a quem se trata e respeita pelas circunstâncias do tempo. Porém na amizade nada é fingido, nada dissimulado, tudo quanto nela há é verdadeiro e tudo provém da vontade [34].

 

Os perigos que estorvam as amizades foram plenamente já elencados, mas no entanto, não descuremos também as fofocas, sobretudo, no género feminino é sem sombras de dúvidas que, boa parte das conversas que esta classe trava é sobre homens pois, como se sabe, faz parte da natureza feminina a fofoca assim como a permanência de piolhos em suas cabeças. Esta crítica não se estende apenas a elas existem também homens vulgares que partilham desta natureza. Por isso, «não devemos ouvir esses homens perdidos de voluptuosidade, se alguma vez vierem a falar sobre a amizade, pois eles não a conhecem, nem por regras, nem pela experiência» [35].

Por outro lado, valha a pena lembrar ainda neste itinerário que a dignidade humana deve sempre ser a mais privilegiada em todas as relações que se pretendem efetivas. Quer dizer que no campo da amizade, é mais que necessário colocar de parte às estratificações sociais. Contudo, no amigo está encarnado o nosso eu, assim recomendava o mestre Epicuro «de todas as coisas que a sabedoria busca, em vista de busca de uma vida feliz, o maior bem é a conquista da amizade, a amizade anda pela terra anunciando a todos que devemos acordar para dar alegria uns aos outros» [36].

 

 

CONCLUSÃO 

 

A amizade como essência das relações humanas é um exercício que se efectiva mediante a prática da virtude. Mas esta virtude não pode ser vista apenas como uma disposição estritamente da alma, mas sim como dado natural que implica uma gama de experiências que só se consolidam no decorrer do tempo. Entretanto, a simplicidade de uma amizade consiste pelo facto de não esbarrar ninguém, até maldosos têm sempre um amigo que os apoia. Eis o provérbio latino: “sine amicitia vita tristes esset”.

 Assim sendo, entre as demais coisas que os seres humanos preferem como belas ou benéficas, a amizade é sempre desejada. Tal como vimos atrás que a vontade que engendra em nós o desejo de um amigo é a mesma que nos leva a reconhecer que o homem não se basta a si mesmo, sozinho o homem não pode realizar-se.

Nesta ordem de ideias, valha a pena retomar o nosso fio condutor segundo o qual, a amizade não é um dado mediático, não se conduz a terceiros, ela implica uma relação intrinsecamente desinteressada. Por isso, as amizades que nascem nos escombros de oferta meramente ocasional, não entram no nosso cânone previamente já estabelecido; elas são simplesmente descartáveis assim mesmo que termina o seu grau de utilidade. 

 

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_____________. Ética a Eudemo. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro Editora, 2015.

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REALE, Geovani, ANTISSERI, Dário. História da Filosofia Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus. 1980

WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, 2012.

 

 

[1]António Teca Dicondele é Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Angola (UCAN), Instituto Superior Dom Bosco (ISDB). É formado em Agregação Pedagógica para o Ensino Superior pela mesma Universidade. Membro da Organização Académica FILONORG (Angola-Luanda). É também Jornalista estagiário pela Rádio Escola. Nutre maior interesse em Filosofia Existencial, Filosofia Vitalista e a Filosofia da Desconstrução. Com os seguintes contactos: 937 993 828, [email protected]

[2] AAVV. Bíblia Sagrada. 5ª Edição. Herculano Alves (cord). Lisboa: Difusora Bíblica, 2008, p. 1760.

[3] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5ª Edição. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 48.

[4] ARISTÓTELES. A Política. 3ª Edição. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2006, pp. 4- 5.

[5] ARISTÓTELES. Ética a Eudemo. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro Editora, 2015, p. 260.

[6] ARISTÓTLES. Ética a Nicómaco. Trad. António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2004, p. 184.

[7] ARISTÓTLES. Ética a Nicómaco. Trad. António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2004, p. 180.

[8] Ibid., 181.

[9] Ibid., 182

[10] Ibid., 182

[11] Ibid., 181.

[12] ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco. Coleção os Pensadores. Vol. II. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural,1991, p. 175.

[13] ARISTÓTLES. Ética a Nicómaco. Trad. António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2004, p. 199.

[14] WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, 2012, p. 11.

[15] WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, 2012, p. 14.

[16] ARISTÓTLES. Ética a Nicómaco. Trad. António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2004, p. 28.

[17] Ibid., 28.

[18] WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, 2012, p. 14.

[19] ARISTÓTELES. Ética a Eudemo. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro Editora, 2015, p. 69.

[20] ARISTÓTLES. Ética a Nicómaco. Trad. António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2004, p. 99.

[21] AGOSTINHO. Diálogo sobre a felicidade. Trad. Mário Santiago de Carvalho. Portugal: Editora, 70, 2000, p. 87.

[22] PLATÃO. O banquete. 5ª Edição Trad. José Cavalcante de Souza. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1991, p. 38.

[23] PLATÃO. O banquete. 5ª Edição Trad. José Cavalcante de Souza. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1991, p. 43.

[24] Ibid., 60.

[25] PLATÃO. O banquete. 5ª Edição Trad. José Cavalcante de Souza. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1991, p. 61.

[26] PLATÃO. O banquete. 5ª Edição Trad. José Cavalcante de Souza. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1991, p. 67.

[27] Ibid., 86- 87.

[28] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5ª Edição. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 50.

[29] EPICURO. Antologia de textos. 3ª Edição. Trad. Agostinho da Silva, [at al]. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1985, p. 10.

[30] Ibid., p. 11

[31] Ibid., p. 30

[32] EPICURO. Antologia de textos. 3ª Edição. Trad. Agostinho da Silva, [at al]. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural,1985, p. 61.

[33] Ver, Cícero. in Diálogo Sobre a Amizade: Internet Encyclopedia of Philosophy http://www.utm.edu/research/iep/ 2001.

[34] Ibid., S/p.

[35] Ibid. S/p.

[36] REALE, Geovani, ANTISSERI, Dário. História da Filosofia Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus. 1980, p. 249.