VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E ENSINO DE LÍNGUA

 

 

JOSÉ MARIA MACIEL LIMA[1]

 

 

De modo geral, o ensino de língua, no Brasil, infelizmente, ainda vem sendo orientado pela perspectiva da gramática normativa, privilegiando apenas uma norma (a padrão) e uma modalidade (a escrita). Com isso, o “certo” e o “errado” norteiam as aulas de língua portuguesa. Linguistas e estudiosos da linguagem consideram inapropriada a exaltação exagerada que dão para o ensino de gramática normativa no interior da disciplina de língua portuguesa.

A linguística não considera esta ou aquela variedade ou variante como “certa” ou “errada” uma vez que a língua não é uniforme: varia no tempo, de lugar para lugar, de acordo com a idade, com a escolaridade, com a posição social e até mesmo com o sexo, portanto, pode-se dizer que as línguas apresentam de um modo geral, variações diatópicas, diastráticas e diacrônicas.

Mas é curioso como a escola ignora tudo isso. Por isso, é necessário e urgente que a escola trabalhe o ensino de língua na perspectiva variacionista. Para isso, o professor de língua precisa está preparado o suficiente para entender que a língua varia conforme as necessidades de produção, conforme as intenções e necessidades de comunicação, de quem são os interlocutores no momento da enunciação, da situação, do lugar e do momento histórico em que o discurso ocorre.

De posse dessas informações, o professor será capaz de saber que não existe uma única realização da língua, ela é um conjunto de realizações, logo não se pode fazer uso apenas a uma norma (a padrão), ou privilegiar apenas uma modalidade (a escrita) para ensinar ensiná-la, limitando o ensino de língua a exercícios baseados em regras para explicar como fazer o uso “correto” das frases, como se os alunos pudessem metabolizar todas as informações e fazer uso delas no momento do uso efetivo da língua. Parece haver um distanciamento entre língua e ensino, uma barreira imposta pela normatividade.

As aulas de língua baseadas apenas na norma padrão (gramática normativa), causa um distanciamento entre a língua utilizada pelos falantes para interagir socialmente e a língua que a escola utiliza como objeto de ensino. Desse modo, o aluno ao chegar à escola encontra um grande desafio: aprender uma nova língua, totalmente diferente daquela que ele usa em seu dia a dia. Nesta perspectiva de ensino, o aluno não encontra um ambiente saudável para desenvolver suas potencialidades linguísticas. Em outras palavras, o ensino baseado apenas na norma prestigiada socialmente, é prejudicial, pois não desenvolve no aluno a competência comunicativa, ao contrário, inibe seu lócus de enunciação, empobrece o ensino de língua, uma vez que o material utilizado para este fim é bastante reduzido, se limita apenas a uma variedade (a padrão).

Desse modo, não é possível educar o aluno linguisticamente. Já na perspectiva variacionista, o material disponível para ensinar a língua seria as variedades que a língua por natureza apresenta: variedades de textos da modalidade oral e escrita, variedades de gêneros, variedades de norma (padrão e não padrão) entre outras variedades que a língua por ser rica oferece. No contato com essas variedades o educando terá a oportunidade de conhecer as diversas realizações da língua. Com isso, ele passará a entender que essas variedades pertencem a todas as línguas vivas em constante funcionamento.

Assim, o indivíduo se tornará um usuário competente e será linguisticamente educado, pois este será capaz de dominar um maior número possível das variedades linguística, com isso será capaz de empregá-las nas mais variadas situações de Comunicação.    

Não se quer dizer com tudo isso, que a escola não deve ensinar a língua padrão, o problema está em ensinar apenas ela, como se fosse à língua, sabe-se que a variante padrão é apenas uma entre tantas variedades que a língua abriga. Desse modo, é papel da escola propiciar ao aluno o acesso à variedade padrão, relacionada a um determinado grau de domínio da leitura e da escrita. Compete à escola priorizá-la, mas não exclusivamente, pois o reconhecimento da existência das variedades linguísticas é fundamental para o ensino de qualquer língua.

Portanto, por causa da mudança na concepção de língua, a variação linguística, como objetivo de ensino, veio para ficar. Daí a necessidade de se conhecer o fenômeno da variação com base em conceitos bem definidos e sistematizados. É preciso que o professor mude de postura frente ao ensino de língua materna, levando o aluno a ver a língua como ela é, e não como a sociedade e a escola querem que ele a seja.

Sem uma mudança na maneira de ensinar a língua materna o maior prejudicado é o aluno que não encontra um ambiente adequado para desenvolver suas potencialidades. A linguagem não está restrita ao domínio técnico do uso da variante padrão, mas, sobretudo, no uso da língua em situações subjetivas ou objetivas nos diferentes contextos onde se encontram seus interlocutores.

A gramática normativa não deve (nem pode) ser o ponto de chegada para o ensino de língua, mas sim o ponto de partida para uma reflexão crítica sobre os estudos da linguagem, assim acredita-se que o professor de língua estará exercendo o papel de linguista consciente e capaz de reproduzir seu próprio material didático, despertando no aluno a curiosidade de entender a língua em seu pleno funcionamento e não como um objeto estático, que parou no tempo e no espaço (BAGNO, 2007).

REFERÊNCIAS

 

BAGNO, M. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 13. ed. São Paulo: Contexto, 1997.

________. A norma oculta: língua poder na sociedade brasileira. 7. ed. São Paulo, Parábola, 2003.

________. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social. 2ª ed. São Paulo, Loyola, 2000.     

________. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

________. Português ou brasileiro?: um convite a pesquisa. 2. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

________. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 49ª ed. São Paulo: Loyola, 2007.

BECHARA, E. Ensino da gramática. Opressão? Liberdade? 11ª ed. São Paulo: Ática, 2005.

BITTENCOURT, Vanda de Oliveira. Rumos da gramaticalização: no português oral do Brasil-PUC – Minas. Disponível em: http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5(13)69-75.html. Acessado em 10 de Dezembro de 2014, às 10h31min. 

BORBA, Francisco da Silva. 1932- Introdução aos estudos linguísticos. 12ª edição – Campinas, SP: Pontes, 1998.

BRANDÃO, S. F. A geografia linguística no Brasil. São Paulo: Ática, 2005.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa – Temas Transversais. Brasília: Ministério da Educação

 



[1] Professor da rede Estadual de Ensino, Licenciado Pleno em Letras/Português - UFPA, Letras/Espanhol-UNIUBE, Letras Inglês-UFOPA, Graduado em Filosofia pela FPA, Especialista em metodologia de Ensino de Filosofia e Sociologia-UNIASSELVI e Ensino de Língua Espanhola-UNICAM. E-mail: ze.maciel@bol.com.br.   

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