Um segundo Pedro

Até parece uma segunda chance, mas na realidade era continuação do mesmo modelo imperial implantado no processo da independência.

O Pedro era segundo, sucessor do Pedro I, mas os problemas eram os mesmos que ganhavam novas configurações e agravantes. Os mesmos que se agravavam desde os tempos coloniais, pois a população continuava sendo explorada para manter o luxo da corte.

Os regentes não haviam suportado as pressões, nem encontrado soluções para os problemas que permaneciam: descontentamento em relação aos pesados impostos; conflito de interesses ente a manutenção ou extinção da escravidão, mão de obra relativamente farta e barata, além de única disponível; grupos políticos disputavam o título de mais violento, corrupto e fraudulento. A economia, apesar do café em alta, não decolava.

Com o segundo Pedro abriu-se a porta dos portos para a chegada dos imigrantes (da Itália, Alemanha, Espanha...). Mesmo a experiência ferroviária, inicialmente não foi um grande avanço, pois não atendia aos interesses da população ou da economia, mas tão somente aos privilégios do imperador.

É verdade que sob o governo do segundo Pedro, implantaram-se alguns avanços: aprovação de leis abolicionistas (como a Euzébio de Queirós) ; aprovação de normas para a posse da terra – criando a lei da terra (atendendo aos imigrantes que, na prática não gozavam de situação muito diferente dos escravos); organização das normas para acolhimento dos imigrantes (sistemas de parcerias e de colonato), depois de pressões de seus países de origem. Os imigrantes foram os precursores das primeiras indústrias no velho Brasil imperial.

Todos os esforços, entretanto, não evitaram revoltas e rebeliões como a Praieira, em Pernambuco, contra a concentração de rendas; nem os desgastes da guerra do Paraguai. Ocasião em que Brasil, Argentina e Uruguai formaram uma coalizão (bancada pela Inglaterra) contra o desenvolvimento do Paraguai. O Paraguai queria autonomia ampliação de sua indústria; os aliados estavam submetidos à Inglaterra. Essa foi uma guerra da qual todos saíram perdendo. O Paraguai ficou economicamente arrasado, perdeu territórios e a maioria de seus homens tombou nos campos de batalha. O Brasil permaneceu dependente da Inglaterra com quem fez altos financiamentos para manter uma guerra sem glória. Na realidade somente a Inglaterra tirou vantagens desse conflito, visto que conteve o desenvolvimento do Paraguai e segurou as rédeas do Brasil.

O governo do segundo pedro, trouxe avanços, mas os problemas nacionais continuavam os mesmos, agora ampliados pelas consequências dos empréstimos para a guerra; pelos negros querendo a liberdade prometida antes da guerra; pelos imigrantes cobrando acesso às terras prometidas. A luta abolicionista que se ampliava, por gesto humanitário e por pressão inglesa. Não era difícil de imaginar que havia mudanças se aproximando.

Estava próxima a república. O segundo Pedro, não sendo uma segunda chance, tornou-se uma nova face da mesma sequencia de crises que resultaria, anos depois, num novo movimento em defesa da república implantada em 1889. todo esse movimento evidencia um Brasil que não nasceu para o povo, mas para as elites que sempre fizeram questão de manter o povo às margens do processo. Nem mesmo as rebeliões, revoltas, e revoluções populares conseguiram colocar o povo no centro da história deste que, por décadas, foi um país dos Pedros: o primeiro que o fez independente e o segundo Pedro que o entregou para uma república de espadas.

Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador.

Rolim de Moura - RO