Um Heroico Supremo Tribunal de Justiça
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 12/02/2026 | PolíticaHá pouco mais de 24 horas, os EUA lançaram mísseis contra a capital de Venezuela, Caracas, deixando um rastro de destruição. Na mesma ocasião, enviaram uma tropa de elite, em pequena escala, mas com grande capacidade técnica, a capturar o ditador Nicolás Maduro, extirpando-o para ser
julgado em Nova Iorque.
Ao se tratar de relações internacionais, as palavras dos governantes envolvidos devem ser tratadas com muita cautela. Donald Trump, como é de conhecimento geral, ambiciona e não esconde desejar as maiores reservas de petróleo do Ocidente para empresas americanas, como a Exxon Mobil, a ser futuramente autorizada à exploração, junto à Texaco e outras (Trump não deseja a si os recursos petroleiros). Mas toma em conta em conta uma série de fatores.
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia já teria sido extinta se Vladimir Putin tivesse, realmente, o desejo de vê-la acabada sem o extermínio da nacionalidade ucraniana, pela qual nutre um profundo ódio. Por isso, todas as vezes em que Trump e Zelensky chegam, juntos, a algo próximo de um rascunho final nos termos exigidos por Moscou, Putin muda suas condições, sabota e inviabiliza os potenciais tratados, que já seriam suficientes a fixar a paz. Para sinalizá-lo, lança mísseis em áreas povoadas das maiores cidades ucranianas, causando mortes e destruição. E Trump não é ingênuo: sabe que o ditador russo possui cerca de sete mil ogivas atômicas operacionais, prontas a atingir qualquer alvo da Europa e alguns da América em segundos. Por isso, também se sente peça descartada no xadrez eslavo, que ao fim se resolverá sozinho, desde que a Rússia nada lance sobre o território da OTAN (que, provavelmente, lutaria tão somente por meio do Canadá e dos membros europeus, já que Trump sempre está a sinalizar o abandono dos seus compromissos com a aliança).
Assim, precisa mostrar força em algum local do planeta, lá pondo suas botas e mandando um duplo recado, implícito ao ditador russo: "Este é o nosso hemisfério, e nossos são seus recursos petroleiros", bem como exalando ambiguidade em torno do que seria da Europa. Afinal, se a Doutrina Monroe ainda habita os sonhos de Trump, que considera a América Latina área de influência apenas dos EUA, os mais prejudicados seriam Volodymir Zelenski e o povo ucraniano, vitimados pela loucura geopolítica do Kremlin, contra o qual a América não teria argumentos, já que destilou veneno similar sobre a Venezuela (e, convenhamos, numa ameaça velada a todos os países Ibero-Americanos).
Formaria-se, desta maneira, um pacto tácito, similar ao Tratado de Tordesilhas, que, no século XV, dividiu o mundo ainda a ser descoberto entre Portugal e Espanha: nos dias de hoje, os EUA ficariam com a América, ao passo que a Rússia continuaria a guerrear contra a Ucrânia, para quem os
EUA continuariam a vender bilhões em armas, num genocídio que, se não são capazes de parar pela personalidade de Putin, ao menos com ele lucrariam, especialmente nas terras raras situadas nas províncias ucranianas que a Rússia, curiosamente, reivindica como suas.
Com a América e a Europa sob influência de cada uma das potências nucleares, e o petróleo venezuelano jorrando às favas em favor dos EUA, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela tomou uma decisão heroica. No meio da turbulência causada pelos ataques e consequente captura de Maduro, não houve uma invasão em grande escala sobre o território venezuelano, mas, sim, ataques de mísseis vindos de águas internacionais, deixando intacto o Estado bolivariano. Assim, o país ficou, por horas, teoricamente sem governante, vez que a Vice-Presidente, Delcy Rodriguez, se encontrava em visita oficial à Rússia.
Delcy retornou, e o Supremo Tribunal de Justiça determinou que ela é a sucessora legítima de Maduro. Se não o fizesse, o vácuo de poder seria disputado por grupos rivais, nos seios dos próprios bolivarianos do PSUV, entre si ou contra detratores da doutrina, provocando, aí sim, uma invasão militar em larga escala por parte dos EUA, que tentariam estabilizar o país para resguardar seus recursos, e sempre por meio de sangrentos combates contra as Forças Armadas Bolivarianas, apoiadas pelo grupo de mercenários russos Wagner, há anos no país e que não operam sob a bandeira russa, mas operacionalizam sua ideologia. A luta, com os EUA e opositores de Maduro um lado, bem como as Forças Armadas Bolivarianas e o grupo de mercenários Wagner, do outro, se tornaria um novo Vietnã, não com o potencial de converter-se numa guerra direta entre os EUA e a Rússia, mas num banho de sangue que nos lembraria os mais dramáticos focos da antiga Guerra Fria.