Por compreendermos que o universo ficcional é um bem cultural muito importante para compreensão da realidade, analisaremos o filme “Homens e Galinhas”, a partir de uma análise afetivo-comportamental. O filme Men & Chicken (Homens e Galinhas), de 2015, escrito e dirigido pelo dinamarquês Anders Thomas Jensen nos oferece várias camadas de discussão, uma vez que aborda questões filosófica (ética-comportamental), religiosa (redenção humana) e científica (bioética), mas, acima de tudo, é um exemplo magnifico sobre a existência humana em todas as suas possibilidades, ao revelar as relações fraternas extremadas.

Ao acompanharmos a trajetória das personagens centrais Gabriel (David Dencik) e Elias (Mads Mikkelsen), dois irmãos com personalidades bastante distintas (o primeiro, é professor universitário, preocupado com as questões pragmáticas da vida; o segundo, um homem comum e compulsivo sexual), notamos que, o que os identifica como irmãos são os lábios leporinos. O filme, nesse sentido, ao abordar a deficiência física em personalidades distintas, presta uma homenagem à vida e clama o respeito por todos, independente da sua aparência e origem. A trama inicia-se com a notícia de que eles tinham acabado de perder o pai.

No entanto, em um vídeo deixado pelo falecido pai, eles ficam sabendo que, na verdade, não eram seus filhos. Com esta revelação, juntos decidem procurar pelo pai biológico e descobrem que ele vive isolado com a família em uma ilha, chamada Ork. Chegando ao local, conhecem a verdadeira família, outros três meio- irmãos, Franz (Søren Dyrberg Malling), Gregor (Nikolaj Lie Kaas) e Josef (Nicolas Bro) que compartilham da mesma deformidade física, e os recebem da pior forma possível.

À medida que os irmãos tentam se conhecer e, desse modo, estabelecer uma relação fraternal, evidencia-se cinco personalidades que motivam comportamentos extremamente distintos entre si, unidos a um laço sanguíneo e a uma máxima familiar capaz de dessacralizar qualquer definição que temos do que é e como deve ser a constituição da instituição familiar. O comportamento agressivo e antissocial  de Franz, Gregor e Josef compromete seriamente o relacionamento inicial, devido a enorme dificuldade que eles apresentam em adaptar-se a determinadas situações de convivência com os que acabaram de chegar. Elias, por um lado,  ao se encontrar com os irmãos mais ”selvagens”, aos poucos vai imitando-os, mostrando-se disposto a ajustar-se àquele modo de vida; por outro, Gabriel, após ter pensado em desistir da família, com paciência e persistência, vai mostrando aos irmãos, os motivos que poderiam ter conduzido- os a ser como eles eram. Por fim, a catarse acontece quando eles deparam- se com a origem de cada um dos irmão.

De forma alegórica, a narrativa destaca, a partir da descoberta da origem de cada um dos irmãos, as fragilidades e as forças desse núcleo familiar; e assim, o laço fraterno ganha força, no entanto, sem transformar profundamente os comportamentos, sem condenar os costumes, os hábtos e as  atitudes e, sem estabelecer determinado principio moral e social. Mas, acima de tudo, considerando os temperamentos, os sentimentos,  as habilidades, os desejos e as aspirações de cada um dos irmãos.

Desse modo, o desfecho é surpreendente, as diferenças entre os irmãos, aos poucos, deixam de ser importantes, demostrando que o aprendizado do convívio pode ser duro e cruel, mas às vezes também belo e redentor, marcado pela tolerância, pela convivência, pela felicidade e pelo amor.