TRANSCENDÊNCIA NA FECUNDIDADE NA CULTURA BANTU

 

Filipe Miguel Mário Cahungo[1]

 

RESUMO

Este artigo tratar da concepção da fecundidade entre os povos bantu. Para o bantu a fecundidade, representa a ligação dos vivos com os seus antepassados, é através do nascimento de um novo ser que se prolonga e se dá a continuidade da árvore genealógica. Ela trás consigo também uma dimensão transcendental, a partir do nascimento os pais desse ser transcendem, ligando a terra ao céu, ou seja ligar os vivos dos mortos.

Palavras - Chave: fecundidade, nascimento e transcendência.

            Na concepção da vida e da pessoa do Bantu não existe o conceito de morte como tragédia, porque para os bantu viver é dar continuidade a vida que se prolongará de geração em geração, pois este desejo da continuidade da vida através da procriação os torna viver sem um fim «o bantu nada deseja com maior ardor que viver sem fim» (ALTUNA, 2014, p. 71). Mas apesar desta vontade de perpetuar-se, existe a morte, para resolver este dilema entre a morte e a vontade de continuidade o bantu «mantem-se vivo na e pela sua descendência» (ALTUNA, 2014, p. 71).

            Ora, para os bantu quando alguém gera vida, ou o novo ser à vida inicia-se uma nova modalidade da vida, que é a ligação entre o céu e a terra, entre o passado, antepassados, os presentes e com as futuras gerações porque:

Os filhos perpetuam a pessoa que, assim, sobrevive com os seus antepassados. Assim quem por opção ou por outros motivos não tenham procriado esta numa contínua imanência, junto, desta iminência está a esterilidade e a morte, portanto a não procriação é igual a morte, porque este nunca poderá transcender, entretanto a esterilidade equivale a aniquilação e a morte porque pela esterilidade, a morte e a aniquilação identificam-se (ALTUNA, 2014, p.71).

            É importante pensar que a transcendência enquanto extensão do terreno ou imanência, começa com a procriação, isto pode ser explicada a partir da seguinte fórmula: procriação é igual a transcendência, entretanto, os pais transcendem porque a dar continuidade dos seus antepassados, e por sua vez, eles revivem nos filhos. A procriação não se restringe ao gerar filhos, ela trás consigo uma dimensão que ultrapassa o próprio acto de gerar filhos; poderíamos talvez dizer que a procriação é acompanhada de uma metafísica, pois, «a procriação condiciona a finalidade da existência» (ALTUNA, op. cit, p. 71).

            Ao ser assim, uma união que não se consubstancie na procriação, é uma potência não actualizada, porque com a mesma o Muntu responde ao chamamento do qual é orientado. Para Mulago«o princípio primordial da vida do Muntu é a sua prolongação, sua própria extensão, a continuidade, a dilatação e perenidade da sua família, do se clã, da sua tribo, dos seus antepassados» (V. MULAGO, 1965, p. 67) apud (ALLUNA, 2014, p. 71).

BIBLIOGRÁFIA

 

ALTUNA, Raúl Ruiz de Asúa, Cultura Tradicional Bantu, 2ª ed., Paulinas, Prior Velho- Portugal: 2014.

ELUNGU, P. E. A, Tradição Africana e Racionalidade Moderna, Trad. Narrativa Traçada, Portugal: Mulemba/ Pedago, 2014.

 

[1]Licenciado em Filosofia, pela Universidade Católica de Angola (UCAN) - Instituto Superior Dom Bosco (ISDB). cahungogfilipeg@outlook.com